terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCCII

Ó Alice olha que isto não é
Como o teu País das maravilhas
Temos pena ah pois é bebé
O que há são danças de quadrilhas

Se disseram que era um ballet
Enganaram-te deram-te tanga
Foi coisa de gente de má fé
Tu vê lá arregaça essa manga

Já viste que não há cafuné
É mais certo um chuto no cú
Dado com força pelo pé
De um maestro que dirige nú

Com sapato que cheira a chulé
A orquestra está doida pudera
Nem faz pausa para um café
Pois o maestro fica uma fera

Mais te digo o que melhor é
Esconde-te na toca do coelho
Ou talvez fosse a chaminé
De um rei de copas muito velho?

Isto não tem cabeça nem pé
E as rimas aqui já repito
Só cá falta o preto da Guiné
Para ser um sarilho bonito

Afinal qual era a expressão
Que eu queria aqui provar?
Ah já sei era a manga na mão
Arregaça-a e põe-te a andar

Provérbio provado rimado - CCCI

Se já não quer vender mais fiado
Mas quer escrever correctamente
Aproveite e fixe com cuidado
Não faça figura de demente

Para falar bom português
Se não quer perder fale em perda
Aproveite e fixe de vez
Ou então está a dizer merda

Embora à última hora
De aprender não se queixe
Aproveite e fixe agora
A perca é apenas um peixe

Provérbio provado rimado - CCC

Esta rima número trezentos
Produz-me mistos sentimentos
Por um lado estou muito contente
Mas por outro não sei se aguente

Pois é tamanha a produção
Que já não tenho mais refrão
Mas em arquivo há tantas imagens
São mais de seiscentas viagens

Qualquer dia rimas já são mil
Vai ser até eu esticar o pernil
Parece que quem rima sem querer
É também amado sem saber

Essa é uma notícia boa
Que o coração desabotoa
Só de ouvi-la começa a bater
E assim continuo a escrever


Provérbio provado rimado - CCXCIX

O belo reverso da medalha
De vez em quando lá calha
Nem tudo corre como desejado
Reconsiderar é bem lixado

A vida é cheia de surpresas
Traz consigo difíceis empresas
Mas um sujeito até se esforça
E o que tem de ser tem muita força


Provérbio provado rimado - CCXCVIII

O deputado tem bom emprego
Sabe virar o bico ao prego
Quando há moção de censura
Tanto concorda que até jura

Mas se a coisa não vai de feição
Levantou-a porém baixa a mão
Diz lá ter seus justos princípios
Atender interesses dos municípios

O quer é contentar empreiteiros
Advogados e alguns engenheiros
Já vê no cú da galinha o ovo
Anda mas é a brincar com o povo


Provérbio provado rimado - CCXCVII

Tanto peca quem vai à horta
Como aquele que fica à porta
Quem rouba só uma alface
É como se o canteiro roubasse

O amigo que está de vigia
Some-se como se por magia
Se tem medo de ser apanhado
Pela polícia aprisionado

Dá-lhe o nervoso miudinho
E a ressaca do copo de vinho
Assim deita tudo a perder
A salada não chega a fazer

Quando foge e o outro deixa
Vai o dono e apresenta queixa
E os dois apanham uma coça
Por meterem a pata na poça

Uma alface não dá para prisão
Mesmo assim chama-se ladrão
A quem o que não é seu cobiça
Pois de cultivar tem preguiça

Provérbio provado nada endividado

O André era a animação em pessoa e considerado o rei da festa, mesmo se não havia uma; para ele era a própria da vida uma festa! Muito criativo e expressivo, todas estas qualidades tornavam-no num indivíduo especialmente popular. O André sabia que caía facilmente no goto dos demais, por isso nunca se poupava a mais uma graçola, devidamente acompanhada pelo seu belo sorriso aberto de par em par: a popularidade assentava-lhe como uma luva, dava gosto só de ver! Os raros gregos e troianos para quem não caía imediatamente nas boas graças tomavam-no por um fulano leviano e algo irresponsável, mas era uma questão de poucas horas, vá, dias, para a ele se renderem e o reconhecerem mais que não fosse prestável. E era-o: o André atendia a todas as necessidades que podia de forma afável e o mais justa possível.
Havia também outra coisa pela qual o André era bastamente louvado: era o chamado homem de boas contas. O que ele detestava pedir emprestado! Mas a quem às vezes não faltam uns vinte cêntimos para o café?, quem não se depara de má cara com o Multibanco fora de serviço?, essas coisas acontecem até aos que descendem das melhores famílias, caramba! Mas ao André não, estava fora de questão! O André preferia até não beber o tal café e passar o dia ensonado, a ter de contraír uma dívida nem que fosse de um reles cêntimo. Talvez um exagero, uma picuinhice... Mas assim estava sempre de consciência tranquila e podia andar pela rua de costas direitas, esbanjando o seu largo sorriso, o que só o fazia ser mais apreciado ainda.

