Rascunho do que não fomos
1.
Do passado que não vivemos
Já sinto falta
Do futuro onde não estaremos
Já estou farta
O presente não faz um livro
Só este verso despido
Em que me dispo de ti
Quando falarem do casal do século vinte e um
Não dirão nada de nós
2.
As minhas avenidas são novas
O meu século é lá longe mais além
O meu tempo não tem ponteiros
Nem fronteiras ou desertos
As vielas onde me deito
Têm os olhos das corujas
Um dia é da caça outro do caçador
domingo, 4 de março de 2018
sábado, 3 de março de 2018
Provérbio citado (RORIZ)
"Lembro-me da história que a Felícia me leu - em "O Banquete" de Sócrates - que fala dos andrágoras (seriam andrágoras?) que eram uns seres que tinham quatro braços e quatro pernas num total de oito membros e que se movimentavam rodando sobre esses oito membros. Os deuses teriam acabado por os dividir ao meio para que fossem menos poderosos o que deu origem à raça humana e fez com que cada um de nós ande desesperadamente à procura da sua metade. Ou, como diz o povo - que povo será este? -, cada panela tem sua tampa."
In Avenida de Roma, duas da tarde - Jaime Roriz
In Avenida de Roma, duas da tarde - Jaime Roriz
Provérbio provado rimado - CCCXXXVII
As revistas cor de rosa
Nos consultórios são lidas
Têm má qualidade na prosa
E fotografias fingidas
Estão cheias de Photoshop
Sem celulite no Verão
Há gente rica a galope
Muita moda da estação
As senhoras nos cabeleireiros
Leem-nas de fio a pavio
Comentam actores estrangeiros
Nos cruzeiros de navio
Notícias sem relevância
De plásticas cirurgias
E frases de circunstância
Vaidades e muitas manias
São públicas as figuras
E outras são mais ou menos
De amor abundam as juras
Com sentimentos terrenos
Revistas com grande tiragem
Se não houvesse quem escutasse
E apreciasse a mensagem
Não haveria quem falasse
Nos consultórios são lidas
Têm má qualidade na prosa
E fotografias fingidas
Estão cheias de Photoshop
Sem celulite no Verão
Há gente rica a galope
Muita moda da estação
As senhoras nos cabeleireiros
Leem-nas de fio a pavio
Comentam actores estrangeiros
Nos cruzeiros de navio
Notícias sem relevância
De plásticas cirurgias
E frases de circunstância
Vaidades e muitas manias
São públicas as figuras
E outras são mais ou menos
De amor abundam as juras
Com sentimentos terrenos
Revistas com grande tiragem
Se não houvesse quem escutasse
E apreciasse a mensagem
Não haveria quem falasse
quinta-feira, 1 de março de 2018
Provérbio citado (MCCULLOUGH)
«Existe uma lenda acerca de um pássaro que só canta uma vez na vida, com mais suavidade que qualquer outra criatura sobre a Terra. A partir do momento em que deixa o ninho, começa a procurar um espinheiro, e só descansa quando o encontra. Depois, cantando entre os galhos selvagens empala-se no acúleo mais agudo e mais comprido. E, morrendo, sublima a própria agonia e solta um canto mais belo que o da cotovia e do rouxinol. Um canto superlativo, cujo preço é a existência. Mas o mundo inteiro pára para ouvi-lo, e Deus sorri no céu. Pois o melhor só se adquire à custa de um grande sofrimento... Pelo menos é o que diz a lenda.»
