São olhos de rato de esgoto
Ou de carneiro mal morto
A beleza de uns olhos verdes
É porque em poucos os vedes
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
domingo, 7 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCLXVI
Perninhas de rã é petisco
Que a comer não me arrisco
Mas gosto de caracoletas
Há quem as ache abjectas
Uma sardinha bem assada
Com broa é melhor que nada
Ou polvo em saladinha
E uma empada de galinha
Amêijoas e choco frito
Gosto tanto até apito
Bivalves nunca são demais
De comer e chorar por mais
Qualquer sandes mista está bem
De atum e tomate também
Até parece que gulosa sou
Mas muito aos petiscos não vou
Que a comer não me arrisco
Mas gosto de caracoletas
Há quem as ache abjectas
Uma sardinha bem assada
Com broa é melhor que nada
Ou polvo em saladinha
E uma empada de galinha
Amêijoas e choco frito
Gosto tanto até apito
Bivalves nunca são demais
De comer e chorar por mais
Qualquer sandes mista está bem
De atum e tomate também
Até parece que gulosa sou
Mas muito aos petiscos não vou
Provérbio honesto
Esta vida é um viver entre sonos que nunca são suficientes. Acordo muito cedo, fico ali uns cinco minutos sentada na cama a espreguiçar-me e a bocejar, a pensar se no calendário hoje é ontem ou hoje é amanhã. Depois de um banho apressado, preparo a marmita do almoço com as sobras do jantar, visto-me e desço as escadas do prédio a correr para não perder o autocarro. Vai sempre à pinha: nunca me posso sentar e sinto-me encurralada, uma mão no varão, outra segurando a marmita, nenhuma mão para afastar a franja dos olhos que não cheguei a secar com o secador.
Assim começa a minha semana de seis dias que o emprego exige. Oito horas de trabalho diário e um ordenado que vai direitinho para pagar contas, mal sobra para comer, vestir e calçar. Ao princípio, quando arranjei este emprego, ainda julguei que ia dar para juntar uns trocados para frequentar um ginásio - um dos doze desejos de começo de ano que nunca se cumpre ano após ano...
O subsídio de Natal esvai-se na comida própria das festividases e em presentes para a família; às vezes sobra alguma coisa para um trapito barato nos saldos. O subsídio de férias serve o propósito que o nome lhe dá: vou acampar todos os anos com a minha filha para a Costa da Caparica.
A minha filha Rebeca está na idade do armário e, neste preciso momento, está para ali a reclamar de não termos armário na tenda:
- Ó mãe, estou tão farta de acampar! As latas de atum, as filas para o banho, as toalhas de praia que desaparecem do estendal. E as costas, ai as minhas costas!, que me doem tanto de me estar sempre a baixar e de dormir no chão. Porque é que não vamos para um hotel?
- Porque nem para um de uma estrela temos dinheiro, Rebeca! Tu és a única riqueza da minha vida, filha. Somos pobres: aceita o facto. Nunca roubei, sempre trabalhei honestamente. O teu pai pirou-se e deixou-me aquelas dívidas todas: levei onze anos para as pagar, quase tanto como o tempo que tens de vida... E os teus avós só me deixaram uma nesga de terra com um poço seco e três pés de videira que não vale um chavo. Eles também eram pobres e assim o eram os seus pais antes deles. Aliás, a tua avó costumava sair-se com uma muito engraçada, com licença da mesa:
- Quem não rouba ou não herda não vale uma merda
Assim começa a minha semana de seis dias que o emprego exige. Oito horas de trabalho diário e um ordenado que vai direitinho para pagar contas, mal sobra para comer, vestir e calçar. Ao princípio, quando arranjei este emprego, ainda julguei que ia dar para juntar uns trocados para frequentar um ginásio - um dos doze desejos de começo de ano que nunca se cumpre ano após ano...
O subsídio de Natal esvai-se na comida própria das festividases e em presentes para a família; às vezes sobra alguma coisa para um trapito barato nos saldos. O subsídio de férias serve o propósito que o nome lhe dá: vou acampar todos os anos com a minha filha para a Costa da Caparica.
A minha filha Rebeca está na idade do armário e, neste preciso momento, está para ali a reclamar de não termos armário na tenda:
- Ó mãe, estou tão farta de acampar! As latas de atum, as filas para o banho, as toalhas de praia que desaparecem do estendal. E as costas, ai as minhas costas!, que me doem tanto de me estar sempre a baixar e de dormir no chão. Porque é que não vamos para um hotel?
