Provérbios Provados noutras casas:

domingo, 5 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - LXXII

Vai enchend' a galinha o papo
Recusa usar guardanapo
Come devagar grão a grão
Do milho vai fazer digestão

Tod' ela deveras paciente
E também muito previdente
Vai bicando com tod' a pachorra
Confiante que é uma porra

Gostava de ser com' a galinha
E andar paciente na linha
Mas sou uma grande precipitada
A refeição como duma vezada


Provérbio provado rimado - LXXI

O António era um bon vivant
E um pouco menino da mamã
Era extremamente gastador
No que toca a casos d' amor

Comprava lingerie à Maria
Pagava uns copos à Sofia
Com a Rita fez umas viagens
E pagou com cartão as portagens

Pernoitava em muitos motéis
Com várias casadas infiéis
Não fazia contas ao dinheiro
Não sabia o qu' era mealheiro

Até que o seu amigo de infância
Lhe disse Tó não sejas criança
Este amigo é quem te avisa
Aprend' a esconder no bolso o Visa

Provérbio provado rimado - LXX

O rei dos dentes é o alho
N' açorda à mesa do Fialho
Ali perto do velh' aqueduto
Qu' há muito tempo não desfruto

Da Natacha espero convite
A ver se no fim não se demite
Qu' esse fim seja um de semana
E reveja o templo de Diana

Onde "giralmente" s' encontram
E sem pavor não s' amedrontam
Os eborenses nessa praça
Qu' é o centro duma vida lassa

Ali vive-se em tranquilidade
Respira-se com facilidade
Eis que saudosa já antevejo
A beleza dum certo Alentejo

Provérbio provado rimado - LXIX

Largos dias têm cem anos
Adeus ó minhas encomendas
Estou cansado de contendas
De colar a cuspo os danos

P'ra ganhar até o ferro nada
Perder é na morte um zero
E se pensam que eu exagero
Queiram tê-la anunciada

A ideal era imprevisível
Tombar na fila do talho
E a ninguém dar trabalho
Se calhar estou a ser insensível

Ou melhor achá-la na cama
Fruindo do largo prazer
D' outro corpo acometer
Não me livro dessa fama

Enquanto daqui me despeço
Toquem-me no funeral
A grande marcha triunfal
Que a vida já não meço

Provérbio provado rimado - LXVIII

Nem de tod' o pau se faz mercúrio
Embor' isto pareça perjúrio
E que presto juramento falso
C' um sapato errado me calço

As pressas dão em vagares
E depois queixo-me d' azares
Qu' a cabeça ofereci à forca
Sem lavar primeir' a boca porca

Provérbio provado rimado - LXVII

São mais as vozes que as nozes
O boato quando é bem espremido
Apenas alimenta os algozes
É emprestado a fundo perdido

E dificilmente tem retorno
É somente interpretação
Mas só prejudica o dono
Não quem levantou a questão

Provérbio chuvoso

Ia pisando atentamente as pedras da calçada antevendo um jogo da macaca. Repetindo-se mentalmente
- não te atrevas a pisar o risco, não te permitas ser solta, não te ponhas a jeito, Ermelinda, não dês o peito às balas, não coloques a maçã na cabeça como um alvo, não, não, não, não digas sim a nada.
Recusando-se um abandono de si, concentrando-se em pequenos nadas quotidianos para não ter de pensar na decepção com o Fernando; o Fernando preterindo-a por uma tal de Jéssica
- mas que tipo de fulaninha se chama Jéssica?, deve ser uma qualquer atrevida de fio dental e dentes tortos, com muita pele à mostra para distrair as atenções de umas fuças lindas como o sol da noite.
Culpando-se pelos seus simples algodões azul cueca, pela ausência de maquilhagem, por todas as vezes em que não foi ao cabeleireiro, também pelas ocasiões em que
- hoje dói-me a cabeça, Fernando, estou com o período, Fernando, a pornografia é coisa de gente mal resolvida, Fernando, aqui não que alguém pode estar a ver-nos, apaga a luz, fecha a porta, olha os vizinhos.
Pensando que tantas fizera que ele se cansara. Fartara-se da falta de risadas, do seu silêncio recto, da sua tristeza sem nome, da falta de curvas e inexistência de música.

