O Expresso lançou uma colecção de livros para contar às crianças os provérbios portugueses de sempre. As histórias são bem escritas, as ilustrações belíssimas, e trazem um CD com música e a narração da história.
O primeiro provérbio, lançado pelo jornal no Dia da Criança, já aqui foi provado. O segundo volume “Tal pai, tal filho”, faz-me lembrar o meu cunhado e o seu Francisco. Extremamente parecidos fisicamente, na muita criatividade, e no léxico precoce com laivos de gaguez, quando com pressa de dizer tudo de uma assentada. No próximo Sábado sairá o neo-clássico “Quem tem boca vai a Roma”, e já agora quem tem dinheiro acrescento - adorava voltar a essa cidade fascinante onde só estive por um dia.
terça-feira, 9 de junho de 2009
Provérbios provados às crianças no Expresso
terça-feira, 2 de junho de 2009
Provérbio autobiográfico
Costumo dizer que fui concebida no "Verão quente de 75" para justificar a natureza impetuosa. Quando nasci em Fevereiro de 76, chamaram-me Margarida e, por me terem dado apenas um nome próprio, muita gente me trata por diminutivos. Na infância e adolescência fui boa aluna, muito dada à leitura e pouco ao desporto, introspectiva embora sociável, características que mantenho. Vivia em Queluz, e na idade em que se escolhe uma área do conhecimento fiquei baralhada, optei pelas ciências porque gostava muito de Biologia, embora lamentasse a perda da História e da Geografia. Mas foi a Matemática que me trocou as voltas e levou-me para o Porto aos 18 anos. O curso era de Ciências agrárias, na praça a que carinhosamente chamam "os leões",e foi o 1º de 3 cursos superiores que não terminei, isto dito assim para progredir na história. Fui tendo trabalhos temporários, pois a fonte familiar secou no meio dos devaneios estudantis, até que desisti da Fisioterapia e comecei a trabalhar mais a sério, em agências de viagens e num atelier de design, produção artística e literária. Por essa altura estive num concurso de TV, era o "Um contra todos", que na cadeira derrubava os 50 na plateia; consegui responder às perguntas e acumulei uma maquia considerável. Depois resolvi estudar, podem rir!, e tirei o curso de técnica profissional de biblioteca e documentação, fiz 3 estágios e continuo sem trabalho na área. Já vivi em família, com amigos, com quase desconhecidos, junta, sozinha, no meio dos meus sobrinhos. Gosto de silêncio quando leio e nesses momentos, como noutros, gosto do meu canto sossegado. Apesar deste aparente silêncio, quando falo, falo muito, gosto de conversar, e rio muito, mesmo nunca tendo posto o aparelho nos dentes, e fumo e bebo, e tenho a voz grave e, dizem, radiofónica. Mas não sei cantar, nem desenhar, e nunca fui atleta. Sou alta e o meu nariz é bonito. E não gosto só de ler e de provérbios, também gosto de música e de cinema. E gostava de viajar mais porque há tanto a descobrir. Tenho três sobrinhos no coração, dois livros na gaveta e um antúrio a florir num vaso, por isso acho que não vou morrer já.
- Vida gemida, vida comprida
- Vida gemida, vida comprida
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Provérbios provados espaçados
Sim, eu sei que tudo são recordações… e que não prometi provérbios periódicos, mas também não previ uma ausência de tantos meses!
E já em baixo segue uma história em capítulos, “repescada” dos arquivos do Ventoinha, à qual acrescentei agora o 4ª capítulo para terminar(?) a saga nupcial do Mendes.
Boa noite e bons provérbios :)
E já em baixo segue uma história em capítulos, “repescada” dos arquivos do Ventoinha, à qual acrescentei agora o 4ª capítulo para terminar(?) a saga nupcial do Mendes.
Boa noite e bons provérbios :)
Provérbio Provado em Capítulos - I
Desde tenra idade conhecido por "filho do Mendes", a dada altura passaram a chamá-lo apenas Mendes, tal como seu pai e o seu avô antes dele. Estranhamente, nenhum tinha realmente por apelido Mendes, mas esse era um costume antigo de Vila Bela. Já o seu melhor amigo e companheiro de brincadeiras de infância era conhecido por Zé Sapateiro, negócio que nunca prosperou na família, que detinha há várias gerações uma taberna. O verdadeiro nome do Mendes na verdade não nos interessa.
O Mendes vendia enciclopédias por toda a concelhia na sua velha carrinha. Tarefa ingrata, a do Mendes, vender palavras a retalho a gentes mais habituadas às pedras e à lavoura. Nem mesmo os livros de orações e de culinária, nem sequer os mapas das colheitas, conseguiam entusiasmar a clientela. Ficavam a olhá-lo em silêncio, coçando a cabeça hesitantes, enquanto o Mendes explicava a importância das obras numa torrente de frases. Não lhes passava pela ideia gastar dinheiro naquilo e o desconforto era enorme por não perceberem o palavreado. Por isso, evitavam-no. Quando se sentia pelas aldeias o troar da carripana, logo se estendia a notícia e os largos das igrejas esvaziavam-se como que por encanto... E não fosse a proximidade com os santos, quase se poderia dizer que aparecera o diabo em forma de gente. Os homens abandonavam os baralhos e os copos três e as mulheres corriam a fechar janelas e portas, mesmo se em hora de aleluias.
- Falai no Mendes e à porta o tendes
O Mendes vendia enciclopédias por toda a concelhia na sua velha carrinha. Tarefa ingrata, a do Mendes, vender palavras a retalho a gentes mais habituadas às pedras e à lavoura. Nem mesmo os livros de orações e de culinária, nem sequer os mapas das colheitas, conseguiam entusiasmar a clientela. Ficavam a olhá-lo em silêncio, coçando a cabeça hesitantes, enquanto o Mendes explicava a importância das obras numa torrente de frases. Não lhes passava pela ideia gastar dinheiro naquilo e o desconforto era enorme por não perceberem o palavreado. Por isso, evitavam-no. Quando se sentia pelas aldeias o troar da carripana, logo se estendia a notícia e os largos das igrejas esvaziavam-se como que por encanto... E não fosse a proximidade com os santos, quase se poderia dizer que aparecera o diabo em forma de gente. Os homens abandonavam os baralhos e os copos três e as mulheres corriam a fechar janelas e portas, mesmo se em hora de aleluias.