- Porque nem para um de uma estrela temos dinheiro, Rebeca! Tu és a única riqueza da minha vida, filha. Somos pobres: aceita o facto. Nunca roubei, sempre trabalhei honestamente. O teu pai pirou-se e deixou-me aquelas dívidas todas: levei onze anos para as pagar, quase tanto como o tempo que tens de vida... E os teus avós só me deixaram uma nesga de terra com um poço seco e três pés de videira que não vale um chavo. Eles também eram pobres e assim o eram os seus pais antes deles. Aliás, a tua avó costumava sair-se com uma muito engraçada, com licença da mesa:
- Quem não rouba ou não herda não vale uma merda
Provérbio provado rimado - CCLXV
O Jaime era um advogado
Que não se vendia fiado
Tinha milhares de processos
Punha os juízes possessos
Defendia os desfavorecidos
Muito pela vida vencidos
E atacava com ciência
A doméstica violência
Ele rejeitava o ditado
Que achava disparatado
Entre marido e mulher
Não metas tu a colher
Que não se vendia fiado
Tinha milhares de processos
Punha os juízes possessos
Defendia os desfavorecidos
Muito pela vida vencidos
E atacava com ciência
A doméstica violência
Ele rejeitava o ditado
Que achava disparatado
Entre marido e mulher
Não metas tu a colher
Provérbio provado excitado
A sala está às escuras. Um único foco ilumina a mesa do computador onde Humberto está sentado com a mão direita no rato.
A oito quilómetros de distância, a luz fraca do candeeiro da mesinha de cabeceira enche o quarto de Sara de sombras. Está sentada na cama com o telefone na mão, presa à parede pelo fio do carregador.
Entabularam mesmo agora conversa num site de encontros; vejamos então o que dizem em silêncio numa janela:
Humberto - Estive a ver as tuas fotografias. Estás sempre assim sorridente?
Sara - Sim, tenho sempre um sorriso: são de borla. Às vezes é nervoso miudinho. Outras rio para não chorar.
H - Nervoso miudinho é o que estou a sentir agora...
S - Oh, não sintas! Sou pródiga em deixar as pessoas à vontade.
H - Pronto, já relaxei. Sou um pouco tímido... pelo menos até me conseguir soltar.
S - A timidez é o colesterol que bloqueia a veia das novas amizades, nunca ouviste dizer?
H - Não, mas sinto a timidez mesmo assim, é uma verdadeira obstrução! Às vezes faltam-me as palavras para me exprimir...
S - Eu uso muitas muletas na linguagem. Ultimamente abuso da expressão sem espinhas. Quando quero referir-me a algo puro, sem artifícios.
H - Também uso essa para coisas que são fáceis, sem complicações. Estar aqui a conversar contigo está a ser sem espinhas!
S - Neste momento, o que mais desejo é uma vida sem espinhas.
H - Vida sem espinhas é uma ambição global. O curioso é que nós é que pomos algumas delas... E depois ficam-nos atravessadas na garganta! Sabes, estou aqui cheio de vontade de te convidar para uma cerveja.
S - Estás muito afoito, rapazolas! É demasiado precoce... Conheçamo-nos um pouco melhor primeiro para descobrirmos os mistérios insondáveis de ambos.
H - Era mais para quebrar o gelo, mas eu sei esperar: é raro aparecer por estas persianas mulher tão interessante como tu! E, para que compreendas os meus mistérios, vou escrever o livro Como conhecer um Humberto. Achas que vende?
S - Talvez não venda muito: o enredo é fraquinho.
H - Pronto, acabaste com a minha carreira de escritor! Posso fazer uma pergunta marota?
S - Ah, essa timidez esfuma-se a olhos vistos! Mas podes, sim. Resta saber se responderei..
H - Gostava de saber o que te dá tesão. Responde sem espinhas!
S - A inteligência e o sentido de humor. E a aparência alguma coisa: é sempre atraente um corpo bem desenhado ou uma cara bonita, mas acabo por achar mais piada a essa coisa meio inqualificável chamada charme. No fundo, a tesão é uma questão de feed back, não se alimenta sozinha e quando há empatia tende a crescer. As palavras dão-me tesão: uma palavra bem escolhida faz maravilhas! E a atenção aos pormenores também é excitante; quando as pessoas são boas observadoras, podem estimular-te mais e melhor.
