Provérbios Provados noutras casas:

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Provérbio hipócrita

Logo pela manhã, assim é o indicador emprestado ao relógio de ponto, logo é um esguicho, para desinfectar. Assim se vagueia o olhar pela mesa de trabalho, aquela caneta mais dois minutos a oeste nada de novo, e mais um esguicho, para desinfectar. E assim, logo pela manhã, o corpo todo num bailado de 360 graus, para desinfectar.
Percorrendo dia afora, mãos lavadas vezes sem conta até ao cotovelo, semblante constricto, cabelo e pensamento bem esticados, lisos. O corpo todo pendurado num cabide, num bailado de 360 graus, sem profundidade, só para desinfectar.

- Com a verdade me enganas

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Provérbio citado (ANDERSEN)

É absolutamente certo!
Det er ganske vist!(1852)

- É uma história terrível! – disse uma galinha, e tudo isso num ponto da cidade onde a história nunca se tinha passado. – É uma história terrível de capoeira! Não ouso dormir sozinha esta noite! É bom que sejamos muitas, todas, juntas no poleiro! – E então contou, e de tal modo, que as penas se levantaram nas outras galinhas e o galo deixou cair a crista. É absolutamente certo!
Mas comecemos pelo princípio, e isto deu-se noutro ponto da cidade, numa capoeira. O Sol desceu e as galinhas subiram para o poleiro. Uma delas tinha penas brancas e pernas curtas, punha os seus ovos regulamentados e era, como galinha, respeitável de todos os modos. Quando veio para o poleiro, afagou-se com o bico e assim caiu-lhe uma peninha.
- Lá vai! – disse ela. – Quanto mais me afago, tanto mais bonita fico! – E isso foi dito em tom jovial, pois era ela a brincalhona de entre as galinhas, se bem, como se disse, muito respeitável. E depois deixou-se dormir.
À volta estava tudo escuro, galinha ao lado de galinha, mas aquela que estava mais perto dela não dormia. Ouviu e fingiu que não ouviu, como se deve fazer neste mundo para se viver em boa tranquilidade, mas à outra vizinha teve de dizê-lo:
- Ouviste o que se disse? Não nomeio ninguém, mas há uma galinha que quer arrancar as penas para parecer bem! Se eu fosse o galo, desprezava-a!
E directamente por cima das galinhas estavam a coruja com o corujo e os corujinhos. Têm ouvidos apurados na família. Ouviram todas as palavras que a vizinha galinha dise. Rebolaram os olhos e a coruja-mãe bateu as asas:
- Não estejam à escuta! Mas ouviram com certeza o que se disse! Ouvi-o com as minhas próprias orelhas e muito se tem de ouvir antes de estas caírem! Há uma das galinhas que, em tal grau, esqueceu como se deve comportar uma galinha, que está a arrancar todas as penas e permite que o galo a veja assim!
- Prenez garde aux enfants! – disse o corujo-pai. – Não é coisa para crianças ouvirem.
- Quero, contudo, contá-lo à coruja vizinha, em frente. É uma coruja tão estimada na vizinhança! – E lá voou a mãe.
- Uh-uh! Uh-hu! – gritaram ambos directamente para baixo, para as pombas no pombal vizinho. – Ouviram? Ouviram? Uh-uh! Há uma galinha que arrancou todas as penas por causa do galo! Está a morrer de frio, se não morreu já, uh-uh!
- Onde?, onde? – arrulharam as pombas.
- No pátio do vizinho! Vi-a com os meus próprios olhos! É quase uma história imprópria para contar! Mas é absolutamente certa!
- Cremos, cremos em cada palavra! – disseram as pombas e arrulharam para baixo, para a capoeira: - Há uma galinha, sim, alguns dizem mesmo que há duas, que arrancaram todas as penas para não parecerem como as outras, e chamarem assim a atenção do galo. É um jogo arriscado, pode apanhar-se uma constipação e morrer-se com febre, e mortas estão ambas!
- Acordem! Acordem! – cantou o galo e voou para a trave, ainda com os olhos ensonados, mas cantou, mesmo assim: - Há três galinhas que morreram de amores por um galo que lhes correspondeu! Arrancaram todas as penas! É uma história desagradável, mas não quero guardá-la, façam-na correr!
- Façam-na correr! – chiaram os morcegos, as galinhas cacarejaram e os galos cantaram: - Façam-na correr! – E assim a história correu de capoeira para capoeira e, por fim, voltou ao lugar donde tinha partido.
- Há cinco galinhas – contava-se – que arrancaram todas as penas para mostrar qual delas tinha emagrecido mais, por penas de amor pelo galo, e depois bicaram-se umas às outras até sangrarem e caírem mortas, para vergonha e desonra da família, e grande prejuízo do dono!
E a galinha que tinha perdido a peninha solta não reconheceu, naturalmente, a sua própria história. Como era uma galinha respeitável, disse:
- Desprezo essas galinhas! Mas há muitas desse género! Dessas coisas não se deve guardar segredo e eu vou fazer com que a história venha no jornal e corra todo o país. É o que estas galinhas merecem e a sua família também!
E veio no jornal. Foi publicado e é certo, absolutamente certo, que uma peninha pode bem transformar-se em cinco galinhas.