De repente largou a chover. Ergueu os olhos e bátegas grossas cairam-lhe pela face. Os transeuntes corriam a abrigar-se onde podiam. Ermelinda deixou-se ficar. Primeiro uma lágrima reticente e depois logo um rio cara abaixo até um grito profundo de raiva, que se alçou da garganta com toda a propriedade de quem retira um alçapão e dá rédea solta ao desespero. E ali ficou na rua quase deserta, encharcada, à espera do arco íris.

- Quem anda à chuva molha-se

Provérbio provado rimado - LXVI

Há gente que parece surda
Quando se trata de conversar
Resta a quem ouve ser muda
E deixá-la a monologar

Gosta do som da própria voz
Ama-se a si como Narciso
Mas quando s' encontra a sós
Nem s' olhar ao espelho é preciso

É uma raça muito vaidosa
E pseudo intelectual
Esaa gente palavrosa
Tão cheia de si afinal

Vistas bem as coisas assim
É apenas urbano depressiva
Gostaria de merecer-se no fim
Mas a atitude é bem recidiva

As mesmas faltas sói cometer
E monopoliza o discurso
Enquanto o outro a arrefecer
Reconstrói p' ra dentr' o percurso

Nem vale a pena refreá-la
Que se sente com a corda toda
Basta-lhe somente mirá-la
Com a cabeça a andar à roda

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - LXV

É um personagem suspeito
Muit'oleoso e mal feito
Com borbulhas no rosto
Está sempre mal disposto

Difícil de confiar
Gosta demais de falar
Segredo que lh'é contado
É logo depois espalhado

Cuidado com esta gente
Quanto mais jura mais mente
Mais valia um megafone
Ou uma escuta no telefone

Não se façam confidências
Nem tentações de cedências
Ê melhor passar ao largo
Fazer ali logo embargo

Provérbio provado rimado - LXIV

Firmino é bom bebedor
Nem precisa ter calor
Água não entra na garganta
Só vinho a sede lh'espanta

Vai de jarro ou garrafão
É o qu'esteja ali à mão
Ou directamente da pipa
Na taberna da Filipa

Já é bem reconhecido
P'lo zumbido no ouvido
Põe-se alto a praguejar
Ninguém o fica a escutar

E quando chegam as vindimas
Canta maçudo umas rimas
Com a voz muit'embargada
E apoiado na cunhada

Nessa altura é insistente
Tão chato e irreverente
E quando s'acaba a prova
É assim de caixão à cova

Provêrbio provado rimado - LXIII

Será bege ou amarelo
Cor de calção ou chinelo?
Será castanho ou cinzento
Quand' arrefece ao relento?

Será vermelho raivoso
Ou verde quando é teimoso?
Cor de rosa com calor
Preto eem todo o seu esplendor

Não se consegue definir
E nem sequer decidir
Cor de burro quando foge
Ontem e muito menos hoje

Provérbio com sete pedras na mão

O palácio chamava-se "de cristal" e ficava na segunda cidade, aquela com vontades e vaidades de primeira. Tinha um grande jardim em seu redor com grandes gaiolas contendo um sem número de espécies animais com asas.
O Sr. Amarante era de gema, na segunda cidade nascido e criado, e encarregado de abrir e fechar os portões do palácio. Muito excessivo, irascível e rabujento com os frequentadores do local, enxotava todos os que lhe pareciam estar a desprestigiar o seu paraíso. Vinham estudantes estender as capas negras na relva, crianças alimentar as aves com pedaços de pão, turistas de máquinas a tiracolo decepcionados por o cristal do palácio apenas figurar no nome. O Sr. Amarante vassourava-os, zangava-se acalorado, atirava-lhes as pedras de quando foi arranjada a calçada defronte. Chegou a ter queixas no livro de reclamações mas, como não chegou a haver nenhuma cabeça partida e a sua fama de colérico já ultrapassava os portões, não houve nenhum processo disciplinar, apenas aqui e ali uma tímida chamada de atenção.
Um dia ao Sr. Amarante baixou-lhe uma tristeza sem nome. Acabrunhado, sentou-se na relva e partilhou o farnel com os patos. Foi logo despedido.

- Quem tem telhados de vidro não atira pedras

Provérbio ocular

Há olhos mortos ainda em vida; olhos sem faísca, que não cintilam, neles nenhum lampejo de preferências ou estados de alma. Mas há outros olhos; olhos quentes, calorosos, a crepitar de desejos só vagamente disfarçados. Estes últimos são os olhos onde queremos afogar-nos, olhos terrenos com pestanas e pálpebras verdadeiras, que mexem para baixo quando envergonhados, para cima quando lhes pára o pensamento ou constróiem uma mentira, olhos que se frazem perante dúvidas ou desacordos.

