terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXV

Não é pelo outro que nos apaixonamos
É pela nossa imagem apaixonados pelo outro

Quando o amor resulta
Enquanto resulta
Louvamos o bom discernimento da escolha
E o espelho só devolve sorrisos
Mas se a coisa dá para o torto
Está bem de ver: a culpa é do outro

Provérbio provado entrevistado

- Anda daí, Alzira, está na hora do almoço! Se te demoras, daqui a bocado não temos lugar no refeitório. Já sabes que são sete cães a um osso...
Alzira largou a escova de cabelo, comprimiu os lábios em frente ao espelho e seguiu a colega escada acima.
Uma hora e meia chegava e sobejava para comer e ainda dar três dedos de conversa porque dois nunca eram suficientes.
O refeitório era grande e bem equipado e tinha até uma estante a um canto cheia de livros que ninguém folheava mas à qual as chefias chamavam pomposamente biblioteca. Ocupava uma área significativa do primeiro andar e era a menina dos olhos da administração. Por isso, ninguém estranhou quando na semana anterior entrou sala adentro uma jornalista ladeada por um fotógrafo, um cameraman, o patrão maior do hipermercado e respectivos lambe botas. Lá vinham eles exibir-se para a televisão e os jornais, querendo demonstrar as verdadeiramente fantásticas condições que davam aos empregados, esperando desviar as atenções dos baixos salários.
- Repare, sra. dra., na nossa biblioteca ali ao canto, ideal para uma pequena pausa após o almoço.
- Chame-me só Celeste, pela sua saúde! Sou apenas uma jornalista, não passo atestados médicos! E não me leve a mal, mas a biblioteca não deve ter lá muito uso, quer-me parecer. Por certo outras coisas fariam mais falta aos seus empregados... Ora e com quem é que posso trocar umas palavrinhas? - e virando-se para o grupo mais perto - Talvez aqui com esta senhora? Como se chama, quer dizer-nos? Ah, que engraçado!, Alzira era o nome da minha tia favorita. Já lá está, coitadinha... Mas então posso fazer-lhe uma ou duas perguntas, Alzira?
A jornalista parecia não saber muito bem ao que vinha, mas assim que se ligou a luz da câmara e o fotógrafo apontou a objectiva, transformou-se como que por magia. Quis saber ao pormenor tudo o que a Alzira fazia, se gostava daquele emprego, se o ordenado era o bastante para viver r quais as regalias que tinha, onde morada, se tinha filhos, tudo tim tim por tim tim - a Alzira chegou a recear que lhe fosse perguntar a cor das cuecas. Ficou muitíssimo vermelha, pois não gostava nada de ser o centro das atenções, mas de quando em vez lá deitava uma espreitadela pelo canto do olho para a câmara. Até que a jornalista se saiu com esta:
- Agora, para terminr, vou fazer-lhe uma pergunta difícil. Ou fácil, dependendo da perspectiva. A Alzira é feliz?
- Olhe, sra. dra... Ah, sim, Celeste, desculpe. Sabe o que é que eu lhe digo?

- Feliz é quem diz

Provérbio provado num verso branco - XXIV

Quando é esperada nunca chega
Quando chega não é esperada

Todavia já aqui devia estar, vão sendo horas
A felicidade já devia ter transporto a soleira
As raízes lançaram os seus braços sobre a terra
A palha secou há muito lá onde se seca a palha
A criança adormeceu acreditando que amanhã o final feliz virá
É fácil pôr as culpas no futuro
Para que se possa chamar-lhe futuro e não imitação

A felicidade é uma doidivanas, uma malandreca
Não tem metas, só rectas
Há-de aparecer de rompante levando tudo à frente
As lágrimas não terão memória de ter caído
Então é tomar-lhe o pulso e o gosto
Que se a felicidade é bruta
Experimentá-la total é brutal

Mas para ganhar na lotaria
É preciso comprar cautela
Despir-se da cautela
E dar uma mãozinha à felicidade
Fechar os olhos à beira do precipício
Esperando os pássaros que hão-de amparar a queda

