terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Provérbios provados seleccionados - II

Neste blog temático pode observar-se sempre a mesma estrutura: primeiro o texto, o provérbio no fim - isto no caso da prosa, pois depois comecei a alinhavar umas rimas imperfeitas e agora até já faço uma perninha no verso branco armada em poeta séria. No caso da prosa, o provérbio aparece só no fim de propósito: pretende-se que os leitores descubram com surpresa qual é o ditado-desfecho-moral da história.

Nesta compilação que fiz procedi de forma inversa: apresento o provérbio final com o link para a respectiva ficção. Segue então uma selecção das histórias em depósito dos provérbios mais populares de entre os provérbios populares:



Provérbio provado rimado - CCCXVIII

Podes confiar que o que é teu
À tua mão há-de vir ter
E se acaso ainda não apareceu
Aguarda pois vai acontecer

Se julgas estar a aguentar
Uma travessia do deserto
Está aí estará a rebentar
Tudo aparece no tempo certo

Provérbio provado rimado - CCCXVII

Ótimo não me convence
É óptimo que me pertence
Semirreta parece anedota
A semi-recta é que se nota

Poque esta coisa do acordo
É coisa com que não concordo
Às vezes fico zangada
Não consigo achar piada

É que pactos não são patos
Nem factos são como fatos
Uma coisa é uma coisa
E outra coisa é outra coisa

Provérbio mensal

Nunca ouviu dizer que o mês de Janeiro é o que mais custa a passar, Elvira? Lá diz o povo... e se o povo diz coisas acertadas!
Depois das festas, o bolso fica vazio e não é que vence o seguro do carro e as rendas das casas aumentam? Mas que péssima altura! E não são só móveis e imóveis: sobem o gás, e água, a electricidade; o pão, o arroz, o café também sobem por ali acima; os putos lembram-se de romper mais um par de calças, esburacar mais um par de ténis, isto quando não deixam cair o telefone na sanita! Não se ria, Elvira! O meu Marco já afogou dois, raios o partam!
Mas, pronto, chega o fim do interminável mês e uma pessoa fica mais descansada porque Fevereiro só tem 28 dias. Na maior parte dos anos, enfim... Mas é um mês esquisito, metereologicamente falando: ora faz um frio de rachar, ora chove a potes. O pior é quando faz aquele calor impróprio para a época, teme-se o pior. Ora, ora, ainda pergunta porquê, Elvira? Já dizia a minha avó, e se ela estava sempre coberta de razão...

- Fevereiro quente traz o diabo no ventre

Provérbio provado rimado - CCCXVI

Tenho um grande ego cego
E às costas o carrego
O pior é que não quer ver
Assim não consegue aprender

Mesmo que só tenha um olho
Com tanta dificuldade escolho
Em terra de cegos quem tem
Um olho é o rei também

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCXV

Aprende a ser paciente
É qualidade importante
Não lhe sejas indiferente
Relembra-a a cada instante

Se estás prestes a perdê-la
Muda logo a tua atitude
E busca bem fundo por ela
A paciência é uma virtude

Provérbio provado rimado - CCCXIV

Se pões roupa na máquina de lavar
Não duvides que se vai molhar
Dizê-lo é chover no molhado
Se repetes ficas encharcado

É chuvada em abundância
Se és amigo da redundância
E dizes há dois anos atrás
Há dois anos à frente não vás

Se a rua sobe para cima
És mesmo o alvo desta rima
Ou desces para baixo do escadote
Na gramática és um fracote

Não és bom nas figuras de estilo
Mas deixa lá fica tranquilo
Há sempre quem esteja pior
Diga "há-des" ver por favor

Esse é erro muito comum
Quando se corrige nenhum
Cérebro aprende a lição
Hás-de aprender a canção

Se podes dizer que existe
É o verbo haver que persiste
Se não podes não leva agá
Um truque melhor não virá

Sei bem que sou muito chata
Mas a gramática não é barata
E não me pagam para professora
Qualquer dia vou porta fora

Provérbio provado rimado - CCCXIII

Cada um tem seu fadário
De embarcar no conto do vigário
Acontece uma vez na vida
Ou duas ou três de fugida

Quem acha que nunca vai cair
E só das quedas dos outros se rir
Normalmente é quem cai mais depressa
Depois de dizer eu cá não vou nessa

Provérbio provado rimado - CCCXII

Cabeça que se mete em apuros
Anda assim à razão de juros
E se está sempre a abanar
Não pára nem para pensar

Pois uma tola tresloucada
Está muito pouco ajuízada
Não sabe de que terra é
Se de França ou se da Guiné