In Pássaros feridos - Colleen McCullough
In Pássaros feridos - Colleen McCullough
quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXXXVI
Por aqui estamos de passagem
Dum tempo contado ignorantes
E somos eternos viajantes
Seguindo paralelos à margem
Temos dentro o belo e o feio
E uma grande insatisfação
Contudo capazes de perdão
Da bondade não temos receio
Tão confusos mas inteligentes
Falta-nos em simplicidade
O que sobra de originalidade
Resgatando os elos pendentes
Nossa imperfeição maior
É uma grande falta de cuidado
Fica aqui porém o recado
Para vivermos sempre melhor
Que se há coisa certa na vida
Todos teremos nossas mortes
Mas entretanto sejamos fortes
Enquanto não estamos de partida
E quando nos assaltam os dias
Em que tudo parece cinzento
Não quebremos com esse tormento
Deixemos entrar as alegrias
É assim com mensagem de esperança
Que termino este longo poema
E aceito a vida como um esquema
Ou brincadeira de criança
Dum tempo contado ignorantes
E somos eternos viajantes
Seguindo paralelos à margem
Temos dentro o belo e o feio
E uma grande insatisfação
Contudo capazes de perdão
Da bondade não temos receio
Tão confusos mas inteligentes
Falta-nos em simplicidade
O que sobra de originalidade
Resgatando os elos pendentes
Nossa imperfeição maior
É uma grande falta de cuidado
Fica aqui porém o recado
Para vivermos sempre melhor
Que se há coisa certa na vida
Todos teremos nossas mortes
Mas entretanto sejamos fortes
Enquanto não estamos de partida
E quando nos assaltam os dias
Em que tudo parece cinzento
Não quebremos com esse tormento
Deixemos entrar as alegrias
É assim com mensagem de esperança
Que termino este longo poema
E aceito a vida como um esquema
Ou brincadeira de criança
Provérbio provado rimado - CCCXXXV
Quem gosta de música dar
E até faz disso profissão
Acaba a tocar num bar
A suar com satisfação
Normalmente há um vocalista
Que os clientes entretém
E não esquecer o baterista
Faz barulho como convém
A melodia da guitarra
Mais rápida ou mais lenta
Às vezes ninguém a agarra
Toca como nos anos oitenta
Se a malta não dança nem nada
E nem sequer animou o café
É mais cedo a festa acabada
Quando os músicos se põem de pé
E até faz disso profissão
Acaba a tocar num bar
A suar com satisfação
Normalmente há um vocalista
Que os clientes entretém
E não esquecer o baterista
Faz barulho como convém
A melodia da guitarra
Mais rápida ou mais lenta
Às vezes ninguém a agarra
Toca como nos anos oitenta
Se a malta não dança nem nada
E nem sequer animou o café
É mais cedo a festa acabada
Quando os músicos se põem de pé
Provérbio provado rimado - CCCXXXIV
Espermatozóide bom nadador
É o melhor fecundador
Espera conseguir facturar
Se flores à mulher comprar
É o primeiro da corrida
Até faz o jantar à querida
Veste a melhor fatiota
Mas espera ficar em pelota
E põe ligeiro o avental
Vai apanhar salsa ao quintal
Abre um bom e caro vinho
Com o saca rolhas do vizinho
Faz tão depressa o risotto
Quando come até dá um arroto
Mal acaba o jantar põe-se nú
Mas quem tem pressa come cru
O sacaninha do nadador
P'lo caminho perde o vigor
Ele lá muito esperto não é
Pois no fim não nasceu um bebé
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais
É o melhor fecundador
Espera conseguir facturar
Se flores à mulher comprar
É o primeiro da corrida
Até faz o jantar à querida
Veste a melhor fatiota
Mas espera ficar em pelota
E põe ligeiro o avental
Vai apanhar salsa ao quintal
Abre um bom e caro vinho
Com o saca rolhas do vizinho
Faz tão depressa o risotto
Quando come até dá um arroto
Mal acaba o jantar põe-se nú
Mas quem tem pressa come cru
O sacaninha do nadador
P'lo caminho perde o vigor
Ele lá muito esperto não é
Pois no fim não nasceu um bebé
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Provérbio provado num verso branco - XXVIII
Pássaro enjaulado não voa
Dia e noite só vê grades
A gaiola até pode ser dourada
Que acabará por detestar essa casa
Com toda a força das suas penas
Mudo se queda sem abrir o bico
Só é mais só que sozinho é
Um dia um descuido porta aberta
O verbo voar ganha asas
Então o desejo de a todo o lado ir
Sem sequer saber onde poisar
Está perdido e a descoberta torna-se
Maior que o pássaro todo
Quase deseja o regresso à prisão
Tanta liberdade traz-lhe o fim
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais
Dia e noite só vê grades
A gaiola até pode ser dourada
Que acabará por detestar essa casa
Com toda a força das suas penas
Mudo se queda sem abrir o bico
Só é mais só que sozinho é