Provérbio provado rimado - CCCXI

Se pensas que os outros são tolos
E que comes todos por parolos
Não creias que és assim tão esperto
E de inteligência coberto

Não venhas aqui para o meu lado
Com esse peito tão inchado
Recebo-te com mil apupos
Porque eu cá não papo grupos

domingo, 28 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCX

Cá para mim a sinceridade
É bem a melhor qualidade
Como os malucos tudo digo
Muito inconsciente do perigo

Mas há quem não seja sincero
Não por falta de ser vero
Só não sabe o que há-de dizer
Mas parvo não quer parecer

Então diz mentira piedosa
Que não tem nada de corajosa
Porque quem não sabe inventa
E mais parvos que ele contenta

Provérbio provado rimado - CCCIX

Meu querido és o meu farol
Que brilha até se faz sol
És bonança na tempestade
E embelezas a realidade

Chegaste assim de repente
Deixas-me porém tão contente
És lindo e tens a simplicidade
Que foste amealhando com a idade

E é essa sabedoria
Que é para mim mais valia
Encantas-me e tens pátine
Não é só isso que te define

Apesar do teu feitio torto
Tu és como vinho do Porto
Quanto mais velho melhor
E com bom sentido de humor

Lá está não sei bem explicar
A razão de eu agora te amar
Não penses que assim exagero
Para te provar o quanto te quero

Provérbio provado predestinado

Era uma vez dois botões que se amavam mas viviam em casas separadas. Um dia veio um costureiro chamado Destino, que trazia na mão uma enorme tesoura capaz de cortar vidas aos pedaços, e pimba!, descoseu um dos botões. Era o que estava mais desprendido, não por incúria ou preguiça, é que os aparentes desapegos ombreiam normalmente com os botões mais fragilizados, vá-se lá saber porquê!, as estatísticas normalmente contrariam a lógica.
O botão caiu desamparado e chorou as lágrimas maiores e mais redondas da sua até então vida. Chorou de dor de raiva e maldisse o Destino. Inventou-lhe nomes feios à mãe e demais família das coincidências, lamentando a falta de critério e sentido de justiça, adivinhando que nenhum outro botão o poderia substituir como deve ser, já que teria de combinar a cor e diâmetro exactos.
Ficou perdido numa sarjeta a olhar as estrelas, desejando ir ter com elas: de certezinha que era lá em cima naquele brilho todo que ficava o céu dos botões desirmanados de que tanto ouvira falar... Nunca mais teve sono, frio ou fome; limitou-se a estar para ali parado vendo os ponteiros que rodavam no pulso de quem ia passando. A cada volta completa que davam os ponteiros regressava mais uma noite; o botão achava que, como toda a gente detestava o Inverno, a estação do frio vingava-se com mais horas de estrelas para compensar os abafos que são os afagos da solidão. E as pessoas iam passando ao frio e à chuva com relógios cada vez maiores.
Então, numa noite muito comprida, uma pessoa que não sabia a quantas andava, parou junto à sarjeta e reparou no botão sozinho. Apanhou-o e disse-lhe:
- Conheço um costureiro chamado Destino que te pode ajudar.
O botão tremeu de medo e descobriu que afinal ainda conseguia tremer:
- Muito obrigado, pessoa sem relógio, mas não quero uma mãozinha do Destino. É por causa dele que me encontro aqui...
Mesmo assim tão contrariado, a pessoa pensou que era hora de o tirar dali, ainda que não soubesse que horas eram no Tempo das gentes muito menos no dos botões.
Foi tudo tão rápido que ainda hoje o botão está para perceber o que se passou. Foi entregue ao Destino e à sua irmã Sorte que tinham uma linha muito, muito grossa e uma agulha muito, muito comprida. Coseram o botão com todo o cuidado junto ao botão amado, o lugar estava vago, não chegou a saber se tinha chegado a ser preenchido.
No momento do regresso o botão compreendeu muitas coisas. Percebeu que muitas frases feitas de tão refeitas são perfeitas, como aquela que diz que o Destino e a Sorte andam sempre de mãos dadas e estão já ali ao virar da esquina. E de ter uma boa comunicação, não vá a Sorte ouvir o que o Destino não disse e aí todos os botões serem quadrados e o impossível não ter pernas. Ou então pode a Sorte embriagar-se de sonhos e ir perder-se na roleta, deixando o pobre Destino a escutar o seu triste fado em modo menor. Como o Destino é caprichoso, pode muito bem adiantar imenso os relógios das pessoas que se apressam em chegar ao fim de cada dia sem sorrisos nem lágrimas, como aquelas que o botão via passar quando estava na sarjeta: pessoas mecânicas, pessoas fecho éclair que não coleccionam botões descosidos nem meias sem par, pessoas sem memória que atiram as recordações para um saco verde de vinte litros e nem sequer se lembram.
O botão compreendeu também que era muito mais senhor de si, agora que dava o devido valor à família das coincidências. Sim, porque o Acaso é um caso muito sério!

