Para saber se é o amor que bate à porta
É preciso deixar que o outro se insinue
Forçoso espantar o medo de errar
Ou então deixar apenas perguntas no ar
E se eu tivesse E se eu talvez E se?
As dúvidas são as de quem só molha o pé à beira-mar
No amor há que furar as ondas
Claro que se pode submergir
Claro que se pode sufocar
Não se afoga no mar o que lá não quer entrar
domingo, 12 de abril de 2020
Provérbio provado num verso branco - LXXVII
Provérbio provado rimado - DCCLXXXIX
Se algo quiseres tomar
Que não faça mal à saúde
Mantém-te afastado do bar
Toma só uma atitude
Se queres dar uma de macho
Mas não uma de machista
Com calma sossega o facho
Não finjas que és artista
Se os tens no sítio certo
Onde toda a gente enxerga
Não vale armares-te em esperto
Tem coragem e força na verga
Que não faça mal à saúde
Mantém-te afastado do bar
Toma só uma atitude
Se queres dar uma de macho
Mas não uma de machista
Com calma sossega o facho
Não finjas que és artista
Se os tens no sítio certo
Onde toda a gente enxerga
Não vale armares-te em esperto
Tem coragem e força na verga
Provérbio provado rimado - DCCLXXXVIII
Ai quando existe fartura
Vamos lá embora gastar
É pois um dia de loucura
Todos se esquecem de poupar
É então tamanha a alegria
Que o rico é sempre louco
Só que quando há muito num dia
Às vezes ele é véspera de pouco
Vamos lá embora gastar
É pois um dia de loucura
Todos se esquecem de poupar
É então tamanha a alegria
Que o rico é sempre louco
Só que quando há muito num dia
Às vezes ele é véspera de pouco
Provérbio provado rimado - DCCLXXXVII
À procura sei lá do quê
Cheio de sede e fastio
Que busca Vossa Mercê
Que anda ó tio ó tio?
O tio já se foi deitar
E agora só amanhã
Se há dívidas a cobrar
Acalme lá seu afã
O tio desperta cedinho
Toque-lhe à campainha
Com o dedo mindinho
E repita-lhe a ladainha
Ó tio do meu coração
Vossemecê me acuda
Escute este meu refrão
Preciso da sua ajuda
Ando à procura de algo
Mas o que era já me esqueci
Seja do povo ou fidalgo
Ó tio ajude-me aqui
Cheio de sede e fastio
Que busca Vossa Mercê
Que anda ó tio ó tio?
O tio já se foi deitar
E agora só amanhã
Se há dívidas a cobrar
Acalme lá seu afã
O tio desperta cedinho
Toque-lhe à campainha
Com o dedo mindinho
E repita-lhe a ladainha
Ó tio do meu coração
Vossemecê me acuda
Escute este meu refrão
Preciso da sua ajuda
Ando à procura de algo
Mas o que era já me esqueci
Seja do povo ou fidalgo
Ó tio ajude-me aqui
Provérbio provado psicanalisado
Henriqueta estava habituada a pensar-se até ao osso: raramente faltava à psicoterapia semanal que fazia há mais de metade da sua sofrida vida. A médica não era a vulgar psicóloga apagada e monocórdica, de vez em quando erguia a voz e dizia-lhe umas verdades custosas de escutar. Que, a título de exemplo, nunca cortara devidamente o cordão umbilical ou que havia ficado presa na fase fálica, o terceiro estádio freudiano.
Era um tema recorrente das consultas. Temia - e antecipadamente tremia - o dia em que perderia os pais: era o seu maior medo; imaginava que ver partir um filho pudesse ser uma dor muito maior, muito mais temível e terrível, mas, como já perdera o comboio da maternidade e os pais envelheciam a olhos vistos, esse medo ia engordando, o estupor.
A médica lá lhe ia explicando ser essa a lei da vida e que não valia a pena sofrer por antecipação, pois os pais não partiriam ao mesmo tempo e seria necessário ficar a cuidar da viúva ou viúvo que vivesse mais tempo, já que a Henriqueta não tinha irmãos e a restante família vivia longe. Mas a doente tinha uma propensão tal para o padecimento - e, diga-se, até um certo fascínio pela autocomiseração - que ficava naquela ladainha enquanto durava a hora da consulta. A doutora bem queria abordar outros temas mais prementes, como por exemplo a sua sexualidade fechada a sete chaves, tema que teimava em evitar obstinadamente, mas a Henriqueta virava o ponteiro para a morte dos progenitores e dali não arredava pé.
