Lamentavelmente, o seu aceleramento metabólico dá-se todo ao nível do sistema digestivo: os neurónios não acompanham a corrida e o pensamento é lento como a passada de um caracol pastelão, sendo capaz de dar cabo da paciência a um santo. Parece exagero? Mas não: só mesmo por milagre se aguenta uma conversa inteirinha com o Sebastião.
Ele prolonga os ditongos, arrasta as palavras, faz pausas infinitas entre frases. O interlocutor menos avisado vai aguardando que conclua qualquer das ideias - uma que seja! -, mas é debalde: o raciocínio do Sebastião não progride.
Creio sinceramente que se dará conta de que agasta quem com ele tenta dialogar; acho mesmo que tem essa noção, é impossível que não lhe passe pela massa cinzentona.
Porém, por tantas vezes se perder na argumentação, é capaz de dar valentes secas com apreciações da tanga, prolongando até ao limite a chamada conversa de chacha.
O discurso do Sebastião consegue ser a amálgama mais pastosa de frases feitas e ideias rebatidas de que há memória. Ou seja, para resumir a coisa, não se aprende rigorosamente nada. Uma picada de mosca tsé-tsé é capaz de dar menos sonolência.
Numa destas ocasiões, já fartinho de tanta potassa, o Adérito virou a cabeça na sua direcção e disparou: Ó homem de Deus, tu vê lá se fazes um resumo, vê lá se te decides mas é, caneco!, estou prestes a perder toda a paciência contigo!
Mau grado a agressividade latente na voz do amigo, o Sebastião nem pestanejou. Inspirou muito devagar, como que para arejar os corredores do cérebro, e uns segundos depois, no que pareceu uma eternidade, saiu-se com esta:
- Quem decide depressa arrepende-se devagar
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