H - Não esperava uma resposta tão detalhada... Vejo que já tinhas pensado sobre o assunto, que te conheces bem! O que me dá tesão são várias coisas, como o corpo e a sensualidade, mas sem dúvida o que mais me deixa louco são pessoas extrovertidas, que se riem com vontade e não têm medo de dizer o que pensam. Como tu, Sara. Estás a dar-me uma tesão doida!
- Sem tesão não há solução
A oito quilómetros de distância, a luz fraca do candeeiro da mesinha de cabeceira enche o quarto de Sara de sombras. Está sentada na cama com o telefone na mão, presa à parede pelo fio do carregador.
Entabularam mesmo agora conversa num site de encontros; vejamos então o que dizem em silêncio numa janela:
Humberto - Estive a ver as tuas fotografias. Estás sempre assim sorridente?
Sara - Sim, tenho sempre um sorriso: são de borla. Às vezes é nervoso miudinho. Outras rio para não chorar.
H - Nervoso miudinho é o que estou a sentir agora...
S - Oh, não sintas! Sou pródiga em deixar as pessoas à vontade.
H - Pronto, já relaxei. Sou um pouco tímido... pelo menos até me conseguir soltar.
S - A timidez é o colesterol que bloqueia a veia das novas amizades, nunca ouviste dizer?
H - Não, mas sinto a timidez mesmo assim, é uma verdadeira obstrução! Às vezes faltam-me as palavras para me exprimir...
S - Eu uso muitas muletas na linguagem. Ultimamente abuso da expressão sem espinhas. Quando quero referir-me a algo puro, sem artifícios.
H - Também uso essa para coisas que são fáceis, sem complicações. Estar aqui a conversar contigo está a ser sem espinhas!
S - Neste momento, o que mais desejo é uma vida sem espinhas.
H - Vida sem espinhas é uma ambição global. O curioso é que nós é que pomos algumas delas... E depois ficam-nos atravessadas na garganta! Sabes, estou aqui cheio de vontade de te convidar para uma cerveja.
S - Estás muito afoito, rapazolas! É demasiado precoce... Conheçamo-nos um pouco melhor primeiro para descobrirmos os mistérios insondáveis de ambos.
H - Era mais para quebrar o gelo, mas eu sei esperar: é raro aparecer por estas persianas mulher tão interessante como tu! E, para que compreendas os meus mistérios, vou escrever o livro Como conhecer um Humberto. Achas que vende?
S - Talvez não venda muito: o enredo é fraquinho.
H - Pronto, acabaste com a minha carreira de escritor! Posso fazer uma pergunta marota?
S - Ah, essa timidez esfuma-se a olhos vistos! Mas podes, sim. Resta saber se responderei..
H - Gostava de saber o que te dá tesão. Responde sem espinhas!
S - A inteligência e o sentido de humor. E a aparência alguma coisa: é sempre atraente um corpo bem desenhado ou uma cara bonita, mas acabo por achar mais piada a essa coisa meio inqualificável chamada charme. No fundo, a tesão é uma questão de feed back, não se alimenta sozinha e quando há empatia tende a crescer. As palavras dão-me tesão: uma palavra bem escolhida faz maravilhas! E a atenção aos pormenores também é excitante; quando as pessoas são boas observadoras, podem estimular-te mais e melhor.
H - Não esperava uma resposta tão detalhada... Vejo que já tinhas pensado sobre o assunto, que te conheces bem! O que me dá tesão são várias coisas, como o corpo e a sensualidade, mas sem dúvida o que mais me deixa louco são pessoas extrovertidas, que se riem com vontade e não têm medo de dizer o que pensam. Como tu, Sara. Estás a dar-me uma tesão doida!
