Das aranhas sempre suspeitei
Não tecerem as teias da lei
Isso é coisa de alguns juristas
Que se passeiam tal qual artistas
Chumbaram no exame da Ordem
De o repetir mais vezes não podem
Nos tribunais gostavam de estar
A complicados termos esbanjar
Não podem usar a bela da toga
Nem a cabeleira que se afoga
Quando está suja no lavatório
Depois de um parecer transitório
Invejam quem está em exercício
Lamentando-lhes o sacrifício
Têm desejo muito macabro
De ser advogado do diabo
sábado, 30 de dezembro de 2017
Provérbio provado rimado - CCXXXIII
Se te crês mais esperto que os demais
Denunciam-te uns certos rituais
De certeza que és um dissimulado
E apresentas aquele ar de enjoado
Se gostas de armar esparrelas
Tem cuidado não caias tu nelas
Pois encontrarás sempre alguém
Que se acha mais esperto que a mãe
E até que a família restante
Dela julga-se o mais importante
Essa improvável esperteza
É capaz de lhe trazer riqueza
Denunciam-te uns certos rituais
De certeza que és um dissimulado
E apresentas aquele ar de enjoado
Se gostas de armar esparrelas
Tem cuidado não caias tu nelas
Pois encontrarás sempre alguém
Que se acha mais esperto que a mãe
E até que a família restante
Dela julga-se o mais importante
Essa improvável esperteza
É capaz de lhe trazer riqueza
Provérbio provado rimado - CCXXXII
Os apitos leves fazem as delícias
Tanto de árbitros como de polícias
E funcionam melhor que algemas
Se se trata de evitar problemas
Mas eu conheço uma progenitora
Que quer fazer da filha uma senhora
Traz pendurado um apito ao pescoço
Que usa quando ela faz alvoroço
Cresceu muito e é adolescente
Com a mãe está a ficar descontente
Ela obriga-a a ir cedo à missa
Mas a filha não quer tem preguiça
Veste-lhe uns vestidinhos pirosos
Que afastam moços audaciosos
E controla-a a todas as horas
Diz vê lá se não te demoras
A mãe apregoa a castidade
Com medo que perca a virgindade
De a perder a jovem está deserta
Para isso tem de ser bem esperta
Terá de saber a mãe despistar
Quando ela dormir a ressonar
Mas não tem uma cópia da chave
Está trancada o que é um entrave
Tem de andar direita como um fuso
Não lhe é permitido um abuso
A mãe gabe-se de ser acautelada
E de ter uma filha bem guardada
Tanto de árbitros como de polícias
E funcionam melhor que algemas
Se se trata de evitar problemas
Mas eu conheço uma progenitora
Que quer fazer da filha uma senhora
Traz pendurado um apito ao pescoço
Que usa quando ela faz alvoroço
Cresceu muito e é adolescente
Com a mãe está a ficar descontente
Ela obriga-a a ir cedo à missa
Mas a filha não quer tem preguiça
Veste-lhe uns vestidinhos pirosos
Que afastam moços audaciosos
E controla-a a todas as horas
Diz vê lá se não te demoras
A mãe apregoa a castidade
Com medo que perca a virgindade
De a perder a jovem está deserta
Para isso tem de ser bem esperta
Terá de saber a mãe despistar
Quando ela dormir a ressonar
Mas não tem uma cópia da chave
Está trancada o que é um entrave
Tem de andar direita como um fuso
Não lhe é permitido um abuso
A mãe gabe-se de ser acautelada
E de ter uma filha bem guardada
Provérbio provado num verso branco - X
Uma língua costureira é de trapos e usa agulha para picar
Remenda desajeitadamente a sujidade do desperdício
No final veste o lixo num traje de distinta nobreza
E foge a correr para se pôr a salvo
O fingidor está sempre num palco com luzes intermitentes
Senta-se simultaneamente na bilheteira a cobrar sonhos medíocres
No final ainda faz vénias e recebe aplausos imerecidos
E foge a correr para se pôr a salvo
Na boca do mentiroso até a verdade é suspeita
Simula compulsivamente artes de loquacidade padronizada
No final passa pelo crivo higiénico da censura social
E foge a correr para se pôr a salvo
Remenda desajeitadamente a sujidade do desperdício
No final veste o lixo num traje de distinta nobreza
E foge a correr para se pôr a salvo
O fingidor está sempre num palco com luzes intermitentes
Senta-se simultaneamente na bilheteira a cobrar sonhos medíocres
No final ainda faz vénias e recebe aplausos imerecidos
E foge a correr para se pôr a salvo
Na boca do mentiroso até a verdade é suspeita
Simula compulsivamente artes de loquacidade padronizada
