Cada dia uma vida inteira
Pode ter cem horas ou mil
A noite é aurora derradeira
Derramando-se por um funil
O pensamento voa destemido
A frase já se solta num grito
Cada palavra é um gemido
Uma cor desse viver aflito
Se o entusiasmo arrefece
Acordar é enorme flagelo
E quando a manhã aparece
Custa só até quebrar o gelo
Então é pôr os dois pés no chão
E falar em vez de estrebuchar
Dar muitos passou bem com a mão
Se possível sorrir com bom ar
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Provérbio provado num verso branco - XII
É cão que não conhece o dono
Gato que mija fora do penico
Um rato que dorme a sesta na ratoeira
Mesmo assim estes conseguem ser
Mais leais animais
Que o testa de ferro forjado
Assinando de cruz por cima da linha
Deitando abaixo o trabalho que não foi seu
É cão que não vem comer à mão
Gato que marca território no celeiro alheio
Um rato que se solta quando acorda
Mesmo assim estes conseguem ter
Menos terrenos venenos
Que o testa de ferro velho
Rangendo nas dobradiças podres
Tomando créditos em casa de outrém
É cão que ladra bem e também morde
Gato escondido com o rabo de fora
Um rato que só come brie fatiado
Mesmo assim estes conseguem ver
Quantos espantos quebrantos
Que o testa de ferro engomado
Saíndo de fatinho para um cruzeiro no Caribe
Dizendo adeus até ao meu regresso
É réptil com escamas e sangue frio
Picanha mais esfomeada do cardume
Um abutre alado em voo picado
Mesmo assim estes conseguem crer
Muitos intuitos fortuitos
Que esse triste testa enferrujado
Emprenhando pelos ouvidos sujos
Saudando o guardião dos infernos para assim enfim derreter
Gato que mija fora do penico
Um rato que dorme a sesta na ratoeira
Mesmo assim estes conseguem ser
Mais leais animais
Que o testa de ferro forjado
Assinando de cruz por cima da linha
Deitando abaixo o trabalho que não foi seu
É cão que não vem comer à mão
Gato que marca território no celeiro alheio
Um rato que se solta quando acorda
Mesmo assim estes conseguem ter
Menos terrenos venenos
Que o testa de ferro velho
Rangendo nas dobradiças podres
Tomando créditos em casa de outrém
É cão que ladra bem e também morde
Gato escondido com o rabo de fora
Um rato que só come brie fatiado
Mesmo assim estes conseguem ver
Quantos espantos quebrantos
Que o testa de ferro engomado
Saíndo de fatinho para um cruzeiro no Caribe
Dizendo adeus até ao meu regresso
É réptil com escamas e sangue frio
Picanha mais esfomeada do cardume
Um abutre alado em voo picado
Mesmo assim estes conseguem crer
Muitos intuitos fortuitos
Que esse triste testa enferrujado
Emprenhando pelos ouvidos sujos
Saudando o guardião dos infernos para assim enfim derreter
Provérbio provado rimado - CCLI
Quando te dizem esta frase
Vai dar volta ao grande bilhar
De certeza te estão a enxotar
E a despedir-se estão quase
Podes bem responder vai tu
Fincar bem os teus pés no chão
E devolver-lhes a expressão
Um pensamento também cru
Vai dar volta ao grande bilhar
De certeza te estão a enxotar
E a despedir-se estão quase
Podes bem responder vai tu
Fincar bem os teus pés no chão
E devolver-lhes a expressão
Um pensamento também cru
Provérbio provado rimado - CCL
Se o teu nome alguém vai arrastar
Pela lama até todo se sujar
Dá-lhe uma corda p'ra se enforcar
Fica a vê-lo uivar ao luar
É fulano que logo se inflama
Se lhe chegas ao rabo uma chama
É estudante que estuda na cama
E quem o faz escorrega na lam
Ficam os dois na mesma poça
Todos sujos de lama na fossa
Diz-lhe então que sorte a nossa
Ou concordas ou dou-te uma coça
Pela lama até todo se sujar
Dá-lhe uma corda p'ra se enforcar
Fica a vê-lo uivar ao luar
É fulano que logo se inflama
