A vida é uma aprendizagem
Tão contínua e constante
E lá vamos nessa viagem
Como um esforçado estudante
Levamos no bolso uma cábula
Para auxiliar a memória
Umas vezes comédia e rábula
Outras uma tragédia com história
Nem sempre o que pensamos
Se processa como se crê
E então assim alternamos
O plano A com o B
domingo, 14 de janeiro de 2018
sábado, 13 de janeiro de 2018
Provérbio provado chorado
Meu bom amigo, chorar desalmadamente faz bem. Parece que os homens não choram, não é o que se diz?, que mentira mais idiota e castrante! Nestes anos todos nunca te vi chorar, mas calculo que as poucas vezes em que o terás feito, enterrando a cabeça na almofada e mordendo a língua para não gritar, terás experimentado algum alívio. Chorar traz uma espécie de redenção, é muito melhor que aquele nó na garganta que nos engasga fatalmente, é como uma tampa de uma panela de pressão a chiar com o esforço: uma vez aberta o vapor pode sair finalmente em jacto e a ferver; queima, mas é sinal que a comida está pronta.
- Chorar faz bem
- Chorar faz bem
Provérbio provado num verso branco -XIX
Não me podes matar
Dou um passo na direcção do teu sonho
Não tenho nada a perder
Quem não tem nada a perder perde-se
Essa é que é essa
Posso retroceder quando queira
Não quando me queiras espantar
Nos espelhos espanta espíritos
Como se eu um pesadelo ou uma aparição desonesta
Mas eu uma ilha e tu o meu náufrago
Tuas velas rasgadas e o mastro partido
Tenho em mim água potável
Frutos amargos que te alimentarão
No meu solo morrerás
No meu colo
Eu sou a tua tal
Ponte do teu rio
A flor do teu jardim
Essas coisas assim tão lamechas
Que um dia hás-de dizer-me
Trazendo ramos de rosas
Vermelhas claro
Têm mesmo de ser vermelhas
Entretanto sussurrarás sonetos batidos
As tuas palavras ardendo no meu ouvido
Por exemplo aquele clássico
Era uma vez um amor que arde sem se ver
Uma ferida que não dói e se sente
Dou um passo na direcção do teu sonho
Não tenho nada a perder
Quem não tem nada a perder perde-se
Essa é que é essa
Posso retroceder quando queira
Não quando me queiras espantar
Nos espelhos espanta espíritos
Como se eu um pesadelo ou uma aparição desonesta
Mas eu uma ilha e tu o meu náufrago
Tuas velas rasgadas e o mastro partido
Tenho em mim água potável
Frutos amargos que te alimentarão
No meu solo morrerás
No meu colo
Eu sou a tua tal
Ponte do teu rio
A flor do teu jardim
Essas coisas assim tão lamechas
Que um dia hás-de dizer-me
Trazendo ramos de rosas
Vermelhas claro
Têm mesmo de ser vermelhas
Entretanto sussurrarás sonetos batidos
As tuas palavras ardendo no meu ouvido
Por exemplo aquele clássico
Era uma vez um amor que arde sem se ver
Uma ferida que não dói e se sente
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
Provérbio provado num verso branco - XVIII
No teu céu branco
As nuvens são azuis
É um deus que guarda a porta
De um inferno onde habitam os anjos
És uma contradição
Um paradoxo danado
Todos os sinónimos de contradição e paradoxo
No dicionário das contradições e paradoxos
A tua bofetada sem mão
Faz pingar o sangue na luva branca
O teu coração tem mais cavidades
Que quantos ossos tens no corpo
Nele altura para tantos edifícios erguer
São tantos meu amor
Com eles construirás uma nova cidade em ti
E eu em ti esse zero
Começando sem começar
O que significa que nem começa
Eu em ti irrealizável
As nuvens são azuis
É um deus que guarda a porta
De um inferno onde habitam os anjos
És uma contradição
Um paradoxo danado
Todos os sinónimos de contradição e paradoxo
No dicionário das contradições e paradoxos
A tua bofetada sem mão
Faz pingar o sangue na luva branca
O teu coração tem mais cavidades
Que quantos ossos tens no corpo
Nele altura para tantos edifícios erguer
São tantos meu amor
Com eles construirás uma nova cidade em ti
E eu em ti esse zero
Começando sem começar
O que significa que nem começa
Eu em ti irrealizável
Provérbio provado rimado - CCLXXXI
A Maria Antónia Gomes
É o meu braço direito
E no seu verso escorreito
Faz rimas uniformes
Desde o início da casa
Conto com a sua ajuda
E quando o provérbio muda
A Maria Antónia arrasa
Mas agora iremos fazer
Uma bela prosa a meias
Juntaremos as ideias
Para um novo conto escrever
Quando estiver terminado
Bem escrito a quatro mãos
Damos-lhe duas demãos
E aqui será partilhado
É o meu braço direito
E no seu verso escorreito
Faz rimas uniformes
Desde o início da casa
Conto com a sua ajuda
E quando o provérbio muda
A Maria Antónia arrasa
Mas agora iremos fazer
Uma bela prosa a meias
Juntaremos as ideias
Para um novo conto escrever
Quando estiver terminado
Bem escrito a quatro mãos
Damos-lhe duas demãos
