terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Provérbio provado em palavras poupado

Há expressões que entram misteriosamente no léxico idiomático e se tornam recorrentes como modismos da linguagem. Uma dessas frases, muito na moda, que me irrita sobremaneira é a preguiçosa: Não tenho palavras. É muito usada por exemplo pelos concorrentes dos concursos de talentos que nunca têm palavras para descrever as emoções que estão a sentir. Ora bolas!, com uma língua tão rica como a nossa, repleta de sinónimos e adjectivos qualificativos, e tantas coisas que há para dizer para definir situações e diferencia-las de outras, as pessoas limitam-se a não ter palavras? Que falta de vontade de pôr o cérebro a trabalhar!

- Palavras não custam dinheiro

Provérbio orgulhoso

O orgulho é um sentimento exagerado que cada um tem do seu próprio valor. Embora essa vaidade possa ser legítima, é por vezes confundido com amor próprio. Nascem ambos do umbigo e são egocêntricos, mas um e positivo e outro negativo. E se é óptimo ter auto estima, quando esta se agiganta metamorfoseia-se em orgulho insuflado e o ego passa a habitar numa postura defensiva, que joga ao ataque à mínima suspeita de crítica. Então, o que poderia ser construtivo e contribuir para melhorar o amor próprio, passa a ser apenas rancor cego.

- O orgulho não quer dever e o amor próprio não quer pagar

Provérbio provado rimado - CCVII

Livre não vive
No chão no poço
No prato de tremoço
Numa vida a bocejar

Livre não vive
Junto ao osso
Sem pescoço
Nem consegue respirar

Liberdade
Essa palavra
De tudo e todos escrava
Enquanto tenta voar

Liberdade
Não perdoa
Por entre as mãos se escoa
À procura de lugar

Provérbio provado rimado - CCVI

Pudesse dizer o amor crescente
Total e efervescente
Carnal quase demente

Pudesse dize-lo sorrindo
Feroz até mentindo
Ao eu porém sentindo

Pudesse comê-lo sem espinhas
Sem dores nem mágoas minhas
Presentes nas entrelinhas

Talvez soubesse amar
E com coragem cantar
Essa vida agora a chegar

Provérbio provado mascarado

Ai, o meu inimigo Charlie...
Bem sei que sou uma chata, mas não consigo achar graça ao Carnaval. Deve ser uma coisa algo freudiana, pois em criança nunca me mascaravam e ficava a um canto a ver os outros meninos brincar. Ainda hoje espero que aquela folia tão forçada passe rápido, mas tenho o azar de fazer anos em Fevereiro, por isso às vezes o meu aniversário coincide com tais festejos.
Sim, sei que há uma história por detrás: o deleite pagão que antecede a quaresma. E até consigo gostar dos caretos, dos badalos, da sátira social e política que resiste em algumas localidades portuguesas.
Quem gosta do entrudo (e há mesmo quem se divirta a valer!) aproveita até ao último minuto os três dias de palhaçada e música foleira... e na quarta feira de cinzas das duas uma: ou vai trabalhar com uma ressaca monumental ou vai para a escola com uma tristeza infinda que substitui a alegria perdida.
As máscaras, essas, continuam todo o ano...

- Esta vida são dois dias e o Carnaval são três

Provérbio provado rimado - CCV

Desejo a rima instantânea
Que seja o máximo espontânea
De propósito sem pontuação
Não é só falta de atenção

O mesmo faço com a prosa
Sem método bem palavrosa
Mas com vírgulas e dois pontos
E de exclamação sem descontos

Uns que outros ficam melhor
Alguns são mesmo do pior
Sinceramente não me importo
E nem muito bem me comporto

São assim os provérbios provados
Por mim sobremaneira estimados
Já centenas no blog existem
Depois nesta casinha persistem

À porta ninguém se detém
Não a abram com desdém
Nem a fechem com rancor
Isso sim me traria dor

Provérbio provado rimado - CCIV

Podemos ser muito empáticos
Também bastante simpáticos
Mas cuida de si cada um
Que colinho não há nenhum

É assim mesmo a vidinha
Uma espécie de pesca à linha
Ver se o peixe morde o isco
Comê-lo todo num petisco

Não vale ser Peter Pan
Atrapalhado e tantan
Quanto mais de si é seguro
Menos o destino é duro

O segredo é desenrascanço
Saber viver com descanso
Pois no cú dos outros a pimenta
Para mim é refresco de menta