Se lhe chegas ao rabo uma chama
É estudante que estuda na cama
E quem o faz escorrega na lam
Ficam os dois na mesma poça
Todos sujos de lama na fossa
Diz-lhe então que sorte a nossa
Ou concordas ou dou-te uma coça
Provérbio provado rimado - CCXLIX
É um provérbio machista
Tem galináceos com crista
Estão todos no galinheiro
A chocar ovos ou no poleiro
Do curral soa um badalo
Muito inferniza o galo
Que lá naquela quintinha
Se ele canta não canta a galinha
Tem galináceos com crista
Estão todos no galinheiro
A chocar ovos ou no poleiro
Do curral soa um badalo
Muito inferniza o galo
Que lá naquela quintinha
Se ele canta não canta a galinha
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Provérbio solteirão
O Sérgio Ferreira era compreensivo com os sentimentos alheios e incapaz de ferir quem quer que fosse. Aparentemente tímido e vulnerável, e de certa maneira passivo, era muito atento aos pormenores do ambiente que o rodeava e possuia o dom da reconciliação. No entanto, tinha uma certa tendência para substimar as suas capacidades intelectuais e profissionais.
Em suma, o Sérgio era o que vulgarmente se costuma chamar solteiro e bom rapaz. Reparem que disse um bom rapaz e não um belo rapaz, pois na verdade o Sérgio não era nenhum Apolo. Assim sendo, também não almejava nenhuma Valquíria, mas desejava muito encontrar a sua cara metade. Aspirava a uma tranquila vida de casado com uma parceira compatível e compreensiva, estando certo que havia de dar um bom marido. Como era filho único, neto único e sobrinho único, o Sérgio tinha no sotão dois enormes baús a cheirar a naftalina, atulhados de um dispendioso enxoval já fora de moda, à espera de uma esposa prendada.
Só que acabava por se envolver romanticamente com mulheres que não correspondiam aos seus anseios, tendo queda para romances complicados ou inviáveis: a Elsa era casada com um embarcadiço (visitava-a quando o marido andava em alto mar), a Carla tinha um namorado na rua mesmo ao lado (e, descobriu depois, um amante em Alverca) e a Paula era demasiado histriónica para apresentar à família Ferreira (gostava da pinga e bebia aos dois cálices de cada vez).
O Sérgio tinha uma tia solteirona que aparentemente havia folgado bastante na sua juventude, perdendo assim vários bons partidos. Em certa véspera de Natal, estando todos à mesa, e reparando no seu olhar cabisbaixo, a tia Emília disparou-lhe a seguinte máxima:
- Ó meu sobrinho adorado, longe de mim querer cortar-te as pernas, mas presta atenção ao que esta velha tia te vai dizer:
- Antes que cases, vê o que fazes
Em suma, o Sérgio era o que vulgarmente se costuma chamar solteiro e bom rapaz. Reparem que disse um bom rapaz e não um belo rapaz, pois na verdade o Sérgio não era nenhum Apolo. Assim sendo, também não almejava nenhuma Valquíria, mas desejava muito encontrar a sua cara metade. Aspirava a uma tranquila vida de casado com uma parceira compatível e compreensiva, estando certo que havia de dar um bom marido. Como era filho único, neto único e sobrinho único, o Sérgio tinha no sotão dois enormes baús a cheirar a naftalina, atulhados de um dispendioso enxoval já fora de moda, à espera de uma esposa prendada.
Só que acabava por se envolver romanticamente com mulheres que não correspondiam aos seus anseios, tendo queda para romances complicados ou inviáveis: a Elsa era casada com um embarcadiço (visitava-a quando o marido andava em alto mar), a Carla tinha um namorado na rua mesmo ao lado (e, descobriu depois, um amante em Alverca) e a Paula era demasiado histriónica para apresentar à família Ferreira (gostava da pinga e bebia aos dois cálices de cada vez).