- Falai no Mendes e à porta o tendes
Provérbio Provado em Capítulos - II
Como não há regra sem excepção, não é assim tão exacto dizer que toda a gente por essas terras evitava o Mendes e dele fugia como do diabo. Em Vila Bela o Mendes tinha uma cliente fidelíssima, tão bela de seu nome como a vila, que era a Belinha da retrosaria. A Belinha manifestara desde criança uma forte apetência para a leitura, mas infelizmente não houvera dinheiro na família para ela poder ir estudar para a Cidade Grande. O pai, o Tó Marmeleiro, que era alfaiate, até costumava dizer: "Tomara eu que a miúda não gostasse tantos dos livros, que havia de tornar-se uma bela costureira".
Foi assim que Belinha começou a trabalhar na retrosaria familiar e enquanto enrolava carrinhos de linhas e desfiava meadas, sonhava-se a tecer o manto do Tempo com as ninfas gregas. Grande parte do seu salário destinava-se à mercadoria da carripana do Mendes. Ele trazia-lhe livros por encomenda, desdobrava-se em ofertas de revistas e atenções. Tó Marmeleiro começou a desconfiar das constantes aparições do Mendes e do seu palavreado complicado, via como a Belinha se derretia ao ponto de falar com voz de mel e um dia, à hora de fechar a retrosaria, chamou-a à parte e disse-lhe:
- Podes casar com quem quiseres contanto que cases com o primo Manel
Foi assim que Belinha começou a trabalhar na retrosaria familiar e enquanto enrolava carrinhos de linhas e desfiava meadas, sonhava-se a tecer o manto do Tempo com as ninfas gregas. Grande parte do seu salário destinava-se à mercadoria da carripana do Mendes. Ele trazia-lhe livros por encomenda, desdobrava-se em ofertas de revistas e atenções. Tó Marmeleiro começou a desconfiar das constantes aparições do Mendes e do seu palavreado complicado, via como a Belinha se derretia ao ponto de falar com voz de mel e um dia, à hora de fechar a retrosaria, chamou-a à parte e disse-lhe:
- Podes casar com quem quiseres contanto que cases com o primo Manel
Provérbio Provado em Capítulos - III
Finalmente o Mendes chegou à conclusão de que com o Tó Marmeleiro não faria dinheiro. Quando muito faria farinha com a Belinha, moradora de Vila Bela. Mas só lhe restava fermentar-lhe a imaginação com umas quantas antologias poéticas e outros tantos romances de cordel para sobremesa do primo Manel. O meio era rural, mas não tão arcaico que se chegasse a vias de facto de duelos e coisas que tal, e Belinha acatava, pacata, o Conselho Familiar que, encabeçado pelo tio Fragata, deliberava a propósito da sua futura descendência. Vila Bela situava-se longe do mar e o tio era Fragata só de alcunha, pois na realidade era caçador, e apreciava nos machos mais a capacidade de recolecção do Neolítico que o fraseado do Romantismo. Indicava o primo Manel, salientando as suas qualidades de varejador na apanha da azeitona mas, adivinhando a predilecção da Belinha pelo palavroso Mendes, murmurava para o compadre Marmeleiro:
- Tenhamos a perdiz, depois se tratará do molho
- Tenhamos a perdiz, depois se tratará do molho
Provérbio Provado em Capítulos - IV
Assegurado que estava o futuro noivado entre primos, o tio Fragata chamou a si a tarefa de investigar os predicados do Mendes, que tinha por hábito conduzir-se irregularmente pelos eixos da concelhia, passando sem remorsos das juntas de freguesia para os mais afastados montes.
Foi dar com ele numa tarde quente, alapado na carripana à sombra, suado, desgostoso: vinha da Biblioteca Municipal. Fizera a derradeira tentativa de vender as colecções caras, obras de referência luxuosamente encadernadas; mas aquela casa tão pouco convidativa, este calor e parece que chovia lá dentro, sabe?, o empregado também invernoso e a velhota num canto junto ao catálogo manual, como uma peça da decoração, tricotando as fichas numa reza de “ponto espaço traço espaço”. Se penso naquele arquivo a acumular mofo por cima do mercado de peixe, provisório desde o tempo da Maria Castanha, dá-me cá um desgosto… Suado, desgostoso, o Mendes murmurava: acho que tenho de mudar de ramo, estabelecer-me com um negócio em loja, uma papelaria, cadernos, carimbos, cautelas, uns livros e enciclopédias, claro está! E posso ter uma loja perto da retrosaria da Belinha, posso cumprimentá-la todos os dias, respeitando o seu noivado, claro está!
Ao tio Fragata deu-lhe pena do Mendes, adivinhando um futuro promissor para este homem possuído de amor. Quase comovido, pesou as virtudes dos futuros esponsais de sua afilhada e foi quando a balança lhe pendeu mais para o cheiro do dinheiro dos carimbos do Mendes que da azeitona do primo Manel. Deixa lá, até ao lavar dos cestos é vindima, e quando nos debruçarmos à vinha já és tu o noivo da prima Belinha. Descansa que eu falo com o compadre Marmeleiro:
- Um bom conselheiro alumia como um candeeiro
Foi dar com ele numa tarde quente, alapado na carripana à sombra, suado, desgostoso: vinha da Biblioteca Municipal. Fizera a derradeira tentativa de vender as colecções caras, obras de referência luxuosamente encadernadas; mas aquela casa tão pouco convidativa, este calor e parece que chovia lá dentro, sabe?, o empregado também invernoso e a velhota num canto junto ao catálogo manual, como uma peça da decoração, tricotando as fichas numa reza de “ponto espaço traço espaço”. Se penso naquele arquivo a acumular mofo por cima do mercado de peixe, provisório desde o tempo da Maria Castanha, dá-me cá um desgosto… Suado, desgostoso, o Mendes murmurava: acho que tenho de mudar de ramo, estabelecer-me com um negócio em loja, uma papelaria, cadernos, carimbos, cautelas, uns livros e enciclopédias, claro está! E posso ter uma loja perto da retrosaria da Belinha, posso cumprimentá-la todos os dias, respeitando o seu noivado, claro está!
