quinta-feira, 6 de junho de 2019

Provérbio provado rimado - DXLV

Marcianos querem-se verdes e puros
Nunca por nunca a cair de maduros
Ao conquistar a Terra vindos de Marte
Querem-na toda não só uma parte

Têm antenas e um olho na testa
Comem corações que vai ser uma festa
Têm seis braços e pernas compridas
E tal como os gatos têm sete vidas

Planeiam lançar massiva invasão
Que não fique nem uma pedra no chão
Toda a vida na Terra vai perecer
Assim é nos filmes um vazio a valer

Os terráqueos ao vê-los estão assustados
E os circuitos ficam todos queimados
Plantas e legumes quedam-se murchos
Agora é queimar os últimos cartuchos

Provérbio provado rimado - DXLIV

Tal como o roto e o nu
Andam a mostrar o cu
Também anda cada pardal
Em parelha com seu igual

Há tendência para se unirem
Os que na vida coincidirem
Seja num laço familiar
Ou numa união singular

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Provérbio provado hierarquizado

O edifício era um labirinto onde as pessoas pagavam para se perderem. Quando se estavam quase a encontrar, vinha um assistente para os ajudar a perderem-se mais um bocadinho. Quando soava a hora de fecho, subitamente todos encontravam a porta de saída e deixavam de estar perdidos por aquele dia.
Havia o chefe de departamento, o chefe de divisão e o chefe do equipamento propriamente dito. Lá dentro, os peões, que ali se chamavam assistentes, podiam ter várias categorias, mediante a sua altura: altos, médios e baixos. Por exemplo, os assistentes altos nunca eram colocados no labirinto, pois serviriam como um bom ponto de referência para as pessoas se encontrarem lá dentro. Já os assistentes baixos não operavam as luzes e os mecanismos de alarme que estavam posicionados por cima da estrutura do labirinto, pois não altura, digamos, à altura dos acontecimentos.
Tudo ia decorrendo hierarquicamente como num carrossel de cores esbatidas: cada peça da engrenagem, mau grado o cansaço rotineiro das tarefas, sabia o seu lugar e aquele equipamento desempenhava a sua função sem grandes sobressaltos.
Um dia, o chefe de departamento entrou labirinto adentro sem se anunciar. Despiu-se de quaisquer elementos que o pudessem identificar e misturou-se com os utentes. O chefe era alto, mas encolheu-se de modo a não sobressair, e dispôs-se a acatar as sugestões dos assistentes baixos que o ajudariam a perder-se. Sabia de antemão que bastaria erguer-se e olhar para cima para as luzes e para os alarmes para se conseguir evadir dali, mas o chefe de departamento queria perceber efectivamente quem afinal poderia realizar que funções, pois suspeitava não ser a altura em metros um bom indicador de desempenho e, sim, haver outras coisas que faziam uma pessoa grande.

- A pessoa é grande quando respeita os pequenos

terça-feira, 4 de junho de 2019

Provérbio provado num verso branco - LI

Foram as minhas próprias pernas
Que me passaram a perna
Os meus próprios dentes um por um
Que me roeram a corda
Os dedos não me chegam para contar
Os compromissos que rompi
Por não saber sobreviver

Provérbio provado rimado - DXLIII

Manter a cabeça fria
É ideia muito ajuizada
Protege de muita arrelia
Se não ficar congelada

Provérbio provado rimado - DXLII

A calúnia é arma afiada
Que prejudica tanta gente
Se parte duma ideia errada
Mais se torna um acto indecente

Se nasce num evento fictício
E logo ganha amplitude
A calúnia poupa o vício
E persegue a virtude

Provérbio provado rimado - DXLI

Hoje está um calor de ananáses
Suam velhos e suam rapazes
E só apetecem ventoinhas
Gelados imperiais e sombrinhas

Vamos todos para a beira mar
Para sentir a brisa passar
Só assim se aguenta o calor
Pior é quem está no interior

sábado, 1 de junho de 2019

Provérbio provado rimado - DXL

Corno manso era como se dizia
Que era o marido da Maria
Ele sabia perfeitamente
Que era traído constantemente

Mas ele não se importava
E a Maria feliz andava
Era um homem amistoso
Plácido e pouco curioso

Ela saía à tardinha
Dizendo que ia à vizinha
Mas ia à casa do João
Satisfazer toda a tesão

Este é um ditado de corno
Que agora eu tirei do forno
Onde come um comem dois
E não há remorsos depois

Provérbio provado rimado - DXXXIX

Tão frequente a redundância
Parece ter mais importância
Tão vazia de sentido
É apenas um gemido

É como noite de mau sexo
Ou como um texto sem nexo
É uma comida sem sal
É defecação infernal

Tão mázinha que dá dó
A palavra nunca vem só
É mesmo caso para dizer
Vem em par quer bem parecer

O amigo La Palisse
De certeza que a disse
Todos nós no fundo usamos
Da redundância abusamos

Por isso às vezes é melhor
Fazer ouvidos de mercador
E fingir que somos parolos
Deixar que nos comam por tolos

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Provérbio provado rimado - DXXXVIII

Meu pequeno povo português
Vê lá se acordas de vez
Ficas aos poucos a morrer
Num canto os dentes a ranger