O Sérgio tinha uma tia solteirona que aparentemente havia folgado bastante na sua juventude, perdendo assim vários bons partidos. Em certa véspera de Natal, estando todos à mesa, e reparando no seu olhar cabisbaixo, a tia Emília disparou-lhe a seguinte máxima:
- Ó meu sobrinho adorado, longe de mim querer cortar-te as pernas, mas presta atenção ao que esta velha tia te vai dizer:
- Antes que cases, vê o que fazes
segunda-feira, 1 de janeiro de 2018
Provérbio provado rimado - CCXLVII
É bem gira a piadola
Que retira a seriedade
Bate ligeira na tola
Abarca qualquer idade
Também uma bela canção
Estimula a imaginação
Diz-se e bem que quem canta
Assim seus males espanta
Que retira a seriedade
Bate ligeira na tola
Abarca qualquer idade
Também uma bela canção
Estimula a imaginação
Diz-se e bem que quem canta
Assim seus males espanta
Provérbio provado molhado
Muito bom esquecer o chapéu de chuva e levar com uns pingos na tromba. Só é pena não ser uma borrasca diluviana que se preze, mas apenas uma chuvita envergonhada molha parvos como eu. A natureza não me traz novidades
- Uns sentem a chuva, outros apenas se molham
- Uns sentem a chuva, outros apenas se molham
Provérbio provado rimado - CCXLVI
Adorava experimentar
Ir para os Tocá rufar
E poder descer a Baixa
Com outros a toque de caixa
Gosto de ouvir os tambores
Compassados nas suas dores
É música impactante
Até quando toca distante
Ir para os Tocá rufar
E poder descer a Baixa
Com outros a toque de caixa
Gosto de ouvir os tambores
Compassados nas suas dores
É música impactante
Até quando toca distante
Provérbio provado rimado - CCXLV
Ó miga tu és tão linda
E vais comigo a concertos
Dás a conversa por finda
Se te abordam chico espertos
Fazes o olhar trinta e três
Até ficam atrapalhados
Vão-se embora de vez
Um pouco amedrontados
Quer seja na luta ou na vida
Defendes um ponto de vista
E tens atitude destemida
Assim consegues a conquista
E vais comigo a concertos
Dás a conversa por finda
Se te abordam chico espertos
Fazes o olhar trinta e três
Até ficam atrapalhados
Vão-se embora de vez
Um pouco amedrontados
Quer seja na luta ou na vida
Defendes um ponto de vista
E tens atitude destemida
Assim consegues a conquista
Provérbio provado rimado - CCXLIV
A gestão das expectativas
Deve ser muito sensata
Numa situação cordata
Não vale fazer inventivas
Pois pode não ser à maneira
Esse destino que esperaste
Tão desalentado ficaste
A tapar o sol com a peneira
Deve ser muito sensata
Numa situação cordata
Não vale fazer inventivas
Pois pode não ser à maneira
Esse destino que esperaste
Tão desalentado ficaste
A tapar o sol com a peneira
Provérbio provado rimado - CCXLIII
Quando de manhã te levantas
E os pesadelos espantas
Pões no chão os dois pés
Pensa no sortudo que és
Para sempre são todos os dias
Se gozados com alegrias
Pois um dia bem começado
Deve ser bem acabado
E os pesadelos espantas
Pões no chão os dois pés
Pensa no sortudo que és
Para sempre são todos os dias
Se gozados com alegrias
Pois um dia bem começado
Deve ser bem acabado
Provérbio provado num verso branco - XI
Amando-me despirás os cinco sentidos
não precisas de olhos para me ouvir
nem de boca para me cheirar
Amando-me vestirás o sexto sentido
e saberás quem sou
não precisas de olhos para me ouvir
nem de boca para me cheirar
Amando-me vestirás o sexto sentido