Provérbio provado rimado - CCIII

Quando à distância há tesão
O remédio é usar a mão
Que a imaginação é tão forte
É bem fácil perder-se o norte

É excitante uma boa conversa
Se a mente for um pouco perversa
Não é bicho de sete cabeças
Perdão a ti mesmo não peças

Provérbio provado rimado - CCII

O Tó é um tipo banal
E tem pinta de intelectual
Usa óculos de massa pretos
Típicos dos cara de espertos

Anda sempre com um bloco
E a ninguém dá troco
Enfia o nariz nas folhas
Conversar só a saca-rolhas

Tão tímido com cada mulher
O Tó nem consegue escolher
Nunca diz nada erudito
No bloco não há nada escrito

Traz um bornal com um livro
Fiel ao comportamento esquivo
No dizer a frase é sem espinhas
A parar em todas as capelinhas

Usa uma bela gabardina
Própria de gente que é fina
E parece daqui visto ao longe
Que o hábito faz mesmo o monge


Provérbio provado rimado - CCI

Ai ai ai minha machadinha
Que farei da minha vidinha?

Que linda falua que lá vem lá vem
É tão grande o que a vida contém

Ó malhão que vida é a tua?
É comprida tal qual a falua

E a oliveirinha da serra
Tem raízes profundas na terra

Se atirar o pau ao gato
Ele faz-me cócó no sapato

Com as cantigas já estou baralhada
Parece que estou na rima errada

Pus-me a convocar a memória
A recordar assim cada história

Quase dava para fazer uma tese
Se não viajasse na maionese

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Provérbio provado rimado - CC

Esta é a rima duzentas
Parabéns à linda casinha
Vai a rimar ligeirinha
Qualquer dia são trezentas

E atendendo às centenas
Que não há duas sem três
É a conta que Deus fez
Cá estarei sem problemas

domingo, 24 de dezembro de 2017

Provérbio infantil

Tinha seis anos e os olhos grandes como todas as crianças, bem abertos a cada manhã, cheios de curiosidade pela vida que era uma canção e uma descoberta constante.
Gostava da chuva para poder chapinhar nas poças, até a mãe lhe ralhar: olha que te sujas toda, olha que te constipas!
Pedia uma irmãzinha à mãe para lhe poder vestir vestidinhos como fazia às bonecas, roupas muito brancas com laços cor de rosa, para lhe poder cantar as cantilenas que lhe ensinavam na escola.
Todos os dias aprendia mais uma letra, uma letra dum alfabeto tão comprido que parecia não terminar.
Gostava muito de ouvir histórias e gostaria de vir a escrever aquelas que não lhe tinham contado mas ouvira na imaginação.

Um dia perguntou à professora:
- Porque é que o amor anda descalço? É que o meu pai está sempre a dizer à minha mãe que se não fôssemos pobres lhe dava um par de sapatos novos todos os dias porque a ama tanto... Não serão os beijos na boca as melhores prendas? Eu também queria dar um beijo na boca, mas o Ricardo foge sempre de mim! Será que terei na vida beijos suficientes? Daqueles muito demorados como os dos meus pais quando vão de noite para o quarto e pensam que eu não estou a ver. Já não sou nenhum bebé... e sei muito bem que é das línguas unidas que vai nascer a minha irmãzinha.

- Da boca das crianças sai a verdade

sábado, 23 de dezembro de 2017

Provérbio provado rimado - CXCIX

O sábio não diz o que sabe
O tolo não sabe o que diz
No primeiro vaidade não cabe
O segundo é mero aprendiz

Ambos têm dois ouvidos
Para escutar os incompreendidos
Mas apenas uma boca
Para não dizer frase oca

Só que enquanto o sábio escuta
Sem ajuízar de permuta
O tolo fala demais
E estraga todos os finais

Provérbio provado rimado - CXCVIII

O Pedro é agente do SIS
Mas a figura não condiz
É espião que veio do frio
Se o diz não o contrario

Comunica em código Morse
Se na mão não tiver um entorse
Puseram-lhe no crânio um chip
E deram-lhe notas com clip

Tem russa modelo amante
Que vê só num instante
Quando vai em secreta missão
Aos cem anos da revolução

Mas no fundo está tão carente
Dum antigo amor descontente
Sente grande falta de afecto
De fazer cafuné sob um tecto

Está farto de lençóis apressados
Com nódoas e muito enrugados
E de tanto coito interrompido
Sente-se triste e tão perdido

Quer assentar arraiais
E ter rotinas normais
Que a idade não perdoa
Não quer andar mais à toa