- Nada acontece por acaso

Provérbio à altura da leitura

Primeiro os olhos topam uma lombada. O título é uma melodia duas vezes repetida, digo-o para dentro, canto-o se tem algo de canção. A autoria do livro pode ser consagrada ou desconhecida, admito que também conta, não me é indiferente: mais facilmente regresso à casa onde já fui feliz ou à casa onde me dizem outros leitores terem já sido felizes.
Tenho sempre o cuidado de não julgar o livro pela capa; afinal o designer pode sempre ser melhor que o escritor. Pego no objecto: afago-o, cheiro-o, passo os olhos numa fuga oblíqua pelo primeiro parágrafo. São as chamadas primeiras impressões, tal como no instante em que conhecemos uma pessoa e o cérebro decide se os nossos braços a abraçarão ou ficarão em linha com o corpo, paralelos à nossa indiferença. É nesse momento que decido se sim ou sopas: algo me conquista ou despeço-me sem remorsos. Se levo o livro comigo, torna-se mais uma promessa na longa lista de espera. Nem sempre viaja sozinho, nesses dias em que tenho mais fome de palavras julgo poder empanturrar-me de dois, três livros e mais um par de versos. Ficam a aguardar na estante pelo momento em que finalmente os engolirei, não há ordem de chegada ou partida: a cada momento escolho o que mais me apela aos sentidos e posso regressar a capítulos outrora lidos, como se amigos que moram longe ou um regresso ao bairro das portas da infância.
A cada livro uma nova viagem num mundo sem fronteiras. Quantas vezes uma repetição de sensações das quais já desconfiava, coisas que já me disse com aquelas mesmíssimas letras, aquela mesma música, quase um plágio autorizado em que dissesse: toma lá os meus pensamentos, autor sem imaginação, deixo-te fingir que todos os humanos são muito iguais.
Cada livro é quase sempre melhor do que a capa, por mais engalanada que se apresente. Na leitura estão os melhores momentos desta vida incompleta e fugaz: é através da literatura que escapo da morte.

- Não se deve julgar um livro pela capa

sábado, 20 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXIII

O poema é um confessionário que não se pode fechar à chave
Não é beato mas quer ensinar a missa ao padre
De cada vez que reza o seu verso é diferente
Não tem cartilha, não é de pacotilha

O poema comunga palavras salgadas
Ajoelha-se ao desejo da superação
Quer crescer cada vez mais alto aos mais altos tectos
Adormece tarde e más horas
Desperta sempre para uma nova surpresa

O poema nunca é demais nem de menos
É a medida certa para a voz da mão inquieta

O padre que reza a missa não leu o poema
Tão pouco aceita que a poesia seja feita de palavras
Debita, repete, cansa-se e cansa-os
Os fiés são fiés ao bolor
Os infiéis estão atrasados, já não vêm
Ausentes neste e no próximo Domingo
Guardam o poema no bolso roto
O poema escapa-se e ganha asas
Quando regressa ao bolso encontra um espaço novo

Provérbio provado num verso branco - XXII

Das nove às cinco

A pessoa não é só o trabalho que tem
O trabalho que tem não faz a pessoa
Há poemas, música e magia
Dias cheios de vazio, mas a tristeza é finita
Há esperança, noites inteiras e insónias de lua cheia
Há o mar e uma árvore robusta que morre de pé
Intensidade e a certeza da renovação