Ao tio Fragata deu-lhe pena do Mendes, adivinhando um futuro promissor para este homem possuído de amor. Quase comovido, pesou as virtudes dos futuros esponsais de sua afilhada e foi quando a balança lhe pendeu mais para o cheiro do dinheiro dos carimbos do Mendes que da azeitona do primo Manel. Deixa lá, até ao lavar dos cestos é vindima, e quando nos debruçarmos à vinha já és tu o noivo da prima Belinha. Descansa que eu falo com o compadre Marmeleiro:
- Um bom conselheiro alumia como um candeeiro
sábado, 20 de setembro de 2008
Provérbio citado (YOURCENAR)
«(…) A estalagem d’A Linda Pombinha, que Josse lhe indicara como servindo de ponto de concentração dos fugitivos, era um casebre situado junto às dunas, com um pombal onde haviam espetado uma vassoura, à guisa de distintivo, para dar a entender que aquela reles hospedaria era também um rústico bordel. Em semelhante lugar, era preciso cuidado com as bagagens e com o dinheiro que tinha em seu poder.
Por entre os lúpulos do jardinzinho, um cliente, já bem bebido, vomitava a sua cerveja. Uma mulher gritou qualquer coisa ao bêbado, através de um postigo do primeiro andar, e metendo, depois, para dentro a cabeça desgrenhada, foi sem dúvida dormir sozinha uma boa soneca. Josse passara-lhe a palavra de senha que já um amigo lhe havia transmitido. O filósofo entrou e saudou toda a gente. A sala comum estava enfumarada e negra como um subterrâneo. Acocorada em frente à lareira, a patroa fazia uma omeleta, ajudada por um rapazito que dava aos foles. Zenão sentou-se a uma mesa e disse, constrangido por ter, qual actor sobre um estrado de feira, de debitar uma frase feita:
- Quem quer o fim…
- … quer os meios – completou a mulher, voltando-se. (…)»
In A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar
Por entre os lúpulos do jardinzinho, um cliente, já bem bebido, vomitava a sua cerveja. Uma mulher gritou qualquer coisa ao bêbado, através de um postigo do primeiro andar, e metendo, depois, para dentro a cabeça desgrenhada, foi sem dúvida dormir sozinha uma boa soneca. Josse passara-lhe a palavra de senha que já um amigo lhe havia transmitido. O filósofo entrou e saudou toda a gente. A sala comum estava enfumarada e negra como um subterrâneo. Acocorada em frente à lareira, a patroa fazia uma omeleta, ajudada por um rapazito que dava aos foles. Zenão sentou-se a uma mesa e disse, constrangido por ter, qual actor sobre um estrado de feira, de debitar uma frase feita:
- Quem quer o fim…
- … quer os meios – completou a mulher, voltando-se. (…)»
In A Obra ao Negro - Marguerite Yourcenar
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Provérbio solitário
A amiga diz-lhe que antes do jantar ainda tem de passar na agência, um mail importante, um alinhamento a preparar para o dia seguinte, é rápido, queres subir?, agora de noite cada vez mais cedo, não é? Responde-lhe que não, que espera no carro, e a amiga a pô-la à vontade, escolhe um cd, fuma se quiseres, não demoro. Acende um cigarro e roda distraidamente o botão das notícias das oito, cada vez mais gente a passar fome no mundo porque os preços dos bens alimentares a aumentar, numa estatística das Nações (des)Unidas. As rádios a emitir quase ali ao lado, estacionaram naquela rua da cidade que é conhecida por “Carrossel”, numa alusão às inversões de marcha que permitem a circum-avaliação da oferta sexual. Observa então o movimento, os poucos estabelecimentos que fecharam, os carros que param nas mulheres que ali param, e com mais atenção aquela que está sozinha na esquina sem árvores, veste saltos demasiados para aquela calçada, pernas e ombros descobertos aos caprichos do vento. E apesar da fronteira que os costumes teimam em traçar entre as “putas” e as “sérias” - ignorando que existem ambas em cada uma delas -, sente aquela mulher como uma sua semelhante, talvez com frio ou a fome que contam no rádio, e tem vontade de a convidar também para jantar, de lhe oferecer um cigarro, um chá quente e uma manta para os joelhos, de lhe encher com conversa aquela esquina solitária da vida. É nesta intenção que se aproxima, o sorriso a meio, um boa noite tímido, do outro lado o sobrolho desconfiado, não costumo fazer mulheres, e logo o sorriso a abrir-se mais e a dizer não, só gostava de conversar um pouco consigo. O sobrolho franze-se mais, desampara-me a loja, eu cá não alinho em sociedades, sabes como é…
- Ladrão só, puta só
- Ladrão só, puta só
terça-feira, 16 de setembro de 2008
Provérbio das mil e uma noites
Esta história das Arábias deu-se ao tempo que se contavam as noites em luas e por isso não se sabe dizer em qual das mil e uma ocorreu. Tem por herói Ali-Bábá e a célebre frase que ficou para os anais das histórias.
Já o sol dava a volta para Poente, quando Ali-Bábá deu voz de partida à caravana. Dos quarenta ladrões já muitos tinham ficado pelo caminho, no último oásis perdera mais cinco. Chegados ali haviam feito uma pausa para as orações mas, depois do desdobrar dos tapetes que não voavam, alguns viravam as costas a Meca e sucumbiam aos prazeres terrenos. Ficaram satisfeitos os restantes, pois assim sobravam camelos e beneficiavam do conforto de mais bossas, e foi tal o disputar de lugares que se perdeu na confusão uma arca do tesouro. Fartos de comer areia pelo caminho, só chegados ao destino fizeram a contagem das arcas e deram pela falta, por isso são também recordados como os “salteadores da arca perdida”.
Só Ali-Bábá conhecia o trilho que ia dar à caverna secreta onde escondiam os seus tesouros; era um homem que guardava os seus mistérios e mantinha desconhecida de todos a sua veia poética. Ali iluminado pela lua, olhou para uma saliência na rocha e imaginou-a abrindo-se docemente como a cápsula de uma semente de sésamo; então, saiu-lhe a metáfora em exclamação:
- Abre-te, sésamo!
