sexta-feira, 9 de março de 2018

Provérbio provado desempregado

O Vicente vira-se desempregado quando a fábrica de rolhas de cortiça onde laborava abrira falência. Ficou a receber subsídio pois era demasiado novo para o reformarem. Era porém ainda demasiado activo para passar os dias em frente à televisão.
A sua Maria das Dores, que não tinha nenhuma - era ainda mais activa do que activo ele era - às vezes lá ligava o rádio e punha-se a cantarolar estridente, enquanto andava de divisão em divisão, tropeçando no Vicente e fazendo-o sentir-se um estorvo, pois todos os esforços que ensaiava para a ajudar resultavam em ralhos.
Foi assim que ele ganhou o hábito de ir para a biblioteca, as primeiras vezes porque não queria gastar dinheiro no jornal e lá havia-os diários e semanários, generalistas e desportivos. Depois descobriu as estantes e foi um vê-se-te-avias; começou a consumir enciclopédias no C de cortiça, mas cedo as mastigou de uma ponta à outra, até descobrir o Z com espanto. Claro que a partir daí se virou para a literatura, passando sem tabus de um policial para a literatura mais vagarosa e daí para a poesia. O Vicente andava satisfeito da vida com as suas leituras e ao fim do dia regressava a casa cheio de livros debaixo do braço: sentia que a sua vida tinha um propósito.
Uma vez chegado ao lar, dava com a Maria das Dores a arengar, acalorada entre tachos e vassouras, reclamando que a pilha da roupa suja não parava de crescer:
- Ó homem, sujas mais roupa do que quando estavas na fábrica! Era só a farda para lavar... Agora é este disparate: uma camisa lavada todos os dias, benza-te Deus! Mas tu tens alguma necessidade de andares para aí armado em doutor? Ganhaste-me este hábito de ir todos os dias para a biblioteca ler, vejam-me bem! Umas palavritas cruzadas não te bastariam para te entreteres? Um baralho de cartas, um dominó belga com o Zé Neves? Mas não, não senhor! Vens de lá carregadinho de livralhada, até poesias trazes para a ceia em vez de fazeres companhia à tua mulher. Mas tu julgas que é com esta idade que vais aprender alguma coisa, homem? Olha que

- Burro carregado de livros não é doutor

Provérbio provado rimado - CCCXXXIX

Do ponto A até ao ponto B
Pode traçar-se curva ou recta
Numa trajectória discreta
Ou bem marcada para quem vê

A diferença está no caminho
Pois é do prato para a boca
Que se perde ou se ganha a sopa
E esse gesto faz-se sozinho

Cada um será dono e senhor
De manejar a sua colher
E mexê-la o melhor que souber
Para assim orientar seu labor

Não é de comida que falo
É de partilhar a ciência
Do acto e sua consequência
E viver será um regalo

Provérbio provado rimado - CCCXXXVIII

Calças ao contrário as botas
Metes as mãos pelos pés
Ficas com as pernas tortas
E com um olhar de viés

Faz tudo mais devagar
Dá cada passo com jeitinho
Apenas consegues provar
Tudo é certinho direitinho

Se cuidas que aqui não aprendes
Nada com estas rimas tontas
É verdade porém não te ofendes
Pior era se fossem afrontas

Aqui há grande brincadeira
E passamos um bom bocado
Noutros sítios de toda a maneira
Poderás aprender de bom grado

Não te lembras qual a expressão
Que deu a esta rima o mote
Foi meter os pés pela mão
Tão trocada que é um fartote


domingo, 4 de março de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXIX

Rascunho do que não fomos

1.
Do passado que não vivemos
Já sinto falta
Do futuro onde não estaremos
Já estou farta

O presente não faz um livro
Só este verso despido
Em que me dispo de ti

Quando falarem do casal do século vinte e um
Não dirão nada de nós

2.
As minhas avenidas são novas
O meu século é lá longe mais além

O meu tempo não tem ponteiros
Nem fronteiras ou desertos

As vielas onde me deito
Têm os olhos das corujas
Um dia é da caça outro do caçador

sábado, 3 de março de 2018

Provérbio citado (RORIZ)

"Lembro-me da história que a Felícia me leu - em "O Banquete" de Sócrates - que fala dos andrágoras (seriam andrágoras?) que eram uns seres que tinham quatro braços e quatro pernas num total de oito membros e que se movimentavam rodando sobre esses oito membros. Os deuses teriam acabado por os dividir ao meio para que fossem menos poderosos o que deu origem à raça humana e fez com que cada um de nós ande desesperadamente à procura da sua metade. Ou, como diz o povo - que povo será este? -, cada panela tem sua tampa."

