quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XXI

A rainha da noite traz o rei na barriga
Vai pari-lo na rua escura da cidade cinzenta
Todos dirão que vai nú
A fralda do rei é o vento

Vai ser mal criado perto do rio que passa
Malcriado para quem passa no leito do rio
Esfomeado e febril de vida

A rainha mãe tem sede e rouba gotas ao rio
Não há pai para ela
Tão pouco há pai para o filho rei
Com os braços abertos sobre o rio
Morre solteira e a culpa é do outro
Terceiro braço que não teve

As mais altas pontes vigiam as águas
O rei orfão tem o barco mas já não tem a fralda do vento
Cresce de vez quando descobre a flor preta
Assiste do alto das pontes à cidade cinzenta
Quarta feira de cinzas eternas

Já não vai nú o rei
Os fatos feitos de ar ninguém os quis comprar
O rei abre as portas interiores
Quando se quer lembrar da vida na barriga
No princípio a meio do fim

Galga os degraus dois a dois
Come degraus para chegar lá acima ao inferno
Vê a vida a dar um passo atrás
Para logo descer e dar dois à frente

O rei quer sentir a queda do verso
Branco que lhe causa desconforto
Um arrepio percorre a espinha da cidade cinzenta
O rei reina sobre a própria morte

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Provérbio provado do soldado marchado

A chuva caía fortemente e batia rija na calçada naquela manhã invernosa em que as meninas da primária, quarta classe à beira do exame, vieram espreitar ao recreio, timoratas e curiosas, o bando de militares acabadinhos de regressar do Ultramar no navio ainda agora aportado às Docas. Seriam, grosso modo, para cima de mil e quinhentos que chegavam exaustos e embriagados, bivaque à banda e farda amarrotada, com pinta de maltrapilhos, mas na infinita excitação que transporta quem regressa da morte ainda respirando. As meninas do recreio traziam bibes às riscas e grandes laços brancos enfeitando puxinhos de cabelo e, nessa manhã, esqueceram-se de saltar à corda, fascinadas pela turba de soldados que já dispersavam em mais pequenos grupos por ruas secundárias.
As meninas não eram assim tão pequeninas que não soubessem o que era a guerra: sobre ela se divagava em voz baixa lá por casa e arredores, havia sempre um tio mais desbocado ou uma vizinha mais contadeira. E, claro, os jornais. Mas nesses a arremetida colonialista era relatada combinando patrióticas elucubrações, louvores à valentia dos combatentes que só sabiam somar vitórias - nunca uma derrota, nem uminha que fosse! - e loas ao brioso Chefe de Estado, que por hora ainda não sornara na famosa cadeira donde se estatelaria fatidicamente.
Algumas das meninas já eram espigadotas, com maminhas nascendo apertadas nas blusas por debaixo do bibe, e humedeciam os lábios à mistura com um suspiro engolido, sonhando com o dia em que esbarrariam numa esquina com um daqueles garbosos mancebos - bem fardado e engomado, penteado e de banho tomado -, que se apaixonaria irremediavelmente assim que algum daqueles olhos, ainda infantis mas doravante senhoris, topasse.

- Soldado em marcha pega no que acha

Provérbio provado com final feliz

Depois de ter terminado o curso neste rectângulo à beira mar mal plantado, o Bruno inscreveu-se no programa Erasmus e resolveu rumar a terras de Sua Majestade. Por lá permaneceu largos anos, completando o doutoramento em Neurociências, até queimar todas as pestanas. Um belo dia, bateu-lhe uma tal saudade da lusa pátria que decidiu então regressar de vez. Tinha assegurado basto prestígio com as suas doutas investigações, por isso, mal concorreu, logo recebeu a almejada bolsa que lhe permitiria por cá ficar uns anitos. Então, o Bruno teve a bendita ideia de reunir todas as amigas e amigos da sua juventude num grande jantar de convívio que celebrasse o seu retorno a esta nesga de terra debruada de mar. E é aqui que verdadeiramente começa a nossa história...

O repasto deu-se numa fria noite de Janeiro, numa hamburgueria gourmet que o Bruno reservara para o efeito. Tinha um enorme salão onde se puderam acotovelar os 46 comensais (aliás, 44, pois à última hora o Rui e a mulher tinham os miúdos com febre). O Bruno afadigava-se a dar coordenadas pelo telefone aos retardatários, a lamentar os ausentes e a sentar os presentes fazendo as devidas apresentações, já que destes alguns não se conheciam entre si. E é aqui afinal que verdadeiramente começa a nossa história...

