Provérbios Provados noutras casas:

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XL

O dinheiro não traz felicidade
Apenas atrai falsidade

Pois enquanto abunda há amigos
Quando se vai só castigos

Se um amigo queres perder
Empresta-lhe soldo sem temer

P'ra enriquecer não lhe dês tostões
Retira-lhe antes ambições

O dinheiro atrai dinheiro
Desde que fora do mealheiro

Mas cuidado que ele também voa
Se for mesmo gasto à toa

Quando haja dinheiro à vista
Toda a gente se bemquista

O dinheiro abre todas as portas
Mesmo p'ra quem tem as pernas tortas

É bem sabido que compra pão
Porém não compra gratidão

Mas afinal sempre é preciso
P'ra viver com pouco ou muito siso


Provérbio provado rimado - XXXIX

A água é a melhor bebida
Fervida alimenta a vida

Principalmente se for quente
Ela dá saúde ao ventre

A água não empobrece
Nem tão pouco envelhece

E tal como conselho com sede
Só se dá a quem se pede

Provérbio provado rimado - XXXVIII

A saúde é um bem precioso
Sobretudo num corpo jeitoso

Que não tem preço se diz
Quem a tem anda feliz

E mais vale ter boa saúde
Que pesada bolsa amiúde

Quando a saúde é cuidada
A vida é bem conservada

Quem a tem e dinheiro p'ra vinho
Pode ser que até chegue a velhinho

Muito se sente a doença
Saúde é como se não pertença

E ter saúde e liberdade
É ter no viver qualidade

Entretanto já vou terminar
Um provérbio vou enunciar

Deitar cedo e cedo erguer
Dá saúde e faz crescer

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXVII

Ó amor a quanto obrigas
Sobre ti há tantas cantigas

Amor com amor se paga
Até que a chama se apaga

Os amores quando são arrufados
Acabam por ser redobrados

O amor ajuda os atrevidos
Não os deixa andar aos caídos

O amor é um passarinho
Que não aceita gaiola nem ninho

É uma religião que não cai
Não se aleija nem solta um ai

O amor nunca envelhece
Criança p'ra sempre permanece

Vê ao longe e todavia é cego
Anda sempre em guerra c'o ego

O amor sincero é tão forte
Que vive até mesmo na morte

O amor se é forasteiro
Acaba por ser passageiro

O amor é sempre imprudente
Destemido e muito valente

E onde mandar o amor
Não há nenhum outro senhor

O amor é também como a lua
Quando ele não cresce mingua

Doze amores aqui já escrevi
Desta espécie alguns já vivi

Mas seu fim tive de aceitar
Nestas coisas não se pode mandar

E quando passa a desilusão
Logo abro o meu coração

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXVI

'Inda impera um grande machismo
Que dá todo o realce ao homem
E na sombra as mulheres se somem
Acusadas de terem romantismo

A mulher merecia mais destaque
Não por favor nem obrigação
Mas por ter também de antemão
O mesmo valor mas sem claque

Sempre encarada como suporte
Do funcionamento familiar
E cuida de todos no lar
Sem que com ela ninguém s'importe

Pois é hora de dizer um basta
Deixar a norma paternalista
Ainda que o povo insista
Em negar-lhe obra mais vasta

Porque atrás de um grande homem
Há sempre uma grande mulher
Deve ser-lhes dado a escolher
A função que em suas mãos tomem

Provérbio provado rimado - XXXV

Quem pratica o mexerico
De prudência não é muito rico
Deveria ter mais cuidado
Que de si falam ali ao lado

Deve evitar-se dizer mal
E pensar qu' é coisa normal
As sentenças sobre cada vida
São coisa de gente atrevida