Ao verem destapar-se uma porta para lhes dar passagem, os ladrões desceram dos camelos e entreolharam-se aterrados: semsen? Lá ilá ilá Alá!, dado que as únicas sementes amareladas que transportavam escondidas não serviam para comer e viriam até a ser proibidas mil e um anos depois noutros desertos do mundo. Vendo-os assustados, Ali-Bábá convidou-os a entrar com um sorriso sereno e, encorajado pelo soar de latidos ao longe, brindou-os com mais uma metáfora digna de papiro:
- Os cães ladram e a caravana passa
Já o sol dava a volta para Poente, quando Ali-Bábá deu voz de partida à caravana. Dos quarenta ladrões já muitos tinham ficado pelo caminho, no último oásis perdera mais cinco. Chegados ali haviam feito uma pausa para as orações mas, depois do desdobrar dos tapetes que não voavam, alguns viravam as costas a Meca e sucumbiam aos prazeres terrenos. Ficaram satisfeitos os restantes, pois assim sobravam camelos e beneficiavam do conforto de mais bossas, e foi tal o disputar de lugares que se perdeu na confusão uma arca do tesouro. Fartos de comer areia pelo caminho, só chegados ao destino fizeram a contagem das arcas e deram pela falta, por isso são também recordados como os “salteadores da arca perdida”.
Só Ali-Bábá conhecia o trilho que ia dar à caverna secreta onde escondiam os seus tesouros; era um homem que guardava os seus mistérios e mantinha desconhecida de todos a sua veia poética. Ali iluminado pela lua, olhou para uma saliência na rocha e imaginou-a abrindo-se docemente como a cápsula de uma semente de sésamo; então, saiu-lhe a metáfora em exclamação:
- Abre-te, sésamo!
Ao verem destapar-se uma porta para lhes dar passagem, os ladrões desceram dos camelos e entreolharam-se aterrados: semsen? Lá ilá ilá Alá!, dado que as únicas sementes amareladas que transportavam escondidas não serviam para comer e viriam até a ser proibidas mil e um anos depois noutros desertos do mundo. Vendo-os assustados, Ali-Bábá convidou-os a entrar com um sorriso sereno e, encorajado pelo soar de latidos ao longe, brindou-os com mais uma metáfora digna de papiro:
- Os cães ladram e a caravana passa
quarta-feira, 10 de setembro de 2008
Provérbio do saco lacrimal
- RETIRADO DO COISAS QUE TAL -
Costumava dizer, até com uma pontinha de orgulho, que nunca chorara. Nem quando os pais faleceram, primeiro o pai depois a mãe, havia largado uma lágrima que fosse. Não seria uma questão de insensibilidade nem de considerar esta uma atitude de especial nobreza. Aliás não saberia explicar o porquê de, todas as manhãs, atar com muito cuidado o saco que transportava sempre consigo. Aqui dispunha as lágrimas que já não cabiam no nó da garganta, que no Verão muitas se evaporavam pela pele com o calor. O saco ia-se tornando pesado aos poucos e a alma, de tão leve, como que flutuava num quotidiano sem amarguras.
Até que um dia num minuto pousava o pé a subir para o autocarro, no minuto seguinte um jovem apressado lhe encostava o cigarro ao saco. Então, conta quem viu, foi como se toda uma vida se soltasse como um rio. O médico assinou o óbito dando como causa provável da morte um ataque cardíaco. Por seu turno o motorista da Carris de serviço acrescentou: Nunca tinha visto nada assim, um homem a sufocar de sofrimento... até me vieram as lágrimas aos olhos.
- Os homens também choram
Costumava dizer, até com uma pontinha de orgulho, que nunca chorara. Nem quando os pais faleceram, primeiro o pai depois a mãe, havia largado uma lágrima que fosse. Não seria uma questão de insensibilidade nem de considerar esta uma atitude de especial nobreza. Aliás não saberia explicar o porquê de, todas as manhãs, atar com muito cuidado o saco que transportava sempre consigo. Aqui dispunha as lágrimas que já não cabiam no nó da garganta, que no Verão muitas se evaporavam pela pele com o calor. O saco ia-se tornando pesado aos poucos e a alma, de tão leve, como que flutuava num quotidiano sem amarguras.
Até que um dia num minuto pousava o pé a subir para o autocarro, no minuto seguinte um jovem apressado lhe encostava o cigarro ao saco. Então, conta quem viu, foi como se toda uma vida se soltasse como um rio. O médico assinou o óbito dando como causa provável da morte um ataque cardíaco. Por seu turno o motorista da Carris de serviço acrescentou: Nunca tinha visto nada assim, um homem a sufocar de sofrimento... até me vieram as lágrimas aos olhos.
- Os homens também choram
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Provérbio marítimo
O Verão estava a terminar, quando a Aninhas reparou que nem dera pela sua passagem. Era a primeira vez que tinha um trabalho a sério e já há muito tempo que não folgava, mesmo se estava de folga. Logo que a mãe percebeu que andava a empatar nos estudos, tratou de falar com a Dona Rosa para a pôr a trabalhar na pastelaria, assim como assim já tinha o nono ano e podia ajudar a família. Os horários eram duros e custou-lhe adaptar-se aos acordares repentinos a meio da noite para ir fazer pão e bolos entre bocejos.
Quando descobriu nessa tarde cansada que o Verão acabava, recordou o dia em que soube que reprovara novamente, e era desta que a mãe a tirava da escola, e se deu conta que melhor era deitar foguetes que vinham aí canas para apanhar. Nessa altura estava o Verão a começar e Aninhas vivia em terra de pescadores, num pulo chegava à esquina da frutaria e atalhava por uma ruela, tão estreita que quase se caminhava de lado, que desembocava na marginal. Dali distinguia as amigas no areal junto às barracas às riscas e corria a mergulhar no mar bravio e gelado em arrepios de liberdade. As amigas conversavam muito de rapazes, apontavam este e aquele em risadinhas, os de Lisboa que estavam de férias, os estrangeiros vermelhos do sol, os miúdos imberbes do liceu, mas a Aninhas vivia desde sempre em terra de pescadores e eram esses os homens que achava bonitos, com a pele verdadeiramente tisnada do sol, com barbas mal amanhadas e histórias de barcos e luares. Foi esses que procurou e foi assim que se arrepiou em vários mergulhos noutras águas, até a mãe ouvir um zunzum na frutaria, que parecia que na ruela estreita à noite, e porque uma rapariga fica mal afamada, e que ia já falar com a Dona Rosa da pastelaria porque já chegava de Verão.