Um dia um descuido porta aberta
O verbo voar ganha asas
Então o desejo de a todo o lado ir
Sem sequer saber onde poisar
Está perdido e a descoberta torna-se
Maior que o pássaro todo
Quase deseja o regresso à prisão
Tanta liberdade traz-lhe o fim
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
www.instagram.com/condecascais
sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXXXIII
Se te pões a cantar de galo
Lá cantas mas não me alegras
Pensas que serei teu vassalo
Tem calma vê lá se sossegas
Enches tanto o peito de ar
O teu canto é tão fraquinho
E com a crista a dar a dar
Vais ficar a cantar sozinho
O mal é que há certas galinhas
Que se encantam com tuas balelas
Quando pias ficam doidinhas
Só que são galináceas fatelas
Tu ficas tão envaidecido
Nem vês que não prestam p'ra nada
És um cantor muito convencido
Promoves-te da forma errada
Ó galo não te exibas tanto
Não chames assim à atenção
Perderás nem sabes o quanto
E não te virão comer à mão
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
Lá cantas mas não me alegras
Pensas que serei teu vassalo
Tem calma vê lá se sossegas
Enches tanto o peito de ar
O teu canto é tão fraquinho
E com a crista a dar a dar
Vais ficar a cantar sozinho
O mal é que há certas galinhas
Que se encantam com tuas balelas
Quando pias ficam doidinhas
Só que são galináceas fatelas
Tu ficas tão envaidecido
Nem vês que não prestam p'ra nada
És um cantor muito convencido
Promoves-te da forma errada
Ó galo não te exibas tanto
Não chames assim à atenção
Perderás nem sabes o quanto
E não te virão comer à mão
(Ilustração: Rui dos Prazeres Louraço)
https://www.instagram.com/condecascais/?hl=pt
quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018
Provérbio preterido
O nome do meio do Manuel era a persistência, pois era muito constante, obstinado, disciplinado e organizado. Era perserverante e um incansável trabalhador, adaptando-se a tarefas rotineiras, metódicas e que requeriam uma dose extra de concentração. Assim sendo, dispensava novidades e incertezas.
O seu guarda roupa não variava, nem sequer ao fim de semana; também não dependia das estações do ano. Calças beges, camisa azul clara e blazer azul escuro eram as peças que o Manuel usava invariavelmente, quase como se tivesse a obrigatoriedade de botar fardamento.
Não gostava que lhe trocassem as voltas, por isso agendava os seus compromissos com muita atencedência ao milímetro e era sempre muito pontual, não gostando que o fizessem esperar ou cancelassem os encontros marcados à última hora. Do mesmo modo, reagia muito mal aos imprevistos: greves no comboio, artigos esgotados no supermercado ou a perda de chaves.
O Manuel tomava os seus banhos à noite para ir quentinho para a cama, mesmo no Verão, e usava sempre a mesma marca de sabonete e champô. Tivera ultimamente um problema com a pasta de dentes: deixara de se fabricar e um incrédulo Manuel tivera dificuldade em perdoar a desconsideração, chegando inclusivé a escrever à empresa responsável para que lhe enviasse o stock remanescente.
E no campo amoroso? Está bem de ver que não gostava de saltar de leito em leito e votava uma fidelidade doentia à Graciete, mesmo depois dela o ter preterido pelo actual marido, homem jovial e sem aquelas obcessões todas.
O Manuel fizera questão que ficassem amigos, servindo isto de pretexto para lhe aparecer à saída do trabalho para dar "um alôzinho". A Graciete começou por concordar com esta amizade improvável, já que tinha terminado o namoro um pouco à bruta e sentia-se responsável por o Manuel andar tão cabisbaixo. Mas cedo percebeu que não era boa ideia: ele fizera daqueles encontros um hábito semanal e parecia cada vez mais esperançado em "voltar". Então, resolveu cortar o mal pela raíz pedindo ao marido que passasse a ir buscá-la às sextas para irem às compras. Conhecendo o Manuel como conhecia, e sendo este um animal de hábitos, já sabia que aparecia sempre no mesmo dia. Na sexta feira seguinte, lá apareceu ele à hora costumeira, nem mais um minuto, impecavelmente barbeado e penteado, com as suas calças beges e camisa azul. Mal a tinha avistado, o telefone da Graciete tocava alto e bom som num trinado de pássaros: Olha, Manuel, o Xavier está ali à minha espera na esquina, mal estacionado, tenho de atender e ir ter com ele... E afastou-se numa corridinha. Ele ainda balbuciou: Próxima sexta? Mas ela já não o ouviu. E o Manuel afastou-se, finalmente vencido, jurando a si mesmo nunca mais, nunca mais...
