O melhor remédio é rir
E nem precisa de receita
Uma vez a asneira feita
Não há por onde fugir
É soltar uma boa gargalhada
Daquelas de tirar o juízo
Que muito riso pouco siso
E a loucura não custa nada
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado - CXCII
És o amor da minha vida
Dê lá por onde der
E eu sou a tua querida
Venha quem muito vier
Não vale a pena enganar
Nossos sofridos corações
Que tantas voltas hão-de dar
Até encontrar mil razões
De saber com toda a certeza
Somos um do outro afinal
Vamos sentar-nos à mesa
E agir como qualquer casal
Não é preciso um papel assinar
Pois quem procura casamento
Se no fim se quiser largar
Só procura arrependimento
Dê lá por onde der
E eu sou a tua querida
Venha quem muito vier
Não vale a pena enganar
Nossos sofridos corações
Que tantas voltas hão-de dar
Até encontrar mil razões
De saber com toda a certeza
Somos um do outro afinal
Vamos sentar-nos à mesa
E agir como qualquer casal
Não é preciso um papel assinar
Pois quem procura casamento
Se no fim se quiser largar
Só procura arrependimento
Provérbio provado rimado - CXCI
Se a conversa é quente e tonta
Há mulheres tão escandalizadas
Que quase parece uma afronta
E que não existem provas dadas
Ou cuidarão que foi a cegonha
Que as trouxe voando no bico
Mas para quê tanta vergonha
Surpreendida sou eu que fico
Será que quando vão para a cama
Não mexem nem uma perna
Enquanto o homem que as ama
Imagina que a menina hiberna
Há que ser um pouco mais soltas
Fazer um ou outro gesto
E tentar ser mais desenvoltas
Ao dar o corpo ao manifesto
Há mulheres tão escandalizadas
Que quase parece uma afronta
E que não existem provas dadas
Ou cuidarão que foi a cegonha
Que as trouxe voando no bico
Mas para quê tanta vergonha
Surpreendida sou eu que fico
Será que quando vão para a cama
Não mexem nem uma perna
Enquanto o homem que as ama
Imagina que a menina hiberna
Há que ser um pouco mais soltas
Fazer um ou outro gesto
E tentar ser mais desenvoltas
Ao dar o corpo ao manifesto
Provérbio provado rimado - CXC
O primeiro nome era um
Apresentou-se com o segundo
E não teve pudor nenhum
De tecer elogio profundo
Atirou-lhe tu és a mais bela
Mulher à face do mundo
Ela ruborizou-se singela
Com esse sentimento fecundo
Mas a mãe logo se acercou
A saber donde era oriundo
Tal fulano como se não fosse
Um amigo do noivo Raimundo
Pôs então os pontos nos is
Deixou-o todo corcundo
Mais nada a filha ouvir quis
Fugiu como se ele um imundo
Foi assim que o nosso Miguel
Soltou um suspiro tão fundo
E com o coração num tropel
Declarou o amor moribundo
Apresentou-se com o segundo
E não teve pudor nenhum
De tecer elogio profundo
Atirou-lhe tu és a mais bela
Mulher à face do mundo
Ela ruborizou-se singela
Com esse sentimento fecundo
Mas a mãe logo se acercou
A saber donde era oriundo
Tal fulano como se não fosse
Um amigo do noivo Raimundo
Pôs então os pontos nos is
Deixou-o todo corcundo
Mais nada a filha ouvir quis
Fugiu como se ele um imundo
Foi assim que o nosso Miguel
Soltou um suspiro tão fundo
E com o coração num tropel
Declarou o amor moribundo
Provérbio provado rimado - CLXXXIX
Aqui há por vezes asneiras
Que chocam quem é susceptível
Mas calma são só brincadeiras
Só ofendem a gente sensível
Que isto de falar português
É chamar os bois pelos nomes
E só os reis na sua vez
Tiveram asseados cognomes
Que chocam quem é susceptível
Mas calma são só brincadeiras
Só ofendem a gente sensível
Que isto de falar português
É chamar os bois pelos nomes
E só os reis na sua vez
Tiveram asseados cognomes
Provérbio provado rimado - CLXXXVIII
À meia noite quebrou-se o encanto
De tão bela Bela adormecida