- Sem tesão não há solução
sábado, 6 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCLXIV
É tudo bom o que a vida contém
Não a vejamos com desdém
E até mesmo as coisinhas más
Deitemos das costas para trás
São muito largas felizmente
Virá-las ao problema é frequente
Mas o que longe delas dizem
São meras impressões não afligem
Melhor é que as partilhemos
E uns olhos de frente enfrentemos
Já que atrás de um portão
É fácil ladrar qualquer cão
Não a vejamos com desdém
E até mesmo as coisinhas más
Deitemos das costas para trás
São muito largas felizmente
Virá-las ao problema é frequente
Mas o que longe delas dizem
São meras impressões não afligem
Melhor é que as partilhemos
E uns olhos de frente enfrentemos
Já que atrás de um portão
É fácil ladrar qualquer cão
sexta-feira, 5 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCLXIII
Quem prega a comida saudável
É tão chato não há paciência
Se a prega com insistência
É conversa desagradável
Não é carne nem é peixe
Além de que não come ovos
E se quer ter adeptos novos
Não me convença que me deixe
É tão chato não há paciência
Se a prega com insistência
É conversa desagradável
Não é carne nem é peixe
Além de que não come ovos
E se quer ter adeptos novos
Não me convença que me deixe
Provérbio provado rimado - CCLXII
Um leitor que te quer falar
Diz ao telefone a Filomena
Só que eu estou a almoçar
Agora não dá temos pena
Ele que venha a outra hora
Desabafar o problema
Não atendo o leitor agora
Vê lá tu qual é o tema
Diz ao telefone a Filomena
Só que eu estou a almoçar
Agora não dá temos pena
Ele que venha a outra hora
Desabafar o problema
Não atendo o leitor agora
Vê lá tu qual é o tema
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCLXI
Amigo estás aqui na terra
E não há cura para isso
É verdade que o facto encerra
Não não te lançaram feitiço
Finca bem os dois pés na terra
Mas esvoaça os olhos p'lo céu
Assim tua mente não emperra
É o conselho que te dou eu
E não há cura para isso
É verdade que o facto encerra
Não não te lançaram feitiço
Finca bem os dois pés na terra
Mas esvoaça os olhos p'lo céu
Assim tua mente não emperra
É o conselho que te dou eu
Provérbio provado rimado - CCLX
Uma terra bem adubada
Dá sempre boa sementeira
E mal é a semente lançada
Dá bela colheita à primeira
Valha-nos o bom agricultor
Pois se ele no campo não planta
Da terra não cuida com amor
O homem da cidade não janta
Dá sempre boa sementeira
E mal é a semente lançada
Dá bela colheita à primeira
Valha-nos o bom agricultor
Pois se ele no campo não planta
Da terra não cuida com amor
O homem da cidade não janta
Provérbio provado num verso branco - XIII
Desenvolve interesses
Desenvolve-te
A vida é mais do que isto que vês
Olha quantas as pessoas que passam
Tão leves, ligeiras, orgânicas
Desenvolve interesses
Interessa-te
São tantas as coisas, livros, música
Fronteiras para atravessar
O teu passaporte és tu e o carimbo é a tua mão
Repara como o mundo é rico
Como transborda de valiosíssimos tesouros
Essa gente estimulante aguarda-te
Essas almas bonitas desejam afagar-te
O mundo espera-te
Não sabes tudo, não sabes demais
Ninguém é tão sábio que não possa aprender
Nem tão tolo que não possa ensinar
Ultrapassa-te
Esquece-te de ti
Absorve tudo o que puderes
Partilha tudo o que conseguires
Desenvolve-te
A vida é mais do que isto que vês
Olha quantas as pessoas que passam
Tão leves, ligeiras, orgânicas
Desenvolve interesses
Interessa-te
São tantas as coisas, livros, música
Fronteiras para atravessar
O teu passaporte és tu e o carimbo é a tua mão
Repara como o mundo é rico
Como transborda de valiosíssimos tesouros
