Neste blog contam-se histórias a partir de provérbios, uns mais conhecidos que outros. Às vezes também me acontece escrever primeiro o texto e somente depois encontrar um adágio que encaixe. A receita não tem nada que enganar: misturam-se os ingredientes todos e no fim sai o provérbio quentinho do forno da cultura popular. Aqui vai um punhado de pequenos contos que seleccionei, desvendando à partida o final:
- A mulher quer-se pequenina como a sardinha
- Anda meio mundo a enganar outro meio
- No Outono o sol tem sono
- Morta sim, mas presa não
- Quem fala assim não é gago
- Quem feio ama bonito lhe parece
- Ninguém é amado se só de si tem cuidado
- Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão
- Quando o coxo de amores morre, que fará quem anda e pode?
segunda-feira, 16 de abril de 2018
domingo, 15 de abril de 2018
Provérbio provado rimado - CCCLXIII
Gente cusca dá-me nervinhos
Por gostar de criar burburinhos
E quando não sabe inventa
Lança boato ou ao menos tenta
Pior é que causa alguma mossa
Não é na sua vida é na nossa
Pois picam esses indiscretos
Muito mais que os mais chatos insectos
Por gostar de criar burburinhos
E quando não sabe inventa
Lança boato ou ao menos tenta
Pior é que causa alguma mossa
Não é na sua vida é na nossa
Pois picam esses indiscretos
Muito mais que os mais chatos insectos
Provérbio provado no supermercado
Gosto à brava de mulheres; pronto, gosto delas! A minha ex sogra dizia que eu era um mulherengo da pior espécie, que não podia ver um rabo de saias. E realmente meti os cornos à filha dela com aparato, não uma mas duas vezes. Já a minha querida mãe, generosa que só ela, chamava-me namoradeiro. Parece que a estou a ver, sempre a limpar as mãos ao avental: muito bom rapaz, o meu Paulo, mas um bocado namoradeiro, coitado, as mulheres são a sua perdição. E ela tinha razão, são mesmo!
Gosto delas altas, baixas, gordas, magras, pretas, brancas e amarelas às pintinhas. Até as um bocadinho feias marcham; aliás, tenho cá a minha teoria que as menos bonitas são bem mais esforçadas na cama. Gosto de as cortejar com afinco e de lhes dar tanta e tamanha graxa até lhes conseguir puxar pelo brilho que todas têm, mesmo as que julgam não ter. Para mim um elogio não tem hora nem lugar e o bom humor - ah, o bom humor que arranca até aquele sorriso mais difícil - faz milagres.
Só numa coisa sou um bocadito esquisito: gosto delas tenrinhas, atirem-me pedras, vá! Não digo com isto que goste de gaiatas na puberdade a cheirar a leite, mas aprecio umas mamas que ainda apontem para o céu e um rabinho bem torneado, é pecado?
Ao menos assumo-me, penso em mulheres vinte e quatro horas por dia. Tal como agora: estou aqui parado na fila a galar a moça que está atrás do balcão do supermercado. É gira todos os dias e há já alguns que venho reparando nela. A cada novo cliente que surge, pergunta bem intencionada: o que deseja? Estou cheiinho de vontade de lhe responder: desejo-a a si, minha flor! Mas não quero que se zangue, prefiro fazê-la rir. De modo que quando chega a minha vez, e ela repete sorrindo: o que deseja?, eu de imediato atiro: olhe, desejo
- Pão mole e uvas, às moças põe lindas e às velhas tira as rugas
Gosto delas altas, baixas, gordas, magras, pretas, brancas e amarelas às pintinhas. Até as um bocadinho feias marcham; aliás, tenho cá a minha teoria que as menos bonitas são bem mais esforçadas na cama. Gosto de as cortejar com afinco e de lhes dar tanta e tamanha graxa até lhes conseguir puxar pelo brilho que todas têm, mesmo as que julgam não ter. Para mim um elogio não tem hora nem lugar e o bom humor - ah, o bom humor que arranca até aquele sorriso mais difícil - faz milagres.