E aqui será partilhado
Provérbio provado rimado - CCLXXX
Está com o fogo no rabo
Quem anda muito apressado
Num instante a correria
Impede-lhe o que faria
Se o tempo porventura
Lhe sobrasse nessa altura
Para bem se dedicar
Ao que mais lhe agradar
A vida é uma maratona
Anda-se sempre numa fona
Nem sequer se ganha medalha
E essa é grande falha
Quem anda muito apressado
Num instante a correria
Impede-lhe o que faria
Se o tempo porventura
Lhe sobrasse nessa altura
Para bem se dedicar
Ao que mais lhe agradar
A vida é uma maratona
Anda-se sempre numa fona
Nem sequer se ganha medalha
E essa é grande falha
quinta-feira, 11 de janeiro de 2018
Provérbio provado avinhado
Néctar dos deuses, soro da verdade e da mentira, voluptuosa fruição: o vinho é o líquido mais adjectivado e metaforizado de todos os tempos. Ele é veludo, aromas frutados, os encantadores taninos, as castas mais ou menos castas e finais de boca persistentes, quiçá memoráveis, ali vai uma autêntica cepa poética rótulos afora. E já agora, vinho é tinto e o resto é conversa!
- In vino veritas
- In vino veritas
terça-feira, 9 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCLXXIX
Se queres ter boa lareira
Lenha verde pouco acende
Tens de ter boa madeira
Pois dela o calor depende
Se queres saber cozinhar
Vai comprar onde se vende
Ingredientes para juntar
Num tacho que surpreende
Se queres escrever melhor
Teu texto não se compreende
Não durmas tanto por favor
Que a leitura assim não rende
Se queres em suma aprender
O conhecimento não ofende
Faz por o teu tempo estender
Quem muito dorme pouco aprende
Lenha verde pouco acende
Tens de ter boa madeira
Pois dela o calor depende
Se queres saber cozinhar
Vai comprar onde se vende
Ingredientes para juntar
Num tacho que surpreende
Se queres escrever melhor
Teu texto não se compreende
Não durmas tanto por favor
Que a leitura assim não rende
Se queres em suma aprender
O conhecimento não ofende
Faz por o teu tempo estender
Quem muito dorme pouco aprende
Provérbio provado rimado - CCLXXVIII
O Rodrigo era tão azarado
Que para a agulha procurar
No palheiro sobrelotado
Em cima dela se foi sentar
O rabo o Rodrigo picou
Mas quando procurava dinheiro
Nem uma só moeda achou
Só a agulha naquele palheiro
Que para a agulha procurar
No palheiro sobrelotado
Em cima dela se foi sentar
O rabo o Rodrigo picou
Mas quando procurava dinheiro
Nem uma só moeda achou
Só a agulha naquele palheiro
Provérbio provado num verso branco - XVII
Acabada de chegar
Foi mesmo agora: ainda mal sentes a minha presença
Foi mesmo agora: ainda mal sentes a minha presença
Na tua casa ocupo muito espaço
E os teus poentes são mais belos sem mim
Tocas-me como se eu as teclas de um piano
Eu o teu instrumento desafinado
Já rasgaste as pautas do passado
Mas nas tuas paredes ainda ecoa uma melodia de instantes semibreves
Hoje estás cinzento sentado no sofá
O pensamento lutando contra este Inverno
O desejo um bocejo que deixas escapar involuntário
Carregas a tua vontade de mim sem vontade
Queres-me lamentando não me querer
Cala-te: dizes-me
Não adivinhes já a despedida
É muito cedo para os meus poentes serem mais belos sozinho
Deste-me as frases que pedi na folha de rosto
A minha mão guiou-te cada palavra
Não inventaste um novo alfabeto para escrever o meu nome
Se tivesses deixado falar as letras do coração eu saberia
Eu sei ler nas entrelinhas
Tocas-me como se eu as teclas de um piano
Eu o teu instrumento desafinado
Já rasgaste as pautas do passado
Mas nas tuas paredes ainda ecoa uma melodia de instantes semibreves
Hoje estás cinzento sentado no sofá
O pensamento lutando contra este Inverno
O desejo um bocejo que deixas escapar involuntário
Carregas a tua vontade de mim sem vontade
Queres-me lamentando não me querer
Cala-te: dizes-me
Não adivinhes já a despedida
É muito cedo para os meus poentes serem mais belos sozinho
Deste-me as frases que pedi na folha de rosto
A minha mão guiou-te cada palavra
Não inventaste um novo alfabeto para escrever o meu nome
Se tivesses deixado falar as letras do coração eu saberia
Eu sei ler nas entrelinhas
Provérbio provado num verso branco - XVI
Nem a lã dos carneiros é toda igual
Até num rebanho cada par de cornos tem a sua nobreza
Os peixes mortos abandonam-se à maré
Esses que ainda vivem aprenderam a respirar debaixo de água
Podem remar contra a maré cheios de ar cheios de si
Só eu sou demasiado sólida
Não tomo a forma dos recipientes
Vivo na intensidade própria dos loucos
A anuência cega mortifica-me
A condescendência parola põe-me a milhas
A sobranceria dos sem mérito continua a surpreender-me
Para que desperto se nunca nasci?