A vida não é só uma das nove às cinco
A vida são duas, três, cem
Sete como as do gato que cai sempre de pé
O gato não é feito de quedas
As quedas que dá não fazem o gato
Às cinco acorda de ser infeliz
Lambe as feridas, pisca os olhos várias vezes
E vai dar mais umas voltas curiosas pelas redondezas
Vai ser natureza, espanto e maldição

Provérbio provado rimado - CCCVIII

Quem está mal é melhor
Que se mude ou ficará pior
É sempre positiva a mudança
Um bom tempero da esperança

Quando tudo parece perdido
Vê lá não te dês por vencido
Apressa-te já no caminho
Mesmo que estejas sozinho

Apoia-te no que puderes
Por mais triste que estiveres
Pois nesta vida tudo passa
Não te entregues à desgraça

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCVII

Mais vale uma mulher cuidada
Do que outra muito enfeitada
A primeira é mulher ideal
A segunda árvore de Natal

Importante é que seja estimada
Quando a vida está atravessada
Como na garganta a espinha
De um peixe que se pesca à linha

Se enfim estiver apaixonada
E não for temerosa nem nada
É agarrá-la com unhas e dentes
Dar-lhe muitos beijos frequentes

Pois uma mulher bem beijada
Nos sentidos fica consolada
E afoita-se para participar
No misterioso jogo de amar

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Provérbio provado de um Deus equivocado

Havia tradição genética de gémeos na família. A Dona Leonor morreu, depois de um parto muito sofrido, ao dar à luz as duas gémeas, que ficaram ao cuidado do pai e duma tia beata e solteirona.
As meninas cresceram iguais de feições, mas com personalidades diametralmente opostas. Todos os louvores que se pudessem tecer à Elisabete não eram suficientes: doce e afável, simpática e prestável, caridosa e responsável, e demais qualidade saudável. Foi cumprimentar a mãe ao céu com apenas 15 anos, por conta de uma meningite galopante que lhe roubou a vida em menos de 24 horas. Ficou gémea única a sempre mal humorada e bruta como as casas Helena.

Foi aos 18 anos que a Helena renunciou voluntariamente ao conforto familiar e galgou a pátria fronteira a caminho do mundo grande pelo qual desejava ser deslumbrada. Ao atravessar essa linha fronteiriça que a separava do futuro, soltou um suspiro de alívio que marcou bem fundo o carácter de independência que imprimiria a partir dali a sua vida.
A Helena passou a envergar apenas trajes masculinos e a usar o volumoso cabelo sempre apanhado e escondido por baixo de um chapéu de abas largas. Assim disfarçada, começou a segunda parte da sua existência: toda essa uma série de talvez imerecidos desaires morais e materiais.
É quase impossível seguir a par e passo a marcha aventurosa da aventureira Helena, mas sabe-se que, apesar de poderosa e inteligente, não mais teve uma atitude bonita, um gesto gracioso ou uma frase que mereça ser fixada pela injusta severidade da História. Adoptou um perfil bastante arrogante, que a sua voz máscula hiperbolizava, maneiras grosseiras e uma franqueza demasiado espontânea pontuada por um excesso de familiaridade.
Depois foi a marcha vertiginosa para uma velhice ruinosa que teve de enfrentar sozinha, pois não lhe sobrou qualquer amigo ou amante. Uma velha e solitária Helena viveu então amargas horas de ambição insatisfeita e arrependimento até se finar nuns mirrados e engelhados 92 anos.