In Os contos – Hans Christian Andersen
(traduzido directamente do dinamarquês por Niels Fischer)

sábado, 23 de julho de 2011

(Vários) provérbios provados numa (longa) conversa

Uma tasca com nome de estádio. Múltiplas pequenas mesas amontoadas ao calhas. Três jovens, nos seus vintes, mais as minis e as conversas cruzadas. E um brinde inicia o jogo habitual do “se perdes, bebes”, que é só um pretexto para a conversa fluir solta:

RICARDO - Então?, vamos escolher o tema…
PATRÍCIA - Gostei na semana passada, o dos filmes. Hoje não tenho ideias.
MANUEL - Sim, o dos filmes, muito interessante. (maroto) Quando tu não estás cá, jogamos com outro tipo de filmes. (piscadela de olho para Ricardo)
R. - Ó Patrícia, não lhe ligues. Ele só te quer chatear. Então?, o tema de hoje pode ser, deixa ver: provérbios.
M. - Provérbios? Isso é um bocado seca.
R. – Não é nada! É tão fácil, há tantos!
M. – Se é assim tão fácil, não se bebe nada. (ri-se muito)
P. – Eu gosto da ideia. E temos dois terços dos votos, portanto a maioria é soberana; isto já conta como provérbio?
R. – Podia contar. (sorri benevolente para Patrícia) Mas não, começamos agora. Vamos lá, no sentido dos ponteiros do relógio. Patrícia, és tu. Ó Sr. Marques, traga mais três, estamos secos!
P. – Deixa-me pensar… O que é teu à tua mão há-de chegar.
M. – Pássaro enjaulado não voa.
R. – Ó Manel, qual é a relação?
M. – Tu não disseste que há tantos?, cada um vê nos provérbios a relação que quer. E toma lá dois seguidos. Ah-ah!
R. – Se queres jogar à toa, Manel, por mim tudo bem. A paciência é uma virtude.
M. – Essa é boa! O que tem o cu a ver c’as calças? E toma lá três, bebe!
R. – Adiante. (bebe) Patrícia, és tu.
P. – Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje.
M. – Quem? Essa não é para mim, de certeza. (piscadela de olho para Ricardo) Sou eu a jogar? Quem diz quem? Ah-ah! O seguro morreu de velho.
P. – Nunca percebi essa expressão…
R. – Nem eu. (sorri benevolente para Patrícia) O que não se faz de uma vez, faz-se em duas ou três.
P. – Fraquinho, fraquinho. Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
M. – Epá, temos guerra aberta. (esfregando as mãos) Vénus anda no ar?
R. – E também o Baco; não é, ó Manel? Isso nem foi provérbio, atina lá no jogo.
M. – O que é bonito é para se ver. Ah-ah!
R. – O segredo é a alma do negócio.
P. – Onde há fumo, há fogo.
M. – Olho por olho, dente por dente.
R. – Isso é bíblico. O Cristo não concordava com isto, e vai daí a ligação de se oferecer a outra face.
M. – Lá vens tu, feito professor, estou-me a cagar para a Bíblia. (Manuel interroga-se agora se há-de manter a maiúscula)
P. – Manel, bem sabes que o Ricardo não perde uma oportunidade de ensinar os pobres de espírito. (irónica)
R. – O saber não ocupa lugar. Bebam, os dois! Com esta arrumei-vos.
P. – O sol quando nasce é para todos. (bebe)
M. – O sol, se houvesse onde o esconder, já o teriam roubado. Ah-ah! (bebe)
R. – Nem sei se é provérbio, mas que bonito, pá! Os amigos são prás ocasiões.
P. – Esse nem devia valer, Ricardo, de lógico que é… Deixa-me pensar numa coisa espirituosa assim da mesma colheita (irónica): O sal é o rei dos temperos.
M. – Vocês, parem com a parvoíce; Sr. Marques, são só mais três! Sou eu a pagar esta rodada? Sou eu a jogar? Quem diz quem? Os espertos também se enganam. Ah-ah!
R. – Os olhos comem primeiro do que a boca.
P. – Os olhos são o espelho da alma.
M. – Olha que merda mais a estas frases recicladas, parece que estamos todos a mandar bocas uns aos outros. Quando termina o jogo? Cá p’ra mim, quem ri por último, ri melhor. (e bebe)