Mas o pior é quando os pés
Não vão direitos vão de viés
E quando essa troca aconteça
A pessoa não tem pés nem cabeça

Que raio fica aos pedaços
Aqui as pernas além os braços
E acolá vai um pulmão
Um rim a arrastar pelo chão

Não há roupa que lhe valha
Com tanta má sorte que calha
Que mais parece um espantalho
Espantar melros é seu trabalho

Nem tem direito a sapatos
Do clima recebe maus tratos
E eis que esta rima infernal
Não tem pés nem cabeça afinal

Não chega a ser engraçada
Nem tem uma gota de piada
Sabem é que rimar meus amigos
É tarefa cheínha de perigos

E lá tem as suas artes
De cortar fulanos em partes
Já sei que não faço sentido
Ao provar um provérbio tão querido

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXV

Não é pelo outro que nos apaixonamos
É pela nossa imagem apaixonados pelo outro

Quando o amor resulta
Enquanto resulta
Louvamos o bom discernimento da escolha
E o espelho só devolve sorrisos
Mas se a coisa dá para o torto
Está bem de ver: a culpa é do outro

Provérbio provado entrevistado

- Anda daí, Alzira, está na hora do almoço! Se te demoras, daqui a bocado não temos lugar no refeitório. Já sabes que são sete cães a um osso...
Alzira largou a escova de cabelo, comprimiu os lábios em frente ao espelho e seguiu a colega escada acima.
Uma hora e meia chegava e sobejava para comer e ainda dar três dedos de conversa porque dois nunca eram suficientes.
O refeitório era grande e bem equipado e tinha até uma estante a um canto cheia de livros que ninguém folheava mas à qual as chefias chamavam pomposamente biblioteca. Ocupava uma área significativa do primeiro andar e era a menina dos olhos da administração. Por isso, ninguém estranhou quando na semana anterior entrou sala adentro uma jornalista ladeada por um fotógrafo, um cameraman, o patrão maior do hipermercado e respectivos lambe botas. Lá vinham eles exibir-se para a televisão e os jornais, querendo demonstrar as verdadeiramente fantásticas condições que davam aos empregados, esperando desviar as atenções dos baixos salários.
- Repare, sra. dra., na nossa biblioteca ali ao canto, ideal para uma pequena pausa após o almoço.
- Chame-me só Celeste, pela sua saúde! Sou apenas uma jornalista, não passo atestados médicos! E não me leve a mal, mas a biblioteca não deve ter lá muito uso, quer-me parecer. Por certo outras coisas fariam mais falta aos seus empregados... Ora e com quem é que posso trocar umas palavrinhas? - e virando-se para o grupo mais perto - Talvez aqui com esta senhora? Como se chama, quer dizer-nos? Ah, que engraçado!, Alzira era o nome da minha tia favorita. Já lá está, coitadinha... Mas então posso fazer-lhe uma ou duas perguntas, Alzira?
A jornalista parecia não saber muito bem ao que vinha, mas assim que se ligou a luz da câmara e o fotógrafo apontou a objectiva, transformou-se como que por magia. Quis saber ao pormenor tudo o que a Alzira fazia, se gostava daquele emprego, se o ordenado era o bastante para viver r quais as regalias que tinha, onde morada, se tinha filhos, tudo tim tim por tim tim - a Alzira chegou a recear que lhe fosse perguntar a cor das cuecas. Ficou muitíssimo vermelha, pois não gostava nada de ser o centro das atenções, mas de quando em vez lá deitava uma espreitadela pelo canto do olho para a câmara. Até que a jornalista se saiu com esta:
- Agora, para terminr, vou fazer-lhe uma pergunta difícil. Ou fácil, dependendo da perspectiva. A Alzira é feliz?
- Olhe, sra. dra... Ah, sim, Celeste, desculpe. Sabe o que é que eu lhe digo?

- Feliz é quem diz

Provérbio provado num verso branco - XXIV

Quando é esperada nunca chega
Quando chega não é esperada

Todavia já aqui devia estar, vão sendo horas
A felicidade já devia ter transporto a soleira
As raízes lançaram os seus braços sobre a terra
A palha secou há muito lá onde se seca a palha
A criança adormeceu acreditando que amanhã o final feliz virá
É fácil pôr as culpas no futuro
Para que se possa chamar-lhe futuro e não imitação

A felicidade é uma doidivanas, uma malandreca
Não tem metas, só rectas
Há-de aparecer de rompante levando tudo à frente
As lágrimas não terão memória de ter caído
Então é tomar-lhe o pulso e o gosto
Que se a felicidade é bruta
Experimentá-la total é brutal