Essa gente estimulante aguarda-te
Essas almas bonitas desejam afagar-te
O mundo espera-te
Não sabes tudo, não sabes demais
Ninguém é tão sábio que não possa aprender
Nem tão tolo que não possa ensinar
Ultrapassa-te
Esquece-te de ti
Absorve tudo o que puderes
Partilha tudo o que conseguires
Provérbio provado rimado - CCLIX
Ela é gorducha que se preza
Não faz dieta nem se pesa
E faz concorrência à baleia
Se se baixa a calçar a meia
Chamam-lhe a Piggy dos Marretas
Para ela alcunhas são tretas
Desdenha gente maliciosa
Da sua celulite é vaidosa
Tem um par de mamas brutal
E também pescoço colossal
Uma perna faz duas das minhas
O cú rebola fora das calcinhas
Ama um bom bacalhau assado
Come tudo e demora um bocado
Com natas ou à lagareiro
Refogado com alho primeiro
Se uma bela posta mirandesa
Vem em sangue para cima da mesa
Não resta nadinha p'rá história
Só as ancas lhe guardam memória
A mastigar faz muito barulho
Vai comendo e enchendo o bandulho
Qualquer dia virá um enfarte
E comer deixará de ser arte
Não faz dieta nem se pesa
E faz concorrência à baleia
Se se baixa a calçar a meia
Chamam-lhe a Piggy dos Marretas
Para ela alcunhas são tretas
Desdenha gente maliciosa
Da sua celulite é vaidosa
Tem um par de mamas brutal
E também pescoço colossal
Uma perna faz duas das minhas
O cú rebola fora das calcinhas
Ama um bom bacalhau assado
Come tudo e demora um bocado
Com natas ou à lagareiro
Refogado com alho primeiro
Se uma bela posta mirandesa
Vem em sangue para cima da mesa
Não resta nadinha p'rá história
Só as ancas lhe guardam memória
A mastigar faz muito barulho
Vai comendo e enchendo o bandulho
Qualquer dia virá um enfarte
E comer deixará de ser arte
Provérbio provado rimado - CCLVIII
É uma destas instituições
Tanto rouba que caga milhões
Mas é toda legal entidade
A sede é ma principal cidade
Quer livrar-se do povo horroroso
Só que ninguém é tão poderoso
Que possa prescindir da ajuda
Do pequeno que nem o saúda
Banco com o juro menos ruim
Só se for mesmo o do jardim
Que não tem correcção monetária
Nem ítem na descrição sumária
Tanto rouba que caga milhões
Mas é toda legal entidade
A sede é ma principal cidade
Quer livrar-se do povo horroroso
Só que ninguém é tão poderoso
Que possa prescindir da ajuda
Do pequeno que nem o saúda
Banco com o juro menos ruim
Só se for mesmo o do jardim
Que não tem correcção monetária
Nem ítem na descrição sumária
Provérbio provado rimado - CCLVII
Eu não vivo para comer
Mas como só para viver
Sento-me e engulo apressada
Não faço a digestão nem nada
E depois engordar não consigo
Emagrecer tanto é um perigo
Mas já tenho saudades do Verão
Que ao petisco presto atenção
E ando com os braços ao léu
Com apetite para um pitéu
Mas como só para viver
Sento-me e engulo apressada
Não faço a digestão nem nada
E depois engordar não consigo
Emagrecer tanto é um perigo
Mas já tenho saudades do Verão
Que ao petisco presto atenção
E ando com os braços ao léu
Com apetite para um pitéu
Provérbio provado rimado - CCLVI
Ai como é pequeno o mundo
Diz assim na rua a pessoa
Se outra encontra muito à toa
Reconhece-a vindo lá ao fundo
Cumprimentam então como vais?
Dão-se abraços muito apertados
E vários beijos bem repenicados
São saudosos amigos ideais
Como tem passado a tua filha?
Os teus sogros e a tua mulher?
Este encontro não vou esquecer
O mundo é mesmo uma erviha
Diz assim na rua a pessoa
Se outra encontra muito à toa
Reconhece-a vindo lá ao fundo
Cumprimentam então como vais?
Dão-se abraços muito apertados
E vários beijos bem repenicados
São saudosos amigos ideais
Como tem passado a tua filha?
Os teus sogros e a tua mulher?