P.S. – Post livre de preconceitos de enumeração, e quiçá arriscando prémio a quem contar os provérbios deste diálogo.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Provérbio provado viciado

As notícias publicadas nos jornais cantavam parangonas em louvor ao euro: estava-se no tempo da transição do escudo e fazia-se ainda a multiplicação por duzentos vírgula outros três números. Que crise, que lá!, o euro era moeda boa, viçosa e fresquinha, que apetecia gastar.

Ele transportava-se pela profissão com perfeição, o euro era ouro na sua mão, misto de Midas e Adónis com cauda de pavão. Vaidoso, vaidoso. Todo o ser se projectava para fora, como um filme dedilhado a pulso pelo realizador. Nos momentos em que não tinha de estar a fingir, podia então recolher-se aos seus corredores envoltos em trevas.
Até que um dia, o consumo esporádico e tão-só recreativo se transformou em sujeição ao vício. Isto foi antes das consultas, muito antes da suspeita de que um dia precisaria dos médicos e medicamentos; isto foi na época em que se supunha no controlo das vontades. E em que ganhava bom dinheiro, que lhe sustentava tanto o vício como as aparências.
Vivia sozinho em casa própria e, quando estava normal, dava jantares para os amigos, onde fazia as vezes de esforçado cozinheiro e anfitrião afável. Dera-se porém ao cuidado de arrendar uma casa no bairro mais esconso da cidade, na viela mais pútrida desse bairro, com os passeios carregados de traficantes e viciados. Aí, nessa casa, despia a máscara e dava-se à evasão total. Nem sequer se pode dar o nome de casa a um quarto minúsculo, com a sanita e o lavatório a um canto e um colchão piolhoso no outro.
Nunca ninguém soube desse refúgio durante mais de dez anos; alguns amigos dos jantares chegaram a visitá-lo na clínica, outros não foram a tempo.

- O que o dinheiro dá o dinheiro tira

sábado, 14 de maio de 2011

Provérbio citado (RUSHDIE)

«(...) Quanto à culpabilidade, recuso-me absolutamente a ter dela uma visão mais larga; todos estamos próximos do-que-se-passou, é impossível ter uma visão em perspectiva, talvez mais tarde os analistas descubram os porquês e os comos, invoquem os fundamentos económicos e os desenvolvimentos políticos, mas agora estamos muito próximos do ecrã e a imagem decompõe-se em pequenos grãos, a única possibilidade são os juízos subjectivos. (...)
A política, meninos: é um negócio imundo, na melhor das hipóteses. Devíamos tê-la evitado, nunca eu devia ter sonhado com ela, estou a chegar à conclusão de que a vida privada, a mera vida individual dos homens, é preferível a esta actividade macrocósmica inchada de vanglória. Mas agora já é tarde. Nada a fazer. O que não pode curar-se tem de se aguentar.
(...)»

