terça-feira, 10 de abril de 2018

Provérbio provado rimado - CCCLIV

Amar é mar no feminino
Como a mais alta maré
É onda que rouba o tino
Cuidado não percas o pé

No meio de tanta água
Leva um barco contigo
Para o amor não ter mágoa
E o vento ser teu amigo

Composto de madeira forte
Que não seja um barco precário
Não te faça rumar para norte
Onde todo o vento é contrário

É capricho da Natureza
Se depois de chuva nevoeiro
Terás peixe na tua mesa
E bom tempo marinheiro

Provérbio provado rimado - CCCLIII

Estar com um grãozito na asa
Acontece em muita casa
Às vezes é o que faz falta
Para animar bem a malta

Com os cotovelos na mesa
Afasta qualquer tristeza
Na companhia de amigos
Livra de todos os perigos

E se não houver mau vinho
Só embebeda um bocadinho
Pode dar em cantoria
Partilha e muita alegria

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Provérbio provado do amor duplicado

Continuavam a juntar-se no primeiro Domingo de cada mês, embora fosse sempre um pouco complicado gerir o mau humor dos respectivos maridos que por uma tarde lá acediam a ficar a ajudar os putos com os trabalhos de casa. O da Solange era o mais compreensivo e transferia a prole para casa dos sogros, deixando-lhes a mesa da sala, liberta de cadernos, guaches e brinquedos, que se vestia de uma toalha bordada de enxoval e do serviço já incompleto que tinha pertencido à avó dela. Por causa disso, e porque fosse uma criatura saudosista, a Solange contava sempre alguma história da aldeia da sua infância. Iam sorvendo o líquido em goles lentos, mastigando biscoitos com ar pensativo, escutando-se umas às outras as habituais agruras: os desmandos da cabra da cunhada da Cláudia, a hipertensão, diabetes e artroses da Sandra, as más notas na escola dos miúdos da Leonor.
Eis que enfim a Luísa lá chegava, atrasada como sempre, desbocada como sempre. O chá já tinha arrefecido, a conversa das amigas também. Todas despertavam, vivazes como molas, e emprestavam os ouvidos às sempre insólitas aventuras que ela relatava. Divorciada há vários anos do pinguço do primeiro marido, no último Domingo a Luísa surgira particularmente excitada. Primeiro porque tinha batido com a carrinha no dia anterior e tivera uma altercação com o outro condutor. Depois - e aqui é que vinha a novidade sumarenta - porque o já antecipado flirt com o tal professor de Pilates, uma brasa!, um corpão!, chegara a vias de facto e resultara numa relação tórrida que a trazia num incêndio só.
- O problema é o Gonçalo - dizia a Luísa, meio envergonhada meio divertida - é que também gosto dele, tão fofinho, tão certinho, regrado e atinado. A água e o vinho, meninas!
Fez-se um silêncio constrangedor: as amigas de semblante incriminatório, intimamente invejosas da vida amorosa superlativa da Luísa. Foi a Solange que quebrou o gelo:
- Luísa, sua devassa!, assim não dá. Tens de optar, amiga... A minha avó é que costumava dizer - já há bocado falei dela quando a Leonor lhe partiu mais uma chávena  do serviço, a desastrada! - ela é que costumava dizer que

- Mulher que a dois ama, ambos engana

Provérbio provado num verso branco - XXXII

A música nunca vem do quarto que se espera
Ou a melhor melodia daqueles lençóis com mais cor
Por estas e por outras de nada adianta aquecer o caldeirão
O feitiço acaba sempre por se virar
Contra o suposto poderoso feiticeiro

O segredo é deixar a inaudível percussão
Assemelhar-se ao bater do coração
E nesse improvável compasso
Bailar ao sabor das madrugadas
Que transportam os dias das certezas derradeiras

Provérbio provado rimado - CCCLII

As modas vão a reboque
E o que era no século passado
Dito um corpo bem desenhado
Agora é considerado batoque

Pois tecer loas à gordura
Está hoje ultrapassado
Não dá um provérbio provado
Que ela já não é formosura

quinta-feira, 29 de março de 2018

Provérbios provados seleccionados - III

Este blog temático conta histórias ficcionadas a partir de provérbios populares. Surge primeiro o texto e o provérbio vem no fim de propósito, à laia de moral da história: pretende-se que os leitores descubram com surpresa qual é o ditado-desfecho.