Este encontro não vou esquecer
O mundo é mesmo uma erviha
Provérbio provado rimado - CCLV
Ó tempo volta para trás
Se o futuro não te faz
Pois tu és o relógio da vida
Também curas qualquer ferida
Tanto andas como desandas
Quando nos ponteiros mandas
Asas tal qual qual felicidade
Tens quando voas com a idade
És mestre e irrecuperável
Muito bom que sejas agradável
Se mudas mudam-se as vontades
Que trazem ao colo maturidades
Pois contigo e perseverança
Parece que tudo se alcança
Nenhuma rédea te podem pôr
Que tu trazes e levas a dor
Tu fortificas a amizade
Também fazes viver a verdade
Desculpa tratar-te por tu
Num comportamento cru
Que o tempo que depressa vem
Também vai depressa porém
Pois tem muito tempo quem
Assim não o perde também
Para se viver nesta vida
Tudo quer tempo e medida
Se o futuro não te faz
Pois tu és o relógio da vida
Também curas qualquer ferida
Tanto andas como desandas
Quando nos ponteiros mandas
Asas tal qual qual felicidade
Tens quando voas com a idade
És mestre e irrecuperável
Muito bom que sejas agradável
Se mudas mudam-se as vontades
Que trazem ao colo maturidades
Pois contigo e perseverança
Parece que tudo se alcança
Nenhuma rédea te podem pôr
Que tu trazes e levas a dor
Tu fortificas a amizade
Também fazes viver a verdade
Desculpa tratar-te por tu
Num comportamento cru
Que o tempo que depressa vem
Também vai depressa porém
Pois tem muito tempo quem
Assim não o perde também
Para se viver nesta vida
Tudo quer tempo e medida
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Provérbio sem cerimónia
O Livro das caras é como a sala de estar onde se recebem as visitas: está o mais bem arranjada possível para projectar a melhor imagem que cremos ter de nós próprios, mesmo se o resto da casa emporcalhada, presa por alfinetes ou colada a cuspo.
A merda toda é quando alguma dessas visitas se lembra de ter urgências fisiológicas: não há como negar-lhe o acesso à divisão que mais nos expõe as fragilidades, embora nos vamos prévia e tatebitatemente desculpando pela desarrumação. Ao que o conviva responde da forma mais previsível, tantas vezes hipócrita frase feita ou perversa curiosidade: também não vim arrumar nada... E realmente não veio!
A forma como cada um abre as portas de sua casa, seja de par em par ou apenas entreabrindo uma fresta, é maior ou menor convite a gente calaceira. Desde que não se deva nada a ninguém, vai-se sempre a tempo de expulsar os convidados antes mesmo da ceia. É que...
- À vontade não é à vontadinha
Provérbio provado almoçado mas não jantado
A sirene dos bombeiros tocava o meio dia. A Fátima parou no passeio e olhou em redor com a barriga a dar horas. Em qual dos estabelecimentos ainda não tinha dado o golpe? Um dos poucos que restava era o café da Dona Glória. Tinha-o evitado sempre: ela era uma rabujenta do pior, a casa era velha e tanto a casa como a velha apresentavam sempre aquele ar tão descuidado...
Cá fora chegava o cheiro de óleo requentado. Na soleira, um cavalete coxo exibia uma toalha de mesa de papel com os seguintes dizeres: "Prato do dia - Pescadinhas de rabo na bouca - Sinco Euros com diraito a sobermesa". Fátima decidiu-se entrar. Sentou-se e comentou, matreira:
- Cheira muito bem, Dona Glória! Sim, quero o do dia! Diga? Um Compal de pêra, se faz favor.
Comeu satisfeita até à última espinha e ainda lambeu os beiços com um molotof caseiro. Chegada a hora da dolorosa, dispô-se ao teatro:
- Ai, Dona Glória!, que me esqueci da carteira! Tê-la-ei perdido? E agora?
- Não faz mal, paga mais logo, menina Fátima. Já veio cá algumas vezes tomar o café e comprar cigarros, já a conheço... É de confiança, é da casa!
E a Fátima lá foi saindo, atropelando-se em mil desculpas, interiormente satisfeita por ter enganado aquela lorpa, mais uma.
Decorrida a tarde, com o sol já a esconder-se e a noite a despontar, decidiu tentar o golpe duplo: sabia por experiência ser mais fácil apostar no efeito surpresa por repetição. Àquela hora, o café suava caldo verde. No balcão ainda habitavam restos de couve migada e, por detrás dele, uma Dona Glória de touca na cabeça a tapar-lhe os cabelos brancos, recebeu-a com um sorriso cansado:
- Ora, menina, não havia pressa...
E logo a Fátima, muito rápido, para não dar à outra tempo para pensar:
- Vinha comer um caldinho verde, Dona Glória, cheira tão bem! Olhe, sabe lá!, cheguei a encontrar a carteira, mas o Multibanco acolá está fora de serviço. Pago-lhe amanhã, está bem?
A Dona Glória mudou de expressão. Cheirava-lhe a esturro, e não era da sopa queimada. Então, retorquiu:
- Ó menina Fátima, não me leve a mal, mas fiado duas vezes no mesmo dia não pode lá ser!