In Os filhos da meia-noite - Salman Rushdie

sexta-feira, 18 de março de 2011

Provérbio da Graça

O meu bairro é lindo, tem miradouros e casas coloridas nas ruas em subida. Dum lado vê-se o rio, do outro as outras colinas da cidade e também o rio: o rio está por toda a parte.
O meu bairro é lindo, não fossem as pessoas que o estragam. Quando saio de manhã mil olhos, velhas que aparecem por encanto com urgências de lixo à porta – bom dia, menina! – a ver se saio sozinha, como vou vestida – bom trabalho, menina!
Quando saio de manhã mil olhos, sinto-os nas costas quando viro à esquerda para a paragem do autocarro. Isto aqui uma aldeia, quem dera ser mosca curiosa em voo debicado: ouvir o que dizem as velhas com urgências de lixo à porta quando viro à esquerda por encanto. Em críticas: que espalhafatosa!, ou talvez lamentando-me: uma rapariga tão jovem e a viver sozinha!
Quando volto ao final da tarde, ainda mais é o meu bairro lindo - qualquer miradouro e o rio por toda a parte. No meu bairro pergunto sempre pela Graça, onde está, como passa:
- A Graça está na praça.
A Graça é a minha amiga do bairro, conquistou-me à primeira assim que transpôs minha soleira: sorriso de peixeira, riso fácil e malandrinho; a Graça reserva-me um peixinho, e leva-me legumes, tudo muito fresquinho. É coisa de mais meia menos meia hora, aí aparece de mão na anca para dar um dedinho de conversa:
- Ai, minha querida!, que me sobrou alho francês, faz uma sopinha e o mais o darei à vizinha.
Generosa, a Graça, e sempre tão engraçada nos ditotes:
- Que lá te interessa o que zurra a voz alheia, filhinha... quando o sono chega, a almofada esquece a adivinha.


- Vozes de burro não chegam ao céu

Provérbio com graça

A pasta resvalando ombro abaixo com juras de hérnias futuras, onde o bilhete?, cá está o maldito!, e luz verde, abre-te portinhola que estou com pressa. Finalmente a subida à boca do Metropolitano donde parte a aorta da cidade a bombear passageiros para as artérias principais. O ar que se respira não é puro. Inspiro, expiro, eis a rua que procuro; mas pouco oxigeno e então pouca assim a inspiração. Ainda assim ensaio respostas: principal qualidade: a pró-actividade!; ah, e o defeito?, muito perfeccionista, que soa a qualidade. Suo. Chego à porta transpirado e prometo-me ficar calado.

- Mais vale cair em graça do que ser engraçado

Provérbios provados espaçados - III

É sabido que este blog hiberna, mas aproxima-se o degelo.
Viva a Primavera!

