quarta-feira, 24 de julho de 2019

Provérbio provado rimado - DCXXVI

A obra prima do mestre
E a prima do mestre de obras
Não podem ser confundidas
Ou ficarás com as sobras

Também a estrada da Beira
Assim como a beira da estrada
São coisas bem diferentes
Já estás a ficar baralhada

É melhor uma mamada no salão
Que uma salada de mamão
Aqui não restam dúvidas
E prende bem a atenção

São apenas trocadilhos
Ou piadolas de caca
Mas arrancam-te um sorriso
Nem que tussa a vaca

(Ilustração: Junkhead)


Provérbio provado rimado - DCXXV

Na divisão de tarefas conjugal
Ela trabalha e ele lê o jornal
Diz que vem do trabalho cansado
Será igual quando for reformado

Ele com a comida é um chato
Da mulher faz gato sapato
Quer as camisas bem engomadas
E as costas também massajadas

Ela aguenta mas às vezes chora
E desabafa com a prima Aurora
Que lhe diz tem lá calma filha
Tal como aprendeu na cartilha

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Provérbio provado rimado - DCXXIV

A Ana Luísa era ladra
Mas dinheiro não roubava
Nunca foi parar à esquadra
Nem por lá perto andava

Era tão má e mentirosa
Conseguia tirar vantagem
De qualquer situação ardilosa
Para a qual reunisse coragem

Cobiçava tudo o que via
As outras mulheres usar
E fazia a sua magia
Nas artes de manipular

Esperava que a outra estreasse
Para poder comentar no fim
Por melhor que até lhe ficasse
Isso fica-me melhor a mim

Uma vez conseguiu cobrar
Umas contas de água e luz
Quando estava no Porto a morar
E a outra vivia em Queluz

Batia num gato bebé
Por fazer fora da caixa
Vai aprender como é
Dizia essa pessoa baixa

Fez sumir como que por encanto
Uma máquina de escrever antiga
Nem imaginam o meu espanto
Porque a julguei minha amiga

Nunca vi tão vil pessoa
Ou tanta maldade junta
Não havia qualidade boa
Só faltou fazer-lhe a pergunta

Porque és tão ruim criatura
Tão estúpida e tão azeda?
Qual seria a tua figura
Se te pagassem na mesma moeda?

Provérbio provado rimado - DCXXIII

Quem lá foi deu e levou
Só não morreu porque matou
E regressou traumatizado
Talvez com um membro amputado

A guerra é a maior vileza
Que lesa o povo e a nobreza
Cobre tudo com o manto da morte
Mesmo quem não tem essa sorte

Não consente escapatória
Acaba sempre mal a história
Em toda a facção há perda
Porque a guerra é uma merda

Dizer merda é muito pouco
A guerra é um verme louco
Germina em algumas mentes
Que possuem genes doentes

São disputas por um território
Do tamanho de um supositório
As razões são tão levianas
Fugazes e muito mundanas

Enquanto existir na terra
É fugir que em tempo de guerra
Qualquer buraco é trincheira
Enconderijo de toda a maneira

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Provérbio provado rimado - DCXXII

O Vicente era um agricultor
Que gostava do seu labor
Por conta própria trabalhava
E em mais ninguém delegava

Aos domingos e dias santos
Não acusava quebrantos
Ia à mesma para a lavoura
Com uma tarefa duradoura

Mas chega o tempo da batata
E o nosso Vicente constata
Que vai necessitar de ajuda
Quando é preciso ele muda

Telefona ligeiro ao compadre
Que consiga quem se enquadre
Ganhe pouco com muito esforço
Funcione como um bom reforço

Ó compadre eu não sou de intrigas
Mas não quero cá raparigas
Arranje-me é forte macho
Que no fim eu logo o despacho

Chegado o dia da colheita
A manhã raiava perfeita
O Vicente esperou e esperou
A batata sozinho apanhou

É que o macho em questão
Era afinal espertalhão
E deixou o Vicente plantado
Faltando ao que foi combinado

Provérbio provado rimado - CDXXI

O Mário é um vagabundo
Como existem tantos no mundo
Que à ladroagem se dedica
Se com guito no bolso não fica

Ele vive do expediente
E assim sobrevive contente
Às vezes arranja um biscate
Na oficina de um alfaiate

Mas ele gosta é de andar
Pelas estradas a vaguear
Dedicar-se ao dolce far niente
Ser das ruas um residente

O Mário também tem azares
Roubaram-lhe os malabares
E desmaiou nos urinóis
Ficando em maus lençóis