Até que um dia em que estava com menos paciência, e já fartinha do mesmo assunto que não a deixava progredir com vista a presumíveis melhoras, a psicóloga respirou fundo e disse-lhe: Olha, Henriqueta (sim, porque tantos anos de consultas já tinham inaugurado o tratamento na segunda pessoa), vamos ficar por aqui hoje, pois não estamos a chegar a lado nenhum! E sabes o que te digo? É o teu trabalho para casa hoje, vais pensar bem nisto que te vou dizer:
- Goza a vida que não a levarás contigo
Era um tema recorrente das consultas. Temia - e antecipadamente tremia - o dia em que perderia os pais: era o seu maior medo; imaginava que ver partir um filho pudesse ser uma dor muito maior, muito mais temível e terrível, mas, como já perdera o comboio da maternidade e os pais envelheciam a olhos vistos, esse medo ia engordando, o estupor.
A médica lá lhe ia explicando ser essa a lei da vida e que não valia a pena sofrer por antecipação, pois os pais não partiriam ao mesmo tempo e seria necessário ficar a cuidar da viúva ou viúvo que vivesse mais tempo, já que a Henriqueta não tinha irmãos e a restante família vivia longe. Mas a doente tinha uma propensão tal para o padecimento - e, diga-se, até um certo fascínio pela autocomiseração - que ficava naquela ladainha enquanto durava a hora da consulta. A doutora bem queria abordar outros temas mais prementes, como por exemplo a sua sexualidade fechada a sete chaves, tema que teimava em evitar obstinadamente, mas a Henriqueta virava o ponteiro para a morte dos progenitores e dali não arredava pé.
Até que um dia em que estava com menos paciência, e já fartinha do mesmo assunto que não a deixava progredir com vista a presumíveis melhoras, a psicóloga respirou fundo e disse-lhe: Olha, Henriqueta (sim, porque tantos anos de consultas já tinham inaugurado o tratamento na segunda pessoa), vamos ficar por aqui hoje, pois não estamos a chegar a lado nenhum! E sabes o que te digo? É o teu trabalho para casa hoje, vais pensar bem nisto que te vou dizer:
- Goza a vida que não a levarás contigo
Provérbio provado rimado - DCCLXXXVI
De candeias às avessas
Estão patrão e empregado
Um porque perdeu as peças
Outro quer tudo arranjado
Ó Vítor vai sem demora
Ligar ao fornecedor
Diz o patrão que já cora
Furioso e com calor
Não fique zangado chefe
Vou tratar da situação
Receoso que um tabefe
Lhe atire com a mão
Quando chega a noitinha
Já as pazes estão sanadas
Vai cada um à vidinha
Com as candeias apagadas
Estão patrão e empregado
Um porque perdeu as peças
Outro quer tudo arranjado
Ó Vítor vai sem demora
Ligar ao fornecedor
Diz o patrão que já cora
Furioso e com calor
Não fique zangado chefe
Vou tratar da situação
Receoso que um tabefe
Lhe atire com a mão
Quando chega a noitinha
Já as pazes estão sanadas
Vai cada um à vidinha
Com as candeias apagadas
sábado, 11 de abril de 2020
Provérbio provado rimado - DCCLXXXV
O Jorge é um arquitecto
Que parece um tipo correcto
Mas é tímido no entanto
O que até tem o seu encanto
Receio ser muito ousada
Que me ache debochada
E me ponha logo de lado
Sem ficar nunca apaixonado
Talvez faça marcha atrás
Para ver se isso o compraz
Pois é que a amar e a rezar
A ninguém se pode obrigar
Que parece um tipo correcto
Mas é tímido no entanto
O que até tem o seu encanto
Receio ser muito ousada
Que me ache debochada
E me ponha logo de lado
Sem ficar nunca apaixonado
Talvez faça marcha atrás
Para ver se isso o compraz
Pois é que a amar e a rezar
A ninguém se pode obrigar
terça-feira, 7 de abril de 2020
Provérbio provado rimado - DCCLXXXIV
Se para a América queres emigrar
Não é boa ideia ires a nadar
Para não perderes a orientação
Leva mas é a bússola na mão
Não vás fazer como o Colombo
E na terra errada dares um tombo
Então perceberes que ao engano vieste
Acabares por dizer afinal estou a leste
(Ilustração: Rui Louraço
www.instagram.com/condecascais)
Não é boa ideia ires a nadar
Para não perderes a orientação
Leva mas é a bússola na mão
Não vás fazer como o Colombo
E na terra errada dares um tombo
Então perceberes que ao engano vieste
