Nem tudo o que vai volta
Olha a morte que não devolve quem roubou
Olha uma palavra mal dita que só te responde silêncio
Olha esse amor perdido envolto na eterna neblina
Todo o arrependimento não transforma os acontecimentos
O relógio não anda para trás apenas por quereres
O poço do esquecimento não se apieda das tuas lágrimas
É só hoje que podes evitar o remorso futuro
Um dia vais colher o que semeaste
domingo, 18 de março de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXLVIII
Eu adoro uma boa conversa
Até com as paredes eu falo
E dificilmente me calo
Mesmo se esta for controversa
Já não compro toda a guerra
Mas gosto de uma boa peleja
Desde que civilizada ela seja
Qualquer ponto de vista encerra
Até tento ser atenciosa
Ouvir e não apenas falar
E algumas ideias trocar
Quando dou dois dedos de prosa
Até com as paredes eu falo
E dificilmente me calo
Mesmo se esta for controversa
Já não compro toda a guerra
Mas gosto de uma boa peleja
Desde que civilizada ela seja
Qualquer ponto de vista encerra
Até tento ser atenciosa
Ouvir e não apenas falar
E algumas ideias trocar
Quando dou dois dedos de prosa
Provérbio provado enforcado
Ninguém sabia porque é que ultimamente no rosto dele se haviam desenhado aquelas olheiras tão fundas e parecera ter envelhecido dez anos. Só depois do acontecido é que a avó nos contou que ele não pregava olho há coisa de um mês: as noites todas na cama ora para cá ora para lá, vira para a esquerda, vira para a direita, e nem a aurora, que traz sempre uma certa redenção, o deixava abandonar-se a um sono retemperador. Sem dormir e sem conseguir desvendar uma saída para fazer face às dívidas que se acumulavam, também isto a avó nos contou. Contava tudo isto ainda não acreditando, com os olhos marejados, transbordantes, depois de ter recebido os credores, um por um, com toda a dignidade que conseguiu arranjar. Estávamos todos na sala, um silêncio gritante, escutando a avó falar da avidez dos prejudicados, das mil e uma desculpas que pedira em nome dele prometendo devolver o dinheiro até ao último tostão. Eu ouvia a avó também não querendo acreditar, mas o luto carregado dela entrava-me pelos olhos como uma evidência.
- Oh, meu Deus, como vou eu arranjar uma fortuna destas? Mas onde, meu Deus? Já não há nada para vender... Só resta esta casa e a várzea da figueira onde fui encontrar o vosso pai e avô. Ah, Severino, porque foste fazer uma coisa destas? Como foste capaz de me deixar a braços com tantos problemas?
A avó carpia assim, entre soluços, quando entrou a filha da vizinha perguntando se tínhamos com que atar o balde do poço, que tinha desaparecido a antiga... a antiga... E quase imediatamente se calou pois
- Em casa de enforcado não se fala em corda
- Oh, meu Deus, como vou eu arranjar uma fortuna destas? Mas onde, meu Deus? Já não há nada para vender... Só resta esta casa e a várzea da figueira onde fui encontrar o vosso pai e avô. Ah, Severino, porque foste fazer uma coisa destas? Como foste capaz de me deixar a braços com tantos problemas?