Que o sapato largou na corrida
Não sei qual é o vosso espanto
Mas talvez fosse a Cinderela
Que afinal comeu a maçã
Com veneno da bruxa vilã
Que era a madrasta dela
Quando chegaram os anões
Que vinham cantando baixinho
Encontraram o Capuchinho
Ajeitando o lobo nos colchões
E então a Pequena sereia
Numa rocha em Copenhaga
Toda essa ilusão apaga
Pois no fundo é muito feia
Quando estas histórias ouves
Livra-te de fazeres confusão
E trocares cada ocasião
Ou temos a burra nas couves
De tão bela Bela adormecida
Que o sapato largou na corrida
Não sei qual é o vosso espanto
Mas talvez fosse a Cinderela
Que afinal comeu a maçã
Com veneno da bruxa vilã
Que era a madrasta dela
Quando chegaram os anões
Que vinham cantando baixinho
Encontraram o Capuchinho
Ajeitando o lobo nos colchões
E então a Pequena sereia
Numa rocha em Copenhaga
Toda essa ilusão apaga
Pois no fundo é muito feia
Quando estas histórias ouves
Livra-te de fazeres confusão
E trocares cada ocasião
Ou temos a burra nas couves
Provérbio provado rimado - CLXXXVII
Uma vez conheci um Simão
Era tão carente de atenção
Parecia ser um bom amigo
E buscar no meu ombro abrigo
História de vida complicada
E dela não escondia nada
Cedo ficou orfão de pai
Perdeu-o chorando num ai
A partir daí não mais soube
Gostar da sorte que lhe coube
Aceitava lesto uma relação
Já sabendo não lhe dar vazão
Mas fugiu assim de repente
Sem sequer ter ficado contente
Estimei-o e foi um ingrato
A montanha pariu um rato
Era tão carente de atenção
Parecia ser um bom amigo
E buscar no meu ombro abrigo
História de vida complicada
E dela não escondia nada
Cedo ficou orfão de pai
Perdeu-o chorando num ai
A partir daí não mais soube
Gostar da sorte que lhe coube
Aceitava lesto uma relação
Já sabendo não lhe dar vazão
Mas fugiu assim de repente
Sem sequer ter ficado contente
Estimei-o e foi um ingrato
A montanha pariu um rato
Provérbio provado rimado - CLXXXVI
Se me visto com roupa mostarda
Quase pareço um cachorro
E já a baguete me aguarda
Grito bem alto socorro
Quando escolho o azul
A nada original ganga
Apetece-me fugir para sul
E usar somente uma tanga
Mas se opto pelo preto
Não é de luto sinal
Logo envergo um amuleto
Que lhe dê alegria no final
Quando uso o vermelho
A que não chamo encarnado
Aceito à mesma conselho
De um transeunte corado
Não ponho roxo nem rosa
Não têm nenhuma graça
São uma mistura manhosa
Nem servem para levar à praça
Conforme a disposição
Não faltam cores a rodos
É a que vier à mão
Que o sol nasce para todos
Sei que o provérbio em questão
Trata mas é da justiça
Que querem foi imaginação
Ou talvez bastante preguiça
Quase pareço um cachorro
E já a baguete me aguarda
Grito bem alto socorro
Quando escolho o azul
A nada original ganga
Apetece-me fugir para sul
E usar somente uma tanga
Mas se opto pelo preto
Não é de luto sinal
Logo envergo um amuleto
Que lhe dê alegria no final
Quando uso o vermelho
A que não chamo encarnado
Aceito à mesma conselho
De um transeunte corado
Não ponho roxo nem rosa
Não têm nenhuma graça
São uma mistura manhosa
Nem servem para levar à praça
Conforme a disposição
Não faltam cores a rodos
É a que vier à mão
Que o sol nasce para todos
Sei que o provérbio em questão
Trata mas é da justiça
Que querem foi imaginação
Ou talvez bastante preguiça
Provérbio asinino - II
Lá mais para a frente haveria de vir uma moda muito pós-revolucionária de pôr nomes mais curtos e simples às crianças. Mas naquela época, mal os bebés abriam a goela com o primeiro choro, logo lhes pespegavam um nome clássico e no mínimo trissilábico, que depois se tornava ainda maior com o respectivo formato diminutivo.