Só numa coisa sou um bocadito esquisito: gosto delas tenrinhas, atirem-me pedras, vá! Não digo com isto que goste de gaiatas na puberdade a cheirar a leite, mas aprecio umas mamas que ainda apontem para o céu e um rabinho bem torneado, é pecado?
Ao menos assumo-me, penso em mulheres vinte e quatro horas por dia. Tal como agora: estou aqui parado na fila a galar a moça que está atrás do balcão do supermercado. É gira todos os dias e há já alguns que venho reparando nela. A cada novo cliente que surge, pergunta bem intencionada: o que deseja? Estou cheiinho de vontade de lhe responder: desejo-a a si, minha flor! Mas não quero que se zangue, prefiro fazê-la rir. De modo que quando chega a minha vez, e ela repete sorrindo: o que deseja?, eu de imediato atiro: olhe, desejo
- Pão mole e uvas, às moças põe lindas e às velhas tira as rugas
Provérbio provado rimado - CCCLXI
Conto aqui um acontecimento
Como mo contou a minha prima
Só que não é prosa é em rima
Interrompam-me a qualquer momento
Vou então começar a contar
O caso desse tal elefante
Que se conta num breve instante
Fica em Lisboa o tal bar
Na verdade é casa de alterne
As bebidas são à comissão
Tem sofás logo no rés do chão
Já nos outros só a quem concerne
A minha prima tem uma amiga
Que foi lá colaboradora
Mas de forma muito amadora
Se o diz ninguém a desdiga
Lá conheceu o agora marido
Que era famoso empreiteiro
Parece que cagava dinheiro
E no bar andava bem bebido
Uma noite perdeu um tamanco
Tacão alto tal qual Cinderela
E ele procurou o pé dela
Por todo o Elefante Branco
Quando achou parou a admirar
Aquele pé com tão belas unhas
Que mesmo em sapatos de cunhas
Queria para sempre idolatrar
Assim combinaram esponsais
E essa ex Gata Borralheira
Subiu logo na vida à maneira
E Elefante Branco jamais
Perguntei à prima a razão
Se sabia do nome as origens
Desse bar que causava vertigens
Ela disse é só uma expressão
Uma frase própria do idioma
Significa algo muito pesado
Bem difícil de ser partilhado
Mais ainda de pôr na redoma
Como mo contou a minha prima
Só que não é prosa é em rima
Interrompam-me a qualquer momento
Vou então começar a contar
O caso desse tal elefante
Que se conta num breve instante
Fica em Lisboa o tal bar
Na verdade é casa de alterne
As bebidas são à comissão
Tem sofás logo no rés do chão
Já nos outros só a quem concerne
A minha prima tem uma amiga
Que foi lá colaboradora
Mas de forma muito amadora
Se o diz ninguém a desdiga
Lá conheceu o agora marido
Que era famoso empreiteiro
Parece que cagava dinheiro
E no bar andava bem bebido
Uma noite perdeu um tamanco
Tacão alto tal qual Cinderela
E ele procurou o pé dela
Por todo o Elefante Branco
Quando achou parou a admirar
Aquele pé com tão belas unhas
Que mesmo em sapatos de cunhas
Queria para sempre idolatrar
Assim combinaram esponsais
E essa ex Gata Borralheira
Subiu logo na vida à maneira
E Elefante Branco jamais
Perguntei à prima a razão
Se sabia do nome as origens
Desse bar que causava vertigens
Ela disse é só uma expressão
Uma frase própria do idioma
Significa algo muito pesado
Bem difícil de ser partilhado
Mais ainda de pôr na redoma
Provérbio provado rimado - CCCLX
O Zé foi hoje para a festa
E convidou a Madalena
Ela fresca após a sesta
Aceitou e a mãe teve pena
Pois queria para a sua filhota
Um mais rico namorado
Que lhe desse mais que palhota