No final passa pelo crivo higiénico da censura social
E foge a correr para se pôr a salvo
Provérbio provado rimado - CCXXXI
Olha que não se aponta que é feio
É costume dizerem às crianças
Os adultos nas suas andanças
A tentar colocar-lhes um freio
Pois querem a martelo educar
Com chavões que usam repetir
Quando não conseguem assumir
Que nessa função estão a falhar
Surge sempre uma contrariedade
A prole só quer desobedecer
Ou bem que se obriga a crescer
Ou bem se louva a espontaneidade
Se desejam ter um filho mudo
Liguem o botão da televisão
Passem-lhe o comando para a mão
Que afinal não se pode ter tudo
É costume dizerem às crianças
Os adultos nas suas andanças
A tentar colocar-lhes um freio
Pois querem a martelo educar
Com chavões que usam repetir
Quando não conseguem assumir
Que nessa função estão a falhar
Surge sempre uma contrariedade
A prole só quer desobedecer
Ou bem que se obriga a crescer
Ou bem se louva a espontaneidade
Se desejam ter um filho mudo
Liguem o botão da televisão
Passem-lhe o comando para a mão
Que afinal não se pode ter tudo
Provérbio provado rimado - CCXXX
Esta rima vai valer por duas
São frases que andaram nas ruas
Muito comuns nas manifestações
Em cartazes as ditas expressões
São queixas dos tempos de crise
É importante que isto se frise
Se o cinto não tem mais furos
Não se aumentam as taxas dos juros
Quando se usa o cinto apertado
Fica o povo sobrecarregado
E as dívidas só sabem subir
Sem hipótese de descontrair
Ficam também justas as calças
Impróprias para bailar umas valsas
Torna-se impossível baixá-las
A saída pode ser leiloá-las
Felizmente esta gente estóica
Libertou-se da maldita Troika
Pode enfim respirar um pouco
Se quem governar não for louco
Mas é preciso continuar o barulho
Não se pode amontoar como entulho
Quem é da luta não é lixo
E em número é maior que nicho
São frases que andaram nas ruas
Muito comuns nas manifestações
Em cartazes as ditas expressões
São queixas dos tempos de crise
É importante que isto se frise
Se o cinto não tem mais furos
Não se aumentam as taxas dos juros
Quando se usa o cinto apertado
Fica o povo sobrecarregado
E as dívidas só sabem subir
Sem hipótese de descontrair
Ficam também justas as calças
Impróprias para bailar umas valsas
Torna-se impossível baixá-las
A saída pode ser leiloá-las
Felizmente esta gente estóica
Libertou-se da maldita Troika
Pode enfim respirar um pouco
Se quem governar não for louco
Mas é preciso continuar o barulho
Não se pode amontoar como entulho
Quem é da luta não é lixo
E em número é maior que nicho
Provérbio provado rimado - CCXXIX
É um belo músculo palpitante
De muito sangue transbordante
Que tem só quatro cavidades
Sejam quais forem as idades
É responsável pela emoção
Está no peito o nosso coração
E deve jorrar em abundância
Superar-se em primeira instância
Para ele há frase em latim
Difícil de pronunciar assim
Ela é ex abundantia cordis
E é livre de quaisquer ardis
De muito sangue transbordante
Que tem só quatro cavidades
Sejam quais forem as idades
É responsável pela emoção
Está no peito o nosso coração
E deve jorrar em abundância
Superar-se em primeira instância
Para ele há frase em latim
Difícil de pronunciar assim
Ela é ex abundantia cordis
E é livre de quaisquer ardis
Provérbio provado rimado - CCXXVIII
É uma estúpida expressão
Faz desconfiar de antemão
Própria de gente racista
Arrogante e colonialista
Que no fundo é preguiçosa
E tem uma mente rançosa
É bom para o preto o trabalho
Diz quem é rente ao soalho
E não fiz uma rima pior
Pois tive assim algum pudor
Lidar com gentinha rasteira
Põe-me a bufar sobremaneira
Faz desconfiar de antemão
Própria de gente racista
Arrogante e colonialista
Que no fundo é preguiçosa
E tem uma mente rançosa
É bom para o preto o trabalho
Diz quem é rente ao soalho
E não fiz uma rima pior
Pois tive assim algum pudor
Lidar com gentinha rasteira
Põe-me a bufar sobremaneira
Provérbio provado do patrão e do empregado
Patrão é patrão, empregado é empregado. E até podem ter uma relação de amizade e mútuo entendimento, que não deixa de ser uma relação desigual. Partindo deste pressuposto, vou contar a história do Justino e do Emanuel.