Os nossos olhos são janelas que abrimos de par em par às almas que se deixam espreitar. Vêmo-las mastigar, cantarolar e mesmo sonhar. Vêmo-las serem sozinhas quando pensam que ninguém está a ver nas luzes acesas dos prédios à noite. E sentimos as nossas almas mais docemente sozinhas nessa comunhão.

- Os olhos são as janelas da alma

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - LXII

Às vezes não dá p'ra evitar
Estar co'a corda no pescoço
A tarefa não pode tardar
Fazê-la é um alvoroço

A chefe diz que é p'ra ontem
O marido que não está pronta
A amiga qu'ria anteontem
P'ra todos é grande afronta

Então é hiperventilar
Resolvê-la o quanto antes
Tentar todos agradar
Atropelando os instantes

Provérbio provado rimado - LXI

Era um amor platónico
Monopólio macarrónico
Qu'almoçava macarrão
Dormia a sesta no colchão

De certeza ressonava
E acordado bocejava
Depois de bater a sorna
Numa existência morna

Às cinco vai beber o chá
D'amada notícias não há
Não telefona nem diz nada
Desde a feira de banda desenhada

Vai espreitá-la ao café
Que está quase ali ao pé
Fica triste ao vê-la bonita
Queria-a só à bela da Anita

Ei-la alegre e bem disposta
A comer uma grande tosta
Em companhia de amigos
Novos e alguns antigos

Nos olhos brilham-lhe as íris
Como no rio mouro de Osíris
Deseja-a no corpo e na mente
E esse é um desejo premente

Sonha que a deita no leito
Num ambiente rarefeito
E a ama até à exaustão
Em arroubos de paixão

Cai a noite e o nosso Diogo
Sua em seu ardente fogo
Mas vai sozinho jantar
Às paredes não chama lar

E 'inda hão-de passar anos
O coração sofrerá danos
O Diogo até nem merece
Só que quem ama nunca esquece

Provérbio provado rimado - LX

Em Agosto ir ao leitão
Logo a seguir à procissão
É parte dum ritual
P'ra estas gentes normal

Os demais são emigrantes
Na terra muito importantes
E o seu grande desejo
Era a casa com azulejo

Corados de tanto brindar
Já vão o leitão vomitar
Mas todos cheios de manias
Que um dia não são dias

Provérbio provado rimado - LIX

Prometeu mundos e fundos
Sobre alicerces profundos 
Aceitou a Maria o noivado 
O anel e o novo penteado 

Tudo parecia de feição 
Até chegar a extrema unção 
Mas logo antes do casamento 
O noivo teve arrependimento 

Restou à Maria a promessa 
Duma filha chamada Vanessa 
Ficou sozinha no altar 
É mais fácil prometer que dar 

Provérbio provado rimado - LVIII

Tentar os pequenos pisar
P'ra se poder salientar
É tão errado e tão vil
Próprio de fera no covil

C'os fracos a valentia
Só revela cobardia
Combata-se a preguiça
Abuse-se da justiça

Provérbio provado rimado - LVII

A Fernanda era avó de cinco 
De todos cuidava com desvelo 
Repetia a Fernanda com afinco 
De todos gosto sem temê-lo 

No entanto guardava um ditado 
Que tinha trazido lá da terra 
E que às vezes inesperado 
Saía p'la boca que não s'encerra 

Os filhos das minhas filhas 
Esses sim meus netos são 
Os filhos dos meus filhos 
Poderão sê-lo ou não 

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Provérbio vizinho

A vizinha da frente era boa todos os dias. Loura, diáfana. Expressão seráfica. Sempre muito bem arranjada, da ponta da unha ao fio de cabelo. Vestida para seduzir, com rendas, cabedais, decotes pronunciados. Era casada. Saíam de manhã juntos, ela e o marido, ele também muito bem vestido, fato sem uma ruga, cabelo aparado e barba escanhoada.
O Rui vivia na porta em frente. Não sabia explicar porquê, mas havia qualquer coisa naquele casal que lhe soprava que não teriam uma vida sexual satisfatória. O Rui tinha sonhos com a vizinha pedindo-lhe que a despenteasse, a descompusesse, a tirasse do sério sem contemplações. Alguma vez, quando se encontravam no patamar, julgava ter visto nela um olhar sequioso. Mas o marido sempre por perto e o Rui não queria arriscar má vizinhança.

- Santos de ao pé da porta não fazem milagres