Ou qualquer T2 partilhado
Fez ao Zé grande questionário
E ia ele a meio do ditongo
Num discurso meio perdulário
Foi com sorte salvo pelo gongo
Já bate à porta a vizinha
Cheia de rolos na cabeça
E pede emprestada farinha
Tão depressa que quase tropeça
Aproveita a interrupção
Diz adeus à sogra futura
Agarra a Madalena pela mão
Deixa a treta para outra altura
Lá nessa festa de garagem
Pede a Madalena em namoro
E ela ganhando coragem
Dá-lhe grande beijo sem decoro
Diz-lhe ó Zé estou tão satisfeita
Por passar a tua namorada
Mas a mãe vai ficar contrafeita
Para já não lhe contamos nada
Pela rua de mão dada vão
Porém chegados a casa dela
Deixa a noiva junto ao corrimão
Não vá a mãe estar à janela
A sorte deveu-a à vizinha
Que ingenuamente o salvou
Quando tocou à campainha
E com o questionário acabou
E convidou a Madalena
Ela fresca após a sesta
Aceitou e a mãe teve pena
Pois queria para a sua filhota
Um mais rico namorado
Que lhe desse mais que palhota
Ou qualquer T2 partilhado
Fez ao Zé grande questionário
E ia ele a meio do ditongo
Num discurso meio perdulário
Foi com sorte salvo pelo gongo
Já bate à porta a vizinha
Cheia de rolos na cabeça
E pede emprestada farinha
Tão depressa que quase tropeça
Aproveita a interrupção
Diz adeus à sogra futura
Agarra a Madalena pela mão
Deixa a treta para outra altura
Lá nessa festa de garagem
Pede a Madalena em namoro
E ela ganhando coragem
Dá-lhe grande beijo sem decoro
Diz-lhe ó Zé estou tão satisfeita
Por passar a tua namorada
Mas a mãe vai ficar contrafeita
Para já não lhe contamos nada
Pela rua de mão dada vão
Porém chegados a casa dela
Deixa a noiva junto ao corrimão
Não vá a mãe estar à janela
A sorte deveu-a à vizinha
Que ingenuamente o salvou
Quando tocou à campainha
E com o questionário acabou
Provérbio provado rimado - CCCLIX
Cala-me já essa matraca
Que provém duma língua velhaca
Pois as tuas artes marciais
Não são assim tão especiais
Achas que és palavroso
Mas és somente tendencioso
Ninguém consegues convencer
Quando o verbo queres dispender
Guarda mas é para melhores dias
Tais frases como as porfias
Para Domingos e dias feriados
E para os mal acostumados
Ou talvez para um referendo
Que às vezes vai acontecendo
Aí botarás faladura
Se não tiveres melhor altura
(Ilustração do Rui dos Prazeres Louraço www.instagram.com/condecascais)
Que provém duma língua velhaca
Pois as tuas artes marciais
Não são assim tão especiais
Achas que és palavroso
Mas és somente tendencioso
Ninguém consegues convencer
Quando o verbo queres dispender
Guarda mas é para melhores dias
Tais frases como as porfias
Para Domingos e dias feriados
E para os mal acostumados
Ou talvez para um referendo
Que às vezes vai acontecendo
Aí botarás faladura
Se não tiveres melhor altura
(Ilustração do Rui dos Prazeres Louraço www.instagram.com/condecascais)
Provérbio provado num verso branco - XXXIV
Não é necessária faca demasiado afiada
Ou queijo luxuoso do mais cremoso
Para que se tenha a faca e o queijo na mão
Basta um gesto desprendido até pouco ambicioso
Uma imaginação que torne tenro o pão bolorento
Qualquer vontade mais ou menos convidativa
Que dilua o instante numa memória eficaz
Assim um crê e dilui a verdade que se assemelha
Àquela vida abundante e crua
Rude autêntica fácil de mastigar
A faca corta o queijo dos dias com o polegar