In Avenida de Roma, duas da tarde - Jaime Roriz

Provérbio provado rimado - CCCXXXVII

As revistas cor de rosa
Nos consultórios são lidas
Têm má qualidade na prosa
E fotografias fingidas

Estão cheias de Photoshop
Sem celulite no Verão
Há gente rica a galope
Muita moda da estação

As senhoras nos cabeleireiros
Leem-nas de fio a pavio
Comentam actores estrangeiros
Nos cruzeiros de navio

Notícias sem relevância
De plásticas cirurgias
E frases de circunstância
Vaidades e muitas manias

São públicas as figuras
E outras são mais ou menos
De amor abundam as juras
Com sentimentos terrenos

Revistas com grande tiragem
Se não houvesse quem escutasse
E apreciasse a mensagem
Não haveria quem falasse

quinta-feira, 1 de março de 2018

Provérbio citado (MCCULLOUGH)

«Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento... Pelo menos é o que diz a lenda.»


In Pássaros feridos - Colleen McCullough

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXXXVI

Por aqui estamos de passagem
Dum tempo contado ignorantes
E somos eternos viajantes
Seguindo paralelos à margem

Temos dentro o belo e o feio
E uma grande insatisfação
Contudo capazes de perdão
Da bondade não temos receio

Tão confusos mas inteligentes
Falta-nos em simplicidade
O que sobra de originalidade
Resgatando os elos pendentes

Nossa imperfeição maior
É uma grande falta de cuidado
Fica aqui porém o recado
Para vivermos sempre melhor

Que se há coisa certa na vida
Todos teremos nossas mortes
Mas entretanto sejamos fortes
Enquanto não estamos de partida

E quando nos assaltam os dias
Em que tudo parece cinzento
Não quebremos com esse tormento
Deixemos entrar as alegrias

É assim com mensagem de esperança
Que termino este longo poema
E aceito a vida como um esquema
Ou brincadeira de criança


Provérbio provado rimado - CCCXXXV

Quem gosta de música dar
E até faz disso profissão
Acaba a tocar num bar
A suar com satisfação

Normalmente há um vocalista
Que os clientes entretém
E não esquecer o baterista
Faz barulho como convém

A melodia da guitarra
Mais rápida ou mais lenta
Às vezes ninguém a agarra
Toca como nos anos oitenta

Se a malta não dança nem nada
E nem sequer animou o café
É mais cedo a festa acabada
Quando os músicos se põem de pé


Provérbio provado rimado - CCCXXXIV

Espermatozóide bom nadador
É o melhor fecundador
Espera conseguir facturar
Se flores à mulher comprar

É o primeiro da corrida
Até faz o jantar à querida
Veste a melhor fatiota
Mas espera ficar em pelota

E põe ligeiro o avental
Vai apanhar salsa ao quintal
Abre um bom e caro vinho
Com o saca rolhas do vizinho

Faz tão depressa o risotto
Quando come até dá um arroto
Mal acaba o jantar põe-se nú
Mas quem tem pressa come cru

O sacaninha do nadador
P'lo caminho perde o vigor
Ele lá muito esperto não é
Pois no fim não nasceu um bebé

(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXVIII

Pássaro enjaulado não voa
Dia e noite só vê grades
A gaiola até pode ser dourada
Que acabará por detestar essa casa
Com toda a força das suas penas
Mudo se queda sem abrir o bico
Só é mais só que sozinho é

Um dia um descuido porta aberta
O verbo voar ganha asas
Então o desejo de a todo o lado ir
Sem sequer saber onde poisar
Está perdido e a descoberta torna-se
Maior que o pássaro todo
Quase deseja o regresso à prisão
Tanta liberdade traz-lhe o fim