- A mentira dá o almoço mas não dá o jantar
Cá fora chegava o cheiro de óleo requentado. Na soleira, um cavalete coxo exibia uma toalha de mesa de papel com os seguintes dizeres: "Prato do dia - Pescadinhas de rabo na bouca - Sinco Euros com diraito a sobermesa". Fátima decidiu-se entrar. Sentou-se e comentou, matreira:
- Cheira muito bem, Dona Glória! Sim, quero o do dia! Diga? Um Compal de pêra, se faz favor.
Comeu satisfeita até à última espinha e ainda lambeu os beiços com um molotof caseiro. Chegada a hora da dolorosa, dispô-se ao teatro:
- Ai, Dona Glória!, que me esqueci da carteira! Tê-la-ei perdido? E agora?
- Não faz mal, paga mais logo, menina Fátima. Já veio cá algumas vezes tomar o café e comprar cigarros, já a conheço... É de confiança, é da casa!
E a Fátima lá foi saindo, atropelando-se em mil desculpas, interiormente satisfeita por ter enganado aquela lorpa, mais uma.
Decorrida a tarde, com o sol já a esconder-se e a noite a despontar, decidiu tentar o golpe duplo: sabia por experiência ser mais fácil apostar no efeito surpresa por repetição. Àquela hora, o café suava caldo verde. No balcão ainda habitavam restos de couve migada e, por detrás dele, uma Dona Glória de touca na cabeça a tapar-lhe os cabelos brancos, recebeu-a com um sorriso cansado:
- Ora, menina, não havia pressa...
E logo a Fátima, muito rápido, para não dar à outra tempo para pensar:
- Vinha comer um caldinho verde, Dona Glória, cheira tão bem! Olhe, sabe lá!, cheguei a encontrar a carteira, mas o Multibanco acolá está fora de serviço. Pago-lhe amanhã, está bem?
A Dona Glória mudou de expressão. Cheirava-lhe a esturro, e não era da sopa queimada. Então, retorquiu:
- Ó menina Fátima, não me leve a mal, mas fiado duas vezes no mesmo dia não pode lá ser!
- A mentira dá o almoço mas não dá o jantar
Provérbio provado rimado - CCLIV
O frio não é psicológico
Ficam as mão muito frias
E no pulso o relógio analógico
Diz que são amores todos os dias
Os ponteiros ditam sentenças
Cagam horas e breves minutos
As mãos frias assim são pertenças
Os amores futuros dão frutos
Ficam as mão muito frias
E no pulso o relógio analógico
Diz que são amores todos os dias
Os ponteiros ditam sentenças
Cagam horas e breves minutos
As mãos frias assim são pertenças
Os amores futuros dão frutos
Provérbio provado rimado - CCLIII
O Zé é um velho jarreta
E do pé direito anda coxo
Do olho esquerdo é cegueta
O seu sexo já pende frouxo
Na bela moleirinha é careca
Usa fraldas o incontinente
E nas costas tem uma marreca
Mesmo assim o Zé é contente
Não se cala com a verborreia
Costuma dizer muitas asneiras
Mas quando ele está com diarreia
Perde logo as boas maneiras
Fica o Zé todo mal amanhado
Chama bem alto a enfermeira
Que não o deixe emporcalhado
O limpe da forma costumeira
Vai à praia com a sua velha
E apanham solinho nas rochas
Até fariam uma boa parelha
Se não fosse um chato de galochas
Não tenho nada contra a idade
Apenas fiz uma rima a brincar
Pelo contrário a maturidade
Merece quem a queira estimar
E do pé direito anda coxo
Do olho esquerdo é cegueta
O seu sexo já pende frouxo
Na bela moleirinha é careca
Usa fraldas o incontinente
E nas costas tem uma marreca
Mesmo assim o Zé é contente
Não se cala com a verborreia
Costuma dizer muitas asneiras
Mas quando ele está com diarreia
Perde logo as boas maneiras
Fica o Zé todo mal amanhado
Chama bem alto a enfermeira
Que não o deixe emporcalhado
O limpe da forma costumeira
Vai à praia com a sua velha
E apanham solinho nas rochas
Até fariam uma boa parelha
Se não fosse um chato de galochas
Não tenho nada contra a idade
Apenas fiz uma rima a brincar
Pelo contrário a maturidade
Merece quem a queira estimar
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