Cavo a minha própria sepultura
Não é bonito mas é profundo
Até num rebanho cada par de cornos tem a sua nobreza
Os peixes mortos abandonam-se à maré
Esses que ainda vivem aprenderam a respirar debaixo de água
Podem remar contra a maré cheios de ar cheios de si
Só eu sou demasiado sólida
Não tomo a forma dos recipientes
Vivo na intensidade própria dos loucos
A anuência cega mortifica-me
A condescendência parola põe-me a milhas
A sobranceria dos sem mérito continua a surpreender-me
Para que desperto se nunca nasci?
Cavo a minha própria sepultura
Não é bonito mas é profundo
Provérbio provado rimado - CCLXXVII
De manhã tens de saltar da cama
Pôr direitos os dois pés no chão
Pois vai acabar-se-te a mama
Não podes ficar no colchão
Tens de arranjar um emprego
Que o dinheiro não cai do céu
A vida é difícil não nego
Mas tenta fazer como eu
Tanto queres enriquecer
Não te percebo Fernando
Se tens inveja do meu viver
Vai trabalhar ó malandro
Pôr direitos os dois pés no chão
Pois vai acabar-se-te a mama
Não podes ficar no colchão
Tens de arranjar um emprego
Que o dinheiro não cai do céu
A vida é difícil não nego
Mas tenta fazer como eu
Tanto queres enriquecer
Não te percebo Fernando
Se tens inveja do meu viver
Vai trabalhar ó malandro
Provérbio provado rimado - CCLXXVI
Emprestei o arco à velha
Para ela fazer hula hoop
Mas ela olhou-me de esguelha
Foi juntar-se a outra trupe
Eu fiquei desconcertada
Triste e com grande telha
A situação não teve piada
Foi coisa do arco da velha
Para ela fazer hula hoop
Mas ela olhou-me de esguelha
Foi juntar-se a outra trupe
Eu fiquei desconcertada
Triste e com grande telha
A situação não teve piada
Foi coisa do arco da velha
Provérbio provado rimado - CCLXXIV
Quando te dão brinde de oferta
É porque vais pagá-lo pela certa
Black fridays são enganadoras
Feitas por mentes impostoras
Sobem e diminuem os preços
E aindas levas mais uns adereços
Trazes coisas de que não precisas
Com a carteira repleta de Visas
Depois quando chegas a casa
Das comprinhas fazes tábua rasa
Tens sapatos um número acima
Trouxeste sabonetes para a prima
Chegas-te mesmo a arrepender
Mas a tralha não podes devolver
É que não são grátis os almoços
Gratuitos só mesmo os tremoços
É porque vais pagá-lo pela certa
Black fridays são enganadoras
Feitas por mentes impostoras
Sobem e diminuem os preços
E aindas levas mais uns adereços
Trazes coisas de que não precisas
Com a carteira repleta de Visas
Depois quando chegas a casa
Das comprinhas fazes tábua rasa
Tens sapatos um número acima
Trouxeste sabonetes para a prima
Chegas-te mesmo a arrepender
Mas a tralha não podes devolver
É que não são grátis os almoços
Gratuitos só mesmo os tremoços
segunda-feira, 8 de janeiro de 2018
Provérbio provado tresloucado
Já se versejava nas paredes húmidas das grutas primitivas. Em vez de letras, desenhos: os poemas todos visuais.
Todo o homem escreve, afinal. Mas em muitos as linhas que a alma tece são transparentes, invisíveis para quem não lê para lá do que está escrito, apesar do que está escrito. Muitos só escutam os seus versos dentro dos próprios ouvidos, nunca fora: é uma voz inaudível que os engasga e às vezes corrói.