- Quem dívidas não tem, com a sua consciência está bem

Provérbio provado rimado - CCXCVI

Se o paleio não me interessa
E não vale prata nem bronze
Faço orelhas moucas à conversa
Digo sim sim amanhã às onze

Esta frase aprendi-a no Porto
Pode utilizar-se sem cuidado
É melhor do que responder torto
Se não vale um tostão furado

O diálogo com que me premeiam
É enfadonho e é uma seca
Digo isto e não mais me chateiam
Ficam a falar para a cueca


Provérbio provado rimado - CCXCV

Chega o fim do mês e não lhe pego
Nem dá p'ra mandar cantar um cego
Pois dinheiro de pobre é sabão
Quando pega escorrega da mão


Provérbio provado rimado - CCXCIV

Era uma vez blá blá blá
Assim começa a cantilena
Se na cuca ideia não há
Eu já finjo que tenho um tema

E então venho aqui contar
Dum amor que está a nascer
Para logo depois se finar
É o que sói acontecer

Apresento-me de peito aberto
E costumo abri-lo às balas
Não é de admirar decerto
Que às paixões queira matá-las

Neste rame rame infinito
Não aprendo a ser cuidadosa
Assim faço um verso bonito
Ou até uma mais longa prosa

Afinal não é assim tão mau
O fim chega e traz a tristeza
Mas depois vem novo marau
Somo e sigo que é uma beleza


Provérbio provado rimado - CCXCIII

Esta casinha é bem bucólica
Tranquila e bastante campestre
Mas tem antena parabólica
Para não dar o peido mestre

Às vezes a história que conta
É tão agitada e citadina
A casa tem também rima tonta
Para o menino e para a menina

Resumindo é bem variada
Termina sempre com moral
Mas deixa a gente embasbacada
Por não ser moralista afinal

Provérbio provado rimado - CCXCII

É certo que nas árvores não nasce
Era bom que surgisse o dinheiro
Semente que à terra se lançasse
Assim faríamos o dia inteiro

E então logo que se plantasse
Cada um de nós o jardineiro
Dessa árvore somente cuidasse
Encheria um belo mealheiro

Das patacas ela se chamasse
Árvore de inebriante cheiro
Um maná docinho lembrasse
Para sempre fiel companheiro

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Provérbio provado num verso branco - XX

Prova oral

Que porra de vida!
Bem vivida?
Mal vivida?
Porque só há faltas,
Falhas e manchas,
Pontos de interrogação?
Onde se esconderam a harmonia,
A felicidade, a serenidade?
Existem ou são só palavras bonitinhas no dicionário?

Quem avalia?
O professor corrige a vermelho
O médico passa a receita
O padre aconselha a penitência
Afinal ninguém é bom juiz em causa própria
Afinal são o excesso e o erro
Que conduzem à excelência


Provérbio provado rimado - CCXCI

Gostava que o inconsciente
Fosse só mais consciente
Para não lhe chamar destino
Nesta vida que é um desatino

Gostava de ser mais constante
E não somente vibrante
Não andar aos altos e baixos
Nem ter dias cabisbaixos

Gostava de ser outra pessoa
Às vezes não andar à toa
Mas só sei ser imperfeita
E estar sempre insatisfeita

Provérbio provado sem namorado

Tenho feito de tudo para engordar, mas o médico disse-me que sou mesmo assim magra de nascença, a minha constituição óssea é fininha. Se eu casar talvez mude... Dizem que o casamento engorda: deve ser porque as pessoas ficam mais calmas, enfim descansadas por já não irem passar a vida sozinhas sem descendência.
Ai, se eu casar... Tenho sonhado muito com o dia do meu casamento e com o meu vestido. Nem é preciso que tenha uma causa de vários metros, só quero mesmo é mostrar à minha família lá da terra, e também às minhas colegas de trabalho desta terra onde agora habito, que a grinalda não me há-de cair da cabeça: só as mulheres que já não são virgens é que se arriscam a dar barraca na hora do casamento, isto é o que dizem, se é ou não verdade não sei.
Das minhas colegas solteiras, só a Maria Inês é que já não está imaculada, por assim dizer. Às vezes almoçamos juntas, e numa dessas refeições ela contou-me que já não é virgem, mais acrescentando que não tem vergonha de se ter entregado ao namorado. É por isso que deixou de se confessar ao padre e não se vestirá de branco quando casar. Ela tem esperança que o rapaz lhe peça a mão, normalmente os polícias gostam de constituir família cedo por quererem apoio numa vida tão difícil.
A Maria Inês contou-me como foi a sua primeira vez, e disse que uma mulher que só dorme com o homem no dia em que casa vai achar aquilo muito mau ao princípio:
- Não é natural, sabes Joana? Aquela história toda da noite de núpcias, com tudo preparadinho para ser naquele dia, dá um medo danado! Muitas noivas só tremem como varas verdes, nem chegam a conseguir fazer nada de nada... Pois eu cá dormi com o Manuel, sim senhora! Gosto muito dele e desejava pertencer-lhe com todo o meu ser.
Percebo a Maria Inês, mas não teria coragem; aliás, nem acho que seja correcto ir assim contra as leis de Deus: sou católica e ir virgem para o casamento é uma tradição da Igreja. E além disso, o que diriam o meu pai e a minha mãe?, para já não falar dos familiares e amigos lá da terra? Meu Deus, nem quero pensar nisso!
Eu não tenho ainda namorado, mas calculo que seria uma situação deveras confortável: eu entregar-me-ia e ele, em vez de passar a gostar mais de mim, passaria a aproveitar-se à grande e não quereria sequer pensar em casar-se comigo... E eu quero casar, pois então!, que apesar de franzina até sou engraçadinha! E porque uma mulher casada engorda facilmente: fica mais calma por não ir pastar eternamente na paisagem da tia solteirona. Logo eu que nem tenho sobrinhos...