Acabares por dizer afinal estou a leste
(Ilustração: Rui Louraço
www.instagram.com/condecascais)
Provérbio provado rimado - DCCLXXXIII
O Vasco é tão distraído
Que quando o dia começa
Se esquece de o pão ter comido
Tem de alho chocho a cabeça
Calça as meias trocadas
As duas do mesmo pé
E as calças enxovalhadas
Só repara no café
O Vasco tem mesmo ar
De cientista maluco
Um Einstein a vaguear
Nas ruas como bazaruco
Que quando o dia começa
Se esquece de o pão ter comido
Tem de alho chocho a cabeça
Calça as meias trocadas
As duas do mesmo pé
E as calças enxovalhadas
Só repara no café
O Vasco tem mesmo ar
De cientista maluco
Um Einstein a vaguear
Nas ruas como bazaruco
Provérbio provado rimado - DCCLXXXII
Olá Miguel que vendes na feira
Mas não tens eira nem beira
Não tens abelhas e vendes mel
E assim lá vais ganhando papel
Tens um ar muito aporcalhado
Nem na feira apareces lavado
É verdade que não tens abelhas
Mas tens cera nessas orelhas
Quando não tens mais o que fazer
Sentas-te e ouves a barba a crescer
A barba é rija e dá comichão
Ai Miguel tens ar de javardão
Mas não tens eira nem beira
Não tens abelhas e vendes mel
E assim lá vais ganhando papel
Tens um ar muito aporcalhado
Nem na feira apareces lavado
É verdade que não tens abelhas
Mas tens cera nessas orelhas
Quando não tens mais o que fazer
Sentas-te e ouves a barba a crescer
A barba é rija e dá comichão
Ai Miguel tens ar de javardão
Provérbio provado rimado - DCCLXXXI
Quando o Covid passar
Estamos todos na bancarrota
Mas ao menos vamos passear
Eu e tu no nosso Toyota
Com as hormonas a saltitar
Vamos dar uma cambalhota
Numa praia à beira mar
Numa rede ou numa palhota
Hás-de querer-me e desejar
Que seja sempre a tua garota
E eu prometo não protestar
Não serás motivo de chacota
Estamos todos na bancarrota
Mas ao menos vamos passear
Eu e tu no nosso Toyota
Com as hormonas a saltitar
Vamos dar uma cambalhota
Numa praia à beira mar
Numa rede ou numa palhota
Hás-de querer-me e desejar
Que seja sempre a tua garota
E eu prometo não protestar
Não serás motivo de chacota
Provérbio provado num verso branco - LXXVI
Eis como fazer crescer a ansiedade:
Vigiá-la constantemente como se a ameaça de um soluço
Trazê-la debaixo de olho numa atitude persecutória
Farejá-la com suspeitas de iminências escatológicas
Medir-lhe a temperatura e os batimentos cardíacos de minuto a minuto
Assim a ansiedade se agigantará numa sombra maior que a sua condição
Vigiá-la constantemente como se a ameaça de um soluço
Trazê-la debaixo de olho numa atitude persecutória
Farejá-la com suspeitas de iminências escatológicas
Medir-lhe a temperatura e os batimentos cardíacos de minuto a minuto
Assim a ansiedade se agigantará numa sombra maior que a sua condição
Provérbio provado rimado - DCCLXXX
O que é barato sai caro
Mas não se rala o avaro
Que tem os bolsos fechados
E os tostões tão contados
O que é bom custa dinheiro
Que o diga o costureiro
Quando quer fazer bom fato
Não o vende ao desbarato
Numa vez o avarento
Ia ter um casamento
Quis comprar fato completo
Com orçamento discreto
Já se está mesmo a ver
O que lhe foi suceder
O costureiro dessa vez
Disse-lhe vai é ao chinês
Mas não se rala o avaro
Que tem os bolsos fechados
E os tostões tão contados
O que é bom custa dinheiro
Que o diga o costureiro
Quando quer fazer bom fato
Não o vende ao desbarato
Numa vez o avarento
Ia ter um casamento
Quis comprar fato completo
Com orçamento discreto
Já se está mesmo a ver
O que lhe foi suceder
O costureiro dessa vez
Disse-lhe vai é ao chinês
Provérbio provado pronto a ser bloqueado
É curiosa a persistência de certos fulanos que teimam em falar sozinhos no espaço virtual. Fazem lembrar os pescadores que desesperam dias seguidos à procura de peixe: lançam saudações a fio sem resposta à vista. Nas minhas águas também pescam desses marinheiros de primeira água que ressurgem a espaços com as marés. Acontece nunca dizerem nada de interessante ou original mas, como também não molestam muito, os pobres, lá os vou deixando à tona. Até que vem o dia em que estou mais irritada ou sem paciência e vai tudo a eito!