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Provérbio provado sobredotado

Quando a mãe e o pai, Maria e José respectivamente, o foram matricular na escola primária, o processo do filho trazia tantas páginas como as esperanças que nele depositavam e tantas eram as preocupações com a sua adaptação como as páginas em branco onde se escreveria o seu futuro escolar. O dito processo tinha sido analisado, esmifrado e carimbado por uma resma de especialistas de prefixo psi. Depois de muitas trocas e baldrocas, copos meio vazios e pontos de interrogação, a horda de doutas sapiências lá fora capaz de chegar a um diagnóstico pouco consensual: o menino era sobredotado, egomaníaco e mitómano, com laivos de um perfeccionismo doentio.
A Dona Augusta foi a professora que lhe calhou em sorte. Em sorte não!, que o director de departamento deu voltas e voltas à cabeça para arranjar uma sala de aula onde encaixar criança tão sui generis com uns pais tão exigentes. A professora Augusta era tão paciente com os variados degraus de aprendizagem de cada aluno como com as suas teimosias e birras; tinha um largo espectro de tolerância para com os diferentes comportamentos e personalidades, sabendo ser firme quando a ocasião assim o impunha. A coisa ia.
O pior era o recreio. O menino via-se solto e dava largas à imaginação enchendo os ouvidos dos colegas com as suas histórias inverosímeis: que tinha criado o mundo em seis dias e no sétimo tinha descansado, que o dotara de todos os animais, plantas e organismos visíveis e invisíveis, e que moldara um homem do barro e depois uma mulher da costela dele. Um chorrilho de mentiras! As crianças não são tão crédulas como se pensa, percebem bem quando lhes estão a mentir à descarada. E desfaziam-se em queixas à professora.
Veio o fim do primeiro período e com ele a respectiva reunião de pais. E embora tivessem acontecido já muitas conversas paralelas sobre as historietas do recreio, a professora Augusta decidiu ignorar a temática e dedicar-se a tratar do que era realmente importante: o aproveitamento dos alunos. Quando chegou a vez de dirigir a palavra a Maria e José, usou dos seguintes panos quentes a atirar para o morno:
- O vosso filho apresenta algumas dificuldades de concentração na sala de aula, ao tentar ser omnipresente não chega a todo o lado e dispersa-se. É muito seguro de si e está convencido que sabe tudo. E, de facto, atingiu todos os objectivos propostos: sabe organizar o pensamento e exprimir direitinho as suas ideias. Só há um problema: a caligrafia é péssima, ilegível mesmo, e não é capaz de se manter numa linha, escreve tudo torto e fora das margens...

- Deus escreve direito por linhas tortas

Provérbio provado rimado - CXCVII

Não soubeste ter cuidado
E tiveste um dia azarado

Ontem eras são e escorreito
Hoje levas um braço ao peito

Bate mas é na madeira
Benze-te de qualquer maneira

Acende uma vela ao santinho
A pedir não sejas poupadinho

Mas braço em gesso é melhor
Que pedir ao chefe por favor

Tenha ele a razão que tiver
Não lhe dês o braço a torcer

Provérbio provado rimado - CXCVI

Nunca vi ninguém enriquecer
A trabalhar como deve ser
Pois quem na vida é honesto
Não lhe sobra troco para o resto

A menos que tenha uma herança
Recebê-la é sempre uma esperança
Ou que ganhe no Euromilhões
Desde que não apenas tostões

Há quem se julgue muito esperto
De engraxar o patrão está deserto
Para poder subir na carreira
Sem mérito e de qualquer maneira

Se a vida o trata a estalos
Tem de fazer mais que coçá-los
É dedicar-se à bela corrupção
E escapar de soprar no balão

Como a cigarra dormir a sesta
Alapado em vida desonesta
É melhor essa vida de insecto
Do que viver de um modo recto

Quem diz imita a formiga
Para poderes viver sem fadiga
Ouviu a mesma história que eu
Mas nenhuma importância lhe deu

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Provério provado num verso branco - VII

No rosto a vida toda marcada
Nada está ali ao acaso
Lê-se nele os braços que deu a torcer
Os sapos crus que teve que engolir
Os sapatos que calçou e não eram seus
Lê-se cada acorde desafinado
As esperas inúteis e quantos segundos congelados

O seu íman converte o imã
Entroniza o republicano
E filia o anarquista
A sua força é centrípeta
As extremidades desafiam as leis da natureza
A matemática e a filosofia afundam-se na inutilidade