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Provérbio provado cansado

De Samuel podia dizer-se que terminara a Quarta Classe com distinção, se estivéssemos a falar doutros tempos. Saltemos, porém, umas décadas adiante e digamos que se encontra no Ensino Básico 2, que também já teve o nome de Ciclo Preparatório.
Contrariamente ao que pode deixar supor o título e a introdução, o Samuel é um menino enérgico, moderno, que tecla como quem escreve, uma espécie de cromo adepto da ginástica física e mental. Traja-se na moda e é popular - os óculos míopes não dão azo a alcunhas: os outros rapazes tomam-no por desportista bom aluno e não por o bom aluno desportista.
Contrariamente ao que pode deixar supor o parágrafo anterior, não vamos contar o primeiro amor do Samuel pois ainda não se tomou de amores verdadeiramente, se estivéssemos a usar expressões doutros tempos.
Adaptou-se bem à passagem da sua querida, já tão no passado, velha professora Eugénia – reformada mesmo no fim do seu primário, mortificada pelas reduções do salário provocadas pela Crise -, para passar a ter vários professores divididos por temas.
Corre-lhe então ao Samuel a vida particularmente bem no meio estudantil em que se movimenta, não fosse uma coisa que o atormenta: detesta trabalhos de grupo. Claro que Samuel nunca o diz, só às vezes à mãe, única pessoa passível de ouvir coisas destas sem o julgar por egoísta, demasiado ambicioso ou pouco generoso com os colegas, as mães compreendem estas coisas e os colegas não.
Quando surge um trabalho de grupo logo se impacienta, normalmente tem azar nos cooperantes que lhe calham em sorte: isto de ser popular tem as suas desvantagens. Combinam em casa de alguém, cortam frases dos motores de busca à toa enquanto enviam sms à toa, e deixam o trabalho todo para o bom do Samuel. Porque o Samuel nessa tarde prescinde dos treinos do futebol porque se recusa a apresentar um trabalho à toa. Não assina Samuel Silvestre à toa, mesmo que os outros nomes só estejam para ali para enfeitar. É sempre assim nos trabalhos de grupo, fica depois só e não aproveita quase nada da sessão de trabalho em comum. Então dedica-se, pesquisa referências na internet, mas principalmente em enciclopédias, vai à biblioteca se preciso; em suma, cansa-se.
No dia da entrega dos trabalhos, os colegas olham meio apalermados para o resultado e tomam os louros, reconhecidos:

- Cansa quem dá, não cansa quem toma

Provérbio citado (ASSIS)

«
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contracção cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…
E caem! – Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar… (…)»

In Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis


P.S. – Post livre de preconceitos de citação, e quiçá acrescentando o início do capítulo seguinte – para provar que nem tudo é provérbio:
«
Talvez suprima o capítulo anterior; entre outros motivos, há aí nas últimas linhas, uma frase muito parecida com despropósito, e eu não quero dar pasto à crítica do futuro.
(…)»

sábado, 11 de setembro de 2010

Provérbio faminto (2 em 1)

A Maria da Aparecida vivia obcecada pela comida. Acordava a pensar no pequeno-almoço, e só depois de com uma lauta ceia saciada é que se achava deitada.
Além das diabruras do filho adolescente com nome bíblico, todas as suas conversas versavam sobre o verbo comer, usado sempre como substantivo. E se gostava de conversar a Aparecida! – assunto de boca era tudo na vida.
Repetia incessantemente que era necessário comer para poder trabalhar bem, para descansar bem, para pensar bem, acompanhando as frases com bolachas que devorava a cada pausa que encontrava. E continuando de vezada a maçada, descrevia ao ínfimo pormenor o jantar do dia anterior: como a cebola tinha descascado para o refogado, o frango desfiado ou na maionese havia pecado. Sim, porque a Aparecida queria emagrecer mas não conseguia e rejubilava secretamente quando reparava nalguma das colegas a engordar, elogiando-as por estarem com “um ar mais saudável”.
Como almoçava sempre no local de trabalho, na pequena sala equipada de micro-ondas, aborrecia toda a gente com o tema costumeiro: as saudades que tinha dos petiscos da sua ilha que às vezes os familiares lhe enviavam; ai, que boa que estava a comidinha!, e como era uma dádiva de Deus. A Maria da Aparecida era testemunha de Jeová por isso rejeitava a Santíssima Trindade e nem lhe falassem em santos. Caso contrário, seria um santo do Comer o da sua devoção e até lhe dedicaria um altar pagão. E se acaso gostasse de ler algo mais além dos seus folhetos evangélicos para a digestão, o título Comer, orar, amar era decerto da sua predilecção.
Pela tarde a Aparecida aparecia à hora do lanche para cobiçar o que estavam comendo as colegas, pedia “dentadinhas” sem qualquer vergonha, e fazia-se convidada para as acompanhar ao café onde apontava com gula as vitrinas para que lhe pagassem um bolinho.
E ao fim do dia, à saída do trabalho, encaminhava-se directamente ao supermercado, não sem antes mencionar o que iria comprar para o jantar, toda bem-disposta.