O doutor Justino é um líder nato: um metro e oitenta e noventa quilos de autoridade. Uma autoridade espaçosa, portanto. Gosta de mandar em vez de fazer, embora se quisesse pudesse realizar o trabalho, pois tem inúmeras capacidades e certamente não passaria fome se tivesse de arregaçar as mangas. Tem um QI portentoso, um raciocínio lógico e rápido, e é capaz de discutir sobre os mais variados assuntos, mesmo aqueles que só conhece superficialmente. Como defeitos, pode apontar-se-lhe a tendência para ser autoritário, possessivo e um tanto egocêntrico, assim como uma manifesta necessidade de controlar os acontecimentos. Se calhar não é assim tão frio e calculista como aparenta, mas como é pouco comunicativo, raramente demonstra afecto e compaixão. No entanto, gosta de ser elogiado e admirado.
O Emanuel é baixinho e franzino, passa facilmente despercebido. Admira o patrão e devota-lhe até uma admiração um pouco cega: o que o doutor diz é lei. É cumpridor, mas não cultiva a largueza de espírito nem a concentração e habita num espírito acanhado. Essa preguiça mental acaba por conduzi-lo a um afã de chegar aos objectivos pelo caminho mais rápido, que às vezes é tortuoso. Apesar deste aparente enfoque, dispersa-se com facilidade, acabando por deixar muitas das tarefas a meio.
Hoje de tarde, o doutor Justino perdeu um cliente importante. Quando lhe foi apresentar um novo projecto, o dito cliente, embora já antigo e até então fidelíssimo, pura e simplesmente dispensou-o. Regressou à empresa desalentado: ombros caídos e sobrolho carregado. Quando os seus desejos não se realizam ou são frustrados, a pressão arterial dispara e as têmporas latejam de tal forma que parecem ir explodir a qualquer momento. Assim foi hoje. Atravessou o corredor, olhou para o Emanuel como se ele fosse invisível, e foi enfiar-se no seu gabinete a praguezar com as paredes. Passada uma interminável hora, já perto da hora de saída, abriu a porta de rompante e soprou feroz:
- Emanuel, ó Emanuel! Faz-me já um levantamento de todos os projectos que tivemos com a Óptica Olho Vivo. Orçamentos, prospecções e resultados das campanhas. Tudinho, ouviste bem? Quero que vás ao pormenor e não te ponhas a questionar as razões: para pensar estou cá eu! E olha, Emanuel, é uma tarefa para ontem!
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo
O doutor Justino é um líder nato: um metro e oitenta e noventa quilos de autoridade. Uma autoridade espaçosa, portanto. Gosta de mandar em vez de fazer, embora se quisesse pudesse realizar o trabalho, pois tem inúmeras capacidades e certamente não passaria fome se tivesse de arregaçar as mangas. Tem um QI portentoso, um raciocínio lógico e rápido, e é capaz de discutir sobre os mais variados assuntos, mesmo aqueles que só conhece superficialmente. Como defeitos, pode apontar-se-lhe a tendência para ser autoritário, possessivo e um tanto egocêntrico, assim como uma manifesta necessidade de controlar os acontecimentos. Se calhar não é assim tão frio e calculista como aparenta, mas como é pouco comunicativo, raramente demonstra afecto e compaixão. No entanto, gosta de ser elogiado e admirado.
