Invejam muito o que valho
Mas pouco o que trabalho
Esta semana foi dose
Deu-me cabo da escoliose
Por vezes é uma correria
Não pensem que tenho a mania
Picar o relógio de ponto
Deixa o cérebro tonto
E o público atender
É caso para esmorecer
Às vezes só me saem duques
Ladinos e cheios de truques
sexta-feira, 22 de março de 2019
Provérbio provado num verso branco - XLVIII
O bom filho a casa torna
(Mortuus erat et revixit)
I
Segui um dia num barco
Cores vivas acesso ilimitado
Que passou à minha porta
Embarquei até onde as vagas rebentam
Emoções tão pesadas que bailava
Rumo ao disperso mar incerto
Procurava um porto onde atracar
Rodeavam-me horizontes
A caminho do desmaio
II
Vira a marcha à ré
Capitão maquinista almirante
Quero voltar à partida
Retornar aos mansos ventos
Agora onde só o desespero me cerca
Devia ter-te ignorado
Primeiro barco luz depois triste
Fechava os olhos e dormia
E já o sonho me leva à tua proa
Donde vejo perdida a vida
III
Pai querido pai
Porque não me ensinaste
Que é mais saudável
A emoção sentida de fora
Que na paz se apreciam os momentos
Que o mar não é seguro
Debaixo dos meus pés?
Porquê pai não deixei passar
De mansinho o barco
Na corrente do rio?
IV
Disse o pai aos seus criados: "Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão e calçado nos pés. Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se."
(Mortuus erat et revixit)
I
Segui um dia num barco
Cores vivas acesso ilimitado
Que passou à minha porta
Embarquei até onde as vagas rebentam
Emoções tão pesadas que bailava
Rumo ao disperso mar incerto
Procurava um porto onde atracar
Rodeavam-me horizontes
A caminho do desmaio
II
Vira a marcha à ré
Capitão maquinista almirante
Quero voltar à partida
Retornar aos mansos ventos
Agora onde só o desespero me cerca
Devia ter-te ignorado
Primeiro barco luz depois triste
Fechava os olhos e dormia
E já o sonho me leva à tua proa
Donde vejo perdida a vida
III
Pai querido pai
Porque não me ensinaste
Que é mais saudável
A emoção sentida de fora
Que na paz se apreciam os momentos
Que o mar não é seguro
Debaixo dos meus pés?
Porquê pai não deixei passar
De mansinho o barco
Na corrente do rio?
IV
Disse o pai aos seus criados: "Trazei depressa o fato melhor e vesti-lho; ponde-lhe um anel na mão e calçado nos pés. Trazei o vitelo gordo, matai-o; e comamos em festa, porque este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e encontrou-se."
Provérbio provado rimado - CDLXXI
Icterícia e bonito cabelo
Faz-te belo e amarelo
Todo airoso e todo janota
Ninguém diz que já és um cota
A juntar à prisão de ventre
Tu bem tentas seguir em frente
Até vais até ao consultório
Para pedir um supositório
O médico receita dieta
Radical muito completa
Só a esposa te atura
Deita água na fervura
Leva com o teu mau feitio
Sem um ai e sem um pio
E teus desmandos perdoa
Ela é uma esposa boa
Faz-te belo e amarelo
Todo airoso e todo janota
Ninguém diz que já és um cota
A juntar à prisão de ventre
Tu bem tentas seguir em frente
Até vais até ao consultório
Para pedir um supositório
O médico receita dieta
Radical muito completa
Só a esposa te atura
Deita água na fervura
Leva com o teu mau feitio
Sem um ai e sem um pio
E teus desmandos perdoa
Ela é uma esposa boa
Provérbio provado rimado - CDLXX
Vim aqui dizer um poema
Decorá-lo foi um problema
Terei de a voz projectar
E tentar não tremelicar
Desculpem se estou nervosa
Melhor era só ler em prosa
Mas quis dar-me um objectivo
Já nem sei qual foi o motivo
Ó senhores façam silêncio
Tu também aí ó Prudêncio
Pois vou começar a dizer
O poema que aqui quis trazer
Que rápido foi e já acabou
Nem sequer um minuto levou
Talvez parecesse corriqueiro
Agora é o descanso do guerreiro
Decorá-lo foi um problema
Terei de a voz projectar
E tentar não tremelicar
Desculpem se estou nervosa
Melhor era só ler em prosa
Mas quis dar-me um objectivo
Já nem sei qual foi o motivo