Quando largou as fornadas e os pastéis nessa tarde de memórias, aspirou fundo a maresia e vinha-lhe o som das ondas, o som do coração sem nenhum desgosto de amor, pronto para se arrepiar, e a frase da mãe: Deixa lá, filha…
- Há mais marés que marinheiros
Quando descobriu nessa tarde cansada que o Verão acabava, recordou o dia em que soube que reprovara novamente, e era desta que a mãe a tirava da escola, e se deu conta que melhor era deitar foguetes que vinham aí canas para apanhar. Nessa altura estava o Verão a começar e Aninhas vivia em terra de pescadores, num pulo chegava à esquina da frutaria e atalhava por uma ruela, tão estreita que quase se caminhava de lado, que desembocava na marginal. Dali distinguia as amigas no areal junto às barracas às riscas e corria a mergulhar no mar bravio e gelado em arrepios de liberdade. As amigas conversavam muito de rapazes, apontavam este e aquele em risadinhas, os de Lisboa que estavam de férias, os estrangeiros vermelhos do sol, os miúdos imberbes do liceu, mas a Aninhas vivia desde sempre em terra de pescadores e eram esses os homens que achava bonitos, com a pele verdadeiramente tisnada do sol, com barbas mal amanhadas e histórias de barcos e luares. Foi esses que procurou e foi assim que se arrepiou em vários mergulhos noutras águas, até a mãe ouvir um zunzum na frutaria, que parecia que na ruela estreita à noite, e porque uma rapariga fica mal afamada, e que ia já falar com a Dona Rosa da pastelaria porque já chegava de Verão.
Quando largou as fornadas e os pastéis nessa tarde de memórias, aspirou fundo a maresia e vinha-lhe o som das ondas, o som do coração sem nenhum desgosto de amor, pronto para se arrepiar, e a frase da mãe: Deixa lá, filha…
- Há mais marés que marinheiros
sábado, 6 de setembro de 2008
Provérbio com um piquinho a Lobo Antunes
Chove copiosamente, pode dizer-se assim copiosamente, já que o verão não é a estação de ver andar pessoas apressadas a fugir da chuva brandindo chapéus ao vento.
Passa uma senhora acolá, vê-se daqui que pouco agasalhada, apanhada desprevenida, o chapéu certamente tomado emprestado ou esquecido no balde à porta do serviço, a devolver inteiro se lhe conservar as varetas que vergam na luta oblíqua com a chuva.
O jardim de repente deserto, os rapazes da roda de charros a despedirem-se em complicados apertos de mão, talvez o tecto das árvores a pingar muitas lágrimas nos bonés, e já só um cão sacudindo a chuva num agitar frenético do pêlo, a patinhar pela estrada coberta de um lençol fino de água.
Os carros abrandam em pequenos repuxos, as luzes acesas embora ainda de dia, e impacientes na buzina atravessam a cortina de chuva, a rádio a dar conta do trânsito complicado nas periferias e da meteorologia nebulosa para os dias que se seguem.
Afinal a varanda lavada hoje mais cedo e para quê, se chuva e vento capazes de arrastar o lixo das vizinhas e das pombas sem questionar quais as mais porcas.
Claro que não ainda o dilúvio outonal, descanse Noé a arca no estaleiro, só a suspeita de que são as águas de setembro fechando o verão, como na canção do outro hemisfério.
- Chuvas verdadeiras em Setembro as primeiras
P.S – Post livre de preconceitos de presunção, e quiçá pedindo perdão pela ousadia no título, com a devida vénia ao Mestre.
Passa uma senhora acolá, vê-se daqui que pouco agasalhada, apanhada desprevenida, o chapéu certamente tomado emprestado ou esquecido no balde à porta do serviço, a devolver inteiro se lhe conservar as varetas que vergam na luta oblíqua com a chuva.
O jardim de repente deserto, os rapazes da roda de charros a despedirem-se em complicados apertos de mão, talvez o tecto das árvores a pingar muitas lágrimas nos bonés, e já só um cão sacudindo a chuva num agitar frenético do pêlo, a patinhar pela estrada coberta de um lençol fino de água.
Os carros abrandam em pequenos repuxos, as luzes acesas embora ainda de dia, e impacientes na buzina atravessam a cortina de chuva, a rádio a dar conta do trânsito complicado nas periferias e da meteorologia nebulosa para os dias que se seguem.
Afinal a varanda lavada hoje mais cedo e para quê, se chuva e vento capazes de arrastar o lixo das vizinhas e das pombas sem questionar quais as mais porcas.
Claro que não ainda o dilúvio outonal, descanse Noé a arca no estaleiro, só a suspeita de que são as águas de setembro fechando o verão, como na canção do outro hemisfério.
- Chuvas verdadeiras em Setembro as primeiras
P.S – Post livre de preconceitos de presunção, e quiçá pedindo perdão pela ousadia no título, com a devida vénia ao Mestre.
Provérbios Provados em casa própria
Os provérbios que se provam abaixo foram todos retirados dos arquivos do Ventoinha : escolhi 11 dos 25 escritos nas sextas-feiras entre Dezembro de 2005 e Junho de 2006, numa colaboração muito afectuosa, mesmo quando o provérbio pouco tinha a provar.
Esta 2ª fase dos provérbios não promete periodicidades em dias marcados, mas traz a vontade de voltar a escrever estes textos que tanto prazer me deram. E começa já com um provérbio provado ontem, por sinal uma sexta-feira…
Esta 2ª fase dos provérbios não promete periodicidades em dias marcados, mas traz a vontade de voltar a escrever estes textos que tanto prazer me deram. E começa já com um provérbio provado ontem, por sinal uma sexta-feira…
Provérbio familiar
A minha sobrinha veio trazer à minha vida um arco-íris de alegrias. Podia falar-vos da beleza e da simpatia da Catarina, e da vontade de viver com que acorda a cada manhã, capaz de fazer corar de vergonha qualquer pessimista empedernido. Podia falar-vos do enorme amor que existe entre nós, o mais especial que já alguma vez senti. Quando ela corre na minha direcção com sorrisos de orelha a orelha, sei que me devota um amor incondicional, todo feito de adoração, que nem suspeita da minha imperfeição. Mas venho falar-vos dos esforços da minha sobrinha no uso da linguagem; a Catarina está a aprender a falar e, por preguiça ou falta de necessidade, exprime-se em poucas palavras, sendo o "não" a preferida, repetida incessantemente ao longo do dia, para praticamente todas as situações. Falar em palavras é só um modo de dizer, já que o discurso é mais uma profusão de ditongos e algumas consoantes, cujas definições não vêm em nenhum dicionário. Já constrói frases incompletas, algumas a terminar em tom interrogativo, que me dão trabalho a descodificar e a tentar responder com a maior simplicidade e a quase ausência de adjectivos. O uso dos verbos é pobre, resume-se às formas "é", "tem", "góta" e pouco mais, nunca lhe ouvi o verbo querer. Outro dia, observando-a, pensei em como é bom viver neste estado rudimentar da linguagem.