A Marta chegou atrasada porque ao Sábado à noite era difícil estacionar naquela zona. O João chegou atrasado porque ao Sábado à noite havia menos carruagens de Metro a circular. Ambos telefonaram ao Bruno informando-o do atraso e quando chegaram, praticamente ao mesmo tempo, acabaram por ficar sentados lado a lado nas duas cadeiras remanescentes (aquelas que estavam guardadas para o Rui e a mulher). Pediram o mesmo hamburguer de cogumelos, a mesma marca de cerveja e o mesmo quindim de côco para sobremesa. Descobriram, já a conversa ia solta, que até habitavam no mesmo bairro, a apenas duas ruas de distância, sem contudo nunca se terem cruzado. Quando o Bruno enfim percebeu que naquele canto da mesa corrida tinha falhado como anfitrião, já não era necessária apresentação: a Marta e o João trocavam números de telefone rindo a bom rir. Tantas coincidências, tantas coisas em comum; aquela já parecia uma relação escrita nas estrelas com tudinho para resultar! Pois, mas havia um pormenor que nem por sombras tinham em comum: a faixa etária. O João tinha mais dezassete anos do que a Marta e a sua filha mais velha distava desta menos anos do que o putativo casalinho entre si. Dezassete anos é muita fruta! Seria o interesse mútuo suficiente para o entendimento ou, pelo contrário, a diferença de idades ditaria um afastamento? Já lá vamos, não é aqui que verdadeiramente termina a nossa história...

Passados uns meses, numa quente noite de Verão, o Bruno entrincheirara-se de novo na portuguesa pachorra e conduzia o carro pelo tráfego caótico de Lisboa em direcção à casa do João que o tinha convidado para jantar. Qual não foi a sua surpresa quando, uma vez lá chegado, se deparou com uma Marta de calções e chinelo no pé alapada no sofá com ares de proprietária. E é aqui afinal que verdadeiramente termina a nossa história... E termina como é habitual com um ditote proverbial:

- O amor não escolhe idades

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCIII

É bem sabidona a Rita
Pois se se vê muito aflita
Dá-me logo o trabalho pior
E guarda para ela o melhor

Para assim falar a verdade
Isto é a pura realidade
Fala de desafios concretos
Mas o mundo é dos espertos

E lá nesse mundinho dela
A vida há-de sorrir para ela
É mais esperta que os demais
Filhos de outras mães e dos pais

Com este tipo de gentinha
É mais difícil a vidinha
Com a Rita já é garantida
No trabalho a tarde perdida

Que eu sei pôr o peixe a render
De mim só isso tens a temer
Não és só tu que fazes ronha
Já merecias sopapo na fronha

Provérbio provado rimado - CCCII

Ó Alice olha que isto não é
Como o teu País das maravilhas
Temos pena ah pois é bebé
O que há são danças de quadrilhas

Se disseram que era um ballet
Enganaram-te deram-te tanga
Foi coisa de gente de má fé
Tu vê lá arregaça essa manga

Já viste que não há cafuné
É mais certo um chuto no cú
Dado com força pelo pé
De um maestro que dirige nú

Com sapato que cheira a chulé
A orquestra está doida pudera
Nem faz pausa para um café
Pois o maestro fica uma fera

Mais te digo o que melhor é
Esconde-te na toca do coelho
Ou talvez fosse a chaminé
De um rei de copas muito velho?

Isto não tem cabeça nem pé
E as rimas aqui já repito
Só cá falta o preto da Guiné
Para ser um sarilho bonito

Afinal qual era a expressão
Que eu queria aqui provar?
Ah já sei era a manga na mão
Arregaça-a e põe-te a andar

Provérbio provado rimado - CCCI

Se já não quer vender mais fiado
Mas quer escrever correctamente
Aproveite e fixe com cuidado
Não faça figura de demente

Para falar bom português
Se não quer perder fale em perda
Aproveite e fixe de vez
Ou então está a dizer merda

Embora à última hora
De aprender não se queixe
Aproveite e fixe agora
A perca é apenas um peixe

Provérbio provado rimado - CCC

Esta rima número trezentos
Produz-me mistos sentimentos
Por um lado estou muito contente
Mas por outro não sei se aguente

Pois é tamanha a produção
Que já não tenho mais refrão
Mas em arquivo há tantas imagens
São mais de seiscentas viagens

Qualquer dia rimas já são mil
Vai ser até eu esticar o pernil
Parece que quem rima sem querer
É também amado sem saber

Essa é uma notícia boa
Que o coração desabotoa
Só de ouvi-la começa a bater
E assim continuo a escrever