- Deus leva os bons e os maus aqui ficam

Proverbio provado rimado - CCCVI

Lá na vila só a padaria
Pertencia à Ana Maria
A farinha era amassada
Por essa dona afadigada

Punha-lhe logo o fermento
Para o pão ter mais sustento
E depois acendia o forno
Para poder vender o pão morno

Mas a patroa tinha queda
Para querer muito justa a moeda
Então nunca fiado vendia
Não perdoava a Ana Maria

Conseguia ser muito chatinha
Pois tanto trabalho ela tinha
Assim os negócios não se estragam
Se cá se fazem cá se pagam

Provérbio provado rimado - CCCV

Não chateies o Joaquim
É teimoso até ao fim
Fica fulo e até o pé bate
Cora muito e fica escarlate

E quando o Quim está zangado
Não faz a barba em qualquer lado
Se ele for fazê-la a Cacilhas
Sabes que deves pôr-te a milhas

Provérbio provado rimado - CCCIV

A querida da Emília Santos
Não fica a preguiçar pelos cantos

Lança logo ao trabalho a mão
Põe os tachos em cima do fogão 

Faz o belo bacalhau com natas
Que é assado por baixo de pratas

E prepara a carne num rolo
Ao mesmo tempo faz um bolo

Bem cozido que sabe a laranja
Depena a galinha para a canja

Sempre simpática a Emília
Faz refeições para toda a família

Que depois de comer a premeia
Por ser cozinheira de mão cheia

Provérbio provado num verso branco - XXI

A rainha da noite traz o rei na barriga
Vai pari-lo na rua escura da cidade cinzenta
Todos dirão que vai nú
A fralda do rei é o vento

Vai ser mal criado perto do rio que passa
Malcriado para quem passa no leito do rio
Esfomeado e febril de vida

A rainha mãe tem sede e rouba gotas ao rio
Não há pai para ela
Tão pouco há pai para o filho rei
Com os braços abertos sobre o rio
Morre solteira e a culpa é do outro
Terceiro braço que não teve

As mais altas pontes vigiam as águas
O rei orfão tem o barco mas já não tem a fralda do vento
Cresce de vez quando descobre a flor preta
Assiste do alto das pontes à cidade cinzenta
Quarta feira de cinzas eternas

Já não vai nú o rei
Os fatos feitos de ar ninguém os quis comprar
O rei abre as portas interiores
Quando se quer lembrar da vida na barriga
No princípio a meio do fim

Galga os degraus dois a dois
Come degraus para chegar lá acima ao inferno
Vê a vida a dar um passo atrás
Para logo descer e dar dois à frente

O rei quer sentir a queda do verso
Branco que lhe causa desconforto
Um arrepio percorre a espinha da cidade cinzenta
O rei reina sobre a própria morte

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Provérbio provado do soldado marchado

A chuva caía fortemente e batia rija na calçada naquela manhã invernosa em que as meninas da primária, quarta classe à beira do exame, vieram espreitar ao recreio, timoratas e curiosas, o bando de militares acabadinhos de regressar do Ultramar no navio ainda agora aportado às Docas. Seriam, grosso modo, para cima de mil e quinhentos que chegavam exaustos e embriagados, bivaque à banda e farda amarrotada, com pinta de maltrapilhos, mas na infinita excitação que transporta quem regressa da morte ainda respirando. As meninas do recreio traziam bibes às riscas e grandes laços brancos enfeitando puxinhos de cabelo e, nessa manhã, esqueceram-se de saltar à corda, fascinadas pela turba de soldados que já dispersavam em mais pequenos grupos por ruas secundárias.
As meninas não eram assim tão pequeninas que não soubessem o que era a guerra: sobre ela se divagava em voz baixa lá por casa e arredores, havia sempre um tio mais desbocado ou uma vizinha mais contadeira. E, claro, os jornais. Mas nesses a arremetida colonialista era relatada combinando patrióticas elucubrações, louvores à valentia dos combatentes que só sabiam somar vitórias - nunca uma derrota, nem uminha que fosse! - e loas ao brioso Chefe de Estado, que por hora ainda não sornara na famosa cadeira donde se estatelaria fatidicamente.
Algumas das meninas já eram espigadotas, com maminhas nascendo apertadas nas blusas por debaixo do bibe, e humedeciam os lábios à mistura com um suspiro engolido, sonhando com o dia em que esbarrariam numa esquina com um daqueles garbosos mancebos - bem fardado e engomado, penteado e de banho tomado -, que se apaixonaria irremediavelmente assim que algum daqueles olhos, ainda infantis mas doravante senhoris, topasse.

