domingo, 15 de setembro de 2019

Provérbio provado rimado - DCLXVII

O Rui é um misantropo
Desconfia da humanidade
É assim desde cachopo
Falta-lhe espontaneidade

Quando lhe fazem um convite
O Rui recusa prontamente
Provenha ele da elite
Ou até de um indigente

Gosta de estar em casa sozinho
De dar passeios pelos bosques
E se acaso encontra um vizinho
Diz logo vou dar de frosques

Provérbio provado num verso branco - LX

Ter opinião é como andar à procura do sol
Num dia de contar carneiros nas nuvens
A língua carece de certezas
Os olhos duvidam dos ângulos rectos
Os dedos descobrem que a matéria é inútil
Tudo o que se pensa e se sente
É uma mentira que aprendeu a andar
O que ontem era hesitação
Hoje é funeral e amanhã transformação
Boca que diz não também diz sim

Provérbio provado rimado - DCLXVI

Seja sincero e clemente
Bonzinho e diligente
Olhe bem pelos demais
Trate todos como iguais

Não precisa ser o tolo
Que se traz a tiracolo
Basta-lhe ter a noção
Da pureza de intenção

Bons frutos irá colher
No caminho que fizer
Queira o bem e faça o bem
Que o resto a seguir vem

Provérbio provado num verso branco - LIX

A vida não é uma lotaria
Não é o tiro inteiro no escuro
Ela escolhe-se e escolhe-nos
Temos uma palavra a dizer
Tropeçamos e reerguemo-nos
A lotaria não contempla a vontade: apenas a sorte
E a vontade tem pernas compridas para descobrir os caminhos
A viola quer-se na mão do tocador

sábado, 14 de setembro de 2019

Provérbio provado rimado - DCLXV

Quando ajudas as demais almas
Podes esperar retribuição
Uma mão lava a outra mão
E as duas batem palmas

Provérbio provado rimado - DCLXIV

Tu atenta neste ditado
Se és homem ponderado
Ao fazeres uma promessa
As tuas intenções confessa

Pois se voltares atrás
Um bom mentiroso serás
Já que a palavra dada
Tem de ser palavra honrada

Provérbio provado rimado - DCLXIII

O preconceito sem razão
Que julga de antemão
É coisa das mais gravosas
Arrogantes e perigosas

Pois ter preconcebidas
Ideias mal reunidas
Sem corpo e a cuspo coladas
Por dogmas alimentadas

É triste e pouco eloquente
De bons argumentos carente
Estúpido e até com maldade
Usar só do cérebro metade

Tão comum o vão preconceito
Da sociedade um defeito
Repetido sem fundamento
É da violência alimento

Prejudica as minorias
É austero e tem manias
Elitista também sabe ser
Tem-no quem se nega a aprender

Os que são ruins e mesquinhos
Não suspeitam que velhos caminhos
Não abrem senão portas novas
Não são necessárias mais provas

Há que o preconceito despir
Todo o homem vivo permitir
Que ocupe cá o seu lugar
Sua estrada vá desbravar

Provérbio provado rimado - DCLXII

A minha dentada tem dente
Não deixo ninguém indiferente
Quieto ou impassível
Comigo tudo é possível

Até dez eu nunca conto
Ponho meio mundo tonto
Com tendência ao exagero
Paninhos quentes não quero

Espontânea e muito sincera
Por vezes pareço uma fera
Sou bruta e pouco trafulha
Digo toma lá e embrulha

Provérbio provado rimado - DCLXI

Por cima da palavra um tecido
Que seja alvo puro imaculado
Que a proteja dos olhos um bocado
Até ser um tempo esquecido

Ao lado da palavra à direita
Um braço bem forte e à esquerda
Outro igual que represente a perda
Dos vocábulos com que ela é feita

No fundo da palavra um baú
Uma paz perdida uma zanga
Uma carta guardada na manga
Um cheiro antigo um verso cru

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Provérbio provado rimado - DCLX

De mês sem érre é petisco
É dos pobres o marisco
Para comer com a bejeca
Que a garganta já está seca

Diz que sofrem um pouquinho
Quando vão para o tachinho
Pois são cozinhados vivos
E debatem-se esquivos

Por isso há quem desdenhe
E contra isso se empenhe
Além disso acham nojento
Que tal sirva de alimento

Por mim sou toda a favor
Já que adoro o sabor
Não penso que é crueldade
Há que haver honestidade

Em criança eu cantava
Enquanto os bichos apanhava
Ai caracol caracol
Põe os pauzinhos ao sol

Provérbio provado rimado - DCLIX

Dias úteis é o que lhes chamam
Não percebo qual a utilidade
De estar com os que não me gramam
Privada de ar e liberdade

Dias úteis sem opinião
Num cabide pendurada
Repetindo até à exaustão
Gestos que valem pouco ou nada