Ó senhores façam silêncio
Tu também aí ó Prudêncio
Pois vou começar a dizer
O poema que aqui quis trazer
Que rápido foi e já acabou
Nem sequer um minuto levou
Talvez parecesse corriqueiro
Agora é o descanso do guerreiro
quinta-feira, 21 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLXIX
O ditado a verdade encerra
Os mais fortes reinam na terra
Só o pensamento é ciência
Contra a força não há resistência
Os mais fortes reinam na terra
Só o pensamento é ciência
Contra a força não há resistência
Provérbio provado rimado - CDLXVIII
Mudam-se os tempos
Mudam-se as vontades
Ora temos contratempos
Ora bem são liberdades
O mundo pula e avança
Em constante construção
Numa obstinada dança
E alegre renovação
Objectivos como meta
E que nos fazem mudar
Como a cauda de um cometa
Deixam rasto a brilhar
A mudança é tão boa
É sal que tempera a vida
Impede que andemos à toa
Até vir a despedida
Quando o dia chega ao fim
Com alívio suspiramos
Amanhã será assim
Novo dia que tragamos
Mudam-se as vontades
Ora temos contratempos
Ora bem são liberdades
O mundo pula e avança
Em constante construção
Numa obstinada dança
E alegre renovação
Objectivos como meta
E que nos fazem mudar
Como a cauda de um cometa
Deixam rasto a brilhar
A mudança é tão boa
É sal que tempera a vida
Impede que andemos à toa
Até vir a despedida
Quando o dia chega ao fim
Com alívio suspiramos
Amanhã será assim
Novo dia que tragamos
Provérbio provado rimado - CDLXVII
Estou-te cá com umas ganas
Não quero esperar semanas
Devolveste-me o sorriso
Tens tudo o que é preciso
Quem haveria de dizer
Que te iria conhecer
Numa circunstância invulgar
Quando saímos para jantar?
Desejo é viver o presente
E o futuro que aguente
Não quero andar com sonda
Vamos na crista da onda
É de aproveitar a maré
Ser um do outro ó Zé
Suspeito que estaremos bem
Arriscando como convém
Não quero esperar semanas
Devolveste-me o sorriso
Tens tudo o que é preciso
Quem haveria de dizer
Que te iria conhecer
Numa circunstância invulgar
Quando saímos para jantar?
Desejo é viver o presente
E o futuro que aguente
Não quero andar com sonda
Vamos na crista da onda
É de aproveitar a maré
Ser um do outro ó Zé
Suspeito que estaremos bem
Arriscando como convém
Provérbio provado num verso branco - XLVII
A gente cria os filhos para o mundo
Espelho do que desejámos viver
Oscilando entre a vontade de que voem para longe
Querendo ao mesmo tempo protegê-los debaixo da asa
O ninho sempre à espera que regressem saudáveis e pródigos
Eles sobrevoam-no e afinal ficam por perto
A maçã nunca cai longe da macieira
Sabe onde nasceu porque os pinheiros não dão uvas
E as videiras não produzem pinhões
A seiva é o sangue que sobe da terra e lhe diz estás em casa
Os ramos o abraço do sol e da chuva
Espelho do que desejámos viver
Oscilando entre a vontade de que voem para longe
Querendo ao mesmo tempo protegê-los debaixo da asa
O ninho sempre à espera que regressem saudáveis e pródigos
Eles sobrevoam-no e afinal ficam por perto
A maçã nunca cai longe da macieira
Sabe onde nasceu porque os pinheiros não dão uvas
E as videiras não produzem pinhões
A seiva é o sangue que sobe da terra e lhe diz estás em casa
Os ramos o abraço do sol e da chuva
quarta-feira, 20 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLXVI
Isto está pior outra vez
Ao salário sobra muito mês
Anda tudo a pedir fiado
No café e no supermercado
As rendas estão caríssimas
E as contas da luz altíssimas
A gasolina p'la hora da morte
Não se sabe onde fazer mais corte
Como ir buscar mais dinheiro
Se está vazio o mealheiro?
Mas há quem o tenha aposto
Que a estupidez não paga imposto
Ao salário sobra muito mês
Anda tudo a pedir fiado
No café e no supermercado
As rendas estão caríssimas
E as contas da luz altíssimas
A gasolina p'la hora da morte
Não se sabe onde fazer mais corte
Como ir buscar mais dinheiro
Se está vazio o mealheiro?