Nesta compilação com alguns pequenos contos procedi de forma inversa: apresento o provérbio final com o link para a respectiva ficção.









domingo, 25 de março de 2018

Provérbio provado rimado - CCCLI

Era um costume do liceu
Ir para trás do pavilhão
Se não era tímida a mão
E lá também andei eu

Mas no tempo da minha avó
Ia-se para trás da moita
Se a mão era muito afoita
E o estômago dava um nó

Coisas próprias da juventude
Que se fazem só nessa idade
São brincadeiras sem maldade
Que se repetem amiúde

Assim creio que começaram
Escondidos tantos namoros
Muitos descambaram em choros
E em plena rua terminaram

Provérbio provado rimado - CCCL

Educação e moeda de ouro
Em toda a parte tem valor
Guardadas em bolsa de couro
Ensinadas pelo professor

Mas é preciso que no lar
Se ensine o que é a poupança
E aos outros sempre bem tratar
Vivam ou não em abastança

Provérbio provado rimado - CCCXLIX

Nem sei porque tanto te quero
E que te amo eu já desconfio
Com meu ser todo me atavio
Para te encontrar tanto espero

Em findo o comer e o coçar
Lá diz o povo e com razão
Nestas coisas do coração
O mal está bem no começar

domingo, 18 de março de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXXI

Nem tudo o que vai volta
Olha a morte que não devolve quem roubou
Olha uma palavra mal dita que só te responde silêncio
Olha esse amor perdido envolto na eterna neblina
Todo o arrependimento não transforma os acontecimentos
O relógio não anda para trás apenas por quereres
O poço do esquecimento não se apieda das tuas lágrimas
É só hoje que podes evitar o remorso futuro
Um dia vais colher o que semeaste

Provérbio provado rimado - CCCXLVIII

Eu adoro uma boa conversa
Até com as paredes eu falo
E dificilmente me calo
Mesmo se esta for controversa

Já não compro toda a guerra
Mas gosto de uma boa peleja
Desde que civilizada ela seja
Qualquer ponto de vista encerra

Até tento ser atenciosa
Ouvir e não apenas falar
E algumas ideias trocar
Quando dou dois dedos de prosa

Provérbio provado enforcado

Ninguém sabia porque é que ultimamente no rosto dele se haviam desenhado aquelas olheiras tão fundas e parecera ter envelhecido dez anos. Só depois do acontecido é que a avó nos contou que ele não pregava olho há coisa de um mês: as noites todas na cama ora para cá ora para lá, vira para a esquerda, vira para a direita, e nem a aurora, que traz sempre uma certa redenção, o deixava abandonar-se a um sono retemperador. Sem dormir e sem conseguir desvendar uma saída para fazer face às dívidas que se acumulavam, também isto a avó nos contou. Contava tudo isto ainda não acreditando, com os olhos marejados, transbordantes, depois de ter recebido os credores, um por um, com toda a dignidade que conseguiu arranjar. Estávamos todos na sala, um silêncio gritante, escutando a avó falar da avidez dos prejudicados, das mil e uma desculpas que pedira em nome dele prometendo devolver o dinheiro até ao último tostão. Eu ouvia a avó também não querendo acreditar, mas o luto carregado dela entrava-me pelos olhos como uma evidência.
- Oh, meu Deus, como vou eu arranjar uma fortuna destas? Mas onde, meu Deus? Já não há nada para vender... Só resta esta casa e a várzea da figueira onde fui encontrar o vosso pai e avô. Ah, Severino, porque foste fazer uma coisa destas? Como foste capaz de me deixar a braços com tantos problemas?
A avó carpia assim, entre soluços, quando entrou a filha da vizinha perguntando se tínhamos com que atar o balde do poço, que tinha desaparecido a antiga... a antiga... E quase imediatamente se calou pois