Era esse o caso do Armandinho. Haveria de ser o Armandinho até à puberdade, quando se começou a dar ares de Armando por ter precoces os pêlos do buço e a voz atestada de testosterona. Quando por ele chamavam Ó Armando!, logo vinha o ditote: umas vezes a pé, outras andando. O jovem exasperava-se, mas bendizia não lhe terem posto Alfredo como ao melhor amigo, que inevitavelmente tinha um cú de meter medo e, como era muito bem disposto, nunca se zangava com as piadas sobre o seu traseiro, antes baixava as calças expondo-o ao vento e rindo-se muito, desde que não houvesse nenhuma senhora presente.
Os dois amigos eram inseparáveis e, uma vez terminada a escolaridade obrigatória, dedicaram-se a contribuir para o sustento familiar. Mais certo seria dizer a escolaridade possível: por sorte lá na aldeia até havia uma escola e muita criançada para encher os bancos da sala onde conviviam as quatro classes. Depois de realizado o exame da quarta classe, continuar os estudos só mesmo na longínqua vila, por isso os dois jovens sabiam de antemão que mais estudos só chegariam em concumitância com o serviço militar. Tanto um como o outro tinham famílias numerosas onde a todos cabiam as suas tarefas. Para as irmãs mais espigadotas sobrava o árduo trabalho de casa: arejar, limpar e lavar, além de coser e cozer, enquanto iam tomando conta dos irmãos mais novos numa antecipação do futuro papel de mães.
As ocupações dos rapazes eram todas elas fora de portas, dedicando-se mormente a apascentar gado e recolher lenha. E se muito davam às pernas por aqueles carreiros serranos com os sapatos esburacados, a canseira não era tão digna de monta como à primeira vista poderia parecer: as cabras, a bem dizer, guardavam-se sozinhas, conhecedoras das ervas mais tenras por onde enfileiravam os cascos e faro caprino, seguindo as estraditas de caganitas da véspera. Andar à cata de lenha era porém mais moroso, pois esta nunca era suficiente em casa: a preparação das refeições consumia muitos toros e, além disso, era necessário manter sempre viva a lareira para fazer face ao frio daquelas altitudes. Havia que ter bom olho na recolha dos vários tamanhos possíveis de paus já que, se se limitassem a escolher troncos grossos e compridos, perderiam depois algumas horas a rachar lenha, tarefa, essa sim, passível de pôr um homem a suar em bica.
Para transportar toda essa lenha levavam cada qual o seu burro; à época, os tractores mal tinham começado a cuspir poluição no auxílio que mais tarde emprestariam à agricultura, e naquelas terras pedregosas nem sequer caberiam nas estreitas passagens por onde pastavam as cabras tilintando os seus chocalhos. Uns sons mais fechados e graves, outros mais agudos que correspondiam aos badalos mais pequenos, era esse todo o barulho que interrompia as sestas transgressoras dos dois amigos. Mentira, não era o único: às vezes os burros largavam a zurrar num concerto interminável, instigados por sabe-se lá que misteriosa atrabile. E por mais que os tentassem fazer calar, nada feito: primeiro começava por berrar o do Armando, umas vezes a pé outras andando; quando este muar se calava, logo respondia o do Alfredo no seu cú de meter medo. Ficavam horas naquilo, à vez, até se fartarem, mas nunca em uníssono.
- Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas
Era esse o caso do Armandinho. Haveria de ser o Armandinho até à puberdade, quando se começou a dar ares de Armando por ter precoces os pêlos do buço e a voz atestada de testosterona. Quando por ele chamavam Ó Armando!, logo vinha o ditote: umas vezes a pé, outras andando. O jovem exasperava-se, mas bendizia não lhe terem posto Alfredo como ao melhor amigo, que inevitavelmente tinha um cú de meter medo e, como era muito bem disposto, nunca se zangava com as piadas sobre o seu traseiro, antes baixava as calças expondo-o ao vento e rindo-se muito, desde que não houvesse nenhuma senhora presente.