- Cantam os melros, calam-se os pardais
Provérbio provado rimado - CCCXXX
Eu cá detesto o Inverno
É para mim um inferno
Fico sempre de mau humor
Debaixo de um cobertor
E se tu és como eu
O friozinho já te deu
Andas cheio de casacos
E luvas dentro de sacos
Abafa-te e abifa-te assim
Avinha-te também por mim
Por aqui ficamos à espera
Da bela da Primavera
É para mim um inferno
Fico sempre de mau humor
Debaixo de um cobertor
E se tu és como eu
O friozinho já te deu
Andas cheio de casacos
E luvas dentro de sacos
Abafa-te e abifa-te assim
Avinha-te também por mim
Por aqui ficamos à espera
Da bela da Primavera
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCCXXIX
Para caíres nas boas graças
Só lá vais a troco de chalaças
És um bocado presunçoso
Parvalhão e bastante vaidoso
Vai doze vai treze bem sei
Que dirias esta adivinhei
A tua piada é expectável
Própria de gente insuportável
Não te acho nenhuma gracinha
Vê lá é se te pões na linha
Pois andas tão desajustado
Com esse narigão empinado
Porta-te como deve ser
Ninguém consegues surpreender
Por mim nem te digo mais nada
Contigo não fico admirada
Mas mais uma chance te dou
Como ao coxo que se levantou
Promete na linha vais andar
E pões a cabeça no lugar
Só lá vais a troco de chalaças
És um bocado presunçoso
Parvalhão e bastante vaidoso
Vai doze vai treze bem sei
Que dirias esta adivinhei
A tua piada é expectável
Própria de gente insuportável
Não te acho nenhuma gracinha
Vê lá é se te pões na linha
Pois andas tão desajustado
Com esse narigão empinado
Porta-te como deve ser
Ninguém consegues surpreender
Por mim nem te digo mais nada
Contigo não fico admirada
Mas mais uma chance te dou
Como ao coxo que se levantou
Promete na linha vais andar
E pões a cabeça no lugar
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018
Provérbio provado num verso branco - XXVII
Pele que se evade pela porta grande
Às claras, nunca soube ser sorrateira
Basta-lhe ligeiro cheiro a esturro
Ala que se faz tarde
Aí vai navegar noutro corpo
É uma pele que rejeita a solidão essa
E a encontra pintada de fresco
A cada nova pele com que se depara
Claro que o cérebro não ajuda
Não lhe diz: pele
Olha que acabarás por romper teu tecido
Nele robustez mental é coisa inexistente
A inconstância é almoço e jantar
Convence-se que um piquinho de desiquilíbrio
Faz da pessoa pessoa
Às claras, nunca soube ser sorrateira
Basta-lhe ligeiro cheiro a esturro
Ala que se faz tarde
Aí vai navegar noutro corpo
É uma pele que rejeita a solidão essa
E a encontra pintada de fresco
A cada nova pele com que se depara
Claro que o cérebro não ajuda
Não lhe diz: pele
Olha que acabarás por romper teu tecido
Nele robustez mental é coisa inexistente
A inconstância é almoço e jantar
Convence-se que um piquinho de desiquilíbrio
Faz da pessoa pessoa
Provérbio dito e feito
Nasceram com apenas quinze minutos de diferença. Dois bebés amorosos, de anúncio Cerélac. Eram gémeos verdadeiros e cresceram em tudo iguais na aparência, nas roupas, no corte de cabelo, nos óculos de massa muito graduados.