A avó carpia assim, entre soluços, quando entrou a filha da vizinha perguntando se tínhamos com que atar o balde do poço, que tinha desaparecido a antiga... a antiga... E quase imediatamente se calou pois
- Em casa de enforcado não se fala em corda
Provérbio provado rimado - CCCXLVII
Um T0 ou um casebre
No coração de Lisboa
Vale maquia bem boa
É vender gato por lebre
Agências imobiliárias
De duas ou uma pessoa
Põem anúncios à toa
Enganam clientes várias
Que têm sempre um gatinho
Cinzeiros a transbordar
Dispostas a arrendar
O seu próprio cantinho
Querem dar tuta e meia
Mas pagam cara a renda
Mais valeria uma tenda
Noutra cidade feia
No coração de Lisboa
Vale maquia bem boa
É vender gato por lebre
Agências imobiliárias
De duas ou uma pessoa
Põem anúncios à toa
Enganam clientes várias
Que têm sempre um gatinho
Cinzeiros a transbordar
Dispostas a arrendar
O seu próprio cantinho
Querem dar tuta e meia
Mas pagam cara a renda
Mais valeria uma tenda
Noutra cidade feia
sábado, 17 de março de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXLVI
Para que o flirt tenha pinta
É preciso ser-se cavalheiro
Se não há beleza não minta
Se a há não seja brejeiro
Tente ter alguma calma
Mas também não vá devagar
Primeiro consiga-lhe a alma
Só depois peça para se deitar
Não se fie no que é mostrado
Atente bem nas emoções
Mesmo se é muito desejado
Quem vê caras não vê corações
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço
www.instagram.com/condecascais)
É preciso ser-se cavalheiro
Se não há beleza não minta
Se a há não seja brejeiro
Tente ter alguma calma
Mas também não vá devagar
Primeiro consiga-lhe a alma
Só depois peça para se deitar
Não se fie no que é mostrado
Atente bem nas emoções
Mesmo se é muito desejado
Quem vê caras não vê corações
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço
www.instagram.com/condecascais)
Provérbio provado rimado - CCCXLV
Ficar a rapar o carolo
Depois de devorar o miolo
É talvez como chuchar no dedo
Rezar sem esperança um credo
Pois ter o estômago vazio
Esteja calor ou faça frio
É tão sofrida privação
Que se leva à noite p'ró colchão
Oh que injustiça tão feia
Que nem todos tenham mesa cheia
Desejava que houvesse fartura
Que a fome ninguém a atura
Depois de devorar o miolo
É talvez como chuchar no dedo
Rezar sem esperança um credo
Pois ter o estômago vazio
Esteja calor ou faça frio
É tão sofrida privação
Que se leva à noite p'ró colchão
Oh que injustiça tão feia
Que nem todos tenham mesa cheia
Desejava que houvesse fartura
Que a fome ninguém a atura
sexta-feira, 16 de março de 2018
Provérbios provados num verso branco em livro
Uma parte dos Provérbios provados já está impressa; precisamente aquela que nunca esperei... Agora só falta os contos e as rimas serem escarrapachados no papel.
No Dia Mundial da Poesia, 21 de Março, às 18:30, venham assistir ao lançamento do meu livro Verso branco, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora.
Estão todos convidadíssimos!
No Dia Mundial da Poesia, 21 de Março, às 18:30, venham assistir ao lançamento do meu livro Verso branco, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora.
Estão todos convidadíssimos!
quinta-feira, 15 de março de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXLIV
Infelizmente esta vida
É uma eterna despedida
Dizemos adeus ao amor
Que estimámos com fervor
Mas feliz desse coração
Que canta nova saudação
E a sorrir te diz olá
Epá ainda bem que vens lá
Esse coração é um tolo
Tem feridas dentro do miolo
Mas num novo amor já aposta
Encanta-se e jura que gosta
Conforme a música dança
Inundado de tanta esperança
Deseja desta vez conseguir
Não todo em cacos se partir
É uma eterna despedida
Dizemos adeus ao amor
Que estimámos com fervor
Mas feliz desse coração
Que canta nova saudação
E a sorrir te diz olá
Epá ainda bem que vens lá
Esse coração é um tolo
Tem feridas dentro do miolo
Mas num novo amor já aposta
Encanta-se e jura que gosta
Conforme a música dança
Inundado de tanta esperança
Deseja desta vez conseguir
Não todo em cacos se partir
Provérbio provado num verso branco - XXX
O poema anuncia-se
- Olá sou o poema -
Pálido e esfarrapado
Uma mão atrás e outra à frente
Tão teso como um carapau
Nem pode mandar cantar um cego
O poema constipa-se
- Atchim ai de mim -
Anda descalço e ao deus dará
Tem febres e um peso no peito
É uma florzinha de estufa
Desejando o vento nos cabelos
O poema traz queixumes
- Ah se soubessem -
Gastou uma vida e meias solas
À procura do verso perfeito
Quase morreu e ainda vive
De tanto viver não vai morrer já
- Olá sou o poema -
Pálido e esfarrapado
Uma mão atrás e outra à frente
Tão teso como um carapau
Nem pode mandar cantar um cego
O poema constipa-se
- Atchim ai de mim -
Anda descalço e ao deus dará
Tem febres e um peso no peito
É uma florzinha de estufa
Desejando o vento nos cabelos
O poema traz queixumes
- Ah se soubessem -
Gastou uma vida e meias solas
À procura do verso perfeito
Quase morreu e ainda vive
De tanto viver não vai morrer já
Provérbio provado rimado - CCCXLIII
Se o papagaio come milho
O periquito leva a fama
P'ró periquito é sarilho
O papagaio é quem mama
Acontece isto tanta vez
Ser outro a ter o proveito
Quem se lixa não é quem fez
Mas quem se pensa tê-lo feito
O periquito leva a fama
P'ró periquito é sarilho
O papagaio é quem mama
Acontece isto tanta vez
Ser outro a ter o proveito
Quem se lixa não é quem fez
Mas quem se pensa tê-lo feito
Provérbio provado rimado - CCCXLII
Será que é por ser pequenino
Que é um país tão ladino?