Logo alguém chamou o INEM
Que as pulgas do Mário não teme
Finalmente uns lençóis lavados
Cingiram os seus membros cansados

O que lhe reserva o futuro?
O Mário gosta de ser um duro
Quiseram arranjar-lhe um trabalho
Mas mandou-os para o caralho

Perdoem-me se escutaram
A história tal qual ma contaram
É melhor tapar os ouvidos
E também os outros sentidos

Pois o Mário cheira muito mal
Mesmo dentro do hospital
Insistiu que não se lavava
E um mau odor exalava

Isto há-de ter um desfecho
Mas eu esta história já deixo
Imaginem-lhe um fim vocês
Pensando nos comos e porquês

Provérbio provado num verso branco - LV

Denúncia

Lamento informar os mais crescidos que não existem unicórnios nem fadas
As crianças sabem-no de cor e salteado há muito
Mas como não vos querem entristecer fingem que acreditam
Na falta de lógica que há na vossa verdade sem simetria
Por isso escusam de lhes impingir mais criaturas fantásticas
Com a desculpa de que precisam de sonho e magia

A magia e o sonho são outra coisa
É a vida a acontecer minuto a minuto
Saber que há futuro nesse minuto e isso ser autêntico e inominável

Já agora que estou com a mão na massa
Digam-lhes também que não há anjinhos da guarda
Velando noite e dia como prometem as orações que lhes ensinam
Que as crianças repetem porque parecem música

Alguns anjos até podem ter asas para as levar a voar para lá do imediato
Mas são tão só irremediavelmente humanos
Andam por aí nas ruas ou sentados em bancos de jardim
E têm histórias para contar de quando sonham acordados a magia da realidade

Provérbio provado rimado - CDXX

Por vezes apetece-me parar
Deixar a escrita de lado
Que faça parte do passado
E tudo às urtigas mandar

Mas depois no dia seguinte
Acordo a sentir-me inspirada
E logo uma linha é lavrada
Com mais ou menos requinte

Escrever é o meu fadário
Quer seja bem ou mal feito
É relação causa efeito
Entre mim e o abecedário

Por isso não temam que vá
Mais tarde desaparecer
Hei-de continuar a escrever
E por hora estarei por cá

Provérbio provado rimado - CDXIX

Quem se acha mais do que é
Se reveste de muita importância
Pois que meta no cu a jactância
Que me deixa os cabelos em pé

Fico de tal forma irritada
Com aqueles que se sobrestimam
Que por mais que se redimam
De mim já não levam nada

Posso parecer antipática
Mas à verdade não corresponde
Que por baixo da capa se esconde
Uma pessoa bem empática

Provérbio provado rimado - DCXVIII

Se te sabes adequar
Ao ruim do quotidiano
Hás-de medalha ganhar
Por seres em Roma romano

Não é tão fácil tarefa
Que deves empreender
Aguentarás uma catrefa
De coisas para não esmorecer

E se fores um romano jeitoso
Contente e bem adaptado
Lembra-te de ser rigoroso
Cuida bem do estrangeiro coitado

Daquele que por mais que faça
Em Roma se vê sempre grego
Se ri da própria desgraça
E continua no desemprego

Provérbio provado rimado - DCXVII

Da púcara tirar nabos
É um exercício vulgar
Para alguns feiosos diabos
Que gostam de tudo cuscar

Que chafurdem no pucarinho
Onde fermentam a vidinha
E saiam assim de mansinho
E me deixem cuidar da minha

Não lhes mato a curiosidade
Finjo que não é nada comigo
Porque tenho mais sagacidade
Confissões só faço a um amigo

Provérbio provado devorado

O Artur era o que vulgarmente se designa por comilão. Tinha um apetite voraz, era um saco sem fundo. Não era especialmente selectivo na escolha da merenda, comia tudo o que mexesse.
Entretanto, a esta altura do campeonato, e com as pistas já dadas, os leitores já perceberam que não estamos a falar de comida. Pois é, o Artur devorava corpos e estava-se literalmente cagando para as cabeças que os acompanhavam.
Outros garantiam-lhe que um bom cérebro se traduzia num acréscimo do desejo. Para o Artur eram balelas, o trabalho dos neurónios era-lhe indiferente. O que ele queria eram músculos ágeis, ancas num reboliço e cambalhotas olímpicas, uma fruição consentida e sem vínculos.
Comia até encher a pança e no fim palitava os dentes, que é como quem diz sacudia os tomates, com profundo desprezo pela companhia. Partia para a próxima refeição de memória limpa, não se preocupando minimamente com as bocas que ficavam a suspirar e os braços com vontade de abraços.
Algumas das suas conquistas pagavam-lhe na mesma moeda e nunca mais lhe queriam pôr a vista em cima; porém, outras havia que o desejavam rever e repetir o banquete.