Aqui terminavam as parecenças, pois nisto dos gémeos existe por vezes um que manda e um outro que se deixa mandar. Era o que acontecia neste caso: o mais velho era o dominador e autorotário, enquanto o mais novo era o executor, obediente e calado.
Duas personalidades bem diferentes, principalmente no que aos hábitos alimentares é respeitante. O mais velho gostava de caça, o mais novo era vegan. O mais velho regava os seus lautos repastos com aveludados tintos, o mais novo era abstémio e o acompanhamento dos frugais tofus e seitan era água del cano, que o necessário plástico para a engarrafar poluía em demasia a Natureza.
Dados estes dados, está bem de ver que nunca tomavam refeições em conjunto. O que quinze minutos de permeio no nascimento sulcaram de incompatibilidades estes dois irmãos!
- O dizer e o fazer não comem à mesma mesa
Aqui terminavam as parecenças, pois nisto dos gémeos existe por vezes um que manda e um outro que se deixa mandar. Era o que acontecia neste caso: o mais velho era o dominador e autorotário, enquanto o mais novo era o executor, obediente e calado.
Duas personalidades bem diferentes, principalmente no que aos hábitos alimentares é respeitante. O mais velho gostava de caça, o mais novo era vegan. O mais velho regava os seus lautos repastos com aveludados tintos, o mais novo era abstémio e o acompanhamento dos frugais tofus e seitan era água del cano, que o necessário plástico para a engarrafar poluía em demasia a Natureza.
Dados estes dados, está bem de ver que nunca tomavam refeições em conjunto. O que quinze minutos de permeio no nascimento sulcaram de incompatibilidades estes dois irmãos!
- O dizer e o fazer não comem à mesma mesa
Provérbio provado num verso branco - XXVI
A melhor palavra
Guardaste a melhor palavra mais longe
Donde os meus gestos te podiam alcançar
Ficou presa nos lábios que aprenderam a ser meus
Debaixo da língua que costumava dançar com a minha
E eu saudosa dessa palavra que talvez um dia
Um destes dias com toda a certeza haverias de
Pronunciá-la, soletrá-la
E eu sequiosa e com fome da melhor palavra
Onde total para ti me desejarias
Ah, que tola sagacidade!
O que eu supunha tão vão
Tão ténue, oco, insalubre
Chegou depois o dia em que esbanjaste o discurso
Eram ouvidos surdos esses que não o souberam merecer
Ingeriram-no, deglutiram-no
Sem pensar nem pesar
Nenhuma hesitação ou balança
A tua melhor palavra a servir de pasto a ruminantes com maus fígados
A tua melhor palavra desperdiçada porque não foi para mim
Guardaste a melhor palavra mais longe
Donde os meus gestos te podiam alcançar
Ficou presa nos lábios que aprenderam a ser meus
Debaixo da língua que costumava dançar com a minha
E eu saudosa dessa palavra que talvez um dia
Um destes dias com toda a certeza haverias de
Pronunciá-la, soletrá-la
E eu sequiosa e com fome da melhor palavra
Onde total para ti me desejarias
Ah, que tola sagacidade!
O que eu supunha tão vão
Tão ténue, oco, insalubre
Chegou depois o dia em que esbanjaste o discurso
Eram ouvidos surdos esses que não o souberam merecer
Ingeriram-no, deglutiram-no
Sem pensar nem pesar
Nenhuma hesitação ou balança
A tua melhor palavra a servir de pasto a ruminantes com maus fígados
A tua melhor palavra desperdiçada porque não foi para mim
terça-feira, 6 de fevereiro de 2018
Provérbios provados seleccionados - II
Neste blog temático pode observar-se sempre a
mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim - isto no caso da prosa,
pois depois comecei a alinhavar umas rimas imperfeitas e agora até já faço uma
perninha no verso branco armada em poeta séria. No caso da prosa, o provérbio
aparece só no fim de propósito: pretende-se que os leitores descubram com surpresa
qual é o ditado-desfecho-moral da história.
