sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLI

O respeito p'las hierarquias
É uma daquelas manias
Que é assaz corriqueira
E me irrita sobremeneira

Porque também sou pessoa
E a mim ninguém perdoa
Têm de se dar ao respeito
Saudar a torto e a direito

Quando me viram o rosto
É passível de causar desgosto
Só p'ra não dar um bom dia
Mas que figura arredia

Egomania não me amedronta
Sou hirta que nem varapau
Se me fazem essa afronta
Respondo logo põe-te a pau


Provérbio provado rimado - CL

Quando éramos pequeninas
Tudo era sonho e ilusão
Foi tão bom sermos meninas
Ai que grande satisfação

Agora que somos crescidas
Temos de nos aguentar à bomboca
E em apressadas corridas
Perguntar se há para troca

Muitos anos a virar frangos
Sempre com sorriso nos dentes
Dançando tangos e fandangos
Aprendendo a viver entrementes

Se me perguntas se decorei
Na ponta da língua a lição
Com o tanto que me enganei
Já devia ser campeão

Para mais sendo mulher
E sem filhos a quem criar
Farei o melhor que souber
Para boas memórias deixar

Provérbio provado rimado - CXLIX

Que saudades da infância
Ó minha querida irmã
Está lá longe à distância
Tal como tu na Lourinhã

O teu nome deu-to a santa
Catarina de Alexandria
O mesmo puseste à infanta
É uma grande monotonia

Então tiveste mais dois
Sobrinhos do meu coração
Sem muita diferença depois
Chegaram sem aflição

A tua vida é uma lufa-lufa
Às vezes não sei como aguentas
Mas tu sem grande miúfa
Essa tropa toda sustentas

Porém tens mesmo ao teu lado
O cómico e único Nuno
Que é com imenso agrado
Do teu amor o gatuno

Fazem uma bela família
Todo o ano não só em Maio
Mas também surge quezília
Nos cinco Batista Sampaio


Provérbio provado rimado - CXLVIII

Queria um verso de vaca
Mas tinha imaginação fraca

Abriu a época de caça
Logo um tiro a trespassa

Pôs-se a correr no prado
Com o intestino perfurado

Não mais pôde pastar
Veio p'ra aqui avacalhar

Provérbio provado rimado - CXLVII

O fulano é escanifobético
O discurso não é sintético
Nunca consegue resumir
Nem novas ideias parir

Mesmo assim escanifobético
No seu ficheiro alfabético
Tudo tem regra e uma ordem
Mesmo quando elas lhe mordem

A palavra é escanifobético
E sem nenhum teor profético
Ele põe as barbas de molho
Fecha o carro com um ferrolho

Nas crenças o escanifobético
É um personagem céptico
Praticante do niilismo
Com pitada de narcisismo

Quando come o escanifobético
Tudo engole à pressa frenético
Pois nada quer partilhar
A última migalha mastigar

Esquisitóide e escanifobético
Muito estranho pouco ético
E pouca gente o suporta
Quando lhes segura na porta

O rosto do escanifobético
É todo muito assimétrico
Tem maior o olho direito
A boca num esgar a preceito

Aos trinta o escanifobético
Já se apresenta caquético
E com manifesta calvíce
A caminhar para a velhice

Um dia o escanifobético
Teve um ataque epiléptico
E uma febre de arrasar
Ninguém o foi lamentar

Foi a morte do escanifobético
Com um final pouco hipotético
Moderadamente infeliz
Teve a vida que ele quis