- Soldado em marcha pega no que acha

Provérbio provado com final feliz

Depois de ter terminado o curso neste rectângulo à beira mar mal plantado, o Bruno inscreveu-se no programa Erasmus e resolveu rumar a terras de Sua Majestade. Por lá permaneceu largos anos, completando o doutoramento em Neurociências, até queimar todas as pestanas. Um belo dia, bateu-lhe uma tal saudade da lusa pátria que decidiu então regressar de vez. Tinha assegurado basto prestígio com as suas doutas investigações, por isso, mal concorreu, logo recebeu a almejada bolsa que lhe permitiria por cá ficar uns anitos. Então, o Bruno teve a bendita ideia de reunir todas as amigas e amigos da sua juventude num grande jantar de convívio que celebrasse o seu retorno a esta nesga de terra debruada de mar. E é aqui que verdadeiramente começa a nossa história...

O repasto deu-se numa fria noite de Janeiro, numa hamburgueria gourmet que o Bruno reservara para o efeito. Tinha um enorme salão onde se puderam acotovelar os 46 comensais (aliás, 44, pois à última hora o Rui e a mulher tinham os miúdos com febre). O Bruno afadigava-se a dar coordenadas pelo telefone aos retardatários, a lamentar os ausentes e a sentar os presentes fazendo as devidas apresentações, já que destes alguns não se conheciam entre si. E é aqui afinal que verdadeiramente começa a nossa história...

A Marta chegou atrasada porque ao Sábado à noite era difícil estacionar naquela zona. O João chegou atrasado porque ao Sábado à noite havia menos carruagens de Metro a circular. Ambos telefonaram ao Bruno informando-o do atraso e quando chegaram, praticamente ao mesmo tempo, acabaram por ficar sentados lado a lado nas duas cadeiras remanescentes (aquelas que estavam guardadas para o Rui e a mulher). Pediram o mesmo hamburguer de cogumelos, a mesma marca de cerveja e o mesmo quindim de côco para sobremesa. Descobriram, já a conversa ia solta, que até habitavam no mesmo bairro, a apenas duas ruas de distância, sem contudo nunca se terem cruzado. Quando o Bruno enfim percebeu que naquele canto da mesa corrida tinha falhado como anfitrião, já não era necessária apresentação: a Marta e o João trocavam números de telefone rindo a bom rir. Tantas coincidências, tantas coisas em comum; aquela já parecia uma relação escrita nas estrelas com tudinho para resultar! Pois, mas havia um pormenor que nem por sombras tinham em comum: a faixa etária. O João tinha mais dezassete anos do que a Marta e a sua filha mais velha distava desta menos anos do que o putativo casalinho entre si. Dezassete anos é muita fruta! Seria o interesse mútuo suficiente para o entendimento ou, pelo contrário, a diferença de idades ditaria um afastamento? Já lá vamos, não é aqui que verdadeiramente termina a nossa história...

Passados uns meses, numa quente noite de Verão, o Bruno entrincheirara-se de novo na portuguesa pachorra e conduzia o carro pelo tráfego caótico de Lisboa em direcção à casa do João que o tinha convidado para jantar. Qual não foi a sua surpresa quando, uma vez lá chegado, se deparou com uma Marta de calções e chinelo no pé alapada no sofá com ares de proprietária. E é aqui afinal que verdadeiramente termina a nossa história... E termina como é habitual com um ditote proverbial:

- O amor não escolhe idades

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCIII

É bem sabidona a Rita
Pois se se vê muito aflita
Dá-me logo o trabalho pior
E guarda para ela o melhor

Para assim falar a verdade
Isto é a pura realidade
Fala de desafios concretos
Mas o mundo é dos espertos

E lá nesse mundinho dela
A vida há-de sorrir para ela
É mais esperta que os demais
Filhos de outras mães e dos pais

Com este tipo de gentinha
É mais difícil a vidinha
Com a Rita já é garantida
No trabalho a tarde perdida

Que eu sei pôr o peixe a render
De mim só isso tens a temer
Não és só tu que fazes ronha
Já merecias sopapo na fronha