O Emanuel é baixinho e franzino, passa facilmente despercebido. Admira o patrão e devota-lhe até uma admiração um pouco cega: o que o doutor diz é lei. É cumpridor, mas não cultiva a largueza de espírito nem a concentração e habita num espírito acanhado. Essa preguiça mental acaba por conduzi-lo a um afã de chegar aos objectivos pelo caminho mais rápido, que às vezes é tortuoso. Apesar deste aparente enfoque, dispersa-se com facilidade, acabando por deixar muitas das tarefas a meio.
Hoje de tarde, o doutor Justino perdeu um cliente importante. Quando lhe foi apresentar um novo projecto, o dito cliente, embora já antigo e até então fidelíssimo, pura e simplesmente dispensou-o. Regressou à empresa desalentado: ombros caídos e sobrolho carregado. Quando os seus desejos não se realizam ou são frustrados, a pressão arterial dispara e as têmporas latejam de tal forma que parecem ir explodir a qualquer momento. Assim foi hoje. Atravessou o corredor, olhou para o Emanuel como se ele fosse invisível, e foi enfiar-se no seu gabinete a praguezar com as paredes. Passada uma interminável hora, já perto da hora de saída, abriu a porta de rompante e soprou feroz:
- Emanuel, ó Emanuel! Faz-me já um levantamento de todos os projectos que tivemos com a Óptica Olho Vivo. Orçamentos, prospecções e resultados das campanhas. Tudinho, ouviste bem? Quero que vás ao pormenor e não te ponhas a questionar as razões: para pensar estou cá eu! E olha, Emanuel, é uma tarefa para ontem!
- Manda quem pode, obedece quem tem juízo
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
Provérbio provado rimado - CCXXVII
Não quero passar o reveillon
Debaixo de um edredon
Irei para a serra de Sintra
Com amigos com muita pinta
É um pessoal bem disposto
Que sei não me dará desgosto
Assim fiz mais uma trova
Para o ano novo vida nova
Debaixo de um edredon
Irei para a serra de Sintra
Com amigos com muita pinta
É um pessoal bem disposto
Que sei não me dará desgosto
Assim fiz mais uma trova
Para o ano novo vida nova
quinta-feira, 28 de dezembro de 2017
Provérbio provado rimado - CCXXVI
Não desejo muito ir à América
Nova Iorque não me deixa histérica
Gostava de ir a São Francisco
Mas a Califórnia é um risco
Um grande rombo no orçamento
E a viagem é um tormento
São mil horas dentro do avião
A bagagem enfiada no porão
Mas porém no estado do Nevada
A cidade deixa a gente excitada
Porque o que acontece em Las Vegas
Fica lá juntamente com as negas
Nova Iorque não me deixa histérica
Gostava de ir a São Francisco
Mas a Califórnia é um risco
Um grande rombo no orçamento
E a viagem é um tormento
São mil horas dentro do avião
A bagagem enfiada no porão
Mas porém no estado do Nevada
A cidade deixa a gente excitada
Porque o que acontece em Las Vegas
Fica lá juntamente com as negas
Provérbio provado justificado
Tinha uma presença muito forte e fazia questão de dar uns apertos de mão bem vincados, engrossando a voz quando se apresentava: Rita Moreira, muito gosto!
O gosto era todo dela, pois a Rita não tinha um feitio nada fácil. Tinha uma personalidade muito intensa e, convenhamos, demasiado expressiva, opinativa, explosiva, impulsiva, resumindo nada esquiva. Era também excessivamente impaciente e muito teimosa: quando metia uma coisa na cabeça, queria levar a sua avante de imediato. A Rita fervia em pouquíssima água e quando explodia respondia à letra, não se furtando a uma boa querela. Como era assim meio doida, assustava facilmente quem dela se acercava, quer fossem relações de natureza laboral, amorosas ou até de amizade.