e saberás quem sou
Provérbio provado rimado - CCXLII
Não se finja inteligente
Quando o tema não domina
Mais vale ser indiferente
Se não entender patavina
Quando o tema não domina
Mais vale ser indiferente
Se não entender patavina
Provérbio provado rimado - CCXLI
Neste país de advérvios
Abundam muitos provérbios
Andam na ponta da língua
Assim não andam à míngua
Se no bolso há sempre um
E na cabeça talvez algum
Dizem-se em qualquer lugar
Em casa na escola no bar
Se não pontuo as rimas
E a atitude não estimas
É de propósito aviso
O poema fica mais conciso
Abundam muitos provérbios
Andam na ponta da língua
Assim não andam à míngua
Se no bolso há sempre um
E na cabeça talvez algum
Dizem-se em qualquer lugar
Em casa na escola no bar
Se não pontuo as rimas
E a atitude não estimas
É de propósito aviso
O poema fica mais conciso
Provérbio provado rimado - CCXXXIX
Os meus olhos castanhos leais
São pequenos e banais
O nariz sim é um portento
Cinzelado assim apresento
Os lábios são bem desenhados
Gostam de ser acarinhados
Mas melhores são os miolos
São rijos tal qual tijolos
Mentira são periclitantes
Tal livros em leves estantes
E a mente tem auto estradas
Não são regulamentadas
E não se paga portagem
Para quem arrisca a viagem
Todo o acesso é gratuito
Até para encontro fortuito
É muito fácil o choro
Se estou triste sem decoro
E há lágrimas de alegria
Liberta a claustrofobia
Mas uso persistir no erro
Sinal de um cérebro perro
Dou com os burros na água
O que me traz grande mágoa
São pequenos e banais
O nariz sim é um portento
Cinzelado assim apresento
Os lábios são bem desenhados
Gostam de ser acarinhados
Mas melhores são os miolos
São rijos tal qual tijolos
Mentira são periclitantes
Tal livros em leves estantes
E a mente tem auto estradas
Não são regulamentadas
E não se paga portagem
Para quem arrisca a viagem
Todo o acesso é gratuito
Até para encontro fortuito
É muito fácil o choro
Se estou triste sem decoro
E há lágrimas de alegria
Liberta a claustrofobia
Mas uso persistir no erro
Sinal de um cérebro perro
Dou com os burros na água
O que me traz grande mágoa
Provérbio provado rimado - CCXXXVIII
Quem se gaba da qualidade
De ser amigo do seu amigo
Deixa-me pouco à vontade
Havia de ser do inimigo?
Isso sim seria louvável
Extremamente original
E até muito agradável
Ser do inimigo um pen pal
Parece-me uma obrigação
Estimar quem te trata bem
Pois quem está ali à mão
Claro que é teu amigo também
Mas há uma grande verdade
Ninguém toma como amigo
É independente da idade
O amigo do seu inimigo
De ser amigo do seu amigo
Deixa-me pouco à vontade
Havia de ser do inimigo?
Isso sim seria louvável
Extremamente original
E até muito agradável
Ser do inimigo um pen pal
Parece-me uma obrigação
Estimar quem te trata bem
Pois quem está ali à mão
Claro que é teu amigo também
Mas há uma grande verdade
Ninguém toma como amigo
É independente da idade
O amigo do seu inimigo
Provérbio provado rimado - CCXXXVII
Ai vida que é uma canseira
Não é nenhuma brincadeira
Pois nascemos para sofrer
Ao tentarmos empreender
Temos boas intenções
À conta das emoções
Mas a coisa sai furada
E a expectativa gorada
Não é nenhuma brincadeira
Pois nascemos para sofrer
Ao tentarmos empreender
Temos boas intenções
À conta das emoções
Mas a coisa sai furada
E a expectativa gorada
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