Ou queijo luxuoso do mais cremoso
Para que se tenha a faca e o queijo na mão
Basta um gesto desprendido até pouco ambicioso
Uma imaginação que torne tenro o pão bolorento
Qualquer vontade mais ou menos convidativa
Que dilua o instante numa memória eficaz
Assim um crê e dilui a verdade que se assemelha
Àquela vida abundante e crua
Rude autêntica fácil de mastigar
A faca corta o queijo dos dias com o polegar
sábado, 14 de abril de 2018
Provérbio provado rimado - CCCLVIII
Deixa-me em liberdade
Quietinha na prateleira
Digo-te com honestidade
Conhecer-me-ás de gingeira
Se te dizes apaixonado
Poderei ser tua mulher
Pois guardado está o bocado
Para quem o há-de comer
quarta-feira, 11 de abril de 2018
Provérbio provado mal vislumbrado
Dantes os sentimentos jorravam dos lábios, dos gestos, de uma perfeita sintonia com o meu corpo que se cria total. Agora só o vazio de um silêncio a espaços sem promessas com olhares tão profundos que quase doem. Gastámos as palavras que, ao menos, podiam tentar interpretar-se... mas um olhar?, como devolver um olhar podendo este ter mais de dez significados? Vejo-te tão calado. E só agora descubro que sempre estiveste assim. Nunca reparei porque enchia o ar com a minha presença, ocupada que estava com as minhas próprias sensações. É tão triste perder-te aos poucos, mas nem assim te queria sentir a partir mais rapidamente.
- Pior cego é aquele que não quer ver
- Pior cego é aquele que não quer ver
Provérbio provado rimado - CCCLVII
Às vezes tenho a sensação
De estar a falar p'ró boneco
Se ninguém me presta atenção
Fico perto de me dar um treco
Pois gosto de ter audiência
Feed back e vários ouvidos
Assim haja paciência
E não estejam entupidos
Cheiinhos de bastante cera
Da que não sai com cotonete
Eu fico rápido uma fera
E vou falar mas é com a retrete
Mas a pior cera que existe
É a que está dentro da cabeça
Esse boneco é mais triste
Mais burro essa é que é essa
Com este discurso não quero
Parecer de todo arrogante
Muita tolerância espero
Vá lá não me achem pedante
Já estou bem habituada
A ninguém ser indiferente
Ou de mim não gostam nada
Ou veem o meu coração quente
Quando comecei esta rima
O meu assunto era um
Mas logo ideia peregrina
Levou-me para tema nenhum
Pois bem aqui me despeço
Perdoem-me a parvoíce
Às vezes a palavra não meço
E descamba em grande chatice
De estar a falar p'ró boneco
Se ninguém me presta atenção
Fico perto de me dar um treco
Pois gosto de ter audiência
Feed back e vários ouvidos
Assim haja paciência
E não estejam entupidos
Cheiinhos de bastante cera
Da que não sai com cotonete
Eu fico rápido uma fera
E vou falar mas é com a retrete
Mas a pior cera que existe
É a que está dentro da cabeça
Esse boneco é mais triste
Mais burro essa é que é essa
Com este discurso não quero
Parecer de todo arrogante
Muita tolerância espero
Vá lá não me achem pedante
Já estou bem habituada
A ninguém ser indiferente
Ou de mim não gostam nada
Ou veem o meu coração quente
Quando comecei esta rima
O meu assunto era um
Mas logo ideia peregrina
Levou-me para tema nenhum
Pois bem aqui me despeço
Perdoem-me a parvoíce
Às vezes a palavra não meço
E descamba em grande chatice
Provérbio provado amantizado
Não percamos tempo aqui a encher linhas e linhas com palha para provar este provérbio. Sejamos sucintos e sintéticos e vamos mas é direitinhos à história.