- Cada qual come do que gosta


P.S. – Post livre de preconceitos de decisão, e quiçá adicionando outro provérbio que muito me “deliciou”:
- Barriga cheia toda a noite rabeia, barriga vazia não dá alegria

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Provérbio em saldo

São os saldos a findar e as meninas a aproveitar, as lojas a esvaziar para dar lugar à estação que vai chegar.
E eu sempre pouco a lucrar, que não sou de modas nos dois modos da expressão: tanto no dizer o que me vai na real gana sem tento na língua, como no pouco de montras investigar.
Só procuro quando necessito disto ou daquilo outro (e o meu precisar é parco, pois estimo as peças que tenho porque as adquiri com prazer), e o passo até ao provar segue apenas a direcção de um número. Se não há o 38, e dos pés ao chapéu estamos a falar, nem me digno experimentar. Podem vir as senhoras das lojas: “Olhe que…” ou “Tenho também aqui…” – é escusado, perda de tempo; desejo distância de cubículos, repletos de cabides e opinião alheia, mesmo sabendo que em tempo de saldos não se limpam armas e o 38 sempre escasseia.
Claro que por este teimoso precipitar faço compras menos boas, mas saio de sorriso no rosto, como se regressada da feira carregada de sacos de enxoval. Por isso em tempo de saldos às vezes sou pouco sensata:

- Achou a chita barata, comprou saia e bata

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Nazaré, 1 de Janeiro de 44 - A gente deve lançar a âncora numa praia verdadeira - disse-me hoje um pescador.
»

In Diário, Vol. 3 – Miguel Torga

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Provérbio para uma amiga

Não desejando tirar cores e sabores a outras amigas, a Marta é especial.
Descobri há tempos um provérbio e cheguei a sugerir-lhe que mo escrevesse “por encomenda”, e sendo uma pessoa discreta, não se escusou de todo mas também não exultou propriamente. É essa uma das características da Marta: tem uma fleuma muito calorosa, passe a contradição. E sendo ela discreta, abster-me-ei de discorrer aqui sobre as suas extraordinárias virtudes, o seu admirável apego à vida sem dramas, oferecendo lições de borla aos mais atentos sem no entanto se tornar pedante ou querer vender as suas ideias.
A Marta canta muito bem, é extremamente afinada e tem um timbre jazzístico que muito me agrada. Para além disso, tem uma capacidade de improviso fabulosa; e entre outras, recordo com particular carinho a sua versão do Summertime em português, da qual me lembro apenas de frases soltas, se calhar trocadas pela memória:
" É Verão (…) e o algodão está crescido / O teu pai é riii-co e a tua mãe é bem boa / Por isso, querida, não chores mais… "

E se recordo a tua voz maviosa, recordarás decerto o meu pânico com o regime de contrato da função pública. Por isso acontece, querida Marta, e sem lágrimas, que te devo já vai para um ano um jantar. Planeio encher-te o estômago e o fígado de agradecimentos, e no fim terás de fazer jus ao provérbio que não quiseste escrever:

- Bem canta Marta, depois de farta

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 10 de Setembro de 1942 – É fantástico ver o impudor com que este meu amigo mente! E é fantástico ver também, com que bonomia, numa terra de intolerantes como a nossa, este pequeno pecadilho nacional é tolerado. Mas, pensando bem, é natural. Na casa onde não cabem grandes janelas, cabem sempre pequenos postigos…
»

In Diário, Vol. 2 – Miguel Torga

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Provérbio citado (TORGA)