Em abono da verdade, lá no fundo a Rita não era má pessoa. Pelo contrário: era leal, forte e autêntica, com um coração puro e um espírito inabalável. E à laia de justificação, rematava muitas das suas conversas assim:
- Quem dá o que tem, a mais não é obrigado
O gosto era todo dela, pois a Rita não tinha um feitio nada fácil. Tinha uma personalidade muito intensa e, convenhamos, demasiado expressiva, opinativa, explosiva, impulsiva, resumindo nada esquiva. Era também excessivamente impaciente e muito teimosa: quando metia uma coisa na cabeça, queria levar a sua avante de imediato. A Rita fervia em pouquíssima água e quando explodia respondia à letra, não se furtando a uma boa querela. Como era assim meio doida, assustava facilmente quem dela se acercava, quer fossem relações de natureza laboral, amorosas ou até de amizade.
Em abono da verdade, lá no fundo a Rita não era má pessoa. Pelo contrário: era leal, forte e autêntica, com um coração puro e um espírito inabalável. E à laia de justificação, rematava muitas das suas conversas assim:
- Quem dá o que tem, a mais não é obrigado
Provérbio provado rimado - CCXXV
São um casal sem eufemismos
E chamam pelo nome os bois
Sem grandes sentimentalismos
Se estão debaixo dos lençóis
Vão logo directos ao assunto
E manifestam a vontade
Na cama ou no Fiat Punto
É para recordar com saudade
Quando se trata de fruição
Em toda a liberdade apostam
E dão rédea solta à tesão
Que até os passarinhos gostam
E chamam pelo nome os bois
Sem grandes sentimentalismos
Se estão debaixo dos lençóis
Vão logo directos ao assunto
E manifestam a vontade
Na cama ou no Fiat Punto
É para recordar com saudade
Quando se trata de fruição
Em toda a liberdade apostam
E dão rédea solta à tesão
Que até os passarinhos gostam
Provérbio provado viciado - II
O Pedro era aventureiro e bem humorado. Com ele havia sempre a garantia de um tempo bem passado, pois era extremamente divertido e estava sempre de bem com a vida. Esbanjava uma atitude positiva, atraindo as pessoas em seu redor de uma forma muito natural. O Pedro adorava comunicar e conhecer gente nova, assim como realizar actividades diferentes que fugissem da rotina banalíssima, o que lhe permitia arrecadar o máximo possível de boas experiências.
No que ao amor dizia respeito, o Pedro era, digamos, proactivo e assertivo, para usar dois termos tão caros ao jargão das entrevistas de emprego. Quando estava interessado numa mulher, não perdia tempo e partia imediatamente para o ataque, fazendo-a sentir-se muito desejada. Mas se acaso o caso não desse certo, o Pedro não ficava a chorar pelos cantos: seguia em frente com o coração cheio de esperança no futuro e partia rapidamente para outra sem problema algum. Adorava namorar de forma casual e os seus romances quase nunca eram duradouros, já que gostava mais da fase do flirt propriamente dito que das exigências que trazia uma relação. A sua parceira ideal não podia ser possessiva ou controladora, tinha de respeitar a sua sede de liberdade e ser igualmente livre e divertida.
O Pedro era gregário e aglutinador e do que ele gostava mesmo era do convívio, de sair com os amigos para a farra, de preferência com um grande e heterogéneo grupo. Nessas saídas à noite, cortejava muitas mulheres, abusando do seu forte poder de sedução. Os amigos admiravam-se de ele facturar tanto! Então, o Pedro gabava-se de ter um bom paleio e um beijo magnígico. E era bem verdade: o seu beijar era espontâneo e criativo, intenso e sensual, com a dose certa de língua.
Mas tudo isto tinha um reverso da medalha, pois o Pedro tinha muita dificuldade em controlar as suas pulsões e excesso de testosterona. Claro que não admitia ser viciado em sexo, dizia apenas que tinha um lado mais selvagem, mas andava sempre com o desejo à flor da pele. O sexo para o Pedro tinha de ser o mais original possível e procurava sempre ser muito inovador na cama. Na cama é como quem diz: na cozinha, no carro, na praia, nas casas de banho públicas, elevadores e provadores das lojas, ou qualquer outro local dito proibido. Quanto mais variados fossem os lugares, as posições e as situações criadas, mais tesão o Pedro tinha. Então se fosse de pé, isso é que ele gozava! Uma grande panóplia de jogos sexuais, brincadeiras prevertidas e acessórios de sex shops eram condimentos que o levavam à loucura.