Há quem adore opinar
E comportamentos criticar
É que dos outros nas costas
Se vêem as nossas expostas

domingo, 15 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXIV

O Gonçalo era agricultor
Trabalhava até ao sol pôr

Acordava sempre muito cedo
Do trabalho tinha nenhum medo

Cultivava tomate e alface
C'o suor a escorrer-lhe p'la face

Apanhava a uva e a maçã
Apressado e num grande afã

Tinha aves na capoeira
E coelhos numa coelheira

Mas o galo andava tristonho
C'um receio bastante medonho

Porque já não sabia cantar
Para assim os donos despertar

A galinha tomou-lhe as dores
E guardaram-se os despertadores

De manhã antes de pôr o ovo
Cacarejava num canto novo

É assim qu'em casa de Gonçalo
Pode mais a galinha que o galo

Provérbio provado rimado - XXXIII

Um porquinho mealheiro
Ou debaixo do colchão
Para esconder o dinheiro
Tudo é boa solução

Ou como a minha avó
Nas latinhas de bolacha
Uma ideia nunca vem só
E ali ninguém o acha

Desde que longe da vista
É poupar enquanto há
Pois como diz na revista
Não havendo poupado está

sábado, 14 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXXII

É preciso é manter a esperança
Até onde a visão a alcança
Ao fim do túnel a luz está
E continua do lado de lá

Mas não embandeirar em arco
Como o sapo que coaxa no charco
Que p'ra tudo é preciso um limite
Ou a ansiedade será dinamite

Bom é o meio termo que assegure
Pois não há mal que sempre dure
Nem bem que porém nunca acabe
Isto diz quem de viver sabe

Provérbio provado rimado - XXXI

Se com bons amigos queres contar
Aprende aqui como não tropeçar

Quando te dão um conselho amigo
Não vás logo fechar cortina ou postigo

Se tens de espreitar escondido p'la fresta
Isso é sinal que o amigo não presta

Quando é para ver se é mesmo verdadeiro
Vai em frente e empresta-lhe dinheiro

Amizade é boa mas se forem negócios
Preferível é que não cheguem a sócios

A falta do amigo há-de-se conhecer
É melhor assim que estar a aborrecer

Pois quando ele é bom e diligente
Chega a ser até melhor que parente

Ao rico mil amigos se lhe deparam
Ao pobre até os irmãos o desamparam

Se perguntam quais os defeitos do amigo
Deverás responder perdão não maldigo

Pois se há coisa boa como um vinho que trepe
É amigo presente na vida e no WhatsApp

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Provérbio de uma vida suicida

Ela não era de cá. Pelo menos não deste planeta. Sempre uma estranha em terra estranha. Nunca esse sentimento de pertença. Ela toda brisa. Conseguiria colocar os pés no chão, caso o desejasse, mas nela nunca esses instantes. Nela uma imaginação esvoaçante, viajando incessante por territórios inacessíveis. Ela toda fora do mundo, inventando labirintos inexplorados, mapas redondos sem fronteiras. Nenhuma vocação cartográfica, nenhuma vontade de regras. Um esforço intenso na direcção da memória lisa, a recordação branca, uma curiosidade de surpresas constantes cada vez mais limpas. Nela uma ausência de dor. Morreu jovem. Tratou disso com as próprias mãos quando, toda ela espanto, descobriu que as tinha nas extremidades das asas. Morreu jovem para não envelhecer lentamente mastigada pela máquina. Não se despediu, claro. Foi melhor assim.