«
Coimbra, 6 de Dezembro de 1938 – Dia de confissão geral. Isto e aquilo da minha vida, do meu temperamento, desta incapacidade que tenho de criar harmonia. Os meus sete pecados mortais em carne viva.
…Quinto – a sede de amor absoluto que me devora;
Sexto – o clima tropical de violência e ternura que envolve o que penso e faço. Absolvido.
Depois do sétimo, porque não tentava eu dar forma capaz a tudo quanto dizia, que era realmente belo?
Porque não. Porque um homem não se escreve.
»
In Diário, Vol. 1 – Miguel Torga


P.S. – Post livre de preconceitos virtuais, e quiçá supondo que os Diários do Torga se tornariam no melhor blog português, fosse ele um contemporâneo entusiasta da Internet. Apenas desconfio que não seria adepto das redes sociais…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Provérbio a gosto

Há muito que se sentia confortável com a inexistência das mulheres na sua vida. Esse comedimento reflectia-se numa redoma implacável por saber que, ao menos uma que deixasse aproximar-se, viria desnortear a sua linha de pensamentos já tão precária e o afastaria dos projectos que queria a brotar apenas da sua fonte identitária. Assim o faziam as mulheres, mesmo sem intenção, imiscuindo-se aos poucos nos sonhos de um homem e aí tomando raízes. Resolvera-se evitá-las então, permanecendo vigilante no seu propósito, mas a decisão não o impedia de por vezes experimentar uma certa insatisfação.

Foi numa esplanada toda virada aos salpicos do mar que sentiu espalhar-se-lhe pelo corpo devagar uma sensação julgada desaparecida. Era uma tarde muito azul desse Verão tão denso de incêndios por todas as partes. E na sua pele um incêndio também, devastando áreas secas como se mato por desbastar. Foi nesse Verão tão incendiado e espesso de suor que tomou o antídoto do que já não sabia do amor, experimentando um vasto número de mulheres. Só um número nesse Verão, com o mero fim de serventia: o de se aclimatar de novo às mulheres, para vingar todas as que entretanto não lhe haviam interessado e que lhe tinham passado ao lado como um sobreiro descascado.

- Nem tanto ao mar, nem tanto à terra

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Provérbio doente

O António era um hipocondríaco dos sete costados, com eles todos bem colocados para mal dos seus pecados. Um médico de clínica geral para os atestados, mais o dentista, o reumatologista, o endocrinologista, o urologista e outros mais não identificados.
Naquela clínica que oferecia todas as especialidades era sobejamente conhecido, e não apenas pela psicoterapia semanal, pelo constante fazer/levantar exames, indagar por horas de consultas e querer experimentar médicos novos – para ouvir uma segunda opinião, frase que na sua boca se tornara um chavão.
Administrativos, radiologistas, médicos e pessoal das limpezas sem excepção, repartiam-se em frases já rotineiras:
- Bom dia António, em que posso ajudá-lo?
- Olá António, então veio para marcar uma consultinha?
- Boa tarde António, ora por cá de novo, não é verdade?
Na verdade, António não tinha nada de grave. Aqui e ali um valor nas análises normal para a idade. E o psiquiatra continuava a receitar-lhe benzodiepinas porque um aperto no peito não o deixava dormir.

- Nem com cada mal ao médico, nem com cada dúvida ao letrado

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Provérbio com preço

Enviaram-me este texto em formato de diálogo para o e-mail e desconheço a sua autoria, mas achei-lhe graça e lembrou-me imediatamente um provérbio, como não podia deixar de ser :)