(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXXXIII

Se te pões a cantar de galo
Lá cantas mas não me alegras
Pensas que serei teu vassalo
Tem calma vê lá se sossegas

Enches tanto o peito de ar
O teu canto é tão fraquinho
E com a crista a dar a dar
Vais ficar a cantar sozinho

O mal é que há certas galinhas
Que se encantam com tuas balelas
Quando pias ficam doidinhas
Só que são galináceas fatelas

Tu ficas tão envaidecido
Nem vês que não prestam p'ra nada
És um cantor muito convencido
Promoves-te da forma errada

Ó galo não te exibas tanto
Não chames assim à atenção
Perderás nem sabes o quanto
E não te virão comer à mão

(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
https://www.instagram.com/condecascais/?hl=pt


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Provérbio preterido

O nome do meio do Manuel era a persistência, pois era muito constante, obstinado, disciplinado e organizado. Era perserverante e um incansável trabalhador, adaptando-se a tarefas rotineiras, metódicas e que requeriam uma dose extra de concentração. Assim sendo, dispensava novidades e incertezas.
O seu guarda roupa não variava, nem sequer ao fim de semana; também não dependia das estações do ano. Calças beges, camisa azul clara e blazer azul escuro eram as peças que o Manuel usava invariavelmente, quase como se tivesse a obrigatoriedade de botar fardamento.
Não gostava que lhe trocassem as voltas, por isso agendava os seus compromissos com muita atencedência ao milímetro e era sempre muito pontual, não gostando que o fizessem esperar ou cancelassem os encontros marcados à última hora. Do mesmo modo, reagia muito mal aos imprevistos: greves no comboio, artigos esgotados no supermercado ou a perda de chaves.
O Manuel tomava os seus banhos à noite para ir quentinho para a cama, mesmo no Verão, e usava sempre a mesma marca de sabonete e champô. Tivera ultimamente um problema com a pasta de dentes: deixara de se fabricar e um incrédulo Manuel tivera dificuldade em perdoar a desconsideração, chegando inclusivé a escrever à empresa responsável para que lhe enviasse o stock remanescente.
E no campo amoroso? Está bem de ver que não gostava de saltar de leito em leito e votava uma fidelidade doentia à Graciete, mesmo depois dela o ter preterido pelo actual marido, homem jovial e sem aquelas obcessões todas. 
O Manuel fizera questão que ficassem amigos, servindo isto de pretexto para lhe aparecer à saída do trabalho para dar "um alôzinho". A Graciete começou por concordar com esta amizade improvável, já que tinha terminado o namoro um pouco à bruta e sentia-se responsável por o Manuel andar tão cabisbaixo. Mas cedo percebeu que não era boa ideia: ele fizera daqueles encontros um hábito semanal e parecia cada vez mais esperançado em "voltar". Então, resolveu cortar o mal pela raíz pedindo ao marido que passasse a ir buscá-la às sextas para irem às compras. Conhecendo o Manuel como conhecia, e sendo este um animal de hábitos, já sabia que aparecia sempre no mesmo dia. Na sexta feira seguinte, lá apareceu ele à hora costumeira, nem mais um minuto, impecavelmente barbeado e penteado, com as suas calças beges e camisa azul. Mal a tinha avistado, o telefone da Graciete tocava alto e bom som num trinado de pássaros: Olha, Manuel, o Xavier está ali à minha espera na esquina, mal estacionado, tenho de atender e ir ter com ele... E afastou-se numa corridinha. Ele ainda balbuciou: Próxima sexta? Mas ela já não o ouviu. E o Manuel afastou-se, finalmente vencido, jurando a si mesmo nunca mais, nunca mais...