Os dois amigos eram inseparáveis e, uma vez terminada a escolaridade obrigatória, dedicaram-se a contribuir para o sustento familiar. Mais certo seria dizer a escolaridade possível: por sorte lá na aldeia até havia uma escola e muita criançada para encher os bancos da sala onde conviviam as quatro classes. Depois de realizado o exame da quarta classe, continuar os estudos só mesmo na longínqua vila, por isso os dois jovens sabiam de antemão que mais estudos só chegariam em concumitância com o serviço militar. Tanto um como o outro tinham famílias numerosas onde a todos cabiam as suas tarefas. Para as irmãs mais espigadotas sobrava o árduo trabalho de casa: arejar, limpar e lavar, além de coser e cozer, enquanto iam tomando conta dos irmãos mais novos numa antecipação do futuro papel de mães.
As ocupações dos rapazes eram todas elas fora de portas, dedicando-se mormente a apascentar gado e recolher lenha. E se muito davam às pernas por aqueles carreiros serranos com os sapatos esburacados, a canseira não era tão digna de monta como à primeira vista poderia parecer: as cabras, a bem dizer, guardavam-se sozinhas, conhecedoras das ervas mais tenras por onde enfileiravam os cascos e faro caprino, seguindo as estraditas de caganitas da véspera. Andar à cata de lenha era porém mais moroso, pois esta nunca era suficiente em casa: a preparação das refeições consumia muitos toros e, além disso, era necessário manter sempre viva a lareira para fazer face ao frio daquelas altitudes. Havia que ter bom olho na recolha dos vários tamanhos possíveis de paus já que, se se limitassem a escolher troncos grossos e compridos, perderiam depois algumas horas a rachar lenha, tarefa, essa sim, passível de pôr um homem a suar em bica.
Para transportar toda essa lenha levavam cada qual o seu burro; à época, os tractores mal tinham começado a cuspir poluição no auxílio que mais tarde emprestariam à agricultura, e naquelas terras pedregosas nem sequer caberiam nas estreitas passagens por onde pastavam as cabras tilintando os seus chocalhos. Uns sons mais fechados e graves, outros mais agudos que correspondiam aos badalos mais pequenos, era esse todo o barulho que interrompia as sestas transgressoras dos dois amigos. Mentira, não era o único: às vezes os burros largavam a zurrar num concerto interminável, instigados por sabe-se lá que misteriosa atrabile. E por mais que os tentassem fazer calar, nada feito: primeiro começava por berrar o do Armando, umas vezes a pé outras andando; quando este muar se calava, logo respondia o do Alfredo no seu cú de meter medo. Ficavam horas naquilo, à vez, até se fartarem, mas nunca em uníssono.
- Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado - CLXXXV
Quem bem faz para si o faz
Quem mal faz é para si também
Que a lei do retorno lhe traz
Esse bem ou o mal porém
Serve para simples e doutos
Isso muito na vida já vi
Por isso não faças aos outros
O que não queres que te façam a ti
Provérbio incendiário
Passou a usar calças mais largas e compridas: tinha engordado bastante com a imobilidade forçada a que a sua vida ficou confinada. De si para si justificava-se com uma suposta depressão, enquanto comia cada vez mais desalmadamente. A isso ajudava o facto de a depressão normalmente se fazer acompanhar de uma mudança nos hábitos alimentares: uns perdem o apetite até à quase inanição, outros empanturram-se com comida altamente calórica e pouco nutritiva. Era este último o seu caso: entregava-se ao sofá a comer porcarias enquanto via porcarias na televisão. Até começou a comprar uma revista dita feminina que pormenorizava as emissões televisivas até ao fecho dos canais. Essa revista trazia também uns quantos artigos a armar ao científico de qualidade duvidosa, priviligiando a pseudo psicologia motivacional de pacotilha a que normalmente se chama auto ajuda. Um dia o Pedro tinha lido "Dez factos que lhe permitem identificar uma depressão" e achou que a doença vinha mesmo a calhar para lhe angariar alguma simpatia em tribunal.