Dias úteis como um animal
Às vezes lento como um cágado
À espera de um dia informal
Enfim nunca mais é sábado

Provérbio provado rimado - DCLVIII

Dele se conta uma história
Que faz na Bíblia memória
Seu amigo Cristo entregou
Depois envergonhado o beijou

De quem falamos sabeis?
É de apóstolos não de reis
Consultai os Evangelhos
E vereis Judas de joelhos

A seguir talvez tenha fugido
Lacrimoso e arrependido
Empreendeu dura viagem
Foi para longínqua paragem

Lá onde ele as botas perdeu
Chega a ser mais longe que o céu
Pelo visto o cu também ficou
Tão distante não mais se encontrou

(Ilustração: Junkhead)

Provérbio provado rimado - DCLVII

Para o dia bem começar
O Joaquim vai à taberna
Direito quando vai a entrar
A sair já troca a perna

Vai o mata bicho tomar
Que não é coisa moderna
Fica com a fala a arrastar
Até troca a língua materna

domingo, 8 de setembro de 2019

Provérbio provado rimado - DCLVI

Quem nasceu para sardinha
Nunca chega a tubarão
Fica no cardume à pinha
Não avança para a acção

Quem nasceu para lagartixa
Nunca chega a jacaré
Dá por perdida uma rixa
Entra sempre pé ante pé

Provérbio provado rimado - DCLV

Há uma estátua na Madeira
De um jogador afamado
Não está lá por brincadeira
Pois ele é bem medalhado

Mas parece que o artista
Que trabalhou o tal busto
Deixou uma vaga pista
Só se reconhece a custo

Quem a tal estátua encara
Não reconhece a olho nu
Já que nela o desenho da cara
É do outro a imagem do cu

Provérbio provado rimado - DCLIV

Tu pertences à tribo dos fúteis
Que prestigiam as aparências
Envergam ambições inúteis
A disfarçar incompetências

Segue o teu rumo ligeiro
Não venhas aqui para o meu lado
Queres sempre chegar em primeiro
Mas eu já estou bem vacinado

sábado, 7 de setembro de 2019

Provérbio provado num verso branco - LVIII

Se eu fosse um livro
Já tinha tantas páginas escritas
Coloridas de memórias e vidas
Algumas bafientas carcomidas
Tantas ainda por preencher
Capa dura resistente a tombos

Seria um livro como outros naquela estante
Mas um que as pessoas quereriam folhear
Soprando entre as páginas para as soltar
Da rugosidade que deixam as lágrimas ao secar

Na lombada do livro que era eu
Constaria a informação habitual
O nome que me deram e fiz meu
E um título que levasse à viagem de descoberta
Que se desdobrava por entre capítulos
Título de maiúsculas onde se lia assim:
Vida de andar nas nuvens

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Provérbio provado rimado - DCLIII

Se de elogios és escravo
Queres que te gabem a bravura
Começa a dar uma no cravo
E dá outra na ferradura

Provérbio provado rimado - DCLII

Estás no século vinte e um
Não precisas viver escondido
Nos dias de hoje qualquer um
Com o sexo é bem destemido

Se a tua sexualidade
Não seguir o vulgar padrão
Que é pasto da banalidade
E assegura a procriação

Não tenhas medo do medo
Nem faças figura de otário
Cria o teu próprio enredo
Vai lá sai mas é do armário

Se ficares depois baralhado
A pensar nos comos e porquês
Não temas não serás julgado
Entra no armário outra vez

Provérbio provado conversado - II

A Georgina vivia no seu mundinho do quero, posso, faço e aconteço. Argumentativa e persuasiva, ilustrava com exemplos cada sua sentença. Tinha sempre uma citação de cor - fosse de um autor de renome, de um personagem televisivo ou até extraída de uma conversa ouvida no café nessa manhã -, vira sempre in loco as ocorrências que procurava comprovar com os dois olhinhos georgianos que a terra haveria de comer.
A Georgina falava que se desunhava, como está bem de ver, e normalmente tinha quem a escutasse, pois não era de ficar em casa a falar com as paredes. Muito activa, a sua condição de desempregada não a deixava esmorecer. Enviava currículos a torto e a direito e frequentava inúmeros cursos inúteis cujos horários se chegavam inclusive a sobrepor. Nas lojas nas repartições e escolas - algumas duvidosas -, Georgina entabulava conversa com toda a gente desde o porteiro ao máximo doutor sem pausas nem vergonha. Todo o santo dia tagarelava e assim se dava por contente.
Até que um dia uma gripe fulminante num Inverno mais aparatoso a venceu. Caiu à cama e não mais piou. Nenhum dos seus ocasionais interlocutores a foi visitar para dar dois dedos de conversa e Georgina foi definhando com uma enorme fraqueza.

- Falar, falar, não enche barriga