Mas há quem o tenha aposto
Que a estupidez não paga imposto
Provérbio provado rimado - CDLXV
Se te estás a fazer ao piso
Tem calma eu já te aviso
Não queiras tudo de uma vez
Prolonga por duas ou três
No primeiro encontro é precoce
Nem que a vaca tenha tosse
Quando muito terás um beijinho
E ficarás mais sossegadinho
Tem calma eu já te aviso
Não queiras tudo de uma vez
Prolonga por duas ou três
No primeiro encontro é precoce
Nem que a vaca tenha tosse
Quando muito terás um beijinho
E ficarás mais sossegadinho
terça-feira, 19 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLXIV
Se hesitas no que dizer
Ou não sabes o que fazer
Ficas a contar as horas
Nesse tempo te demoras
Vá lá dá um passo
Ate chegar o abraço
Esse gesto que anseias
E te correrá nas veias
Está quase está a chegar
Nos ponteiros a rodar
Não fiques tão ansioso
O stress é contagioso
Ou não sabes o que fazer
Ficas a contar as horas
Nesse tempo te demoras
Vá lá dá um passo
Ate chegar o abraço
Esse gesto que anseias
E te correrá nas veias
Está quase está a chegar
Nos ponteiros a rodar
Não fiques tão ansioso
O stress é contagioso
Provérbio provado rimado - CDLXIII
Qual a música pouco importa
A quem é surdo que nem uma porta
É preciso gritar-lhe ao ouvido
Subir o tom de modo destemido
Os velhinhos põem aparelho
Assim podem meter o bedelho
E se a surdez for total
É aprender linguagem gestual
A quem é surdo que nem uma porta
É preciso gritar-lhe ao ouvido
Subir o tom de modo destemido
Os velhinhos põem aparelho
Assim podem meter o bedelho
E se a surdez for total
É aprender linguagem gestual
Provérbio provado rimado - CDLXII
És pau para toda a obra
Mais veloz do que uma cobra
És muito requisitado
E nem te dizem obrigado
És uma espécie de bombeiro
É a ti que chamam primeiro
Todos os fogos apagas
Enquanto a mangueira afagas
Mais veloz do que uma cobra
És muito requisitado
E nem te dizem obrigado
És uma espécie de bombeiro
É a ti que chamam primeiro
Todos os fogos apagas
Enquanto a mangueira afagas
Provérbio provado rimado - CDLXI
Quando a existência se complica
Como acontece não se explica
Tudo começa a correr mal
A vida é um jogo desigual
Andamos aos tropeções
Afogados em emoções
À procura de um sentido
Para o verbo ter existido
Mas no fim feitas as contas
Há mais coisas boas que afrontas
Porque Deus tem mais para dar
Do que o Diabo para tirar
Como acontece não se explica
Tudo começa a correr mal
A vida é um jogo desigual
Andamos aos tropeções
Afogados em emoções
À procura de um sentido
Para o verbo ter existido
Mas no fim feitas as contas
Há mais coisas boas que afrontas
Porque Deus tem mais para dar
Do que o Diabo para tirar
Provérbio provado rimado - CDLX
A língua bate onde dói o dente
A gengiva queixa-se dormente
Resta a ida ao consultório
De um dentista que seja simplório
Olá como está xô doutor?
O que o traz cá meu senhor?
Tenho aqui um dente lixado
Espero que não vá ser arrancado
A língua só me bate lá
E dor mais horrível não há
Já viu bem a minha sorte?
Dê-me já um remédio forte
Com a caneta na mão direita
Começa a passar a receita
Tome isto e vai ver que melhora
E ponha-se daqui para fora!
Para a semana venha novamente
Para radiografar esse dente
E mantenha a língua quieta
Como se fosse uma linha recta
A gengiva queixa-se dormente
Resta a ida ao consultório
De um dentista que seja simplório
Olá como está xô doutor?
O que o traz cá meu senhor?
Tenho aqui um dente lixado
Espero que não vá ser arrancado
A língua só me bate lá
E dor mais horrível não há
Já viu bem a minha sorte?
Dê-me já um remédio forte
Com a caneta na mão direita
Começa a passar a receita
Tome isto e vai ver que melhora
E ponha-se daqui para fora!