Nele abunda a desavença
Ao mal ninguém pede licença
O bem esse é descuidado
Por tão poucos alinhavado
Dedicam-se tantos a parecer
Esquecendo cultivar o ser
O mote é o desenrascanço
O povo não luta é manso
Mas nos cafés todos opinam
A erva daninha ajardinam
Plantado no cú da Europa
Rectângulo de tão suja roupa
Quando o mal é de nação
Nem vai lá a poder de sabão
Que é um país tão ladino?
Nele abunda a desavença
Ao mal ninguém pede licença
O bem esse é descuidado
Por tão poucos alinhavado
Dedicam-se tantos a parecer
Esquecendo cultivar o ser
O mote é o desenrascanço
O povo não luta é manso
Mas nos cafés todos opinam
A erva daninha ajardinam
Plantado no cú da Europa
Rectângulo de tão suja roupa
Quando o mal é de nação
Nem vai lá a poder de sabão
Provérbio provado rimado - CCCXLI
Aquela paz emocional
É tão difícil afinal
Nunca lhe dou atenção
Por ter tão cheio o coração
O mais das vezes estou triste
Porque o amor não me assiste
E consulto a almofada
Mas ela não responde nada
O segredo é continuar
Mesmo quando custa acordar
Sozinha hei-de conseguir
Esconder na almofada o sentir
É tão difícil afinal
Nunca lhe dou atenção
Por ter tão cheio o coração
O mais das vezes estou triste
Porque o amor não me assiste
E consulto a almofada
Mas ela não responde nada
O segredo é continuar
Mesmo quando custa acordar
Sozinha hei-de conseguir
Esconder na almofada o sentir
Provérbio provado rimado - CCCXL
Viver como belo burguês
E morfar lautos almoços
Subtrair sem porquês
Comer cascas e caroços
Querer todos enganar
Sem qualquer ingenuidade
E a ocasião aproveitar
Com muita sagacidade
Roubar como gente grande
Encher os bolsos com largueza
Por mais que às vezes abrande
Não deixa de ser à francesa
E morfar lautos almoços
Subtrair sem porquês
Comer cascas e caroços
Querer todos enganar
Sem qualquer ingenuidade
E a ocasião aproveitar
Com muita sagacidade
Roubar como gente grande
Encher os bolsos com largueza
Por mais que às vezes abrande
Não deixa de ser à francesa
sexta-feira, 9 de março de 2018
Provérbio provado desempregado
O Vicente vira-se desempregado quando a fábrica de rolhas de cortiça onde laborava abrira falência. Ficou a receber subsídio pois era demasiado novo para o reformarem. Era porém ainda demasiado activo para passar os dias em frente à televisão.
A sua Maria das Dores, que não tinha nenhuma - era ainda mais activa do que activo ele era - às vezes lá ligava o rádio e punha-se a cantarolar estridente, enquanto andava de divisão em divisão, tropeçando no Vicente e fazendo-o sentir-se um estorvo, pois todos os esforços que ensaiava para a ajudar resultavam em ralhos.
Foi assim que ele ganhou o hábito de ir para a biblioteca, as primeiras vezes porque não queria gastar dinheiro no jornal e lá havia-os diários e semanários, generalistas e desportivos. Depois descobriu as estantes e foi um vê-se-te-avias; começou a consumir enciclopédias no C de cortiça, mas cedo as mastigou de uma ponta à outra, até descobrir o Z com espanto. Claro que a partir daí se virou para a literatura, passando sem tabus de um policial para a literatura mais vagarosa e daí para a poesia. O Vicente andava satisfeito da vida com as suas leituras e ao fim do dia regressava a casa cheio de livros debaixo do braço: sentia que a sua vida tinha um propósito.