Provérbio provado rimado - CCXCIX

O belo reverso da medalha
De vez em quando lá calha
Nem tudo corre como desejado
Reconsiderar é bem lixado

A vida é cheia de surpresas
Traz consigo difíceis empresas
Mas um sujeito até se esforça
E o que tem de ser tem muita força


Provérbio provado rimado - CCXCVIII

O deputado tem bom emprego
Sabe virar o bico ao prego
Quando há moção de censura
Tanto concorda que até jura

Mas se a coisa não vai de feição
Levantou-a porém baixa a mão
Diz lá ter seus justos princípios
Atender interesses dos municípios

O quer é contentar empreiteiros
Advogados e alguns engenheiros
Já vê no cú da galinha o ovo
Anda mas é a brincar com o povo


Provérbio provado rimado - CCXCVII

Tanto peca quem vai à horta
Como aquele que fica à porta
Quem rouba só uma alface
É como se o canteiro roubasse

O amigo que está de vigia
Some-se como se por magia
Se tem medo de ser apanhado
Pela polícia aprisionado

Dá-lhe o nervoso miudinho
E a ressaca do copo de vinho
Assim deita tudo a perder
A salada não chega a fazer

Quando foge e o outro deixa
Vai o dono e apresenta queixa
E os dois apanham uma coça
Por meterem a pata na poça

Uma alface não dá para prisão
Mesmo assim chama-se ladrão
A quem o que não é seu cobiça
Pois de cultivar tem preguiça

Provérbio provado nada endividado

O André era a animação em pessoa e considerado o rei da festa, mesmo se não havia uma; para ele era a própria da vida uma festa! Muito criativo e expressivo, todas estas qualidades tornavam-no num indivíduo especialmente popular. O André sabia que caía facilmente no goto dos demais, por isso nunca se poupava a mais uma graçola, devidamente acompanhada pelo seu belo sorriso aberto de par em par: a popularidade assentava-lhe como uma luva, dava gosto só de ver! Os raros gregos e troianos para quem não caía imediatamente nas boas graças tomavam-no por um fulano leviano e algo irresponsável, mas era uma questão de poucas horas, vá, dias, para a ele se renderem e o reconhecerem mais que não fosse prestável. E era-o: o André atendia a todas as necessidades que podia de forma afável e o mais justa possível.
Havia também outra coisa pela qual o André era bastamente louvado: era o chamado homem de boas contas. O que ele detestava pedir emprestado! Mas a quem às vezes não faltam uns vinte cêntimos para o café?, quem não se depara de má cara com o Multibanco fora de serviço?, essas coisas acontecem até aos que descendem das melhores famílias, caramba! Mas ao André não, estava fora de questão! O André preferia até não beber o tal café e passar o dia ensonado, a ter de contraír uma dívida nem que fosse de um reles cêntimo. Talvez um exagero, uma picuinhice... Mas assim estava sempre de consciência tranquila e podia andar pela rua de costas direitas, esbanjando o seu largo sorriso, o que só o fazia ser mais apreciado ainda.

- Quem dívidas não tem, com a sua consciência está bem

Provérbio provado rimado - CCXCVI

Se o paleio não me interessa
E não vale prata nem bronze
Faço orelhas moucas à conversa
Digo sim sim amanhã às onze

Esta frase aprendi-a no Porto
Pode utilizar-se sem cuidado
É melhor do que responder torto
Se não vale um tostão furado

O diálogo com que me premeiam
É enfadonho e é uma seca
Digo isto e não mais me chateiam
Ficam a falar para a cueca


Provérbio provado rimado - CCXCV

Chega o fim do mês e não lhe pego
Nem dá p'ra mandar cantar um cego
Pois dinheiro de pobre é sabão
Quando pega escorrega da mão


Provérbio provado rimado - CCXCIV

Era uma vez blá blá blá
Assim começa a cantilena
Se na cuca ideia não há
Eu já finjo que tenho um tema

E então venho aqui contar
Dum amor que está a nascer
Para logo depois se finar
É o que sói acontecer

Apresento-me de peito aberto
E costumo abri-lo às balas
Não é de admirar decerto
Que às paixões queira matá-las

Neste rame rame infinito
Não aprendo a ser cuidadosa
Assim faço um verso bonito
Ou até uma mais longa prosa

Afinal não é assim tão mau
O fim chega e traz a tristeza
Mas depois vem novo marau
Somo e sigo que é uma beleza


Provérbio provado rimado - CCXCIII

Esta casinha é bem bucólica
Tranquila e bastante campestre
Mas tem antena parabólica
Para não dar o peido mestre