- Cantam os melros, calam-se os pardais

Provérbio provado rimado - CCCXXX

Eu cá detesto o Inverno
É para mim um inferno
Fico sempre de mau humor
Debaixo de um cobertor

E se tu és como eu
O friozinho já te deu
Andas cheio de casacos
E luvas dentro de sacos

Abafa-te e abifa-te assim
Avinha-te também por mim
Por aqui ficamos à espera
Da bela da Primavera

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXXIX

Para caíres nas boas graças
Só lá vais a troco de chalaças
És um bocado presunçoso
Parvalhão e bastante vaidoso

Vai doze vai treze bem sei
Que dirias esta adivinhei
A tua piada é expectável
Própria de gente insuportável

Não te acho nenhuma gracinha
Vê lá é se te pões na linha
Pois andas tão desajustado
Com esse narigão empinado

Porta-te como deve ser
Ninguém consegues surpreender
Por mim nem te digo mais nada
Contigo não fico admirada

Mas mais uma chance te dou
Como ao coxo que se levantou
Promete na linha vais andar
E pões a cabeça no lugar

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXVII

Pele que se evade pela porta grande
Às claras, nunca soube ser sorrateira
Basta-lhe ligeiro cheiro a esturro
Ala que se faz tarde
Aí vai navegar noutro corpo
É uma pele que rejeita a solidão essa
E a encontra pintada de fresco
A cada nova pele com que se depara
Claro que o cérebro não ajuda
Não lhe diz: pele
Olha que acabarás por romper teu tecido
Nele robustez mental é coisa inexistente
A inconstância é almoço e jantar
Convence-se que um piquinho de desiquilíbrio
Faz da pessoa pessoa

Provérbio dito e feito

Nasceram com apenas quinze minutos de diferença. Dois bebés amorosos, de anúncio Cerélac. Eram gémeos verdadeiros e cresceram em tudo iguais na aparência, nas roupas, no corte de cabelo, nos óculos de massa muito graduados.
Aqui terminavam as parecenças, pois nisto dos gémeos existe por vezes um que manda e um outro que se deixa mandar. Era o que acontecia neste caso: o mais velho era o dominador e autorotário, enquanto o mais novo era o executor, obediente e calado.
Duas personalidades bem diferentes, principalmente no que aos hábitos alimentares é respeitante. O mais velho gostava de caça, o mais novo era vegan. O mais velho regava os seus lautos repastos com aveludados tintos, o mais novo era abstémio e o acompanhamento dos frugais tofus e seitan era água del cano, que o necessário plástico para a engarrafar poluía em demasia a Natureza.
Dados estes dados, está bem de ver que nunca tomavam refeições em conjunto. O que quinze minutos de permeio no nascimento sulcaram de incompatibilidades estes dois irmãos!

- O dizer e o fazer não comem à mesma mesa

Provérbio provado num verso branco - XXVI

A melhor palavra

Guardaste a melhor palavra mais longe
Donde os meus gestos te podiam alcançar
Ficou presa nos lábios que aprenderam a ser meus
Debaixo da língua que costumava dançar com a minha

E eu saudosa dessa palavra que talvez um dia
Um destes dias com toda a certeza haverias de
Pronunciá-la, soletrá-la
E eu sequiosa e com fome da melhor palavra
Onde total para ti me desejarias
Ah, que tola sagacidade!
O que eu supunha tão vão
Tão ténue, oco, insalubre

Chegou depois o dia em que esbanjaste o discurso
Eram ouvidos surdos esses que não o souberam merecer
Ingeriram-no, deglutiram-no
Sem pensar nem pesar
Nenhuma hesitação ou balança
A tua melhor palavra a servir de pasto a ruminantes com maus fígados
A tua melhor palavra desperdiçada porque não foi para mim

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Provérbios provados seleccionados - II

Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim - isto no caso da prosa, pois depois comecei a alinhavar umas rimas imperfeitas e agora até já faço uma perninha no verso branco armada em poeta séria. No caso da prosa, o provérbio aparece só no fim de propósito: pretende-se que os leitores descubram com surpresa qual é o ditado-desfecho-moral da história.

Nesta compilação que fiz procedi de forma inversa: apresento o provérbio final com o link para a respectiva ficção. Segue então uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:



Provérbio provado rimado - CCCXVIII

Podes confiar que o que é teu
À tua mão há-de vir ter
E se acaso ainda não apareceu
Aguarda pois vai acontecer

Se julgas estar a aguentar
Uma travessia do deserto
Está aí estará a rebentar
Tudo aparece no tempo certo