- Casarás, amansarás

Provérbio provado rimado - CCXC

A Mariana é esquecida
Parece que nem vive cá
Passa o dia distraída
Atenção nela não há

Às vezes digo-lhe essa
Expressão tão engraçada
Só não te esqueces da cabeça
Porque ao corpo está agarrada

domingo, 14 de janeiro de 2018

Provérbio provado desenrascado

De vez em quando tinha de ir à fábrica. Ia lá como advogado, não como filho do patrão. Era o meu pai que me pedia: Podes passar cá hoje? Já sabes que não consigo chegar à fala com esta gente, uns mal agradecidos!, enervo-me com tanta exigência e não posso perder as estribeiras nem a razão. Eu dizia-lhe sempre que sim para colmatar o desgosto por não lhe ter seguido as pisadas: não quis ser engenheiro, optei pela advocacia, e essa foi e será uma espinha atravessada na garganta do meu velho pai.
Foi assim que conheci o Timóteo; ele era o delegado sindical. Era um tipo rijo a negociar, mas ao mesmo tempo bonacheirão. Quando terminava a nunca breve conversa, dava-me duas palmadinhas nas costas e convidava-me para uma cerveja. Eu contudo recusava: Não, Timóteo, obrigado, não bebo nas horas de serviço, mas aceito um café... - repetia-lhe pela enésima vez.
Com o tempo a confiança foi-se estreitando e o Timóteo expandindo-se nas confidências. Nesses fins de tarde ele bebia não uma, mas duas ou três cervejas, e ficava com a língua solta. Já divorciado duas vezes, não punha de lado a hipótese de se divorviar de novo, pois não rejeitava a ideia de voltar a casar. O que o Timóteo era era um grande pinga amor: tinha duas namoradas que não sabiam uma da outra e uma terceira que sabia das duas mas não se importava. Assim sendo, não deixava passar uma oportunidade de fazer "o amor". Dizia-se abonado no membro e muito trabalhador na cama, sendo o seu principal objectivo a satisfação mútua: dele e das suas três mulheres, uma de cada vez, bem entendido. O Timóteo estava convencido que lhes proporcionava momentos memoráveis com o seu desempenho, caso contrário já o teriam deixado porque não era rico nem particularmente bonito. Por isso, resumia-me assim a sua máxima de vida: Ouve o que te digo, meu rapaz! O sexo que não fizeres hoje, não é um sexo adiado, é um sexo perdido! E ainda te digo mais, nunca negues uma segunda volta... Isto com as mulheres não é de fiar e

- Quem vai ao mar perde o lugar

Provérbio provado culpado

A Culpa morreu solteira. Mas desconfio que tinha uma sexualidade desenfreada, apesar da sua melhor amiga ser a Vergonha. Claro que a sua única irmã era muitíssimo bem casada... e o seu nome era Inveja.

- A culpa morreu solteira

Provérbio provado rimado - CCLXXXIX

O trolha chama-se Jaime
Passa o dia no andaime
E de lá manda piropos
A uns quantos cachopos

O Jaime é endiabrado
Para a brincadeira é danado
Não tem vergonha de ser gay
Desde que foi aprovada a lei

Faz elogios aos colegas
E olhinhos aos engenheiros
Se pudesse tentava esfregas
Ele tem bichos carpinteiros

Acha muito mais grave
Fechar mulheres à chave
Que a doméstica violência
Não condiz com inteligência

Ao menos não força ninguém
Que não o queira também
Cuja vontade seja pouca
De amar uma bicha louca

Provérbio provado rimado - CCLXXXVIII

Água suja do capitalismo
Mas que me sabe tão bem
E aqui com algum lirismo
Faço-lhe rima sem desdém

Ás vezes dá mesmo vontade
De beber fresca a Coca Cola
E essa é uma realidade
Desde que andava na escola

Se houver gelo e limão
Para lhe pôr ali por perto
Isso é que é satisfação
Sabe-me à última do deserto