Tanto inventou, que chegou o momento em que já não se excitava com o sexo tradicional e escorreito... E começou a necessitar de cada vez mais artifícios para ter prazer e conseguir atingir o clímax.
- Vícios privados, públicas virtudes
No que ao amor dizia respeito, o Pedro era, digamos, proactivo e assertivo, para usar dois termos tão caros ao jargão das entrevistas de emprego. Quando estava interessado numa mulher, não perdia tempo e partia imediatamente para o ataque, fazendo-a sentir-se muito desejada. Mas se acaso o caso não desse certo, o Pedro não ficava a chorar pelos cantos: seguia em frente com o coração cheio de esperança no futuro e partia rapidamente para outra sem problema algum. Adorava namorar de forma casual e os seus romances quase nunca eram duradouros, já que gostava mais da fase do flirt propriamente dito que das exigências que trazia uma relação. A sua parceira ideal não podia ser possessiva ou controladora, tinha de respeitar a sua sede de liberdade e ser igualmente livre e divertida.
O Pedro era gregário e aglutinador e do que ele gostava mesmo era do convívio, de sair com os amigos para a farra, de preferência com um grande e heterogéneo grupo. Nessas saídas à noite, cortejava muitas mulheres, abusando do seu forte poder de sedução. Os amigos admiravam-se de ele facturar tanto! Então, o Pedro gabava-se de ter um bom paleio e um beijo magnígico. E era bem verdade: o seu beijar era espontâneo e criativo, intenso e sensual, com a dose certa de língua.
Mas tudo isto tinha um reverso da medalha, pois o Pedro tinha muita dificuldade em controlar as suas pulsões e excesso de testosterona. Claro que não admitia ser viciado em sexo, dizia apenas que tinha um lado mais selvagem, mas andava sempre com o desejo à flor da pele. O sexo para o Pedro tinha de ser o mais original possível e procurava sempre ser muito inovador na cama. Na cama é como quem diz: na cozinha, no carro, na praia, nas casas de banho públicas, elevadores e provadores das lojas, ou qualquer outro local dito proibido. Quanto mais variados fossem os lugares, as posições e as situações criadas, mais tesão o Pedro tinha. Então se fosse de pé, isso é que ele gozava! Uma grande panóplia de jogos sexuais, brincadeiras prevertidas e acessórios de sex shops eram condimentos que o levavam à loucura.
Tanto inventou, que chegou o momento em que já não se excitava com o sexo tradicional e escorreito... E começou a necessitar de cada vez mais artifícios para ter prazer e conseguir atingir o clímax.
- Vícios privados, públicas virtudes
Provérbio escolar
Tinha dez anos quando entrei para o ciclo preparatório. Cheguei à nova escola pela primeira vez muito assustada; ia sozinha (os meus pais não puderam acompanhar-me pois estavam a trabalhar) e tudo me amedrontava: um sem número de pavilhões, uma turma cheia de caras novas, um ror de disciplinas e um professor diferente para cada uma delas. Em tudo o oposto da minha antiga escola primária, onde a minha sala ficava num anexo pequenino, com colegas amistosos e a acolhedora presença do professor João, sempre cordato, e que me tinha ensinado tantas lições: de Português, Matemática, Meio Físico e Social, História de Portugal e da Vida.
Na nova escola haviam muitos intervalos, sendo um deles dedicado à merenda. A minha mãe nem sempre tinha tempo de me preparar algo para levar e nessas alturas ia ao bar do polivalente (tinha uma carteira nova onde punha as moedas que os pais me iam dando).
Foi então que descobri o quiosque da Dona Maria; chamo-lhe assim pois o seu verdadeiro nome sumiu-se-me da memória. O quiosque ficava do outro lado da estrada em frente à escola. Como não era permitido sair nos intervalos, os pedidos eram gritados muito alto do lado de cá para a Dona Maria, que depois os transportava até à rede, fazendo-os passar por baixo desta, recolhendo o respectivo dinheiro e aproveitando a viagem para trazer o troco de outro aluno.
