sexta-feira, 27 de outubro de 2023
Provérbio provado rimado - MCC
Provérbio provado rimado - MCXCIX
De repente fez-se luz
E apareceu um clarão
Essa gaja não me seduz
No que põe em cada intenção
Tem tamanha necessidade
De aparecer bem vista
Na sua mediocridade
É a invejar especialista
Para que se possa sentir
Consigo mesma satisfeita
Ninguém pode sobressair
Só ela é assim perfeita
É crente que há solidez
Na imagem que construiu
Mas só vejo estupidez
Porque nem tal assumiu
Esta luz que me ilumina
Nela a nudez destapou
A fulana nem imagina
Que nunca me enganou
Apesar de tanto aparecer
Como boazinha e beata
Não me consegue convencer
De que é pessoa cordata
Provérbio provado num verso branco - CXXX
A perna esquerda de mão dada
Assumindo a direita com mal disfarçada vaidade
Cada braço de imediato um abraço
Argumentos que poupam energia sem qualquer cansaço
Ou necessidade de aprovação
Muito lógico e lúcido enquanto coisa que sabe ser
Desde que não se torne efectivamente nessa coisa
Apenas uma única lâmpada não pode iluminar
A casa que cada um habita
Onde aprende como se dedica a ser
Porque ninguém é uma ilha
O que em si caminha para a solidão
Só ilha se chama por viver rodeada de mar
sábado, 21 de outubro de 2023
Provérbio provado rimado - MCXCVIII
Podem chamar-me maluca
Podem especular à vontade
E achar que levo peruca
Quando me desloco à cidade
Podem não parar de falar
Do que uso e do que ingiro
Até enfim alguém se cansar
De imaginar o que prefiro
É a fantasia tão vasta
Que roça até a adivinha
Se serei uma moça casta
Ou se não durmo sozinha
É triste que seja assim
Tão forte tal opinião
Por isso quem fala de mim
Ou tem inveja ou paixão
sexta-feira, 20 de outubro de 2023
Provérbio provado rimado - MCXCVII
Escrever o que não acontece
É a tarefa da poesia
E aos nossos olhos aparece
O que era e apenas fingia
Ter tal nível de abstração
É habitar um plano diferente
É ter os pés longe do chão
É ter sóis e estrelas na mente
É nunca dizer nunca a jurar
Nem fazer dos outros julgamentos
Saber que se pode conformar
Mas prescindir desses momentos
Quem acha que a vida de poeta
Não leva a estrada nenhuma
Desconhece que há uma meta
Que está coberta de caruma
A escrita é então vendaval
Que destapa o que se esconde
Que pode ser residual
Não saber como nem onde
Com um grão está de papo cheio
Já que um verso que começa
É um jogo deixado a meio
Que recuperou uma peça
Dizer que o poeta é louco
Não abona a seu favor
Mas tudo lhe sabe a pouco
Pois cria com todo o fervor
Há quem tenha a sensação
Que o poeta é ave rara
Ter antes dor no coração
Do que ter vergonha na cara
quinta-feira, 12 de outubro de 2023
Provérbio provado rimado - MCXCVI
Fora de órbita estás
Distante da realidade
E nem sequer és capaz
De ver qual é a verdade
Verdade só vês a tua
Tão cego ao que te rodeia
E quando andas na rua
Temes a mirada alheia
Por estares assim tresloucado
Tens mesmo de te tratar
Pode ser que medicado
Tu pares de delirar
quarta-feira, 11 de outubro de 2023
Provérbio provado silenciado
Provérbio provado rimado - MCXCV
És um velho do Restelo
Sempre que levantas cabelo
Passas a vida a agourar
O futuro que há-de chegar
Nada para ti tem mistério
Levas tudo muito a sério
Desconheces uma gargalhada
Com a boca escancarada
Se cismas ficas maníaco
Também és hipocondríaco
Cada dorzinha é martírio
Queixa-te menos Porfírio
Só não te dão importância
Pois esqueces que a ignorância
É a mãe de toda a doença
Que crês ser tua pertença
Provérbio provado rimado - MCXCIV
Quando se trata de abraços
Todo o momento é urgente
Enrola-te nos meus braços
Para fazermos diferente
Prolonguemos essa urgência
Num abraço demorado
Que pode ter consequência
E acabar num linguado
Quando o abraço termina
Desces mais para baixo
Sinto-me qual gelatina
E sossego logo o facho
sexta-feira, 29 de setembro de 2023
Provérbio provado pelos demais desinteressado
quinta-feira, 28 de setembro de 2023
Provérbio provado num verso branco - CXXIX
Ao menor gesto cúbico de vento
Deixa-se facilmente voar
Com o corpo desfeito qual pluma
A cabeça parte sempre primeiro
De tantos cenários anticoagulantes
Corre-lhe diluído o sangue nos vasos
Uma grande ajuda para quem quer flutuar
Quando a nortada sai vitoriosa
Ao sabor dos vagos dias inúteis
Sem se esquecer dos feriados
Acredita que também dançam as estrelas
Ao menor gesto cúbico de vento
Sabe a cor do sol quando lho permite a chuva
Nunca há bastantes chapéus para essas visitas
Nem almas suficientes em nenhuma imagem reflectida
Mulher de vento brilha como um um espelho
Provérbio provado bem arreado
A demografia não mente e a estatística é cirúrgica no demonstrar dos dados. Faltava-lhe somente um par de anos para atingir a terceira idade. Mas o problema é que a Julieta não queria largar a segunda nem por nada. Nem que a vaca tossisse a palha mais seca.