Às vezes a história que conta
É tão agitada e citadina
A casa tem também rima tonta
Para o menino e para a menina

Resumindo é bem variada
Termina sempre com moral
Mas deixa a gente embasbacada
Por não ser moralista afinal

Provérbio provado rimado - CCXCII

É certo que nas árvores não nasce
Era bom que surgisse o dinheiro
Semente que à terra se lançasse
Assim faríamos o dia inteiro

E então logo que se plantasse
Cada um de nós o jardineiro
Dessa árvore somente cuidasse
Encheria um belo mealheiro

Das patacas ela se chamasse
Árvore de inebriante cheiro
Um maná docinho lembrasse
Para sempre fiel companheiro

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XX

Prova oral

Que porra de vida!
Bem vivida?
Mal vivida?
Porque só há faltas,
Falhas e manchas,
Pontos de interrogação?
Onde se esconderam a harmonia,
A felicidade, a serenidade?
Existem ou são só palavras bonitinhas no dicionário?

Quem avalia?
O professor corrige a vermelho
O médico passa a receita
O padre aconselha a penitência
Afinal ninguém é bom juiz em causa própria
Afinal são o excesso e o erro
Que conduzem à excelência


Provérbio provado rimado - CCXCI

Gostava que o inconsciente
Fosse só mais consciente
Para não lhe chamar destino
Nesta vida que é um desatino

Gostava de ser mais constante
E não somente vibrante
Não andar aos altos e baixos
Nem ter dias cabisbaixos

Gostava de ser outra pessoa
Às vezes não andar à toa
Mas só sei ser imperfeita
E estar sempre insatisfeita

Provérbio provado sem namorado

Tenho feito de tudo para engordar, mas o médico disse-me que sou mesmo assim magra de nascença, a minha constituição óssea é fininha. Se eu casar talvez mude... Dizem que o casamento engorda: deve ser porque as pessoas ficam mais calmas, enfim descansadas por já não irem passar a vida sozinhas sem descendência.
Ai, se eu casar... Tenho sonhado muito com o dia do meu casamento e com o meu vestido. Nem é preciso que tenha uma causa de vários metros, só quero mesmo é mostrar à minha família lá da terra, e também às minhas colegas de trabalho desta terra onde agora habito, que a grinalda não me há-de cair da cabeça: só as mulheres que já não são virgens é que se arriscam a dar barraca na hora do casamento, isto é o que dizem, se é ou não verdade não sei.
Das minhas colegas solteiras, só a Maria Inês é que já não está imaculada, por assim dizer. Às vezes almoçamos juntas, e numa dessas refeições ela contou-me que já não é virgem, mais acrescentando que não tem vergonha de se ter entregado ao namorado. É por isso que deixou de se confessar ao padre e não se vestirá de branco quando casar. Ela tem esperança que o rapaz lhe peça a mão, normalmente os polícias gostam de constituir família cedo por quererem apoio numa vida tão difícil.
A Maria Inês contou-me como foi a sua primeira vez, e disse que uma mulher que só dorme com o homem no dia em que casa vai achar aquilo muito mau ao princípio:
- Não é natural, sabes Joana? Aquela história toda da noite de núpcias, com tudo preparadinho para ser naquele dia, dá um medo danado! Muitas noivas só tremem como varas verdes, nem chegam a conseguir fazer nada de nada... Pois eu cá dormi com o Manuel, sim senhora! Gosto muito dele e desejava pertencer-lhe com todo o meu ser.
Percebo a Maria Inês, mas não teria coragem; aliás, nem acho que seja correcto ir assim contra as leis de Deus: sou católica e ir virgem para o casamento é uma tradição da Igreja. E além disso, o que diriam o meu pai e a minha mãe?, para já não falar dos familiares e amigos lá da terra? Meu Deus, nem quero pensar nisso!
Eu não tenho ainda namorado, mas calculo que seria uma situação deveras confortável: eu entregar-me-ia e ele, em vez de passar a gostar mais de mim, passaria a aproveitar-se à grande e não quereria sequer pensar em casar-se comigo... E eu quero casar, pois então!, que apesar de franzina até sou engraçadinha! E porque uma mulher casada engorda facilmente: fica mais calma por não ir pastar eternamente na paisagem da tia solteirona. Logo eu que nem tenho sobrinhos...

- Casarás, amansarás

Provérbio provado rimado - CCXC

A Mariana é esquecida
Parece que nem vive cá
Passa o dia distraída
Atenção nela não há

Às vezes digo-lhe essa
Expressão tão engraçada
Só não te esqueces da cabeça
Porque ao corpo está agarrada