Recordo-me muito bem das sandes do quiosque (as carcaças eram sempre fresquinhas e muito saborosas), e com particular saudade das sandes de rissol: coisa nunca vista e que se tornou então para mim um pitéu muito apreciado que ainda hoje gosto, principalmente se vier acompanhado por uma folhinha de alface.
As idas e vindas da Dona Maria eram uma comédia, desde os pedidos trocados por causa do barulho dos carros até às suas corridinhas pela estrada fora da passadeira, já que os intervalos eram curtos e nesses poucos minutos se fazia o seu negócio.
Mas de uma coisa a simpática senhora fazia questão no meio daquela confusão: que, quando gritavam os pedidos, os alunos pedissem sempre se faz favor.
- Quem dá o pão dá educação
Na nova escola haviam muitos intervalos, sendo um deles dedicado à merenda. A minha mãe nem sempre tinha tempo de me preparar algo para levar e nessas alturas ia ao bar do polivalente (tinha uma carteira nova onde punha as moedas que os pais me iam dando).
Foi então que descobri o quiosque da Dona Maria; chamo-lhe assim pois o seu verdadeiro nome sumiu-se-me da memória. O quiosque ficava do outro lado da estrada em frente à escola. Como não era permitido sair nos intervalos, os pedidos eram gritados muito alto do lado de cá para a Dona Maria, que depois os transportava até à rede, fazendo-os passar por baixo desta, recolhendo o respectivo dinheiro e aproveitando a viagem para trazer o troco de outro aluno.
Recordo-me muito bem das sandes do quiosque (as carcaças eram sempre fresquinhas e muito saborosas), e com particular saudade das sandes de rissol: coisa nunca vista e que se tornou então para mim um pitéu muito apreciado que ainda hoje gosto, principalmente se vier acompanhado por uma folhinha de alface.
As idas e vindas da Dona Maria eram uma comédia, desde os pedidos trocados por causa do barulho dos carros até às suas corridinhas pela estrada fora da passadeira, já que os intervalos eram curtos e nesses poucos minutos se fazia o seu negócio.
Mas de uma coisa a simpática senhora fazia questão no meio daquela confusão: que, quando gritavam os pedidos, os alunos pedissem sempre se faz favor.
- Quem dá o pão dá educação
Provérbio provado rimado - CCXXIV
Gente que renuncia à paz
De criar o caos é capaz
Lança tamanha confusão
No seio de uma população
São cabeças maliciosas
Que deturpam todas as prosas
Levam a água ao seu moinho
No meio de tanto remoinho
Criam as próprias definições
Com caríssimos palavrões
E assim enganam os incautos
Lavram até novas leis nos autos
De criar o caos é capaz
Lança tamanha confusão
No seio de uma população
São cabeças maliciosas
Que deturpam todas as prosas
Levam a água ao seu moinho
No meio de tanto remoinho
Criam as próprias definições
Com caríssimos palavrões
E assim enganam os incautos
Lavram até novas leis nos autos
Provérbio provado rimado - CCXXIII
Viver é caso bem tramado
De acções sobrevarregado
Quem perdoa será perdoado
Quem magoa será magoado
É constação tão evidente
Não é preciso ser inteligente
Nem permanecer descontente
Quem a si mesmo não mente
De acções sobrevarregado
Quem perdoa será perdoado
Quem magoa será magoado
É constação tão evidente
Não é preciso ser inteligente
Nem permanecer descontente
Quem a si mesmo não mente
Provérbio provado rimado - CCXXII
O tempo é cavalo alucinado
Galopa num trilho acidentado
Quando dás por ti é passado
Por isso vive vida sossegada
Não faças sangria desatada
De cada emoção desbragada
Galopa num trilho acidentado
Quando dás por ti é passado
Por isso vive vida sossegada
Não faças sangria desatada
De cada emoção desbragada
Provérbio provado esperançado - II
Somos como podemos. Vamos sendo como sabemos ser a cada momento. Viver todos os dias cansa. Muitas vezes ao tentarmos agradar estragamos tudo e ainda acrescentamos a insegurança aos nossos múltiplos defeitos. Já se sabe que a humanidade podia ser mais humana. E o amor menos egoísta. Não conseguimos estar dentro e fora ao mesmo tempo, por isso a nossa perspectiva é sempre incompleta. Falta sempre alguma coisa. E continua a faltar, mesmo quando chegamos lá. A insatisfação é tramada. A busca de um sentido para a existência nunca termina. Tentamos a superação mas o mais das vezes falhamos. O quotidiano é uma estrada cheia de buracos e cruzamentos inesperados. Temos de escolher um caminho e perdemos os outros, e já não podemos regressar aos caminhos desaparecidos. E se pudéssemos escolhiamos mal outra vez, principalmente quando julgamos estar cheios de razão. O Eu é um território desconhecido e solitário. Os outros são sempre mais competentes a viver. É o que pensamos quando sentimos raiva e falta de fe. Por tudo isto, não temos de pedir desculpa por sermos imperfeitos. Acima de tudo vale a pena esta vida que é um erro. Vivamo-la pois errando.