Nessa manhã chegou cabisbaixo à comarca, onde o fizeram aguardar numa pequena antecâmara antes de o introduzirem na sala de audiências. Ali não era preciso esconder a pulseira electrónica; pelo contrário, até era um acessório passível de lhe granjear pena, por isso o Pedro pôde alçar as calças largalhonas.
Uma vez começada a sessão, manteve os olhos baixos enquanto o juíz lia a ocorrência usando termos jurídicos que desconhecia. Trocada por miúdos, a coisa podia ser resumida assim: Pedro Miguel Oliveira dos Santos, 32 anos, solteiro e ex-bombeiro, tinha sido apanhado em flagrante delito quando abandonava o local onde tinha começado a deflagrar um incêndio florestal. Os habitantes da aldeia mais próxima tinham chamado a polícia, que lhe descobrira no porta bagagens várias velas iguaizinhas às que justamente tinham dado origem ao fogo. Isto pôde comprovar-se in situ pois estas não estavam totalmente consumidas, sendo por isso ainda possível controlar o dito incêndio, que teria resultado numa calamidade a avaliar pelo abafado vento suão que soprava nesse dia.
Após ler os factos, o juíz tirou calmamente os óculos e perguntou:
- O que tem a dizer em sua defesa?
Pedro ergueu finalmente os olhos envergonhado, tentando convocar na memória os subterfúgios que jizara, mas encontrou o cérebro vazio e apenas lhe ocorreu responder:
- Onde há fumo há fogo
Nessa manhã chegou cabisbaixo à comarca, onde o fizeram aguardar numa pequena antecâmara antes de o introduzirem na sala de audiências. Ali não era preciso esconder a pulseira electrónica; pelo contrário, até era um acessório passível de lhe granjear pena, por isso o Pedro pôde alçar as calças largalhonas.
Uma vez começada a sessão, manteve os olhos baixos enquanto o juíz lia a ocorrência usando termos jurídicos que desconhecia. Trocada por miúdos, a coisa podia ser resumida assim: Pedro Miguel Oliveira dos Santos, 32 anos, solteiro e ex-bombeiro, tinha sido apanhado em flagrante delito quando abandonava o local onde tinha começado a deflagrar um incêndio florestal. Os habitantes da aldeia mais próxima tinham chamado a polícia, que lhe descobrira no porta bagagens várias velas iguaizinhas às que justamente tinham dado origem ao fogo. Isto pôde comprovar-se in situ pois estas não estavam totalmente consumidas, sendo por isso ainda possível controlar o dito incêndio, que teria resultado numa calamidade a avaliar pelo abafado vento suão que soprava nesse dia.
Após ler os factos, o juíz tirou calmamente os óculos e perguntou:
- O que tem a dizer em sua defesa?
Pedro ergueu finalmente os olhos envergonhado, tentando convocar na memória os subterfúgios que jizara, mas encontrou o cérebro vazio e apenas lhe ocorreu responder:
- Onde há fumo há fogo
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado - CLXXXIV
Todos os caminhos vão até Roma
Vê lá não fiques na redoma
De só o Vaticano visitar
Com tanta piazza p'ra calcorrear
Da Navona até à Fontana
Onde a multidão se esgana
P'ra tirar a tal fotografia
Da praxe com muita alegria
E dali até ao Coliseu
É um ar que se lhe deu
Encontram-se os gladiadores
São todos barbudos senhores
Hão-de aparecer Pinóquios
De madeira em solilóquios
Com um ar bem engraçado
No seu nariz tão esticado
Depois o gelado ou as pizzas
De um bom par de euros precisas
Se o orçamento não for mau
Não tarda voltas num ciao
Vê lá não fiques na redoma
De só o Vaticano visitar
Com tanta piazza p'ra calcorrear
Da Navona até à Fontana
Onde a multidão se esgana
P'ra tirar a tal fotografia
Da praxe com muita alegria
E dali até ao Coliseu
É um ar que se lhe deu
Encontram-se os gladiadores
São todos barbudos senhores
Hão-de aparecer Pinóquios
De madeira em solilóquios
Com um ar bem engraçado
No seu nariz tão esticado
Depois o gelado ou as pizzas