Considerava-se uma atraente mulher madura e a prova estava nos olhares masculinos que coleccionava quando andava na rua e que conseguia atrair sem grande esforço. Era mesmo caso para dizer que a Julieta ainda rompia meias solas.
Como qualquer fêmea que a formusura agraciou, sofria do síndroma da mulher bonita: só se aproximavam dela com segundas - e terceiras e quartas! - intenções. Dessa forma, sofria por causa do seu aspecto que já a tinha feito obter alguns favores, que acabavam o mais das vezes em dissabores quando ela demonstrava por A mais B, com toda a confiança que emprestava à voz, que o seu corpo não era moeda de troca. Habituara-se a desconfiar das aparentes boas intenções que só serviam para sobrelotar o inferno.
No entanto, toda esta questão se lhe revelava agridoce ao palato. Porque lá no fundo lhe assentava bem a atenção masculina. Porque a auto-estima nunca é de sobra, nem sequer para a Julieta, sempre tão segura de si. Era toda uma renda gasta em cosméticos, cabeleireiro e vestidos.
- A mulher que bem se arreia nunca é feia
Provérbio provado rimado - MCXCIII
Provérbio provado rimado - MCXCII
Eu tenho a alma enrugada
Não sei passá-la a ferro
Nas veias não há quase nada
Estou prestes a dar o berro
A vida por vezes parece
Estar muito perto do fim
A cada dia fenece
Separa-se mais de mim
De tal forma sou estrangeira
Quando o meu corpo não sinto
E a sensação derradeira
É que a mim mesma minto
Quando finalmente desperto
Estou feita em trinta mil cacos
Vejo um futuro incerto
Peço que me mordam macacos
Pois nem quero acreditar
Que continua a batalha
Com a vida em constante girar
Não é permitida uma falha
sábado, 23 de setembro de 2023
Provérbio provado quase finado
sexta-feira, 22 de setembro de 2023
Provérbio provado rimado - MCXCI
Não comeces a ser garganeiro
Ou desce o pau de marmeleiro
E um pano encharcado na tromba
Cai-te em cima como uma bomba
Cabeçada à Cais do Sodré
Para aprenderes como é
Vê se tens mais respeitinho
E ficas num canto quietinho
quinta-feira, 14 de setembro de 2023
Provérbio provado rimado - MCXC
Quem anda de antenas no ar
E os erros alheios procura
Não me pode impressionar
Porque não está à minha altura
Let it be é uma canção
Que transmite uma boa ideia
Transformou-se no meu pregão
E deixa-me a alma cheia
Pois ter pelos outros respeito
Tolerar os seus comportamentos
Por ninguém ser só perfeito
Evita maus julgamentos
sábado, 9 de setembro de 2023
Provérbio provado num verso branco - CXXVIII
Por mais que te apresses e saltes e rodopies
Apenas te é permitido um passo de cada vez
A tua perna é sempre maior que o passo
Respira fundo e conta quantas nuvens voam no céu
A única boa precipitação é a chuva
sexta-feira, 1 de setembro de 2023
Provérbio provado rimado - MCLXXXIX
És deveras enganador
Com a língua cheia de petas
Nem te sobe à cara um rubor
Ste pões com as tuas tretas
Na posse de todos os dentes
As mentiras igualam as febres
E se tu corres como mentes
Tens convite para ir às lebres
Provérbio provado rimado - MCLXXXVIII
A verdade possui factos
Muito fáceis de repetir
Já a mentira é dos actos
Mais fáceis de digerir
Face à difícil verdade
Há a mentira piedosa
Que possui a faculdade
De ser bem mais engenhosa
Quem à mentira se sujeite
Faz mossa e provoca mágoa
Que a verdade é como o azeite
Vem sempre à tona da água



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