- Em casa de enforcado não se fala em corda

Provérbio provado rimado - CCCXLVII

Um T0 ou um casebre
No coração de Lisboa
Vale maquia bem boa
É vender gato por lebre

Agências imobiliárias
De duas ou uma pessoa
Põem anúncios à toa
Enganam clientes várias

Que têm sempre um gatinho
Cinzeiros a transbordar
Dispostas a arrendar
O seu próprio cantinho

Querem dar tuta e meia
Mas pagam cara a renda
Mais valeria uma tenda
Noutra cidade feia

sábado, 17 de março de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXLVI

Para que o flirt tenha pinta
É preciso ser-se cavalheiro
Se não há beleza não minta
Se a há não seja brejeiro

Tente ter alguma calma
Mas também não vá devagar
Primeiro consiga-lhe a alma
Só depois peça para se deitar

Não se fie no que é mostrado
Atente bem nas emoções
Mesmo se é muito desejado
Quem vê caras não vê corações

(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço
www.instagram.com/condecascais)


Provérbio provado rimado - CCCXLV

Ficar a rapar o carolo
Depois de devorar o miolo
É talvez como chuchar no dedo
Rezar sem esperança um credo

Pois ter o estômago vazio
Esteja calor ou faça frio
É tão sofrida privação
Que se leva à noite p'ró colchão

Oh que injustiça tão feia
Que nem todos tenham mesa cheia
Desejava que houvesse fartura
Que a fome ninguém a atura

sexta-feira, 16 de março de 2018

Provérbios provados num verso branco em livro

Uma parte dos Provérbios provados já está impressa; precisamente aquela que nunca esperei... Agora só falta os contos e as rimas serem escarrapachados no papel.
No Dia Mundial da Poesia, 21 de Março, às 18:30, venham assistir ao lançamento do meu livro Verso branco, na Biblioteca Fernando Piteira Santos, na Amadora.
Estão todos convidadíssimos!


quinta-feira, 15 de março de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXLIV

Infelizmente esta vida
É uma eterna despedida
Dizemos adeus ao amor
Que estimámos com fervor

Mas feliz desse coração
Que canta nova saudação
E a sorrir te diz olá
Epá ainda bem que vens lá

Esse coração é um tolo
Tem feridas dentro do miolo
Mas num novo amor já aposta
Encanta-se e jura que gosta

Conforme a música dança
Inundado de tanta esperança
Deseja desta vez conseguir
Não todo em cacos se partir

Provérbio provado num verso branco - XXX

O poema anuncia-se
- Olá sou o poema -
Pálido e esfarrapado
Uma mão atrás e outra à frente
Tão teso como um carapau
Nem pode mandar cantar um cego

O poema constipa-se
- Atchim ai de mim -
Anda descalço e ao deus dará
Tem febres e um peso no peito
É uma florzinha de estufa
Desejando o vento nos cabelos

O poema traz queixumes
- Ah se soubessem -
Gastou uma vida e meias solas
À procura do verso perfeito
Quase morreu e ainda vive
De tanto viver não vai morrer já

Provérbio provado rimado - CCCXLIII

Se o papagaio come milho
O periquito leva a fama
P'ró periquito é sarilho
O papagaio é quem mama

Acontece isto tanta vez
Ser outro a ter o proveito
Quem se lixa não é quem fez
Mas quem se pensa tê-lo feito

Provérbio provado rimado - CCCXLII

Será que é por ser pequenino
Que é um país tão ladino?
Nele abunda a desavença
Ao mal ninguém pede licença

O bem esse é descuidado
Por tão poucos alinhavado
Dedicam-se tantos a parecer
Esquecendo cultivar o ser

O mote é o desenrascanço
O povo não luta é manso
Mas nos cafés todos opinam
A erva daninha ajardinam

Plantado no cú da Europa
Rectângulo de tão suja roupa
Quando o mal é de nação
Nem vai lá a poder de sabão