Nesta compilação que fiz procedi de forma
inversa: apresento o provérbio final com o link para a respectiva ficção. Segue
então uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de
entre os provérbios populares:
- Quem não se sente não é filho de boa gente
- As conversas são como as cerejas: atrás d'umas vêm as outras
- Quem não tem cão caça com gato
- Não pode a cadela com tanto cachorro
- O mundo dá muita volta e numa delas eu entro
- Deus é grande e o mato é maior
- Só se lembram de Santa Bárbara quando troveja
- Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo
Provérbio provado rimado - CCCXVIII
Podes confiar que o que é teu
À tua mão há-de vir ter
E se acaso ainda não apareceu
Aguarda pois vai acontecer
Se julgas estar a aguentar
Uma travessia do deserto
Está aí estará a rebentar
Tudo aparece no tempo certo
À tua mão há-de vir ter
E se acaso ainda não apareceu
Aguarda pois vai acontecer
Se julgas estar a aguentar
Uma travessia do deserto
Está aí estará a rebentar
Tudo aparece no tempo certo
Provérbio provado rimado - CCCXVII
Ótimo não me convence
É óptimo que me pertence
Semirreta parece anedota
A semi-recta é que se nota
Poque esta coisa do acordo
É coisa com que não concordo
Às vezes fico zangada
Não consigo achar piada
É que pactos não são patos
Nem factos são como fatos
Uma coisa é uma coisa
E outra coisa é outra coisa
É óptimo que me pertence
Semirreta parece anedota
A semi-recta é que se nota
Poque esta coisa do acordo
É coisa com que não concordo
Às vezes fico zangada
Não consigo achar piada
É que pactos não são patos
Nem factos são como fatos
Uma coisa é uma coisa
E outra coisa é outra coisa
Provérbio mensal
Nunca ouviu dizer que o mês de Janeiro é o que mais custa a passar, Elvira? Lá diz o povo... e se o povo diz coisas acertadas!
Depois das festas, o bolso fica vazio e não é que vence o seguro do carro e as rendas das casas aumentam? Mas que péssima altura! E não são só móveis e imóveis: sobem o gás, e água, a electricidade; o pão, o arroz, o café também sobem por ali acima; os putos lembram-se de romper mais um par de calças, esburacar mais um par de ténis, isto quando não deixam cair o telefone na sanita! Não se ria, Elvira! O meu Marco já afogou dois, raios o partam!
Mas, pronto, chega o fim do interminável mês e uma pessoa fica mais descansada porque Fevereiro só tem 28 dias. Na maior parte dos anos, enfim... Mas é um mês esquisito, metereologicamente falando: ora faz um frio de rachar, ora chove a potes. O pior é quando faz aquele calor impróprio para a época, teme-se o pior. Ora, ora, ainda pergunta porquê, Elvira? Já dizia a minha avó, e se ela estava sempre coberta de razão...
- Fevereiro quente traz o diabo no ventre
Depois das festas, o bolso fica vazio e não é que vence o seguro do carro e as rendas das casas aumentam? Mas que péssima altura! E não são só móveis e imóveis: sobem o gás, e água, a electricidade; o pão, o arroz, o café também sobem por ali acima; os putos lembram-se de romper mais um par de calças, esburacar mais um par de ténis, isto quando não deixam cair o telefone na sanita! Não se ria, Elvira! O meu Marco já afogou dois, raios o partam!
Mas, pronto, chega o fim do interminável mês e uma pessoa fica mais descansada porque Fevereiro só tem 28 dias. Na maior parte dos anos, enfim... Mas é um mês esquisito, metereologicamente falando: ora faz um frio de rachar, ora chove a potes. O pior é quando faz aquele calor impróprio para a época, teme-se o pior. Ora, ora, ainda pergunta porquê, Elvira? Já dizia a minha avó, e se ela estava sempre coberta de razão...
- Fevereiro quente traz o diabo no ventre
Provérbio provado rimado - CCCXVI
Tenho um grande ego cego
E às costas o carrego
O pior é que não quer ver
Assim não consegue aprender
Mesmo que só tenha um olho
Com tanta dificuldade escolho
Em terra de cegos quem tem
Um olho é o rei também
E às costas o carrego
O pior é que não quer ver
Assim não consegue aprender
Mesmo que só tenha um olho
Com tanta dificuldade escolho
Em terra de cegos quem tem
Um olho é o rei também
Subscrever:
Mensagens (Atom)