Tenho vontade de te explicar isto, Catarina, mas sei que não vais perceber. Vais aprender muitas mais palavras, sabes, uma nova todos os dias, e chegarás a perceber que existe mais do que uma palavra para a mesma coisa. E depois irás para a escola e saberás que as letras que estão nos livros têm significados, e aprenderás a juntá-las formando frases que poderás ler e desenhar. E perceberás que as palavras não são todas iguais porque são classificadas em grupos, mediante definem uma acção, uma coisa ou uma característica. Tanto trabalho, Catarina, para um dia teres um discurso completo e elaborado, recheado de sinónimos, definições e estados de alma. Para constatares, algures na idade adulta, que muitas vezes mais vale estares calada. Todo o esforço te fará um caminho inverso no regresso ao silêncio, quando compreenderes que o vento leva mesmo as palavras como se diz, que muitas não encontram eco a não ser dentro da tua cabeça, que os ouvidos dos outros estão sem paciência. E terás saudades deste tempo onde agora te vejo, Catarina, na perfeita dimensão da palavra saudade, que é a de se querer reaver algo de que nem temos lembrança. Goza este momento de simplicidade, era o que te diria se conseguisses perceber. A Mi vai ensinar-te mais palavras...
- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata
Tenho vontade de te explicar isto, Catarina, mas sei que não vais perceber. Vais aprender muitas mais palavras, sabes, uma nova todos os dias, e chegarás a perceber que existe mais do que uma palavra para a mesma coisa. E depois irás para a escola e saberás que as letras que estão nos livros têm significados, e aprenderás a juntá-las formando frases que poderás ler e desenhar. E perceberás que as palavras não são todas iguais porque são classificadas em grupos, mediante definem uma acção, uma coisa ou uma característica. Tanto trabalho, Catarina, para um dia teres um discurso completo e elaborado, recheado de sinónimos, definições e estados de alma. Para constatares, algures na idade adulta, que muitas vezes mais vale estares calada. Todo o esforço te fará um caminho inverso no regresso ao silêncio, quando compreenderes que o vento leva mesmo as palavras como se diz, que muitas não encontram eco a não ser dentro da tua cabeça, que os ouvidos dos outros estão sem paciência. E terás saudades deste tempo onde agora te vejo, Catarina, na perfeita dimensão da palavra saudade, que é a de se querer reaver algo de que nem temos lembrança. Goza este momento de simplicidade, era o que te diria se conseguisses perceber. A Mi vai ensinar-te mais palavras...
- O silêncio é de ouro, a palavra é de prata
Provérbio com nome de canção
Migalhas de pão invadindo a toalha de piquenique, aquela aos quadrados vermelhos e laranja que não saía do porta bagagens durante as férias de Verão. A avó protestava, franzindo o nariz, querendo ver-nos compostos e arranjadinhos, como se sentados à mesa com pratos e talheres num Domingo de Páscoa. A tia Joana, a solteira, trazia sempre as mesmas sandes de pasta de atum, e a mãe fazia as saladas – a de tomate à parte porque o pai não gostava – e descascava a fruta. O tio Alfredo chegava, ruidoso, o fogareiro debaixo de um braço e a geleira com as cervejas no outro. A barriga proeminente do tio manifestava a constante preocupação com o tema: será que o pão chega para todos? é que febra não falta!, apontando a tia Filomena que aparecia carregada de sacos, em passos lentos e ar infeliz, pronta a dar notícia dos mais recentes achaques.
Guardo no cantinho das memórias felizes estes Verões, na época em que fazíamos piqueniques e eu era tão pequeno que nem me lembro onde ficava o pinhal. O meu irmão João era ainda mais pequeno e ainda não tinham nascido os primos, as criaturas distantes com quem não brincámos em crianças nem em adultos. Outro dia perguntei ao João se se lembrava do pinhal mas ele não, e no entanto recordo-me de jogarmos às escondidas, do pai pegar na bola e desenhar balizas com pedras quando se fartava de ouvir a mãe dizer que o tomate fazia bem à próstata. Não te lembras, João, ficávamos horas a jogar à bola com o pai, às vezes a tia Joana, se cansada das conversas das doenças e dos filhos por parir, e o tio Alfredo a fazer de árbitro, afundado na rede que atava às árvores quando se esvaziava a geleira. Alguma vez agarraste nos teus filhos, João, e no automóvel caro, e carregaste cestas de piquenique num pinhal?
- Recordar é viver
Guardo no cantinho das memórias felizes estes Verões, na época em que fazíamos piqueniques e eu era tão pequeno que nem me lembro onde ficava o pinhal. O meu irmão João era ainda mais pequeno e ainda não tinham nascido os primos, as criaturas distantes com quem não brincámos em crianças nem em adultos. Outro dia perguntei ao João se se lembrava do pinhal mas ele não, e no entanto recordo-me de jogarmos às escondidas, do pai pegar na bola e desenhar balizas com pedras quando se fartava de ouvir a mãe dizer que o tomate fazia bem à próstata. Não te lembras, João, ficávamos horas a jogar à bola com o pai, às vezes a tia Joana, se cansada das conversas das doenças e dos filhos por parir, e o tio Alfredo a fazer de árbitro, afundado na rede que atava às árvores quando se esvaziava a geleira. Alguma vez agarraste nos teus filhos, João, e no automóvel caro, e carregaste cestas de piquenique num pinhal?
- Recordar é viver
Provérbio nocturno
O Alberto era professor de português mas amava secretamente os requintes de tudo o que era francês. Além da nouvelle cuisine e das lutas políticas, tinha um fétiche voraz por lingerie. O apetite era tal que inventava idas à casa de banho em casa de amigas e familiares para uma pesquisa febril ao cesto da roupa suja. Marília, uma das cunhadas, era visita frequente das suas noites de vigília, trajando certas cuecas vermelhas com a bóina preta por cima de uma peruca de caracóis louros. Apareciam-lhe imagens de várias mulheres do quotidiano: a D. Lurdes, quarentona de quarentena na secretaria da escola, e também a empregada de rabo de cavalo do café do Silva, e outras mais fugazes como a morena no comboio, que lhe alimentavam sonhos de ménage. Habituou-se a não usar pijama, até no Inverno, pois ardia de desejo e despertava encharcado. De manhã, exibia olheiras profundas das insónias povoadas de rendas e meias de liga. A primeira aula era um suplício, Alberto confundia o sujeito com o predicado e os complementos eram todos indirectos. Os alunos bichanavam, tentando adivinhar o que levaria este professor de ar desmazelado a passar as noites em claro...