A nossa heroína é um par de anos mais nova do que o marido. Ele divorciou-se da primeira mulher porque se encantou pela sua frescura e vai daí pediu-a em casamento. Então ela, anteriormente a ilegítima, casou com ele por interesse. No dinheiro, claro!, porque o interesse nele não era nenhum.
O marido foi operado à próstata e, como dizê-lo com elegância?, agora já não consegue consumar a conjugalidade no leito. Ela não perde tempo e arranja um amante viçoso na casa dos vinte a quem dá uma mesada com o dinheiro do marido que, por sua vez, afoga as tristezas não no álcool, mas a especular na bolsa em acções com capital de giro.
O mais que provável um dia dá-se: perde tudo e fica mais pobre do que ela em solteira. Arranca os poucos cabelos que ainda lhe restam, desespera-se, roga-lhe que não o deixe. Ela faz ouvidos de mercador e não vai de modas: pega nas malas de marca e nos sapatos de luxo e vai viver com o amante à beira da portagem da auto estrada. Fim da nossa história.
- Quando a pobreza bate à porta, o amor sai pela janela
A nossa heroína é um par de anos mais nova do que o marido. Ele divorciou-se da primeira mulher porque se encantou pela sua frescura e vai daí pediu-a em casamento. Então ela, anteriormente a ilegítima, casou com ele por interesse. No dinheiro, claro!, porque o interesse nele não era nenhum.
O marido foi operado à próstata e, como dizê-lo com elegância?, agora já não consegue consumar a conjugalidade no leito. Ela não perde tempo e arranja um amante viçoso na casa dos vinte a quem dá uma mesada com o dinheiro do marido que, por sua vez, afoga as tristezas não no álcool, mas a especular na bolsa em acções com capital de giro.
O mais que provável um dia dá-se: perde tudo e fica mais pobre do que ela em solteira. Arranca os poucos cabelos que ainda lhe restam, desespera-se, roga-lhe que não o deixe. Ela faz ouvidos de mercador e não vai de modas: pega nas malas de marca e nos sapatos de luxo e vai viver com o amante à beira da portagem da auto estrada. Fim da nossa história.
- Quando a pobreza bate à porta, o amor sai pela janela
Provérbio provado rimado - CCCLVI
É tão difícil compreender
A sorte que tanto varia
Se um dia parece render
No seguinte logo contraria
Andamos aos seus desmandos
Mesmo quem não acredita nela
Tem lá seus comos e quandos
Vêmo-la passar da janela
Vai sempre a acelerar
No fundo atende a todos
Mas alguns saem a ganhar
Esses que têm sorte a rodos
Há quem leve a coisa a sério
E creia que tem tão má sorte
Que solte até o impropério
De preferir desejar a morte
A sorte que tanto varia
Se um dia parece render
No seguinte logo contraria
Andamos aos seus desmandos
Mesmo quem não acredita nela
Tem lá seus comos e quandos
Vêmo-la passar da janela
Vai sempre a acelerar
No fundo atende a todos
Mas alguns saem a ganhar
Esses que têm sorte a rodos
Há quem leve a coisa a sério
E creia que tem tão má sorte
Que solte até o impropério
De preferir desejar a morte
Provérbio provado rimado - CCCLV
Para te atribuirem a fama
De algo que não fizeste
Até podes nem sair da cama
Vão dizer que nada perdeste
E não adianta retaliar
Nem chorar opá não fui eu
Que irão continuar a afirmar
A dizer ele bem o mereceu
Coisas que não andam aos pares
Essas da fama e do proveito
Pois é que azar dos azares
Só sabem fazer dor de peito
De algo que não fizeste
Até podes nem sair da cama
Vão dizer que nada perdeste
E não adianta retaliar
Nem chorar opá não fui eu
Que irão continuar a afirmar
A dizer ele bem o mereceu