Uma vez chegado ao lar, dava com a Maria das Dores a arengar, acalorada entre tachos e vassouras, reclamando que a pilha da roupa suja não parava de crescer:
- Ó homem, sujas mais roupa do que quando estavas na fábrica! Era só a farda para lavar... Agora é este disparate: uma camisa lavada todos os dias, benza-te Deus! Mas tu tens alguma necessidade de andares para aí armado em doutor? Ganhaste-me este hábito de ir todos os dias para a biblioteca ler, vejam-me bem! Umas palavritas cruzadas não te bastariam para te entreteres? Um baralho de cartas, um dominó belga com o Zé Neves? Mas não, não senhor! Vens de lá carregadinho de livralhada, até poesias trazes para a ceia em vez de fazeres companhia à tua mulher. Mas tu julgas que é com esta idade que vais aprender alguma coisa, homem? Olha que
- Burro carregado de livros não é doutor
A sua Maria das Dores, que não tinha nenhuma - era ainda mais activa do que activo ele era - às vezes lá ligava o rádio e punha-se a cantarolar estridente, enquanto andava de divisão em divisão, tropeçando no Vicente e fazendo-o sentir-se um estorvo, pois todos os esforços que ensaiava para a ajudar resultavam em ralhos.
Foi assim que ele ganhou o hábito de ir para a biblioteca, as primeiras vezes porque não queria gastar dinheiro no jornal e lá havia-os diários e semanários, generalistas e desportivos. Depois descobriu as estantes e foi um vê-se-te-avias; começou a consumir enciclopédias no C de cortiça, mas cedo as mastigou de uma ponta à outra, até descobrir o Z com espanto. Claro que a partir daí se virou para a literatura, passando sem tabus de um policial para a literatura mais vagarosa e daí para a poesia. O Vicente andava satisfeito da vida com as suas leituras e ao fim do dia regressava a casa cheio de livros debaixo do braço: sentia que a sua vida tinha um propósito.
Uma vez chegado ao lar, dava com a Maria das Dores a arengar, acalorada entre tachos e vassouras, reclamando que a pilha da roupa suja não parava de crescer:
- Ó homem, sujas mais roupa do que quando estavas na fábrica! Era só a farda para lavar... Agora é este disparate: uma camisa lavada todos os dias, benza-te Deus! Mas tu tens alguma necessidade de andares para aí armado em doutor? Ganhaste-me este hábito de ir todos os dias para a biblioteca ler, vejam-me bem! Umas palavritas cruzadas não te bastariam para te entreteres? Um baralho de cartas, um dominó belga com o Zé Neves? Mas não, não senhor! Vens de lá carregadinho de livralhada, até poesias trazes para a ceia em vez de fazeres companhia à tua mulher. Mas tu julgas que é com esta idade que vais aprender alguma coisa, homem? Olha que
- Burro carregado de livros não é doutor
Provérbio provado rimado - CCCXXXIX
Do ponto A até ao ponto B
Pode traçar-se curva ou recta
Numa trajectória discreta
Ou bem marcada para quem vê
A diferença está no caminho
Pois é do prato para a boca
Que se perde ou se ganha a sopa
E esse gesto faz-se sozinho
Cada um será dono e senhor
De manejar a sua colher
E mexê-la o melhor que souber
Para assim orientar seu labor
Não é de comida que falo
É de partilhar a ciência
Do acto e sua consequência
E viver será um regalo
Pode traçar-se curva ou recta
Numa trajectória discreta
Ou bem marcada para quem vê
A diferença está no caminho
Pois é do prato para a boca
Que se perde ou se ganha a sopa
E esse gesto faz-se sozinho
Cada um será dono e senhor
De manejar a sua colher
E mexê-la o melhor que souber
Para assim orientar seu labor
Não é de comida que falo
É de partilhar a ciência
Do acto e sua consequência
E viver será um regalo
Provérbio provado rimado - CCCXXXVIII
Calças ao contrário as botas
Metes as mãos pelos pés
Ficas com as pernas tortas
E com um olhar de viés
Faz tudo mais devagar
Dá cada passo com jeitinho
Apenas consegues provar
Tudo é certinho direitinho
Se cuidas que aqui não aprendes
Nada com estas rimas tontas
É verdade porém não te ofendes
Pior era se fossem afrontas
Aqui há grande brincadeira
E passamos um bom bocado
Noutros sítios de toda a maneira
Poderás aprender de bom grado
Não te lembras qual a expressão
Que deu a esta rima o mote
Foi meter os pés pela mão
Tão trocada que é um fartote
Metes as mãos pelos pés
Ficas com as pernas tortas
E com um olhar de viés
Faz tudo mais devagar
Dá cada passo com jeitinho
Apenas consegues provar
Tudo é certinho direitinho
Se cuidas que aqui não aprendes
Nada com estas rimas tontas
É verdade porém não te ofendes
Pior era se fossem afrontas
Aqui há grande brincadeira
E passamos um bom bocado
Noutros sítios de toda a maneira
Poderás aprender de bom grado
Não te lembras qual a expressão
Que deu a esta rima o mote
Foi meter os pés pela mão
Tão trocada que é um fartote
domingo, 4 de março de 2018
Provérbio provado num verso branco - XXIX
Rascunho do que não fomos
1.