- Anzol sem isca peixe não belisca
- Anzol sem isca peixe não belisca
segunda-feira, 6 de abril de 2020
Provérbio provado rimado - DCCLXXIX
Quando os pés galgam estradas
Que os teus olhos já sabem erradas
E as mãos tecem os cortinados
Para encobrir os erros passados
Alguma coisa estará a falhar
Se continuas tanto a errar
Parece que estás a retroceder
E te recusas assim a aprender
O mesmo erro mais que uma vez
É sinal de pouca lucidez
Ouve bem o que te recomendo
É ir vivendo e aprendendo
Que os teus olhos já sabem erradas
E as mãos tecem os cortinados
Para encobrir os erros passados
Alguma coisa estará a falhar
Se continuas tanto a errar
Parece que estás a retroceder
E te recusas assim a aprender
O mesmo erro mais que uma vez
É sinal de pouca lucidez
Ouve bem o que te recomendo
É ir vivendo e aprendendo
sábado, 4 de abril de 2020
Provérbio provado rimado - DCCLXXVIII
O bacalhau é demolhado
Em tanta água diferente
Para não ficar tão salgado
Ser mais saboroso ao dente
As águas deitam-se fora
Não servem mesmo para nada
É processo que demora
Até à refeição cozinhada
Por isso é que se diz
Quando algo fica sem efeito
Com essas águas condiz
É um trabalho desfeito
Em tanta água diferente
Para não ficar tão salgado
Ser mais saboroso ao dente
As águas deitam-se fora
Não servem mesmo para nada
É processo que demora
Até à refeição cozinhada
Por isso é que se diz
Quando algo fica sem efeito
Com essas águas condiz
É um trabalho desfeito
Provérbio provado rimado - DCCLXXVII
Quem muito sofre dos calos
Não se deve meter em apertos
Que evite quem possa pisá-los
E que use sapatos abertos
Não se deve meter em apertos
Que evite quem possa pisá-los
E que use sapatos abertos
Provérbio provado rimado - DCCLXXVI
Vão chover cães e gatos
É dito na língua inglesa
Se as nuvens abrem regatos
Sem dique e sem represa
Mas aqui no burgo nosso
Cá temos outros ditotes
Dizemos o chuvisco grosso
E que vai chover a potes
É dito na língua inglesa
Se as nuvens abrem regatos
Sem dique e sem represa
Mas aqui no burgo nosso
Cá temos outros ditotes
Dizemos o chuvisco grosso
E que vai chover a potes
Provérbio provado rimado - DCCLXXV
Este provérbio é discreto
Não tem por onde ser provado
Não diz nada de concreto
Não nos leva a nenhum lado
É só quadra não é soneto
Vê que neste mundo cansado
Não há sequer bem completo
Nem nenhum mal acabado
Não tem por onde ser provado
Não diz nada de concreto
Não nos leva a nenhum lado
É só quadra não é soneto
Vê que neste mundo cansado
Não há sequer bem completo
Nem nenhum mal acabado
Provérbio provado rimado - DCCLXXIV
Não há nem necessidade
De um pucarinho encher
E nem é preciso metade
De água para ele ferver
Eu sou o tal recipiente
Que ferve assim num instante
Dos zero aos cem de repente
Queimo num fogo crepitante
De um pucarinho encher
E nem é preciso metade
De água para ele ferver
Eu sou o tal recipiente
Que ferve assim num instante
Dos zero aos cem de repente
Queimo num fogo crepitante
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