Coisas que não andam aos pares
Essas da fama e do proveito
Pois é que azar dos azares
Só sabem fazer dor de peito
Provérbio provado num verso branco - XXXIII
De uma vez por todas aceitem-se as derrotas
A soma dos infortúnios salda-se em aprendizagem
De tanto malhar em ferro frio obtém-se uma nova armadura
Resistente às intempéries e fogos fátuos
E que já não cega perante o espectáculo de uma aurora boreal
Não há fome que não dê em fartura
Sejam tamanhas perdas afinal melhores que muitas vitórias
Para que cresça o desejo da superação
Para que aconteça a rendição àquela felicidade decerto possível
A vida num sopro
Essa vida tão simples
A soma dos infortúnios salda-se em aprendizagem
De tanto malhar em ferro frio obtém-se uma nova armadura
Resistente às intempéries e fogos fátuos
E que já não cega perante o espectáculo de uma aurora boreal
Não há fome que não dê em fartura
Sejam tamanhas perdas afinal melhores que muitas vitórias
Para que cresça o desejo da superação
Para que aconteça a rendição àquela felicidade decerto possível
A vida num sopro
Essa vida tão simples
terça-feira, 10 de abril de 2018
Provérbio provado rimado - CCCLIV
Amar é mar no feminino
Como a mais alta maré
É onda que rouba o tino
Cuidado não percas o pé
No meio de tanta água
Leva um barco contigo
Para o amor não ter mágoa
E o vento ser teu amigo
Composto de madeira forte
Que não seja um barco precário
Não te faça rumar para norte
Onde todo o vento é contrário
É capricho da Natureza
Se depois de chuva nevoeiro
Terás peixe na tua mesa
E bom tempo marinheiro
Como a mais alta maré
É onda que rouba o tino
Cuidado não percas o pé
No meio de tanta água
Leva um barco contigo
Para o amor não ter mágoa
E o vento ser teu amigo
Composto de madeira forte
Que não seja um barco precário
Não te faça rumar para norte
Onde todo o vento é contrário
É capricho da Natureza
Se depois de chuva nevoeiro
Terás peixe na tua mesa
E bom tempo marinheiro
Provérbio provado rimado - CCCLIII
Estar com um grãozito na asa
Acontece em muita casa
Às vezes é o que faz falta
Para animar bem a malta
Com os cotovelos na mesa
Afasta qualquer tristeza
Na companhia de amigos
Livra de todos os perigos
E se não houver mau vinho
Só embebeda um bocadinho
Pode dar em cantoria
Partilha e muita alegria
Acontece em muita casa
Às vezes é o que faz falta
Para animar bem a malta
Com os cotovelos na mesa
Afasta qualquer tristeza
Na companhia de amigos
Livra de todos os perigos
E se não houver mau vinho
Só embebeda um bocadinho
Pode dar em cantoria
Partilha e muita alegria
sexta-feira, 6 de abril de 2018
Provérbio provado do amor duplicado
Continuavam a juntar-se no primeiro Domingo de cada mês, embora fosse sempre um pouco complicado gerir o mau humor dos respectivos maridos que por uma tarde lá acediam a ficar a ajudar os putos com os trabalhos de casa. O da Solange era o mais compreensivo e transferia a prole para casa dos sogros, deixando-lhes a mesa da sala, liberta de cadernos, guaches e brinquedos, que se vestia de uma toalha bordada de enxoval e do serviço já incompleto que tinha pertencido à avó dela. Por causa disso, e porque fosse uma criatura saudosista, a Solange contava sempre alguma história da aldeia da sua infância. Iam sorvendo o líquido em goles lentos, mastigando biscoitos com ar pensativo, escutando-se umas às outras as habituais agruras: os desmandos da cabra da cunhada da Cláudia, a hipertensão, diabetes e artroses da Sandra, as más notas na escola dos miúdos da Leonor.