- Morta sim, mas presa não

Provérbio outonal - II

Tenho um bocado de pena deste calor, coitado. É aquele bêbado muito bêbado que insiste repetidamente em mais uma para o caminho, cada essa sempre a última e o caminho cada vez mais aos ésses. Ou outra letra, qualquer uma serve, já não conhece a direcção nem sabe regressar a direito, e há que dizer-lhe com todos os éfes e érres que está na hora de ir para casa. Mas ele continua a empastelar a voz, atrasando-se em gestos muito lentos, sempre a recontar como entrou Maio adentro sem avisar, assustando deveras a Vera, a prima de faces coradas e cheiro a flores campestres, de quem todos têm sempre saudades. E já estão a ficar sem paciência para este Verão tão inoportuno, duma arrogância sem relógio no pulso, que chega ruidosamente adiantado e não sabe despedir-se a tempo, mas há sempre quem, seja por educação ou por não gostar de arrumar o biquíni, o acompanhe na eterna última bebida, desde que devidamente alapado à sombra. O Verão nem agradece, vê-se que habituado aos mimos de estação preferida, com maioria absoluta inquestionável. Muitas rugas devidas a bronzeados indiferentes, daqueles que vão entrando pele adentro sem com licença, um casal de sóis numa relação passional muito brilhante. Claro que são dois e andam de braço dado, nem pensar que um só sol responsável por tardes assim tão brancas e roupa alagada em pastosas gotas de suor. Tantas vezes vai o cântaro à fonte que um dia volta sem trocos, não é assim que se diz? E então o Verão finalmente parte com as aves migratórias mais retardatárias para ir ser entronizado no hemisfério que acabou de destituir o frio que andou a roubar a alegria às pessoas.
Por onde andas, Outono? O bilhar grande não é assim tão longe e, repara, só depois das trovoadas que acompanham as vindimas e das marés vivas é que podíamos dar passagem aos arco íris. Se calhar estás para aí metido num engarrafamento de fim de tarde, agora que as escolas estão cheias de crianças de novo e junto às portas destas muitos carros acotovelando-se, prontos a engolir mochilas pesadas e cabelos num desalinho. Ou então ficaste chateado, por se dizer por aí nas conversas de café que já não há meias estações, a culpa é do homem ter ido à lua, parece. Faz como a Vera, deixa-os falar. Na lua não caem folhas das árvores quando começam as primeiras chuvas. Na lua não há sapatos fechados fechados em caixas que se abrem quando tu chegas. Não há gavetas cheias de camisolas de lã à tua espera num murmúrio de borbotos amargurados. Lá na lua não se diz vou pôr mais um agasalho na mala porque afinal já estamos no Outono. Está a chegar a tua hora, não te atrases, sabemos que tens sempre o relógio certinho por causa da mudança da hora, e agora que o sol está solteiro de novo é mais fácil convencê-lo a ir cada vez mais cedo para a cama.

- No Outono o sol tem sono

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Provérbio planetário

A professora ensinava todas as matérias. Tinha de pôr os alunos a ler, a escrever, a tratar por tu a língua mãe. A língua não apenas mãe, a língua também pai, irmãos, avós, tios, a língua uma família feliz de palavrinhas unidas entre si por laços às vezes forçados e improváveis.
Era preciso também não esquecer os números, a professora sempre a trazê-los à baila num bailado misterioso. Haverá lá coisa mais filosófica que o número? Mas ela escondia esse conceito vago e vagaroso. Tinha era de pôr os alunos a contá-los, encarreirados numa linda falua que lá vem, lá vem mais um, agora menos um. E os alunos a contar coisas e loisas, quantos lápis há na caixa?, quantos carneiros são precisos até adormecer?, é mais fácil essa matemática apoiada no quotidiano.
E depois essa matéria tão vasta, a das ciências da natureza, a abarcar tudo o que há na terra, o visível e o invisível, às vezes deus e o diabo ao barulho, as crianças cheias de perguntas, numa alegre mistura de ciência intercalada pelo folclore dos avós.
Nesse dia a professora Célia vinha um bocado aflita: o ensino era o básico, mas o tema não era. Como explicar os movimentos de rotação e translacção a crianças tão pequenas? O universo infinitamente grande e nós humanos tão pequenos, grãos de areia na praia do cosmos. Trazia laranjas para ajudar a exposição. Ela, a professora, fazia de sol; engraçado como os adultos se colocam em destaque, logo ela tão tímida a estrela mais importante e vaidosa de todas. Ia rolando as laranjas devagar enquanto dizia:
- Assim à medida que roda a terra à volta de si própria, reparem meninos, deste lado é dia, na outra metade noite. Mas ela vai rodando também à roda do sol - e a professora Célia, numa dança perfumada de citrinos, fazia os movimentos - estão a ver? Enquanto deste lado é verão, no outro é inverno. Quem quer ajudar-me a explicar aos colegas?
E logo o Afonso, do alto da sua importância de primeiro rei, com os ouvidos cheios de cultura popular, ergueu-se afoito de dedo no ar:
- Isso é muito fácil, senhora professora, é como diz a minha avó:

- Anda meio mundo a enganar outro meio

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Provérbio feminino pequenino

Chama-se Susana mas chamam-lhe Susaninha, talvez por parecer dez réis de gente: muito baixinha e franzina, é na secção de criança das lojas que arranja roupa que lhe sirva. É por isso que traja com cores de bebé crescida, folhinhos e rendinhas qb, e nas camisolas bonecada com fartura. Para ajudar à festa, Susaninha não se maquilha nem usa saltos altos.
Por tudo isto se imagina uma total ausência de sex appeal: não podia haver maior engano!; por detrás daquela aparência sonsa e fofinha, Susaninha é uma fêmea predadora com F e P grandes. Actua pela calada, fitando o macho de baixo para cima, cheia de pestanas, desviando timidamente o olhar quando é apanhada. Esse jogo silencioso é repetido vezes sem conta, recatadamente. Não participa nas conversas, finge que não é com ela se a interpelam, deixa-se estar placidamente a observar numa atitude despreocupada, com os atacadores desapertados. Com este ar de menina ternurenta e desprotegida, aguarda pacientemente que o objecto desse desejo recente se ofereça para a levar a casa. Antes de dobrar a última esquina há um túnel: é aí que a Susaninha, de repente enorme, ataca no escuro sem dar tempo a qualquer reacção do outro lado. Ah, se aquele túnel falasse... Mas já se sabe que as paredes têm ouvidos, não têm boca. As presas nada contam também, envergonhados por terem sido apanhados assim de surpresa quando se julgavam senhores da situação, eles que supunham vários passeios até à porta de casa até à noite do primeiro roçar mão na mão com correspondente beijinho de passarinho. Mais envergonhados ficam ainda no depois, pois a Susaninha ignora-os dali em diante, baixando-se para apertar os atacadores quando lhe dirigem a palavra.
E quando no grupo de amigos lhe chamam porta chaves, metro e meio, e muitas outras palavras a terminar em inha, ela não se rala e responde:

- A mulher quer-se pequenina como a sardinha

domingo, 8 de outubro de 2017

Provérbio provado rimado - XXX

Há dias em que o que comes
Parece que alguns incomoda
É chamar os bois pelos nomes
E partir a loiça toda

Noutros dias é o que vestes
O que dizes e como o fazes
E se a refilar estás prestes
De tudo mirar são capazes

Pois te digo não hesites
Só custa o primeiro prato
A partir não ponhas limites
Destrói tudo com aparato

Provérbio provado rimado - XXIX

Palavras leva-as o vento
É o que diz infelizmente
Quem delas não tira sustento
Para exprimir o que sente

É verdade que são os actos
Que mais ficam na retina
Mas palavras são artefactos
Que dão mais cor à rotina

E quem navega nesse mar
De palavras para escolher
A ideal para cada lugar
A mais certa para cada ser

Torna mais rica a vivência
E encolhe a monotonia
Recusa a condescendência
De dar palavras à ventania

Provérbio provado rimado - XXVIII

Era bom não ter de vergar
A quem não sabe mandar
Mas há que engolir uns sapos
E limpar a boca aos guardanapos

Provérbio provado rimado - XXVII

Há quem se julgue bastar
E apenas consigo contar
Mas ninguém é tão alguém
Que não precise de ninguém


Provérbio provado rimado - XXVI

Burro não é gato ou cobra
Para poder ver no escuro
Nem como minhoca que dobra
Um corpo que não é duro

Burro não é um insecto
E tem fama de teimoso
Um temperamento recto
Contudo um tanto aleivoso

Burro parece humano
Às vezes põe-se a pensar
Se o tratam mano a mano
O olhar não vai desviar

Burro é simples jumento
Quando teima dá um zurro
E nesse preciso momento
A pensar morre esse burro

Provérbio provado rimado - XXV

Por vezes a precipitação
Tropeça e leva à mazela
E só depois a razão
Surge e fala por ela

É nesse corrido esgar
Que engorda o triste enfado
Mas não adianta chorar
Sobre leite derramado