Provérbio mesquinho

Pataca a mim, pataca a ti e a mim pataca: eis a forma de o David estar na vida. Essa atitude era mais evidente quando se tratava do verbo comer; o David dava-se ao luxo de mastigar mais lenta ou apressadamente conforme o andar da carruagem, observando cada garfada dos eventuais comensais que com ele partilhassem a refeição, com o fito nas sobras que acabavam invariavelmente por ir parar ao seu prato. Um hipócrita David alegava então que não se podia desperdiçar comida com tanta gente a passar privações neste mundo, mas convenhamos: o David borrifava-se para a fome mundial. Nunca participava em quaisquer campanhas alimentares, justificando não pretender engordar instituições de solidariedade, mas se acaso lhe viessem os próprios dos famintos pedir ajuda directa na rua assobiava para o lado, e até mudava de passeio desde que não houvesse um par de olhos reprovadores por perto. Gostava muito de citar um provérbio oriental nessas ocasiões, que fazia ressaltar com respirada dicção: não dês o peixe, ensina antes a pescar. Claro que o David não pretendia passar a cana para as mãos de nenhum iniciado nas lides piscatórias nem um qualquer esforçado pescador para quem o mar sempre tinha sido demasiado longe, muito menos fornecer-lhe isco e anzol. Dava-se até ao desplante de deixar no ar uma figura de retórica com requintes de mesquinhez, segundo a qual um professor não é suficiente quando o pescador é preguiçoso.
Assim se comportava face ao alimento e de igual modo se passeava pelos outros corredores da existência. O David praticamente não tinha amigos, como não é difícil de adivinhar. Conhecido por oferecer um presunto a quem lhe dava um porco, furtava-se a convívios onde tivesse de ofertar o quer que fosse; inclusivé aos jantares natalícios da empresa, apesar de o repasto à borla ser garantido. Por ocasião da quadra festiva ficava de péssimo humor, arengando contra o consumismo desenfreado; contudo se lhe dessem um miminho para pôr debaixo da árvore, recebia-o com as mãos de par em par acrescentando sempre o típico comentário algo retorcido: homessa, agora foste pôr-te a gastar dinheiro comigo! O Hélder tinha todos os anos um pequeno cabaz que lhe oferecia num gesto desinteressado e que incluía uma garrafa de bom vinho kacompanhada dum queijo curado, um salpicão ou outra delicatessen da família dos enchidos. Recebia em troca umas palmadinhas nas costas e a seguinte invariável promessa: um dia tens de ir jantar lá a casa, pá!
Para grande surpresa do Hélder esse dia um dia chegou. Talvez imbuído do espírito de Ano novo, o David convidou-o para jantar no primeiro Sábado de Janeiro, gabando muito a sopa da pedra que encomendaria no restaurante ribatejano do bairro. Uma vez chegado o ansiado encontro, e já sentados à mesa, destapou-lhe a panela que continha uma pedra.

- Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte

Provérbio provado rimado - CXLVI

A vida é maior do que nós
O coração fica-se p'la metade
E é só quando estamos a sós
Que se manifesta a ansiedade

E no entanto é redondo o mundo
Com conflito de lateralidade
Quem não sabe nadar vai ao fundo
Afogado em certeza e verdade

Tudo o que vemos e não vemos
Possui sua particularidade
Não adianta que nos admiremos
Continua a ter propriedade

O direito do anzol é ser torto
Todos temos uma finalidade
Não querendo ser um peso morto
Temos de dar vazão à vontade

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CXLV

A água fria congela a vontade
E manieta muito a excitação
É crime de lesa-majestade
Corta p'la raíz a tesão

Desse balde de água fria
Tem medo o gato escaldado
Bate forte e até arrepia
Eis mais um provérbio rimado

Provérbio provado rimado - CXLIV

Gosto de autores sem preconceito
E que se deixam partilhar
Que publicam assim a eito
Para quem os queira citar

Não é precisa autorização
Ou malabarista vénia
É ir directo à citação
Sem dar a volta p'lo Quénia

Dão autógrafos de borla
Sem arroubos paternalistas
Recusam a veia parola
São bastante minimalistas

Para mim têm muito valor
Não receiam os derradeiros
Comentários com algum calor
Os últimos serão os primeiros

Provérbio provado rimado - CXLIII

O pomo da discórdia
É uma grande mixórdia
Antes fora de temáticas
Aprenderia matemáticas

Foi o piquete do sindicato
Que apareceu com aparato
Apelou à manifestação
Trouxe p'ra assinar petição

P'ra ajudar aqueles precários
Têm congelados os salários
Houve quem não assinasse
Sem qualquer razão se escusasse

Provérbio provado rimado - CXLII

Tremoços e pevides
Quero que convides
Pagas a cerveja
Não tenhas inveja

Vamos à esplanada
Sem cara amarrada
Até mesmo à praia
Novembro não nos traia

Provérbio provado imaginado

No dia em que os porcos voarem, as galinhas tiverem dentes e os elefantes andarem de bicicleta na Avenida de Roma, simplesmente saberás o que quer dizer:

- Ainda a procissão vai no adro

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CXLI

A Maria e a Eugénia
São amigas da Efigénia
E por sua vez do Valério
Num grupo sem grande critério

Mas juntos fazem panelinha
São pandilha de capelinha
Na boca deles não se safa
Nem sequer a boa da girafa

Que é a senhora muito alta
Que chefia toda esta malta
Puseram-lhe logo uma alcunha
Senão mais ninguém a punha

É gente que adora o boato
P'ra tornar o dia menos chato
Com toda a ocasião fazem graça
Tudo lhes dá motivo de chalaça

Pior é quando lançam testemunhos
Tão falsos como se gatafunhos
Um dia cai-lhes no avental
Um mexerico também desigual

Provérbio provado rimado - CXL

Adoro um bom adágio
Que se propaga por contágio
É bela a quadra popular
No seu inocente rimar

Podia cantar ao desafio
Mas a voz é um atrofio
Não consigo dar os agudos
Que alegrariam os sisudos

Não é voz de cana rachada
Nisso sou afortunada
E há quem diga que é sensual
Para apresentar o telejornal

Provérbio provado rimado - CXXXIX

Mesmo que lave a dentuça
Vergonha não tem na fuça
Apesar de ainda ter o siso
Isso não lhe traz mais juízo

