quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XLII

Que as portas são quadradas já se sabe
Mas lá em cima a do céu tem a forma de uma nuvem
Para lá dela a tal luz divina tão branca
Que a eternidade é cega já se sabe
E por isso os anjos queimaram as asas
Enquanto o diabo esfrega um olho

Provérbio provado rimado - CDIII

Mais de meia vida vivida
Transtornos maleitas suspiros
Parte dela adormecida
Mas também momentos giros

Parece tão só correria
Mas é como diz o outro
Não há nada como um dia
Que surge depois do outro



quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Provérbio provado hibernado


Tinham estado um mês sem se verem. Rosa inventara uma conferência numa cidade longe o suficiente para lhe permitir passar a noite fora sem levantar suspeitas. Felizmente, o marido não era desconfiado, ainda há pouco lhe desejara boa noite pelo telefone sem questões de maior.
Embora agora estivesse a dormitar no rescaldo da paixão, ela sentia o corpo daquele homem ao seu lado que fazia o favor de não ressonar. Ele respirava muito devagar num movimento constante, convidando-a assim a encostar-se meio lânguida ao seu sono. Existia entre os seus corpos adormecidos uma tal continuidade que até se poderia tornar num hábito, quase um sentimento de segurança. Só aqui neste quarto sonhariam juntos a dormir por não o poderem fazer acordados.

- O que ninguém sabe, ninguém estraga

Provérbio provado rimado - CDII

Não sei o que tens contra mim
Para seres tão mula assim
Porque és tu tão invejosa
E pessoa nada atenciosa?

Não sei da inveja que atraio
Mas sei que da queda de um raio
Até ao raio que te parta
Há diferença que se farta

sábado, 8 de setembro de 2018

Provérbio provado rimado - CDI

Ó João tu és preguiçoso
Não gostas de acordar cedo
Não és nada meticuloso
Tua vida dava um enredo

Estas sempre a chutar para canto
À espera de alguém que faça
Até reparares com espanto
Que come o lençol a traça

Não queres tomar decisões
Queixas-te da vida cansada
Dás o cu e oito tostões
Para não fazer mesmo nada

Provérbio provado mal enjorcado

O Sebastião era narigudo, orelhudo, vesgo e tinha os lábios demasiado grossos. O corpanziltambém não ajudava: era rodas baixas e entroncado com uma barriga descomunal. Além disso, andava sempre mal enjorcado, ponta acima ponta abaixo, e carecia de classe.
No entanto, o Sebastião fazia sucesso entre o mulherio, desde as suas inúmeras amizades até às primas mais afastadas, já para não falar dos casos que ia tendo fortuitamente. Era um corropio: no Livro das caras não paravam de surgir novos pedidos femininos e de apitar mensagens e o telemóvel tocava continuadamente.
Eu não gosto de ser má-língua, mas quero crer que este interesse repentino na pessoa do Sebastião se devia àquele artigo num jornal sensacionalista que o pintava "O solteiro mais cobiçado do momento" devido à herança que receberia quando um dia os pais se finassem - o legado seria gordo e nem sequer havia irmãos com quem dividir o pecúlio. O artigo fazia-se acompanhar de uma fotografia com um Sebastião igualzinho a si próprio, mas isto não demovia as candidatas para quem

- Homem rico nunca é feio

Provérbio provado rimado - CD

Quem ao longe vai casar
Ou leva ou vai buscar
O que leva e o que traz
Em corrida tão voraz?

Porque não casou na aldeia
Em noite de lua cheia?
Porque foi casar lá longe
E escolheu padre e não monge?

Será que foi enganado
Num fato bem engomado?
Se até foi cedo ao barbeiro
E gastou tanto dinheiro!

Finda mais um garrafão
Brindes e apertos de mão
Tanto beijo nas bochechas
E desejos tão lamechas

Passa um dia tão comprido
Já se sente exaurido
Dói-lhe muito o maxilar
De sorrir sem não parar

Volta a casa no regresso
Espera ter um bom começo
Leva o padrinho pelo braço
E traz a esposa no regaço


Provérbio provado rimado - CCCXCIX


O tempo colado à pele
Lá nos ficheiros da mente
Mesmo se o presente o repele
Não me deixa jamais descontente

Vou abrindo com todo o cuidado
Os diques da renovação
E escrevo algo enlevado
Com a pena que me vem à mão

Vou sofrendo as transformações
Inerentes a esta passagem
Aos deuses digo orações
Muitas frases numa colagem

Tenho impressões sobre o mundo
Que vejo com nova dioptria
Sou demasiado profundo
Esqueço-me de dizer a alegria

No final da minha história
Que creio ser aqui ao pé
O resumo é uma vitória
Como as árvores morro de pé


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXCVIII

Ha uma expressão portuguesa
Tão errada tenho a certeza
Envolve sempre um rebanho
E uma ovelha que se crê com ranho

Se calhar terá alergia
Bale com menos energia
Onde há um lenço a mais
Para ficarem todas iguais?