De um bom par de euros precisas
Se o orçamento não for mau
Não tarda voltas num ciao
Provérbio provado rimado - CLXXXIII
Não há pachorra para montras
Andar a apalpar ó senhores
E ver duas ou três lontras
Que suam nos provadores
Vem sempre um vendedor
Perguntando se pode ajudar
Não me chateeie por favor
Já tenho de o rabo arrastar
Se não há bom dinheiro
Ou nem uma ideia precisa
Fico quieta não enfeiro
Não me perco na pesquisa
Para mim centro comercial
Fica sempre para depois
E já me chega no Natal
Pôr o carro à frente dos bois
Pois logo chega a rebaja
Fica tudo pela metade
É ver quem é que agarra
O barato com qualidade
Andar a apalpar ó senhores
E ver duas ou três lontras
Que suam nos provadores
Vem sempre um vendedor
Perguntando se pode ajudar
Não me chateeie por favor
Já tenho de o rabo arrastar
Se não há bom dinheiro
Ou nem uma ideia precisa
Fico quieta não enfeiro
Não me perco na pesquisa
Para mim centro comercial
Fica sempre para depois
E já me chega no Natal
Pôr o carro à frente dos bois
Pois logo chega a rebaja
Fica tudo pela metade
É ver quem é que agarra
O barato com qualidade
Provérbio provado rimado - CLXXXII
Tenho uma mancheia de palavras
Para te dizer meu amor
Só que não saem são escravas
Do meu coração sem calor
Ficou gelado ai tão frio
Sem a tua bela presença
Que fiquei num tal desvario
Sem ti faz toda a diferença
E quando agora me procuras
Escondo-me não revelo nada
Só calo bem fundo as juras
Fico-me pela conversa fiada
Para te dizer meu amor
Só que não saem são escravas
Do meu coração sem calor
Ficou gelado ai tão frio
Sem a tua bela presença
Que fiquei num tal desvario
Sem ti faz toda a diferença
E quando agora me procuras
Escondo-me não revelo nada
Só calo bem fundo as juras
Fico-me pela conversa fiada
Provérbio provado procrastinado
Muitas vezes usamos determinadas frases feitas quando queremos dizer precisamente o contrário.
É o caso da expressão abaixo; o que invariavelmente pensamos quando a dizemos é no fundo: na eventualidade de voltarmos a falar, hás-de ser tu a contactar...
- Vamos falando
É o caso da expressão abaixo; o que invariavelmente pensamos quando a dizemos é no fundo: na eventualidade de voltarmos a falar, hás-de ser tu a contactar...
- Vamos falando
Provérbio provado rimado - CLXXXI
Já sabia que não ias ligar
Ainda assim preparei o jantar
E ali na minha cozinha
Fui comê-lo mesmo sozinha
Apesar de ter esse feeling
Penteei-me com uma grinalda
E fiz até mesmo um peeling
Mas acabei por levar a balda
Ainda assim preparei o jantar
E ali na minha cozinha
Fui comê-lo mesmo sozinha
Apesar de ter esse feeling
Penteei-me com uma grinalda
E fiz até mesmo um peeling
Mas acabei por levar a balda
Provérbio provado rimado - CLXXX
É acrónimo de polícia chilena
E também a puta da idade
A diferença não é pequena
E aqui fala-se à vontade
Já se sabe que não perdoa
Aparece toda a maleita
E a vida assim se escoa
Mesmo quando é imperfeita
Não há mesmo nada a fazer
O melhor é irmos sorrindo
Pois quando nos tocar morrer
Fingimos que estamos dormindo
E também a puta da idade
A diferença não é pequena
E aqui fala-se à vontade
Já se sabe que não perdoa
Aparece toda a maleita
E a vida assim se escoa
Mesmo quando é imperfeita
Não há mesmo nada a fazer
O melhor é irmos sorrindo
Pois quando nos tocar morrer
Fingimos que estamos dormindo
Provérbio provado rimado - CLXXIX
O que não vejo não me aflige
Só se convocar a memória
A minha atenção não exige
Fica só mesmo para a história
Não mais lhe passo revista
Se não me vem parar à mão
Pois diz-se que longe da vista
Também é longe do coração
Só se convocar a memória
A minha atenção não exige
Fica só mesmo para a história
Não mais lhe passo revista
Se não me vem parar à mão
Pois diz-se que longe da vista
Também é longe do coração
Provérbio provado rimado - CLXXVIII