A mentir é muito competente
Para ele a peta é frequente
É com dentes tem na boca
A verdade é sempre pouca

Provérbio provado rimado - LXXXVI

Quem se ri sempre contente
Um dia ainda lhe salta um dente
Tem muito alegre o focinho
Ri-se até do comezinho

Nada contra quem é feliz
Isso também p'ra mim quis
Mas parece que não pensa
O reflectir não lhe é pertença

Eu havia de assim ser
De inquietude não me roer
Quem se contenta com a sorte
É muito feliz até à morte

Provérbio provado rimado - LXXXV

Umas alpergatas vi na net
Dignas duma bibliotecária
Sem dinheiro foi um frete
Tive ideia revolucionária

Lembrei-me de pedinchar
Pois esse cartão não tinha
E as colegas chatear
Que fizessem uma vaquinha

Uma delas não pode ver nada
Uma rasteira me passou
Com os sapatos ficou excitada
No mesmo dia logo os comprou

Agora já não os quero
Não aprecio que me imitem
Mas p'rá próxima vez espero
Que a vaquinha possibilitem

Provérbio provado rimado - LXXXIV

A quem te queira presentear
Depois do jantar não exijas cear

Se por sorte te derem automóvel
Vê lá não peças também telemóvel

Saber aceitar é toda ela uma arte
Receber assim não é em toda a parte

Que quem tem prendas de mão beijada
Só agradece se for à estalada

Provérbio forasteiro

A Isaura só tinha vinte anos mas já muitas histórias para contar. E se a Isaura gostava de contar histórias; no café, no supermercado, no parque, onde houvesse um interlocutor, lá estava ela desejosa de dar à língua! Até nas lojas dos chineses... punha-se a falar, a falar, marimbando-se que não entendessem patavina do que dizia.
A Isaura engordava as estatísticas do abandono escolar. No fundo não gostava de estudar, mas contava a todos da sua má sorte de ter uma família grande; a mãe casara em segundas núpcias e esbanjara gravidezes: parira três filhos uns a seguir aos outros. O mais novo tinha só dois anos e o mais velho sete. Eram a cara de um o focinho do outro, e por sua vez iguais à Isaura e à mãe: ali não se jogara à adivinha genética. A Isaura tomava conta dos irmãos e fazia-se acompanhar por eles para todo o lado num grande alarido; a mãe tinha dois trabalhos, saía muito cedo e regressava mais tarde ainda.
A Isaura fizera um breve interregno na sua tarefa de ama seca; conquanto fosse muito nova, casara-se num impulso com um pacóvio que lhe achou graça. Mas não foi a mudança de vida que lhe era devida; fartou-se rápido das exigências dele, dos seus cozinhados predilectos, da muita roupa para engomar e meias rotas para remendar. Voltou num instantinho para a casa da mãe: assim como assim preferia ser criada dos irmãos sobre quem sempre tinha algum ascendente. Família é família.
Todavia, a Isaura andava desejosa de dar um novo rumo à vida e, depois de um parlamentar com uma amiga, desatou a responder a anúncios que pediam meninas para cuidar de crianças no estrangeiro. Não cabia em si de contente: iria viajar bastante, conhecer pessoas novas e ganhar muito dinheiro, mas, pobre Isaura, na sua pouca esperteza, não vislumbrava que seria seria apenas uma criada duma família longínqua, confinada a uma casa estranha de onde não poderia sair quando queria para passear.
Esperou ansiosa que lhe respondessem de Inglaterra e da Holanda mas, como tardavam as novas e o seu frenesim era imenso, acabou por ir parar à Suiça para trabalhar numa fábrica de congelados. Isaura tiritava, lá dentro e lá fora. Era inquilina de um casal de portugueses afectuosos que, sorte a sua, achavam muita piada ao seu tagarelar. Sentia enormes saudades do seu país soalheiro, principalmente dos seus três pequenitos irmãos. E afoita para travar novas amizades como do pão para a boca, tornou-se íntima de um vizinho suíço que lhe punha a tocar os seus discos de vinil.

- Mais vale um vizinho à mão do que ao longe o nosso irmão

Provérbio provado rimado CXXXVIII

Nestes belos provérbios provados
Não costumo escrever sobre mim
Há quem pense que mando recados
Temos pena mas não sou assim

Porém tudo é autobiográfico
E escrever é assim no fundo
De dentro sai pornográfico
O sentimento mais profundo

Não adianta estar reprimido
Ficar escondido ad eternum
Tem mais é que ser proferido
Escangalhado sem medo algum

Mas quando tenho algo a dizer
Não costumo mandar por ninguém
Não me escondo atrás do escrever
Ter receio é que não me convém

Os meus lamentos são passageiros
É como se tivesse microfone
E tal como dizem os brasileiros
Ponho logo a boca no trombone