- Enquanto há vida,
- Enquanto há vida,
Provérbio geracional
Esta geração d'hoje, que consente deixar-se representar assim, é uma geração sacripanta!
É um covil hipócrita e desprezível, que se vende por dá cá aquela palha. Aos bancos e seus supostos e compostos. Em nome do bem-estar.
Esta geração d'hoje é um burro impotente e teimoso, que finca as patas no terreno onde resvala. Escorrega em ideias, presumíveis ideias a que chama projectos – projectos são coisas viradas para um futuro medíocre. Ideias e projectos não são ideais: os ideais foram extintos por afinal serem demasiado grandes.
Esta geração quando vai às repartições, assina na cruz, e já acha que pode falar dos impostos dos outros. Esta geração se pudesse ainda era bufa da PIDE. Se pudesse fazia queixinhas ao chefe, se é que já não morde quando pode.
Esta geração d'hoje é caginchas e tem miúfa. Fala mal ou bem do 25 de Abril conforme o interlocutor. Acolhe petições online e partilha manifestos como se desse umas rapidinhas adúlteras só vagamente permitidas. Espera aplausos imerecidos, vê-se ao espelho em selfies e tem pressa de reconhecimento.
É tão mal educada que privilegia em vez do próximo o distante, interrompe conversas ao vivo para atender o telemóvel, prefere descrever um acontecimento depois do que vivê-lo enquanto. Fala de um púlpito imaginário para um público imaginário, cheia de vaidade e solidão.
Esta geração d'hoje, ai se mandasse!, fazia e desfazia, ao menos votasse…
É um covil hipócrita e desprezível, que se vende por dá cá aquela palha. Aos bancos e seus supostos e compostos. Em nome do bem-estar.
Esta geração d'hoje é um burro impotente e teimoso, que finca as patas no terreno onde resvala. Escorrega em ideias, presumíveis ideias a que chama projectos – projectos são coisas viradas para um futuro medíocre. Ideias e projectos não são ideais: os ideais foram extintos por afinal serem demasiado grandes.
Esta geração quando vai às repartições, assina na cruz, e já acha que pode falar dos impostos dos outros. Esta geração se pudesse ainda era bufa da PIDE. Se pudesse fazia queixinhas ao chefe, se é que já não morde quando pode.
Esta geração d'hoje é caginchas e tem miúfa. Fala mal ou bem do 25 de Abril conforme o interlocutor. Acolhe petições online e partilha manifestos como se desse umas rapidinhas adúlteras só vagamente permitidas. Espera aplausos imerecidos, vê-se ao espelho em selfies e tem pressa de reconhecimento.
É tão mal educada que privilegia em vez do próximo o distante, interrompe conversas ao vivo para atender o telemóvel, prefere descrever um acontecimento depois do que vivê-lo enquanto. Fala de um púlpito imaginário para um público imaginário, cheia de vaidade e solidão.
Esta geração d'hoje, ai se mandasse!, fazia e desfazia, ao menos votasse…
- - Saúde e geração não se apura
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