Vive a tranquilidade inquieta
Daqueles que consumiram a inevitabilidade
Dos instantes incompletos e fugazes
Emana um chatme lento e transparente
E tem a respiração típica de quem viveu a vida asmática
Enquanto o pau vai e vem folgam as costas

Provérbio provado enfim descansado

Em breve precisarei de óculos para ver ao perto, pois terei a chamada vista cansada. Com esses óculos enfiaria a linha na agulha, mas já nasci numa época em que mulher que não saiba costurar é socialmente aceite. Também é tolerada se não tiver jeito para a cozinha. Sou filha da revolução. Queriam chamar-me Rui Pedro mas quando nasci ainda não existiam ecografias, tiveram de contentar-se com uma menina. No ano em que terminei a instrução primária o país entrou para a UE. Tenho quase a mesma idade da Festa do Avante. Quando andava no liceu dizia que quando um maço de tabaco e um café custassem 500 escudos deixaria de fumar. Hoje custam o equivalente a 800 escudos e persisto no vício. Começam a desenhar-se-me rugas e finos sulcos no rosto e a pele está a perder o viço. Trabalho mecanicamente:sou menos eficiente que um robot. O que me alivia o duro quotidiano é saber que ao fim do dia posso voltar à posição fetal, esta vida fugaz é o intervalo entre dois sonos.
Entrei nos entas e já não vou para nova. Sou mais nova que ontem e mais velha que amanhã. Morro um pouco mais a cada dia, renasço um pouco mais a cada poente, tenho crises de ansiedade nos equinócios, mas não sinto ainda os calores da menopausa.
Fui lentamente deixando de gostar do dia do meu aniversário, e logo eu que o vivia com tanto entusiasmo! É um dia que parece de novo Ano novo: faço balanços balançando, tenho conversas sérias com o espelho e convido-me para jantar. Claro que nunca vou sozinha, há sempre um maior ou menor grupo de amigos, há sempre membros da família, mas já me aconteceu como se eu sozinha naquele restaurante, dada a melancolia induzida por esse tipo de introspecções subordinadas à efeméride, como se eu sozinha, eu forreta na gorjeta, eu aquela rabujenta que reclama que o bife está mal passado e quando lho trazem de volta o acha demasiado passado.
Digo a minha idade sem falar em números, embora não seja segredo. Hoje ainda há engraxadores na Baixa, há e haverá graxistas circulando nos pequenos feudos que compõem as esferas laborais.
Ainda ponho meias solas nos sapatos, mas já não vou ter com o amolador quando vem apitando rua fora: sai mais barato comprar um chapéu de chuva no chinés, mas mais caro à Natureza lidar com tanta poluição de varetas.
À medida que caminho em direcção ao ocaso, recordo com cada vez maior pormenor as madrugadas. Por exemplo, lembro-me bem das tardes passadas na Feira popular, nessa altura ainda não sabia o significado de kitch mas já não gostava de algodão doce: a mais kitch do mundo das guloseimas, principalmente quando é cor de rosa.
Ia também muito ao Zoológico nessa época; regressei lá há muitos anos, já decorridos outros tantos desde a última visita, e pareceu-me o mesmo elefante de serviço à sineta dezasseis horas por dia, aqueles mesmos olhos tristes, aquele mesmo andar muito lento de esperança perdida, o derradeiro sopro de vida a extinguir-se a cada moeda que aceitava transportar na tromba. O pobre!... Eu ao menos posso chegar ao fim do dia, descer dos cabides onde ando pendurada e vestir por algumas horas a minha identidade se a encontrar. As que trabalham no mesmo sítio que eu, parece que lhes devia chamar colegas, dizem-me até amanhã se Deus quiser, e eu sopro para os meus botões: Deus quer!, porque é que não havia de querer lá do alto da sua infinita misericórdia, se eu não faço mal a ninguém a não ser a mim mesma?
Quando posso finalmente esticar a ciática, penso na minha mãe que deixei de poder ver, penso na mãe Natureza que deixei de querer ver e conto milhares de carneiros saltando uma cerca num prado, devo ter visto aquela cerca e aquele prado em algum filme e é sempre a mesma cerca e o mesmo prado, até a sonhar acordada sou monótona! Descansar dá muito trabalho: só de saber que amanhã vai começar tudo outra vez e terei de andar às voltas no periclitante e embriagante carrocel, fico tão angustiada que às vezes até sinto que o diabo me vem esfregar um olho. Durante o expediente, saber que o tempo em contagem decrescente conforta-me: agora só faltam duas horas para ir picar o ponto, agora só falta uma hora para o merecido descanso, agora já cheiro o vento do solstício e dos escapes dos carros.