Para a semana venha novamente
Para radiografar esse dente
E mantenha a língua quieta
Como se fosse uma linha recta
sábado, 16 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLIX
A minha escolha eu escolho
E se a ninguém causa dano
Vivo neste mundo insano
Com ela debaixo de olho
A tua é o que escolhes ser
Pela mesma ordem de ideias
Não mires escolhas alheias
Nem tão pouco a queiras esconder
Vamos em frente sem medos
Empunhando nossos cartazes
A sorte protege os audazes
Que constroem seus próprios enredos
E se a ninguém causa dano
Vivo neste mundo insano
Com ela debaixo de olho
A tua é o que escolhes ser
Pela mesma ordem de ideias
Não mires escolhas alheias
Nem tão pouco a queiras esconder
Vamos em frente sem medos
Empunhando nossos cartazes
A sorte protege os audazes
Que constroem seus próprios enredos
quinta-feira, 14 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLVIII
Alquimistas da dor do mundo
Irmãos do verso profundo
Somos os loucos da terra
A vida é a nossa guerra
Com o coração ao vento
A palavra como talento
Andamos ao Deus dará
Avisamos desde já
De nós esperem o pior
Também o que há de melhor
Somos sinceros e puros
Fingimos que somos duros
Irmãos do verso profundo
Somos os loucos da terra
A vida é a nossa guerra
Com o coração ao vento
A palavra como talento
Andamos ao Deus dará
Avisamos desde já
De nós esperem o pior
Também o que há de melhor
Somos sinceros e puros
Fingimos que somos duros
sexta-feira, 8 de março de 2019
Provérbio provado avinagrado
Naquela noite de invernia houve uma sobrecarga eléctrica na casa do Sr. Tavares e, puf!, o quadro foi abaixo. Acercou-se da caixa do contador junto à parede e fez duas, três, quatro tentativas para dar à luz. Nada feito!, fora um disjuntor que rebentara, agora só chamando o electricista no dia seguinte: e logo o Antunes, esse chupista que só pela deslocação me leva um tomate - suspirava de si para si o Sr. Tavares, enquanto tacteava nas gavetas da cozinha à procura de velas. Velas nem vê-las, e depois de andar a tropeçar durante uns dez minutos que lhe pareceram uma eternidade, lembrou-se que havia na adega uma velha lamparina e para lá se dirigiu. Mas as vicissitudes do Sr. Tavares não se ficariam por aqui: encontrado o empoeirado objecto, não havia azeite para alimentar o pavio. Ele ainda tentou com vinagre, mas o vinho acidificado não acendia a lamparina. Foi então às apalpadelas pelo corredor até ao quarto, transpôs a soleira e enfiou-se debaixo dos cobertores, enquanto pensava alto: ó António (António era o nome próprio do Sr. Tavares), no meio de tanto azar ao menos não foste picado pelos insectos que seriam atraídos pela luz da lamparina!
- Não é com vinagre que se apanham moscas
- Não é com vinagre que se apanham moscas
quinta-feira, 7 de março de 2019
Provérbio provado rimado - CDLVII
Engraxar tem dois sentidos
Nos sapatos ou nos ouvidos
Na profissão de sapateiro
É seu trabalho costumeiro
Mas quando é labor de graxista
Nesse feio afã é artista
À mais feia chama mais bela
Mais que à linda Cinderela
Por dá cá aquela palha
Engraxa coisa que o valha
O que pretende este amigo
Quererá aumentar o umbigo?
Nos sapatos ou nos ouvidos
Na profissão de sapateiro
É seu trabalho costumeiro
Mas quando é labor de graxista
Nesse feio afã é artista
À mais feia chama mais bela
Mais que à linda Cinderela
Por dá cá aquela palha
Engraxa coisa que o valha
O que pretende este amigo
Quererá aumentar o umbigo?
Provérbios provados seleccionados - VII
Quando criei este blog temático, nos idos de 2008, foi com a ideia de contar histórias a partir de provérbios. Só mais tarde, em 2017, apareceram as rimas e o verso branco, que entretanto constituem a maioria das publicações. Os pequenos textos são ficcionados e contam contos quer da ruralidade quer da cidade. O ditado popular ou expressão idiomática surge somente no fim, à laia de moral da história.
Apresento-vos aqui mais uma selecção de prosas proverbiais, invertendo desta feita a ordem dos factores: desvendo logo qual é o adágio final. Espero que sejam do vosso agrado!
- Onde há fumo há fogo
- Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas
- Quem cala consente
- A esperança do descanso alivia o trabalho
- Deus escreve direito por linhas tortas
- Da boca das crianças sai a verdade
- O orgulho não quer dever e o amor próprio não quer pagar
- Palavras não custam dinheiro
- Amigo certo conhece-se na hora incerta
- A vida é um livro aberto
Apresento-vos aqui mais uma selecção de prosas proverbiais, invertendo desta feita a ordem dos factores: desvendo logo qual é o adágio final. Espero que sejam do vosso agrado!
- Onde há fumo há fogo
- Quando um burro fala, o outro abaixa as orelhas
- Quem cala consente
- A esperança do descanso alivia o trabalho
- Deus escreve direito por linhas tortas
- Da boca das crianças sai a verdade
- O orgulho não quer dever e o amor próprio não quer pagar
- Palavras não custam dinheiro
- Amigo certo conhece-se na hora incerta
- A vida é um livro aberto
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