Dos teus tímidos balbuceios
Já tenho os ouvidos cheios
Antes te viesses num orgasmo
Que quebrasse este marasmo

Tantos anos de solidão
Não são desculpa nem razão
Liberta essa lágrima lenta
Expulsa de vez a placenta

Corta o cordão umbilical
Que te prende à capital
Mostra sem vergonha a face
Que descubra um desenlace

É simples dizer não há cura
Mania que há muito perdura
Começa já a empreender
É fácil falar difícil é fazer

Provérbio provado rimado - DXXXVII

Peça de teatro é a vida
A grande representação
Que levamos bem fingida
Haja pouca ou muita acção

O palco pisamos contentes
À espera de reconhecimento
Logo logo ficamos descrentes
Pois só obtemos sofrimento

Por vezes é uma maravilha
Há momentos de felicidade
Ela é o palco de quem brilha
E o brilho de quem aplaude

Nessa peça os outros actores
Ou ajudam ou prejudicam
Alguns são falsos mentores
Outros conquistam porque ficam

Há instantes de embaraço
E quem viva como num jogo
Que a alegria do palhaço
É ver o circo pegar fogo

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Provérbio provado rimado - DXXXVI

Diz que gente do Minho
Veste pano de linho
Na Senhora da Agonia
Que é festa de romaria

Há muito ouro ao pescoço
E nas ruas alvoroço
Há noivas e também mordoma
E saias cheias de goma

E há ainda outro ditado
Que tem o seu quê de engraçado
Diz que em cada minhoto
Há um grande maroto

Provérbio provado rimado - DXXXV

És a tampa da minha panela
Porque encaixamos tão bem
E me dizes que sou a mais bela
Para mim és tão lindo também

Nem sempre é só paraíso
Por vezes também há contenda
Mas logo tu com um sorriso
Vens e montas a tua tenda

Não sei o que reserva o futuro
Sei que não sou nenhuma estampa
Ao teu lado tudo é menos duro
Toda a panela tem sua tampa

Provérbio provado rimado - DXXXIV

Como é que vamos namorar
Se tu vives atrás do sol posto?
Quando queremos algo combinar
Vê se dá p'ra ser antes de Agosto

Com dois meses de antecedência
Muitos planos e alguns desvarios
Munidos de muita paciência
Em Santo António dos Assobios

Que fica em cascos de rolha
Pelo menos é o que parece
Pelo mapa que tenho na folha
E as coordenadas no GPS

Provérbio provado rimado - DXXXIII

O Zeca é o motorista
E um grande fala barato
Come com os olhos cada artista
Que transporta para o teatro

Fala das condições climatéricas
Dos incêndios do ano passado
Enquanto as divas pindéricas
Retocam o batom esborratado

Pelo espelho retrovisor
Vai controlando o que se passa
Abre as janelas com calor
Largando mais uma chalaça

O olhar do Zeca é comilão
Velhas ou novas não é esquisito
Solteiro é a sua condição
Ainda por cima não é bonito

A rebarba é tanta ou tão pouca
Que o Zeca já é conhecido
Mas factura a Ana a louca
Numa noite em que está distraído

Provérbio provado rimado - DXXXII

Quem procura sempre alcança
Vê lá não percas a esperança
Que a vida é uma demanda
Ouve o que digo Fernanda

Mesmo coxa chegas lá
Fico a ver-te de cá
Ainda te dou um empurrão
Se precisares a minha mão

Tu não desistes facilmente
Consegues estar sempre contente
Quero que me dês a receita
Para acordar sempre refeita

domingo, 19 de maio de 2019

Provérbio provado rimado - DXXXI

Mais vale enxame em colmeia afastada
Que abelha perto que dê ferroada
Preferível é o cardume no mar
Que peixe na linha a agonizar

Claro que há sempre a questão
Da perspectiva da visão
Se está fora de água o peixe
Não adianta que alguém se queixe

É tão fácil estar deslocado
Quando se tem o fim marcado
O mais certo é acabar na travessa
Desde que alguém grelhado o peça

Provérbio provado rimado - DXXX

Luxo asiático é pena
Mas só o vi no cinema
Que eu vivo tanto à rasca
Só posso lanchar na tasca

Os trocos bem contadinhos
Os bolsos muito fininhos
Sempre a contar os tostões
Não dá para abrir excepções

Há quem gaste no farelo
E no pé use chinelo
Não é poupado e é só
Alimenta burro a pão de ló

Provérbio provado rimado - DXXIX

A criança tende a copiar
O que vê os pais fazer
Se à mesa estão a arrotar
Ela não vai o pum suspender

Se tratam mal os demais
E se metem em sarilhos
Já se vê que conduta dos pais
Será o caminho dos filhos

Provérbio provado rimado - DXXVIII

Eu rimo porque a prosa
É muito mais vagarosa
Demora tempo a pensar
Num texto a alinhavar

A rima é tão imediata
Tanto ata como desata
Quando vou a ler já está
Uma rima boa ou má

Por isso são mais de quinhentas
Estas rimas desatentas
Que aqui convosco partilho
Como se parisse um filho

Um parto daqueles sem dor
Sem contrações nem suor
Vai-se a ver e já nasceu
A rima que à costa deu

Cereja em cima do bolo
É fazer um verso tolo
Como este que não conta nada
Cá vai mais uma rima lavrada