Quando ouço o Carlos Gardel
Facilmente me emociono
Vou buscar lenços de papel
A melancolia proporciono
Chega a ser masoquista
A ouvi-lo me dedicar
São tangos não é fadista
Mas fazem na mesma chorar
Era tão colocada a voz
Cantava com tanta expressão
Na garganta fico com nós
E no meu pobre coração
As letras são expressivas
À música não devem nada
De muita emoção permissivas
Até para as pedras da calçada
Eu que sou uma romântica
Às vezes uma parvinha mole
Ponho-me a decorar a semântica
Apesar de serem em espanhol
Houvesse quem me impedisse
Essas pessoas que são rijas
Que a minha avó sempre disse
Quanto mais choras menos mijas
Facilmente me emociono
Vou buscar lenços de papel
A melancolia proporciono
Chega a ser masoquista
A ouvi-lo me dedicar
São tangos não é fadista
Mas fazem na mesma chorar
Era tão colocada a voz
Cantava com tanta expressão
Na garganta fico com nós
E no meu pobre coração
As letras são expressivas
À música não devem nada
De muita emoção permissivas
Até para as pedras da calçada
Eu que sou uma romântica
Às vezes uma parvinha mole
Ponho-me a decorar a semântica
Apesar de serem em espanhol
Houvesse quem me impedisse
Essas pessoas que são rijas
Que a minha avó sempre disse
Quanto mais choras menos mijas
Provérbio provado nada emocionado
A Felismina criou-se como pôde. Cedo orfã de mãe, era com o pai militar que partilhava os seus dias. O irmão, mais velho dez anos, partira no dia em que a mãe partira, tinha Felismina oito anos. Nunca soube nada dele, a não ser que se chamava José Falcão como o pai, cheirava a tabaco que tresandava e emigrou para França. Vou à procura de uma vida melhor, disse-lhe após o funeral, acontecimento que Felismina aguentou estoicamente sem verter uma lágrima para não decepcionar o pai. Levou dois fatos de Domingo, a Bíblia que era da mãe e um volume de Português Suave sem filtro. Levou também os últimos sorrisos que houve lá por casa.
O José Falcão pai era sisudo e mal humorado. Felismina nunca soube exactamente o que ele fazia: quando tinha de preencher algum formulário com a profissão do pai escrevia simplesmente militar, e se lho perguntavam dizia simplesmente militar, encolhendo os ombros quando indagavam da patente. Ora, alguma coisa há-de ser, capitão, alferes ou soldado raso, minha querida!, disse-lhe uma vez a Dona Maria dos Anjos, a única vizinha que às vezes vinha saber se ela precisava de alguma coisa. A Dona Maria dos Anjos não fazia perguntas: tinha o irritante hábito de lançar exclamações para o ar e ficar à espera de uma reacção. Com a Felismina não tinha sorte nenhuma, ela era tímida e pouco conversadora e despachada só nas lides caseiras, que desempenhava de uma penada para depois ter tempo para mergulhar na leitura.
Lá em casa não podia haver barulho, o pai não gostava de música e raramente ligava a televisão, limitando-se a ficar sentado num cadeirão a seguir ao jantar, olhando o vazio com uma expressão feroz, até que as pálpebras se semicerravam e se ia deitar sem nunca despir a farda. Era então que Felismina se dedicava a ler, esperando que o pai não acordasse para a obrigar a apagar a luz, às vezes nas passagens mais emocionantes. Eram as colegas que lhe forneciam os livros, já que a Dona Maria dos Anjos só coleccionava o que dissesse respeito a Fátima e aos três pastorinhos. Como tinha de ir direitinha para casa após a escola, era esse todo o convívio que tinha: vê lá que livro trazes amanhã para me emprestar! Devolvia-os rapidamente e tão estimados como lhe vinham parar às mãos. Mas de histórias de amor não gostava, achava tudo muito rebuscado e era-lhe difícil crer em tantas emoções de gente que não se sabia controlar em ambientes invulgarmente perfumados. Para ela, romance era um livro com mais de duzentas páginas.
