quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCLII

Cada dia uma vida inteira
Pode ter cem horas ou mil
A noite é aurora derradeira
Derramando-se por um funil

O pensamento voa destemido
A frase já se solta num grito
Cada palavra é um gemido
Uma cor desse viver aflito

Se o entusiasmo arrefece
Acordar é enorme flagelo
E quando a manhã aparece
Custa só até quebrar o gelo

Então é pôr os dois pés no chão
E falar em vez de estrebuchar
Dar muitos passou bem com a mão
Se possível sorrir com bom ar

Provérbio provado num verso branco - XII

É cão que não conhece o dono
Gato que mija fora do penico
Um rato que dorme a sesta na ratoeira

Mesmo assim estes conseguem ser
Mais leais animais
Que o testa de ferro forjado
Assinando de cruz por cima da linha
Deitando abaixo o trabalho que não foi seu

É cão que não vem comer à mão
Gato que marca território no celeiro alheio
Um rato que se solta quando acorda

Mesmo assim estes conseguem ter
Menos terrenos venenos
Que o testa de ferro velho
Rangendo nas dobradiças podres
Tomando créditos em casa de outrém

É cão que ladra bem e também morde
Gato escondido com o rabo de fora
Um rato que só come brie fatiado

Mesmo assim estes conseguem ver
Quantos espantos quebrantos
Que o testa de ferro engomado
Saíndo de fatinho para um cruzeiro no Caribe
Dizendo adeus até ao meu regresso

É réptil com escamas e sangue frio
Picanha mais esfomeada do cardume
Um abutre alado em voo picado

Mesmo assim estes conseguem crer
Muitos intuitos fortuitos
Que esse triste testa enferrujado
Emprenhando pelos ouvidos sujos
Saudando o guardião dos infernos para assim enfim derreter



Provérbio provado rimado - CCLI

Quando te dizem esta frase
Vai dar volta ao grande bilhar
De certeza te estão a enxotar
E a despedir-se estão quase

Podes bem responder vai tu
Fincar bem os teus pés no chão
E devolver-lhes a expressão
Um pensamento também cru

Provérbio provado rimado - CCL

Se o teu nome alguém vai arrastar
Pela lama até todo se sujar
Dá-lhe uma corda p'ra se enforcar
Fica a vê-lo uivar ao luar

É fulano que logo se inflama
Se lhe chegas ao rabo uma chama
É estudante que estuda na cama
E quem o faz escorrega na lam

Ficam os dois na mesma poça
Todos sujos de lama na fossa
Diz-lhe então que sorte a nossa
Ou concordas ou dou-te uma coça

Provérbio provado rimado - CCXLIX

É um provérbio machista
Tem galináceos com crista
Estão todos no galinheiro
A chocar ovos ou no poleiro

Do curral soa um badalo
Muito inferniza o galo
Que lá naquela quintinha
Se ele canta não canta a galinha


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Provérbio solteirão

O Sérgio Ferreira era compreensivo com os sentimentos alheios e incapaz de ferir quem quer que fosse. Aparentemente tímido e vulnerável, e de certa maneira passivo, era muito atento aos pormenores do ambiente que o rodeava e possuia o dom da reconciliação. No entanto, tinha uma certa tendência para substimar as suas capacidades intelectuais e profissionais.
Em suma, o Sérgio era o que vulgarmente se costuma chamar solteiro e bom rapaz. Reparem que disse um bom rapaz e não um belo rapaz, pois na verdade o Sérgio não era nenhum Apolo. Assim sendo, também não almejava nenhuma Valquíria, mas desejava muito encontrar a sua cara metade. Aspirava a uma tranquila vida de casado com uma parceira compatível e compreensiva, estando certo que havia de dar um bom marido. Como era filho único, neto único e sobrinho único, o Sérgio tinha no sotão dois enormes baús a cheirar a naftalina, atulhados de um dispendioso enxoval já fora de moda, à espera de uma esposa prendada.
Só que acabava por se envolver romanticamente com mulheres que não correspondiam aos seus anseios, tendo queda para romances complicados ou inviáveis: a Elsa era casada com um embarcadiço (visitava-a quando o marido andava em alto mar), a Carla tinha um namorado na rua mesmo ao lado (e, descobriu depois, um amante em Alverca) e a Paula era demasiado histriónica para apresentar à família Ferreira (gostava da pinga e bebia aos dois cálices de cada vez).
O Sérgio tinha uma tia solteirona que aparentemente havia folgado bastante na sua juventude, perdendo assim vários bons partidos. Em certa véspera de Natal, estando todos à mesa, e reparando no seu olhar cabisbaixo, a tia Emília disparou-lhe a seguinte máxima:
- Ó meu sobrinho adorado, longe de mim querer cortar-te as pernas, mas presta atenção ao que esta velha tia te vai dizer:

- Antes que cases, vê o que fazes


Provérbio provado rimado - CCXLVIII

Olá bom dia alegria
Quero ver um sorriso rasgado
Espantem essa monotonia
E tenham um dia animado

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Provérbio provado rimado - CCXLVII

É bem gira a piadola
Que retira a seriedade
Bate ligeira na tola
Abarca qualquer idade

Também uma bela canção
Estimula a imaginação
Diz-se e bem que quem canta
Assim seus males espanta

Provérbio provado molhado

Muito bom esquecer o chapéu de chuva e levar com uns pingos na tromba. Só é pena não ser uma borrasca diluviana que se preze, mas apenas uma chuvita envergonhada molha parvos como eu. A natureza não me traz novidades

- Uns sentem a chuva, outros apenas se molham

Provérbio provado rimado - CCXLVI

Adorava experimentar
Ir para os Tocá rufar
E poder descer a Baixa
Com outros a toque de caixa

Gosto de ouvir os tambores
Compassados nas suas dores
É música impactante
Até quando toca distante

Provérbio provado rimado - CCXLV

Ó miga tu és tão linda
E vais comigo a concertos
Dás a conversa por finda
Se te abordam chico espertos

Fazes o olhar trinta e três
Até ficam atrapalhados
Vão-se embora de vez
Um pouco amedrontados

Quer seja na luta ou na vida
Defendes um ponto de vista
E tens atitude destemida
Assim consegues a conquista

Provérbio provado rimado - CCXLIV

A gestão das expectativas
Deve ser muito sensata
Numa situação cordata
Não vale fazer inventivas

Pois pode não ser à maneira
Esse destino que esperaste
Tão desalentado ficaste
A tapar o sol com a peneira

Provérbio provado rimado - CCXLIII

Quando de manhã te levantas
E os pesadelos espantas
Pões no chão os dois pés
Pensa no sortudo que és

Para sempre são todos os dias
Se gozados com alegrias
Pois um dia bem começado
Deve ser bem acabado

Provérbio provado num verso branco - XI

Amando-me despirás os cinco sentidos
não precisas de olhos para me ouvir
nem de boca para me cheirar
Amando-me vestirás o sexto sentido
e saberás quem sou


Provérbio provado rimado - CCXLII

Não se finja inteligente
Quando o tema não domina
Mais vale ser indiferente
Se não entender patavina

Provérbio provado rimado - CCXLI

Neste país de advérvios
Abundam muitos provérbios
Andam na ponta da língua
Assim não andam à míngua

Se no bolso há sempre um
E na cabeça talvez algum
Dizem-se em qualquer lugar
Em casa na escola no bar

Se não pontuo as rimas
E a atitude não estimas
É de propósito aviso
O poema fica mais conciso

Provérbio provado rimado - CCXL

É urgente permanecer
Dizia o Eugénio de Andrade
E quem gostamos rever
Para poder matar a saudade

Provérbio provado rimado - CCXXXIX

Os meus olhos castanhos leais
São pequenos e banais
O nariz sim é um portento
Cinzelado assim apresento

Os lábios são bem desenhados
Gostam de ser acarinhados
Mas melhores são os miolos
São rijos tal qual tijolos

Mentira são periclitantes
Tal livros em leves estantes
E a mente tem auto estradas
Não são regulamentadas

E não se paga portagem
Para quem arrisca a viagem
Todo o acesso é gratuito
Até para encontro fortuito

É muito fácil o choro
Se estou triste sem decoro
E há lágrimas de alegria
Liberta a claustrofobia

Mas uso persistir no erro
Sinal de um cérebro perro
Dou com os burros na água
O que me traz grande mágoa

Provérbio provado rimado - CCXXXVIII

Quem se gaba da qualidade
De ser amigo do seu amigo
Deixa-me pouco à vontade
Havia de ser do inimigo?

Isso sim seria louvável
Extremamente original
E até muito agradável
Ser do inimigo um pen pal

Parece-me uma obrigação
Estimar quem te trata bem
Pois quem está ali à mão
Claro que é teu amigo também

Mas há uma grande verdade
Ninguém toma como amigo
É independente da idade
O amigo do seu inimigo

Provérbio provado rimado - CCXXXVII

Ai vida que é uma canseira
Não é nenhuma brincadeira
Pois nascemos para sofrer
Ao tentarmos empreender

Temos boas intenções
À conta das emoções
Mas a coisa sai furada
E a expectativa gorada