- A esperança do descanso alivia o trabalho

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Provérbio provado calado

Falando objectivamente, ele nunca lhe disse que gostava dela. Mas a Júlia escancarou as portas do coração e passou a habitar na ilusão de que era correspondida, nunca imaginando que ele não a rejeitava por cortesia. Claro que aquela amizade colorida - oh, expressão tão sem cor! - oferecia a Jorge o melhor de dois mundos: uma amiga que até era inteligente e espirituosa e bebia com avidez tudo o que ele dizia e um sexo relativamente satisfatório sem compromisso e de borla.
Nunca iam jantar fora, a concertos, ao cinema, beber um copo ou sequer passear no parque e o seu convívio era espaçado: uma vez por mês, quando muito duas se alguma das outras amigas com quem o Jorge tinha sexo ocasional se mostrasse indisponível.
A Júlia levava décadas para conseguir estacionar no bairro onde ele vivia e, mal tocava à campaínha, era recebida com um beijo de fugida na face. Uma ou outra vez tentou abraçá-lo, mas ele tão rígido e desconfortável que desistiu constrangida: na sua paixão cega não queria pressioná-lo de nenhuma forma, por isso nunca revelava os seus anseios de um compromisso mais sério, cuidando que acabaria por cortar a desejada meta sem pressas.
O Jorge não dedicava um único instante a preparar a sua chegada: não arrumava a casa que estava sempre num desalinho, não fazia a cama com lençóis lavados nem preparava uma refeição condigna. Limitava-se a encomendar uma pizza, esquecendo-se sempre de que ingredientes ela não gostava. A pizza chegava enfim, sempre morna, quase fria, e comiam-na à mão em poucas dentadas em frente à televisão; a Júlia demorava um pouco mais pois tinha de descascar cada fatia das azeitonas e dos pimentos.
Depois permaneciam pelo sofá numa conversa ensossa durante mais ou menos hora e meia - o tempo de fazer a digestão - e passavam ao quarto onde se despiam mecanicamente, nunca mutuamente. Às vezes, o Jorge estava mais excitado e atacava-a apressadamente no sofá, a palavra era mesmo essa: atacava-a, já que passava duma posição em que estava tranquilamente sentado para, num salto, lhe enfiar desajeitadamente a língua garganta abaixo enquanto a apalpava com sofreguidão. A Júlia não detestava estes arroubos, até porque não gostava de ser sexualmente tratada como porcelana; achava que ele procedia assim por não conseguir adiar um forte desejo.
No acto propriamente dito, ficava às vezes insatisfeita porque ele terminava amiúde demasiado rápido e raramente queria repetir. Júlia não manifestava esta insatisfação, uma vez que lhe era bastante o amor que sentia (segredava de si para si: será mesmo amor isto que sinto?) e pensava que com uma maior intimidade o sexo aumentaria de qualidade e ele derramar-se-ia aos poucos num afecto desmedido.
Uma vez finda a fruição sexual, a Júlia apertava lentamente o soutien enquanto ia procurando as peças de roupa espalhadas aqui e ali. Depois despediam-se com um beijo na boca: Jorge concedia-lhe um beijo mais demorado, quase terno, do qual rapidamente se recompunha. Não se oferecia para a acompanhar ao carro, mesmo sabendo que o bairro não era muito seguro àquela hora da noite; Júlia nunca lhe pedia que fosse, não queria apresentar-se com uma imagem de fragilidade.
O Jorge soprava-lhe então um vamos falando pouco emotivo antes de fechar a porta atrás de si. Mas nunca era ele quem falava: a Júlia aguardava dois ou três dias para resguardar a devida distância de segurança e, após decorrido esse período, mandava-lhe uma mensagem, no dia seguinte outra e no seguinte outra. Ele não respondia ou, ao fim de algumas mensagens da putativa amiga, devolvia-lhe laconicamente uma linha como se estivesse fazendo um favor.
A Júlia não lhe telefonava: no início tinha chegado, em resultado de impulsos algo incontroláveis, a efectuar algumas tentativas sempre infrutíferas, mas acabou por desistir porque não o queria incomodar. O Jorge acabava eventualmente por telefonar - mais tarde que cedo - sem confessar saudade nem desejo, apenas perguntava mal ela atendia: Olá Júlia, queres passar cá em casa?

- Quem cala consente