Mas para ganhar na lotaria
É preciso comprar cautela
Despir-se da cautela
E dar uma mãozinha à felicidade
Fechar os olhos à beira do precipício
Esperando os pássaros que hão-de amparar a queda

Provérbio provado rimado - CCCXI

Se pensas que os outros são tolos
E que comes todos por parolos
Não creias que és assim tão esperto
E de inteligência coberto

Não venhas aqui para o meu lado
Com esse peito tão inchado
Recebo-te com mil apupos
Porque eu cá não papo grupos

domingo, 28 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCX

Cá para mim a sinceridade
É bem a melhor qualidade
Como os malucos tudo digo
Muito inconsciente do perigo

Mas há quem não seja sincero
Não por falta de ser vero
Só não sabe o que há-de dizer
Mas parvo não quer parecer

Então diz mentira piedosa
Que não tem nada de corajosa
Porque quem não sabe inventa
E mais parvos que ele contenta

Provérbio provado rimado - CCCIX

Meu querido és o meu farol
Que brilha até se faz sol
És bonança na tempestade
E embelezas a realidade

Chegaste assim de repente
Deixas-me porém tão contente
És lindo e tens a simplicidade
Que foste amealhando com a idade

E é essa sabedoria
Que é para mim mais valia
Encantas-me e tens pátine
Não é só isso que te define

Apesar do teu feitio torto
Tu és como vinho do Porto
Quanto mais velho melhor
E com bom sentido de humor

Lá está não sei bem explicar
A razão de eu agora te amar
Não penses que assim exagero
Para te provar o quanto te quero

Provérbio provado predestinado

Era uma vez dois botões que se amavam mas viviam em casas separadas. Um dia veio um costureiro chamado Destino, que trazia na mão uma enorme tesoura capaz de cortar vidas aos pedaços, e pimba!, descoseu um dos botões. Era o que estava mais desprendido, não por incúria ou preguiça, é que os aparentes desapegos ombreiam normalmente com os botões mais fragilizados, vá-se lá saber porquê!, as estatísticas normalmente contrariam a lógica.
O botão caiu desamparado e chorou as lágrimas maiores e mais redondas da sua até então vida. Chorou de dor de raiva e maldisse o Destino. Inventou-lhe nomes feios à mãe e demais família das coincidências, lamentando a falta de critério e sentido de justiça, adivinhando que nenhum outro botão o poderia substituir como deve ser, já que teria de combinar a cor e diâmetro exactos.
Ficou perdido numa sarjeta a olhar as estrelas, desejando ir ter com elas: de certezinha que era lá em cima naquele brilho todo que ficava o céu dos botões desirmanados de que tanto ouvira falar... Nunca mais teve sono, frio ou fome; limitou-se a estar para ali parado vendo os ponteiros que rodavam no pulso de quem ia passando. A cada volta completa que davam os ponteiros regressava mais uma noite; o botão achava que, como toda a gente detestava o Inverno, a estação do frio vingava-se com mais horas de estrelas para compensar os abafos que são os afagos da solidão. E as pessoas iam passando ao frio e à chuva com relógios cada vez maiores.
Então, numa noite muito comprida, uma pessoa que não sabia a quantas andava, parou junto à sarjeta e reparou no botão sozinho. Apanhou-o e disse-lhe:
- Conheço um costureiro chamado Destino que te pode ajudar.
O botão tremeu de medo e descobriu que afinal ainda conseguia tremer:
- Muito obrigado, pessoa sem relógio, mas não quero uma mãozinha do Destino. É por causa dele que me encontro aqui...
Mesmo assim tão contrariado, a pessoa pensou que era hora de o tirar dali, ainda que não soubesse que horas eram no Tempo das gentes muito menos no dos botões.
Foi tudo tão rápido que ainda hoje o botão está para perceber o que se passou. Foi entregue ao Destino e à sua irmã Sorte que tinham uma linha muito, muito grossa e uma agulha muito, muito comprida. Coseram o botão com todo o cuidado junto ao botão amado, o lugar estava vago, não chegou a saber se tinha chegado a ser preenchido.
No momento do regresso o botão compreendeu muitas coisas. Percebeu que muitas frases feitas de tão refeitas são perfeitas, como aquela que diz que o Destino e a Sorte andam sempre de mãos dadas e estão já ali ao virar da esquina. E de ter uma boa comunicação, não vá a Sorte ouvir o que o Destino não disse e aí todos os botões serem quadrados e o impossível não ter pernas. Ou então pode a Sorte embriagar-se de sonhos e ir perder-se na roleta, deixando o pobre Destino a escutar o seu triste fado em modo menor. Como o Destino é caprichoso, pode muito bem adiantar imenso os relógios das pessoas que se apressam em chegar ao fim de cada dia sem sorrisos nem lágrimas, como aquelas que o botão via passar quando estava na sarjeta: pessoas mecânicas, pessoas fecho éclair que não coleccionam botões descosidos nem meias sem par, pessoas sem memória que atiram as recordações para um saco verde de vinte litros e nem sequer se lembram.
O botão compreendeu também que era muito mais senhor de si, agora que dava o devido valor à família das coincidências. Sim, porque o Acaso é um caso muito sério!