Quando tinha vinte anos e conheceu o Carlos, vinte anos mais velho, aceitou sem expressão o anel e a benção do pai, que nesse dia teve um esgar semelhante a um sorriso e até deixou a Dona Maria dos Anjos trazer um chá e uns bolinhos enquanto exclamava muito afogueada vamos ter casamento!
A Felismina disse aceito sem pestanejar no altar, mas nunca devolveu a Carlos uma frase mais ternurenta ou uma carícia fora das quatro paredes do leito.
Um dia bateram-lhe à porta. Pensou que o marido se tinha esquecido das chaves. Foi abrir e mal reconheceu a figura. Sou o José Falcão, o teu irmão. Sentiu um cheiro familiar e, enxugando uma lágrima, foi buscar-lhe um cinzeiro e dispôs-se então a conversar.
- Quem come fel não pode cuspir mel
O José Falcão pai era sisudo e mal humorado. Felismina nunca soube exactamente o que ele fazia: quando tinha de preencher algum formulário com a profissão do pai escrevia simplesmente militar, e se lho perguntavam dizia simplesmente militar, encolhendo os ombros quando indagavam da patente. Ora, alguma coisa há-de ser, capitão, alferes ou soldado raso, minha querida!, disse-lhe uma vez a Dona Maria dos Anjos, a única vizinha que às vezes vinha saber se ela precisava de alguma coisa. A Dona Maria dos Anjos não fazia perguntas: tinha o irritante hábito de lançar exclamações para o ar e ficar à espera de uma reacção. Com a Felismina não tinha sorte nenhuma, ela era tímida e pouco conversadora e despachada só nas lides caseiras, que desempenhava de uma penada para depois ter tempo para mergulhar na leitura.
Lá em casa não podia haver barulho, o pai não gostava de música e raramente ligava a televisão, limitando-se a ficar sentado num cadeirão a seguir ao jantar, olhando o vazio com uma expressão feroz, até que as pálpebras se semicerravam e se ia deitar sem nunca despir a farda. Era então que Felismina se dedicava a ler, esperando que o pai não acordasse para a obrigar a apagar a luz, às vezes nas passagens mais emocionantes. Eram as colegas que lhe forneciam os livros, já que a Dona Maria dos Anjos só coleccionava o que dissesse respeito a Fátima e aos três pastorinhos. Como tinha de ir direitinha para casa após a escola, era esse todo o convívio que tinha: vê lá que livro trazes amanhã para me emprestar! Devolvia-os rapidamente e tão estimados como lhe vinham parar às mãos. Mas de histórias de amor não gostava, achava tudo muito rebuscado e era-lhe difícil crer em tantas emoções de gente que não se sabia controlar em ambientes invulgarmente perfumados. Para ela, romance era um livro com mais de duzentas páginas.
Quando tinha vinte anos e conheceu o Carlos, vinte anos mais velho, aceitou sem expressão o anel e a benção do pai, que nesse dia teve um esgar semelhante a um sorriso e até deixou a Dona Maria dos Anjos trazer um chá e uns bolinhos enquanto exclamava muito afogueada vamos ter casamento!
A Felismina disse aceito sem pestanejar no altar, mas nunca devolveu a Carlos uma frase mais ternurenta ou uma carícia fora das quatro paredes do leito.
Um dia bateram-lhe à porta. Pensou que o marido se tinha esquecido das chaves. Foi abrir e mal reconheceu a figura. Sou o José Falcão, o teu irmão. Sentiu um cheiro familiar e, enxugando uma lágrima, foi buscar-lhe um cinzeiro e dispôs-se então a conversar.
- Quem come fel não pode cuspir mel
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