Do passado que não vivemos
Já sinto falta
Do futuro onde não estaremos
Já estou farta
O presente não faz um livro
Só este verso despido
Em que me dispo de ti
Quando falarem do casal do século vinte e um
Não dirão nada de nós
2.
As minhas avenidas são novas
O meu século é lá longe mais além
O meu tempo não tem ponteiros
Nem fronteiras ou desertos
As vielas onde me deito
Têm os olhos das corujas
Um dia é da caça outro do caçador
1.
Do passado que não vivemos
Já sinto falta
Do futuro onde não estaremos
Já estou farta
O presente não faz um livro
Só este verso despido
Em que me dispo de ti
Quando falarem do casal do século vinte e um
Não dirão nada de nós
2.
As minhas avenidas são novas
O meu século é lá longe mais além
O meu tempo não tem ponteiros
Nem fronteiras ou desertos
As vielas onde me deito
Têm os olhos das corujas
Um dia é da caça outro do caçador
sábado, 3 de março de 2018
Provérbio citado (RORIZ)
"Lembro-me da história que a Felícia me leu - em "O Banquete" de Sócrates - que fala dos andrágoras (seriam andrágoras?) que eram uns seres que tinham quatro braços e quatro pernas num total de oito membros e que se movimentavam rodando sobre esses oito membros. Os deuses teriam acabado por os dividir ao meio para que fossem menos poderosos o que deu origem à raça humana e fez com que cada um de nós ande desesperadamente à procura da sua metade. Ou, como diz o povo - que povo será este? -, cada panela tem sua tampa."
In Avenida de Roma, duas da tarde - Jaime Roriz
In Avenida de Roma, duas da tarde - Jaime Roriz
Provérbio provado rimado - CCCXXXVII
As revistas cor de rosa
Nos consultórios são lidas
Têm má qualidade na prosa
E fotografias fingidas
Estão cheias de Photoshop
Sem celulite no Verão
Há gente rica a galope
Muita moda da estação
As senhoras nos cabeleireiros
Leem-nas de fio a pavio
Comentam actores estrangeiros
Nos cruzeiros de navio
Notícias sem relevância
De plásticas cirurgias
E frases de circunstância
Vaidades e muitas manias
São públicas as figuras
E outras são mais ou menos
De amor abundam as juras
Com sentimentos terrenos
Revistas com grande tiragem
Se não houvesse quem escutasse
E apreciasse a mensagem
Não haveria quem falasse
Nos consultórios são lidas
Têm má qualidade na prosa
E fotografias fingidas
Estão cheias de Photoshop
Sem celulite no Verão
Há gente rica a galope
Muita moda da estação
As senhoras nos cabeleireiros
Leem-nas de fio a pavio
Comentam actores estrangeiros
Nos cruzeiros de navio
Notícias sem relevância
De plásticas cirurgias
E frases de circunstância
Vaidades e muitas manias
São públicas as figuras
E outras são mais ou menos
De amor abundam as juras
Com sentimentos terrenos
Revistas com grande tiragem
Se não houvesse quem escutasse
E apreciasse a mensagem
Não haveria quem falasse
quinta-feira, 1 de março de 2018
Provérbio citado (MCCULLOUGH)
«Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento... Pelo menos é o que diz a lenda.»
In Pássaros feridos - Colleen McCullough
In Pássaros feridos - Colleen McCullough
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