Eis que enfim a Luísa lá chegava, atrasada como sempre, desbocada como sempre. O chá já tinha arrefecido, a conversa das amigas também. Todas despertavam, vivazes como molas, e emprestavam os ouvidos às sempre insólitas aventuras que ela relatava. Divorciada há vários anos do pinguço do primeiro marido, no último Domingo a Luísa surgira particularmente excitada. Primeiro porque tinha batido com a carrinha no dia anterior e tivera uma altercação com o outro condutor. Depois - e aqui é que vinha a novidade sumarenta - porque o já antecipado flirt com o tal professor de Pilates, uma brasa!, um corpão!, chegara a vias de facto e resultara numa relação tórrida que a trazia num incêndio só.
- O problema é o Gonçalo - dizia a Luísa, meio envergonhada meio divertida - é que também gosto dele, tão fofinho, tão certinho, regrado e atinado. A água e o vinho, meninas!
Fez-se um silêncio constrangedor: as amigas de semblante incriminatório, intimamente invejosas da vida amorosa superlativa da Luísa. Foi a Solange que quebrou o gelo:
- Luísa, sua devassa!, assim não dá. Tens de optar, amiga... A minha avó é que costumava dizer - já há bocado falei dela quando a Leonor lhe partiu mais uma chávena do serviço, a desastrada! - ela é que costumava dizer que
- Mulher que a dois ama, ambos engana
Eis que enfim a Luísa lá chegava, atrasada como sempre, desbocada como sempre. O chá já tinha arrefecido, a conversa das amigas também. Todas despertavam, vivazes como molas, e emprestavam os ouvidos às sempre insólitas aventuras que ela relatava. Divorciada há vários anos do pinguço do primeiro marido, no último Domingo a Luísa surgira particularmente excitada. Primeiro porque tinha batido com a carrinha no dia anterior e tivera uma altercação com o outro condutor. Depois - e aqui é que vinha a novidade sumarenta - porque o já antecipado flirt com o tal professor de Pilates, uma brasa!, um corpão!, chegara a vias de facto e resultara numa relação tórrida que a trazia num incêndio só.
- O problema é o Gonçalo - dizia a Luísa, meio envergonhada meio divertida - é que também gosto dele, tão fofinho, tão certinho, regrado e atinado. A água e o vinho, meninas!
Fez-se um silêncio constrangedor: as amigas de semblante incriminatório, intimamente invejosas da vida amorosa superlativa da Luísa. Foi a Solange que quebrou o gelo:
- Luísa, sua devassa!, assim não dá. Tens de optar, amiga... A minha avó é que costumava dizer - já há bocado falei dela quando a Leonor lhe partiu mais uma chávena do serviço, a desastrada! - ela é que costumava dizer que
- Mulher que a dois ama, ambos engana
Provérbio provado num verso branco - XXXII
A música nunca vem do quarto que se espera
Ou a melhor melodia daqueles lençóis com mais cor
Por estas e por outras de nada adianta aquecer o caldeirão
O feitiço acaba sempre por se virar
Contra o suposto poderoso feiticeiro
O segredo é deixar a inaudível percussão
Assemelhar-se ao bater do coração
E nesse improvável compasso
Bailar ao sabor das madrugadas
Que transportam os dias das certezas derradeiras
Ou a melhor melodia daqueles lençóis com mais cor
Por estas e por outras de nada adianta aquecer o caldeirão
O feitiço acaba sempre por se virar
Contra o suposto poderoso feiticeiro
O segredo é deixar a inaudível percussão
Assemelhar-se ao bater do coração
E nesse improvável compasso
Bailar ao sabor das madrugadas
Que transportam os dias das certezas derradeiras
Provérbio provado rimado - CCCLII
As modas vão a reboque
E o que era no século passado
Dito um corpo bem desenhado
Agora é considerado batoque
Pois tecer loas à gordura
Está hoje ultrapassado
Não dá um provérbio provado
Que ela já não é formosura
E o que era no século passado
Dito um corpo bem desenhado
Agora é considerado batoque
Pois tecer loas à gordura
Está hoje ultrapassado
Não dá um provérbio provado
Que ela já não é formosura
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