- Noites alegres, manhãs tristes
- Noites alegres, manhãs tristes
Provérbio com nome de imperador
César não acreditava no amor, apesar do seu nascimento ter tido origem numa paixão avassaladora. O pai fugira do fascismo em direcção ao Maio de 68 e deixara-o a germinar na barriga da mãe, com a promessa de um bilhete de avião. Nem o bilhete nem qualquer notícia chegaram nunca na volta do correio, e a mãe aos poucos foi perdendo a esperança e secando as lágrimas. No dia em que César fez 5 anos recebeu um triciclo e um pai novo. Lembra-se bem desse triciclo que resistiu durante muito tempo, empanado e ferrugento, mais anos do que durou o homem que lhe pôs o nome Martins na certidão. Deu-lhe o apelido mas levou-lhe a herança da avó Maria na bagagem e, ainda não tinha César terminado a instrução primária, já lhe entrava outro padrasto porta dentro. O Matos era um tipo bonacheirão que gargalhava avinhado de cada vez que a mãe lhe suplicava ajuda para pagar as contas. César recorda-se de passar tardes inteiras em silêncio, a olhar os patos no jardim da Estrela ao lado do avô viúvo, na mesma altura em que chegou a notícia da prisão do Matos, que se tinha envolvido numa rixa num tasco em Santa Apolónia. A adolescência trouxe pontualmente outros homens, mas a mãe tornara-se céptica e não os queria a viver lá em casa, recusava-se a passar a ferro camisas de homem que não pertencessem ao filho. Houve o Mendes, um ascensorista sonhador, que partira lavado em lágrimas quando a mãe recusou acompanhá-lo numa nova vida no Brasil; depois apareceu o Marques que era casado, tinha bigode e trazia presentes caros, e ainda o Morais, um empresário duvidoso que era um polvo asfixiante, tal era o amor que destilava. Nesse mesmo ano César entrou para a faculdade, muito mais descansado por a mãe se ter conseguido finalmente libertar dos tentáculos do Morais. Quando se formou, já a mãe o espreitava dum cantinho das estrelas, recebeu uma carta do pai, o pai verdadeiro, um texto de fazer chorar as pedras da calçada, acompanhado de um bilhete para Paris, convidando-o ao encontro da família Mateus. César iniciou a sua vida de trabalho e nunca respondeu ao pai, e nunca respondeu ao amor. Teve apenas duas mulheres, a primeira apenas por curiosidade e necessidade, mas com a segunda chegou a sair durante quase um mês, ao ponto de meter sessão de cinema e de conservar memória das suas feições. Era um tipo egoísta e insensível quando conheceu Matilde, que lhe fez acender no peito uma sensação desconhecida. Andou feliz durante largos meses e muitos cinemas, e depois de umas férias de Verão, à beira dos quarenta e já míope dos livros de contabilidade, pediu Matilde em casamento, assegurando, claro está, a devida separação de bens.
- A César o que é de César
- A César o que é de César
Provérbio canino II
O Zé Maria era um conquistador nato. Junto dos amigos, dissertava longamente sobre as armas da sua sedução e enumerava as várias histórias de cambalhotas, actualizadas com regularidade e recheadas de pormenores picantes. Enchia o peito de ar enquanto falava das suas conquistas, remexendo os dedos pela popa num tique muito particular. Gostava de fazer papel de professor, ensinando aos amigos os truques chave da arte de bem seduzir, com frases do género:
- Mas tu julgas que chegas ao pé da gaja e dizes tipo "és muita linda" ou "és boa que se farta"? Não, pá! Aí é que estás redondamente enganado... Tens de saber dizer palavras bonitas, são música para os ouvidos das gajas, pá! Aproximas-te e dizes, por exemplo, " estou impressionado com tanta beleza", coisas assim, frases destas, percebes? E depois, sacas logo do lume de cada vez que ela puxa dum cigarro e pagas-lhe um ou dois copos... e estás garantido!
No grupo de amigos, pouca ou nenhuma importância se dava a estas conversas, já que o tema privilegiado era normalmente o derby da jornada. Mas alguns amigos desconfiavam que todas aquelas histórias eram peta... e um deles, que conhecia palavras bonitas, achava até que o Zé Maria era um mitómano. Nunca se lhe conheciam namoradas, nem sequer vestígios delas. Uma noite caiu-lhe de pára-quedas uma amiga da Sónia a quem patrocinou uma bebedeira mas, fora esse flagrante, tudo o resto parecia semeado numa fértil imaginação. E chegou-se mesmo a comentar, à boca pequena, que a Sónia tinha dito à Mariana que a amiga tinha dito que aquilo com o Zé Maria não tinha desenvolvido porque ele o tinha pequeno e fininho.
- Cão que ladra não morde
P.S. – Post livre de preconceitos masturbatórios, e quiçá confidenciando que o Zé Maria frequentava salões de jogos porque gostava de jogar bilhar de bolso.
- Mas tu julgas que chegas ao pé da gaja e dizes tipo "és muita linda" ou "és boa que se farta"? Não, pá! Aí é que estás redondamente enganado... Tens de saber dizer palavras bonitas, são música para os ouvidos das gajas, pá! Aproximas-te e dizes, por exemplo, " estou impressionado com tanta beleza", coisas assim, frases destas, percebes? E depois, sacas logo do lume de cada vez que ela puxa dum cigarro e pagas-lhe um ou dois copos... e estás garantido!
No grupo de amigos, pouca ou nenhuma importância se dava a estas conversas, já que o tema privilegiado era normalmente o derby da jornada. Mas alguns amigos desconfiavam que todas aquelas histórias eram peta... e um deles, que conhecia palavras bonitas, achava até que o Zé Maria era um mitómano. Nunca se lhe conheciam namoradas, nem sequer vestígios delas. Uma noite caiu-lhe de pára-quedas uma amiga da Sónia a quem patrocinou uma bebedeira mas, fora esse flagrante, tudo o resto parecia semeado numa fértil imaginação. E chegou-se mesmo a comentar, à boca pequena, que a Sónia tinha dito à Mariana que a amiga tinha dito que aquilo com o Zé Maria não tinha desenvolvido porque ele o tinha pequeno e fininho.