- Onde se come ficam migalhas

Provérbio provado rimado - DCXVI

Estou farta de gente parvinha
Que faz perguntas obtusas
Quem o é não o adivinha
E nem sequer pede escusas

São palermas todos os dias
Tacanhos tapados e tolos
Tentando com vãs picardias
Fazer dos outros parolos

Quem o público atende
Tem de ter muita pachorra
Aturar quem o ofende
E calar o que é uma porra

Há que tolerar imbecis
Encostando ao balcão a barriga
Engolir tamanhos ardis
Que podem estalar numa briga

Ter bastante diplomacia
Às vezes nem responder
É sinal de supremacia
Não de se estar a encolher

Quando surge um demagogo
Que afincadamente só teima
É dizer que quem brinca com o fogo
É certo que um dia se queima

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Provérbio provado rimado - DCXV

Ainda era de dia
Mas eu as estrelas já via
Que nos teus olhos brilhavam
E como sempre lá estavam

Nos teus olhos a menina
Gritava sem disciplina
Insistia que me amava
Derramando-se como lava

Eu ficava muda e queda
Mas secretamente leda
Não sabia o que responder
Nos teus olhos gostava de ler

Um dia foste-te embora
Havia de chegar tal hora
E eu fiquei arrependida
De não ter sido mais querida

Pois imensa falta me fazes
Vem comigo fazer as pazes
Fumar o célebre cachimbo
Que nos resgate do limbo

Provérbio provado rimado - DCXIV

Recebe na tua mão
O que as minhas te dão
Que é de boa vontade
Ó minha cara metade

Não pretendas exigir
Terás só de te cingir
Ao que te posso dar
Sem te querer defraudar

Quando o dia é cinzento
E sopra contrário o vento
Amor tem lá paciência
Usa da tua resistência

Afasta de mim todo o drama
Que a tua fibra derrama
Não antecipes as perdas
Epá deixa-te de merdas

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Provérbio provado rimado - DCXIII

Ficas abismado no início
Com a altura do precipício
Parece mais alto do que é
Tens de dar um salto de fé

Não vai ser uma coisa serena
Mas no fim tu não terás pena
Representa uma grande ruptura
Uma atitude mais madura

Provérbio provado rimado - DCXII

Eu bem olho os lírios do campo
E aprendo dos rios a lição
Mas tão frequentemente me estampo
Que pareço não ter cognição

Se até não sou burra de todo
Porque dou tanto tropeção?
Porque me amachuco no lodo?
Porque abraço a imperfeição?

Tantas vezes de mãos atadas
Parece ser a minha restrição
Diz que sou das pessoas dotadas
Mas dispensava a erudição

Não queria a complexidade
Mesmo que pareça um chavão
Preferia só a simplicidade
De descansar em qualquer colchão

Provérbio provado rimado - DCXI

Aquela ali só causa transtorno
Não faz a ponta de um corno
Não sabe nem quer aprender
Só quer o salário receber

Tem uma postura perniciosa
E uma atitude belicosa
Quando fala acha normal
Dizer-se grande profissional

Quem a ouve não a leva presa
A discorrer à volta da mesa
Tem sempre um comentário azedo
Até a chefe dela tem medo

Dizem que tem quentes as costas
Por isso dá aquelas respostas
A gaja só faz mesmo o que quer
E nunca um serviço qualquer

É uma criatura imprestável
Extremamente irresponsável
Não se pode com ela contar
Nunca está disposta a ajudar

Mas os seus direitos reclama
E muito o ambiente inflama
O que são deveres desconhece
Acha sempre que tudo merece

Provérbio provado rimado - DCX

Se estás sempre a procrastinar
Para as calendas gregas deixar
Informo-te já que esse dia
No calendário não existia

Por isso deixa de adiar
Que a vida não vai esperar
Em ti podes ter confiança
Mais ânimo e perseverança

Provérbio provado rimado - DCIX

O Faustino é um amargurado
Pelos erros do seu passado
De manhã acorda de trombas
Com vontade de colocar bombas

Ele nunca está satisfeito
Tem se um aperto no peito
Cada frase é uma alfinetada
Porque não pode dar bofetada

É uma pena que o Faustino
Seja infeliz desde menino
Consigo mesmo não tem paz
Assim é desde que foi rapaz

Nunca um mero sorriso
Se lhe aflora ao semblante
Ele está sempre de sobreaviso
Com mais trombas que um elefante

(Ilustração: Junkhead)