Os carros, as SCUTs, o Contribuinte e o Estado‏

Contribuinte - Gostava de comprar um carro.
Estado - Muito bem. Faça o favor de escolher.
Contribuinte - Já escolhi tenho que pagar alguma coisa?
Estado - Sim. De acordo com o valor do carro (IVA)
Contribuinte - Ah. Só isso.
Estado - e uma "coisinha" para o por a circular (selo)
Contribuinte - Ah!
Estado - e mais uma coisinha na gasolina necessária para que o carro efectivamente circule (ISP)
Contribuinte - mas sem gasolina eu não circulo.
Estado - Eu sei.
Contribuinte - mas eu já pago para circular.
Estado - claro.
Contribuinte - então vai cobrar-me pelo valor da gasolina?
Estado - também. mas isso é o IVA. o ISP é outra coisa diferente.
Contribuinte - diferente?
Estado - muito. o ISP é porque a gasolina existe.
Contribuinte - porque existe?
Estado - há muitos milhões de anos os dinossauros e o carvão fizeram petroleo. e você paga.
Contribuinte - só isso?
Estado - Só. Mas não julgue que pode deixar o carro assim como quer.
Contribuinte - como assim?
Estado - Tem que pagar para o estacionar.
Contribuinte - para o estacionar?
Estado - Exacto.
Contribuinte - Portanto pago para andar e pago para estar parado?
Estado - Não. Se quiser mesmo andar com o carro precisa de pagar seguro.
Contribuinte - Então pago para circular, pago para conseguir circular e pago por estar parado.
Estado - Sim. Nós não estamos aqui para enganar ninguém. O carro é novo?
Contribuinte - Novo?
Estado - é que se não for novo tem que pagar para vermos se ele está em condições de andar por aí.
Contribuinte - Pago para você ver se pode cobrar?
Estado - Claro. Acha que isso é de borla? Só há mais uma coisinha...
Contribuinte - Mais uma coisinha?
Estado - Para circular em auto-estradas
Contribuinte - mas eu já pago imposto de circulação.
Estado - mas esta é uma circulação diferente.
Contribuinte - Diferente?
Estado - Sim. Muito diferente. É só para quem quiser.
Contribuinte - Só mais isso?
Estado - Sim. Só mais isso.
Contribuinte - E acabou?
Estado - Sim. Depois de pagar os 25 euros acabou.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros que custa pagar para andar nas auto-estradas.
Contribuinte - Mas não disse que as auto-estradas eram só para quem quisesse?
Estado - Sim. Mas todos pagam os 25 euros.
Contribuinte - Quais 25 euros?
Estado - Os 25 euros é quanto custa.
Contribuinte - custa o quê?
Estado - Pagar.
Contribuinte - custa pagar?
Estado - sim. Pagar custa 25 euros.
Contribuinte - Pagar custa 25 euros?
Estado - Sim. Paga 25 euros para pagar.
Contribuinte - Mas eu não vou circular nas auto-estradas.
Estado - Imagine que um dia quer...tem que pagar
Contribuinte - tenho que pagar para pagar porque um dia posso querer?
Estado - Exactamente. Você paga para pagar o que um dia pode querer.
Contribuinte - E se eu não quiser?
Estado - Paga multa.


- Paga o justo pelo pecador

terça-feira, 20 de julho de 2010

Provérbio açucarado

Óscar pertencia àquela linhagem de homens que sabem como falar com as mulheres. Dominava com habilidade a arte de as fazer sentirem-se únicas pois sabia mimá-las com precisão. A sua popularidade residia por isso mesmo no facto de lhes dizer exactamente o que gostariam de ouvir sem exageros; aliás Óscar nunca mentia: por exemplo a uma mulher muito bela podia atirar-lhe confortavelmente com o adjectivo linda ou sexy sem lhe achar desconfiança, mas por outro lado a outra menos favorecida pela natureza os atributos interessante, meiga, ou até fofinha – numa versão menos abonatória, mas igualmente eficaz - funcionavam sempre bem.
Por ser bem-falante e muito observador, controlava com mestria a arte do flirt; mas não exactamente com o intuito de chegar a vias de facto, já que Óscar era casado e muitas das vezes também o eram as suas interlocutoras. Um homem de duas caras, de vários bonés? Talvez não…, o que o movia era um altruísmo todo ele dedicado a tornar com elogios o género feminino mais feliz e uma certa vaidade pessoal quando lia nos olhos delas o reconhecimento.

- O que é doce nunca amargou