Só que ela ranhosa não está
É ronhosa que se conta lá
A palavra não vem de ronha
Que ela tem alguma vergonha

O que tem é uma espécie de sarna
É doença que nela encarna
Posta de lado a ovelhinha
Fica sozinha coitadinha

Provérbio provado rimado - CCCXCVII

Quem o mesmo prédio partilha
Tem de seguir a cartilha
Que as reuniões são um frete
Mais valia ficar na retrete

Se pertences a uma comunidade
Que é uma pequena cidade
Diz bom dia e dá um sorriso
Mesmo se é o teu gesto conciso

Para ter boa vizinhança
Às dez acaba a festança
Se a vassoura bater no tecto
Já sabes fica bem quieto

Se o vizinho é intolerante
Tenta manter-te distante
Mas recebe-o de modo informal
Quando te vier pedir sal

Um dia sabes tudo muda
Podes tu precisar de ajuda
Não faças mal ao teu vizinho
Que o teu pode vir a caminho

Provérbio provado rimado - CCCXCVI

O namorado da Ana
Tem de abrir a pestana
Pois ela já está fartinha
De ser a eterna noivinha

O anel no dedo chegou
Mas depois não mais avançou
O casório com que ela sonha
Mais a visita da cegonha

A Ana não se vai resignar
Nem tão pouco os braços cruzar
Todos os dias lança a escada
Nem pensem que fica cansada

Há-de moer-lhe a cabeça
Até ver se a festa começa
Que água mole em pedra dura
Tanto bate até que fura

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXCV

Bem me quer mal me quer
É tão engraçada cantiga
Com origem muito antiga
Cantada por quem quer saber

Se o refrão faz corresponder
Com a tal pétala correcta
Arrancada a predilecta
É um amor que vai crescer

Provérbio provado rimado - CCCXCIV

Não penses que envelhecer
É tal qual como adoecer
Com as células em farrapos
Porque velhos só mesmo os trapos

Provérbio provado rimado - CCCXCIII

Tu és um chato do caraças
A melgar a tarde toda passas
Percebo o teu ponto de vista
Já podes baixar essa crista

Que eu compreendo à primeira
Mesmo se em tom de brincadeira
Não batas mais no ceguinho
Ou então dá-lhe devagarinho

Provérbio provado rimado - CCCXCII

Esta rima de meia tigela
Não consegue ter nada de bela

São versinhos colhidos avulso
Escritos com toda a força do pulso

E então mais tarde ou mais cedo
Vai escapar-se-me o dedo

Disparate vem já a seguir
Para o povo se pôr todo a rir

Gozar com o gestor do Estado
Que quer sempre poleiro elevado

Ou argumento de advogado
É escutado sempre de mau grado

Cores berrantes eu cá não duvido
Que me podem ferir o ouvido

Cu ao léu e janela aberta
Dá constipação pela certa

Que era tonta eu bem avisei
Esta rima na qual mal pensei

Provérbio provado rimado - CCCXCI

Diz-se que as vozes de burro
Não chegam ao céu lá de cima
Mas ouço porém tanto zurro
Como vou contar nesta rima

Para tudo há imensos cronistas
Integram qualquer discussão
São tidos por ser alpinistas
Sociais e da televisão

Dizem tudo e um par de botas
Levantam o dedo presente
E nunca admitem derrotas
Desculpa não há cu que aguente

Provérbio provado no consultório

Às quartas feiras, em vez de ir do trabalho directamente para casa, a Fernanda cumpre sempre o mesmo ritual: desloca-se à cidade para a sua consulta semanal de psicoterapia.
Sente que ultimamente tem feito progressos, já que a médica não é muito inquiridora mas faz as perguntas certas, aquelas capazes de a pôr a pensar chegando às conclusões por si mesma.
A vida não tem sido fácil nos últimos anos: o marido de toda a vida quis divorciar-se na mesma altura em que os rapazes saíram de casa e a Fernanda sente-se terrivelmente só. No mês que vem vai fazer sessenta anos, efeméride que mais a faz pensar na solidão.

Nesta quarta feira, rói as unhas enquanto se tenta acomodar no cadeirão poído do consultório. A doutora hoje está mais faladora do que o habitual:
- Que acha da educação que recebeu dos seus pais? Educou os seus filhos da mesma forma?
- Os meus pais sempre foram muito bons para mim. É claro que o meu pai era muito rigoroso comigo: exigia que chegasse cedo a casa e não me deixava ir a festas sem estar acompanhada de alguma pessoa conhecida e de confiança. Sei que isso era para o meu bem, apesar de eu saber distinguir o que era correcto do que não era, eu tinha um bom discernimento. Mas enquanto morei com eles quando era solteira, devia-lhes obediência: era assim que as coisas eram! Os meus irmãos eram mais novos que eu mas tinham muito mais liberdade, como é natural... Os homens não são olhados pelos outros como o são as mulheres: podem chegar de madrugada a casa, ter muitas namoradas e até amantes que tudo é considerado muito normal. Com os meus filhos? Com os meus filhos a situação permaneceu mais ou menos igual: as coisas não mudaram assim tanto! Se tivesse tido filhas, teria cuidado mais delas do que fiz com os rapazes. Acho que as mulheres devem ser recatadas e desconfiarem muito dos homens que é para não serem enganadas.

- Espera de teu filho o mesmo que fizeste a teu pai

Provérbio provado rimado - CCCXC

Com um QI tão pouco elevado
Ainda acabas é em deputado
À República Assembleia
Terás de ir volta e meia

Lá é como um regimento
Batem palmas a cada momento
Lá é como um rebanho
Onde o anuir é tamanho

As bancadas estão divididas
E muitas faces contraídas
Há partidos de todas as cores
Que têm entre si dissabores

Mas tu irás enturmar-te
E a discursar terás arte
Não te esqueças é que no trabalho
É cada macaco no seu galho


Provérbio provado num verso branco - XLI

O mundo não pode estar todo errado
Dou a mão à palmatória
E viajo para cada vez mais longe
Dos primeiros sonhos
Que o que sou não se pode chamar eu

Provérbio provado rimado - CCCLXXXIX

Se morreres não digas adeus
Despede-te com até já
Leva os sonhos que são teus
Espera-me do lado de lá

Lá onde nos encontrarmos
Seja no inferno ou no céu
É bom se juntos ficarmos
Isto é que nos desejo eu

Nossas más e boas acções
Estão apontadas numa folha
Face às nossas contradições
Que venha o Diabo e escolha