- Nada acontece por acaso

Provérbio à altura da leitura

Primeiro os olhos topam uma lombada. O título é uma melodia duas vezes repetida, digo-o para dentro, canto-o se tem algo de canção. A autoria do livro pode ser consagrada ou desconhecida, admito que também conta, não me é indiferente: mais facilmente regresso à casa onde já fui feliz ou à casa onde me dizem outros leitores terem já sido felizes.
Tenho sempre o cuidado de não julgar o livro pela capa; afinal o designer pode sempre ser melhor que o escritor. Pego no objecto: afago-o, cheiro-o, passo os olhos numa fuga oblíqua pelo primeiro parágrafo. São as chamadas primeiras impressões, tal como no instante em que conhecemos uma pessoa e o cérebro decide se os nossos braços a abraçarão ou ficarão em linha com o corpo, paralelos à nossa indiferença. É nesse momento que decido se sim ou sopas: algo me conquista ou despeço-me sem remorsos. Se levo o livro comigo, torna-se mais uma promessa na longa lista de espera. Nem sempre viaja sozinho, nesses dias em que tenho mais fome de palavras julgo poder empanturrar-me de dois, três livros e mais um par de versos. Ficam a aguardar na estante pelo momento em que finalmente os engolirei, não há ordem de chegada ou partida: a cada momento escolho o que mais me apela aos sentidos e posso regressar a capítulos outrora lidos, como se amigos que moram longe ou um regresso ao bairro das portas da infância.
A cada livro uma nova viagem num mundo sem fronteiras. Quantas vezes uma repetição de sensações das quais já desconfiava, coisas que já me disse com aquelas mesmíssimas letras, aquela mesma música, quase um plágio autorizado em que dissesse: toma lá os meus pensamentos, autor sem imaginação, deixo-te fingir que todos os humanos são muito iguais.
Cada livro é quase sempre melhor do que a capa, por mais engalanada que se apresente. Na leitura estão os melhores momentos desta vida incompleta e fugaz: é através da literatura que escapo da morte.

- Não se deve julgar um livro pela capa

sábado, 20 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXIII

O poema é um confessionário que não se pode fechar à chave
Não é beato mas quer ensinar a missa ao padre
De cada vez que reza o seu verso é diferente
Não tem cartilha, não é de pacotilha

O poema comunga palavras salgadas
Ajoelha-se ao desejo da superação
Quer crescer cada vez mais alto aos mais altos tectos
Adormece tarde e más horas
Desperta sempre para uma nova surpresa

O poema nunca é demais nem de menos
É a medida certa para a voz da mão inquieta

O padre que reza a missa não leu o poema
Tão pouco aceita que a poesia seja feita de palavras
Debita, repete, cansa-se e cansa-os
Os fiés são fiés ao bolor
Os infiéis estão atrasados, já não vêm
Ausentes neste e no próximo Domingo
Guardam o poema no bolso roto
O poema escapa-se e ganha asas
Quando regressa ao bolso encontra um espaço novo

Provérbio provado num verso branco - XXII

Das nove às cinco

A pessoa não é só o trabalho que tem
O trabalho que tem não faz a pessoa
Há poemas, música e magia
Dias cheios de vazio, mas a tristeza é finita
Há esperança, noites inteiras e insónias de lua cheia
Há o mar e uma árvore robusta que morre de pé
Intensidade e a certeza da renovação

A vida não é só uma das nove às cinco
A vida são duas, três, cem
Sete como as do gato que cai sempre de pé
O gato não é feito de quedas
As quedas que dá não fazem o gato
Às cinco acorda de ser infeliz
Lambe as feridas, pisca os olhos várias vezes
E vai dar mais umas voltas curiosas pelas redondezas
Vai ser natureza, espanto e maldição

Provérbio provado rimado - CCCVIII

Quem está mal é melhor
Que se mude ou ficará pior
É sempre positiva a mudança
Um bom tempero da esperança

Quando tudo parece perdido
Vê lá não te dês por vencido
Apressa-te já no caminho
Mesmo que estejas sozinho

Apoia-te no que puderes
Por mais triste que estiveres
Pois nesta vida tudo passa
Não te entregues à desgraça