- Cão que ladra não morde
P.S. – Post livre de preconceitos masturbatórios, e quiçá confidenciando que o Zé Maria frequentava salões de jogos porque gostava de jogar bilhar de bolso.
Provérbio canino
Era uma segunda-feira de manhã, essa hora amaldiçoada para quem vem com a embalagem de sono do fim de semana. Pedro acordou meia hora depois do despertador e, ainda meio a dormir, cuidou rapidamente da higiene diária. Quando estava prestes a sair correndo para o trabalho, atravessa-se-lhe no caminho Tintin, o cão, de focinho em súplica para o levar à rua. Normalmente até lhe sabia bem o passeio matinal com o primeiro cigarro do dia e o cão farejando os vestígios de presenças nocturnas.... mas hoje o Tintin tinha de ir numa pata e voltar na outra. Pedro desceu carregado que nem um ovo, abriu a porta do prédio ao cão e dirigiu-se ao porta bagagens para empacotar a reunião da manhã. Um minuto depois ouviu um grito e viu, perplexo, um polícia com o Tintin pendurado num braço. De um salto tentou soltar a dentadura canídea do braço do polícia que já perguntava:
- É seu, o cão? Este cão é um perigo! Devia ser era abatido! Não sabem educá-los é o que é! – ofegava, furioso – Ora deixe cá ver os documentos e o seguro do cão.
- Estão no carro...
Tintin mijava copiosamente uma roda do carro com os nervos. Pedro espreitou o relógio enquanto procurava os papéis, a reunião devia estar quase a começar. O polícia mirou-os com agressividade:
- Pedro Antunes, é o senhor? Ora deixe cá ver a sua identificação. Mas o cão não está registado na mesma morada. Porquê, hein? O cão tem as vacinas em dia? Eh lá, há aqui uma que já passou da validade!
Já devia ter ido no mês passado ao veterinário, lembrou-se Pedro enquanto via o polícia a espumar cada vez mais colérico. A situação suava a problema por todos os poros e o Tintin resolve dar-lhe um desfecho, presenteando o sapato do polícia com as suas fezes sem a vacina da raiva em dia.
- Mas qu’esta merda? Isto é demais! Acompanhe-me já à esquadra !
Pedro Antunes foi presente a juiz na terça-feira de manhã, acusado do seu cão não cumprir as normas de higiene e segurança e por desrespeito à autoridade. Apanhou pena suspensa com cinco meses de serviço comunitário e pagou uma multa de 640 euros. Quando finalmente chegou a casa, os olhos cansados de ver o sol nascer quadrado, olhou para Tintin com as lágrimas nos olhos. Este cão sempre tinha sido um caso singular de desobediência, e ainda mais desde que a Alice, a ex-namorada que o tinha trazido, os abandonara por um baterista de doom metal que tinha dois gatos pretos. Era impossível continuar a mantê-lo, depois da pior noite da sua vida e agora sem dinheiro. Havia uma possibilidade de juntar o útil ao agradável, pensou Pedro, entregar Tintin num canil e aí mesmo propôr-se a prestar o serviço comunitário. Meu dito meu feito, lá foram eles ao canil da paróquia onde foram recebidos por uma simpática senhora de carrapito. Pedro relatou-lhe toda a história que já conhecemos e ela entreteve-os lentamente pelas instalações, depois de um telefonema em surdina. Tudo parecia correr de feição, quando irrompeu pela recepção o polícia de ontem, ainda apresentando sintomas de raiva:
- Fui aqui chamado por abandono flagrante de cão por dono!... Olhó Sr.Antunes ! Ora cá nos encontramos outra vez...
- Preso por ter cão, preso por não ter
P.S. – Post livre de preconceitos métricos, e quiçá perdoando-me os ouvintes por o verbo ser demasiado extenso.
- É seu, o cão? Este cão é um perigo! Devia ser era abatido! Não sabem educá-los é o que é! – ofegava, furioso – Ora deixe cá ver os documentos e o seguro do cão.
- Estão no carro...
Tintin mijava copiosamente uma roda do carro com os nervos. Pedro espreitou o relógio enquanto procurava os papéis, a reunião devia estar quase a começar. O polícia mirou-os com agressividade:
- Pedro Antunes, é o senhor? Ora deixe cá ver a sua identificação. Mas o cão não está registado na mesma morada. Porquê, hein? O cão tem as vacinas em dia? Eh lá, há aqui uma que já passou da validade!
Já devia ter ido no mês passado ao veterinário, lembrou-se Pedro enquanto via o polícia a espumar cada vez mais colérico. A situação suava a problema por todos os poros e o Tintin resolve dar-lhe um desfecho, presenteando o sapato do polícia com as suas fezes sem a vacina da raiva em dia.
- Mas qu’esta merda? Isto é demais! Acompanhe-me já à esquadra !
Pedro Antunes foi presente a juiz na terça-feira de manhã, acusado do seu cão não cumprir as normas de higiene e segurança e por desrespeito à autoridade. Apanhou pena suspensa com cinco meses de serviço comunitário e pagou uma multa de 640 euros. Quando finalmente chegou a casa, os olhos cansados de ver o sol nascer quadrado, olhou para Tintin com as lágrimas nos olhos. Este cão sempre tinha sido um caso singular de desobediência, e ainda mais desde que a Alice, a ex-namorada que o tinha trazido, os abandonara por um baterista de doom metal que tinha dois gatos pretos. Era impossível continuar a mantê-lo, depois da pior noite da sua vida e agora sem dinheiro. Havia uma possibilidade de juntar o útil ao agradável, pensou Pedro, entregar Tintin num canil e aí mesmo propôr-se a prestar o serviço comunitário. Meu dito meu feito, lá foram eles ao canil da paróquia onde foram recebidos por uma simpática senhora de carrapito. Pedro relatou-lhe toda a história que já conhecemos e ela entreteve-os lentamente pelas instalações, depois de um telefonema em surdina. Tudo parecia correr de feição, quando irrompeu pela recepção o polícia de ontem, ainda apresentando sintomas de raiva:
- Fui aqui chamado por abandono flagrante de cão por dono!... Olhó Sr.Antunes ! Ora cá nos encontramos outra vez...
- Preso por ter cão, preso por não ter
P.S. – Post livre de preconceitos métricos, e quiçá perdoando-me os ouvintes por o verbo ser demasiado extenso.
Subscrever:
Mensagens (Atom)