Cada poeta em potência - o poeta impotente -, devia poder casar-se com a sua imperfeição poética: unir-se a ela irrediavelmente sem hipótese de divórcio nem viuvez. E essa união uma procriação eterna em quotidianos sem gaiolas, engolindo e evacuando versos, engordando de versos até rebentar.
- De poeta e de louco todos temos um pouco
Todo o homem escreve, afinal. Mas em muitos as linhas que a alma tece são transparentes, invisíveis para quem não lê para lá do que está escrito, apesar do que está escrito. Muitos só escutam os seus versos dentro dos próprios ouvidos, nunca fora: é uma voz inaudível que os engasga e às vezes corrói.
Cada poeta em potência - o poeta impotente -, devia poder casar-se com a sua imperfeição poética: unir-se a ela irrediavelmente sem hipótese de divórcio nem viuvez. E essa união uma procriação eterna em quotidianos sem gaiolas, engolindo e evacuando versos, engordando de versos até rebentar.
- De poeta e de louco todos temos um pouco
Provérbio provado rimado - CCLXXIII
O Paulo era um sujeito
Com imensos predicados
O pretérito perfeito
E outros escarrapachados
Mas o Paulo tinha um defeito
Nem sei se aqui o diga
Um intestino desfeito
E um grande rei na barriga
Não tenhamos preconceito
Há Paulos assim vaidosos
Que sempre arranjam um jeito
De parecer mais valiosos
Com imensos predicados
O pretérito perfeito
E outros escarrapachados
Mas o Paulo tinha um defeito
Nem sei se aqui o diga
Um intestino desfeito
E um grande rei na barriga
Não tenhamos preconceito
Há Paulos assim vaidosos
Que sempre arranjam um jeito
De parecer mais valiosos
Provérbio provado rimado - CCLXXII
Fazes figurinhas tristes
É coisa a que não resistes
Não sabes estar calada
Manter essa boca fechada
Não fales que não entra mosca
Em silêncio não és tão tosca
Provérbio provado numa prova auxiliado
- Olá, boa tarde, queria experimentar aquela camisola azul que está na montra, se faz favor. Tem o número 40?
- A senhora deseja experimentar o 40? Talvez o 42 seja melhor... Agora usa-se tudo muito largo, não é verdade?
É assim que lhes dou a volta para poupar idas ao armazém, evitando dar a entender que as clientes são mais gordas do que pensam. Imagine-se!, um 40 para aquelas costas e aquele par de mamas! Nem aqui nem na China, nem em qualquer outra parte do mundo. O 42 no mínimo. E, e...
- Se calhar tem razão... Olhe, traga-me então o 40 e o 42.
- Duas cabeças pensam melhor que uma
- A senhora deseja experimentar o 40? Talvez o 42 seja melhor... Agora usa-se tudo muito largo, não é verdade?
É assim que lhes dou a volta para poupar idas ao armazém, evitando dar a entender que as clientes são mais gordas do que pensam. Imagine-se!, um 40 para aquelas costas e aquele par de mamas! Nem aqui nem na China, nem em qualquer outra parte do mundo. O 42 no mínimo. E, e...
- Se calhar tem razão... Olhe, traga-me então o 40 e o 42.
- Duas cabeças pensam melhor que uma
Provérbio provado num verso branco - XV
Os homens já teriam roubado o sol
Se houvesse onde o esconder
Já teriam comido a lua
Fosse ela feita de queijo como contam as histórias infantis
A ambição é tão grande
Os homens são tão pequenos
Não há mãos que replantem as florestas
Nem bocas que emprestem a paz às fronteiras
As pernas dos homens galgam caminhos com buracos
Tropeçam caiem desfalecem
O gesso não devolve o osso original
Se houvesse onde o esconder
Já teriam comido a lua
Fosse ela feita de queijo como contam as histórias infantis
A ambição é tão grande
Os homens são tão pequenos
Não há mãos que replantem as florestas
Nem bocas que emprestem a paz às fronteiras
As pernas dos homens galgam caminhos com buracos
Tropeçam caiem desfalecem
O gesso não devolve o osso original
Provérbio provado num verso branco - XIV
Se quiseres
Se eu puder
Se procurares pelos cantos com atenção
Encontrarás o melhor de mim
Encontrarás o pior de mim
Não estão escondidos
Não estão à vista desarmada
Não são prémios
Não são problemas
Se puderes
Se eu quiser
Sentir-me-ás com o coração
A minha pele também te fala
Os meus olhos também te comem
Se eu puder
Se procurares pelos cantos com atenção
Encontrarás o melhor de mim
Encontrarás o pior de mim
Não estão escondidos
Não estão à vista desarmada
Não são prémios
Não são problemas
Se puderes
Se eu quiser
Sentir-me-ás com o coração
A minha pele também te fala
Os meus olhos também te comem
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