quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Provérbio provado rimado - CCXXIV

Gente que renuncia à paz
De criar o caos é capaz
Lança tamanha confusão
No seio de uma população

São cabeças maliciosas
Que deturpam todas as prosas
Levam a água ao seu moinho
No meio de tanto remoinho

Criam as próprias definições
Com caríssimos palavrões
E assim enganam os incautos
Lavram até novas leis nos autos

Provérbio provado rimado - CCXXIII

Viver é caso bem tramado
De acções sobrevarregado
Quem perdoa será perdoado
Quem magoa será magoado

É constação tão evidente
Não é preciso ser inteligente
Nem permanecer descontente
Quem a si mesmo não mente

Provérbio provado rimado - CCXXII

O tempo é cavalo alucinado
Galopa num trilho acidentado
Quando dás por ti é passado

Por isso vive vida sossegada
Não faças sangria desatada
De cada emoção desbragada

Provérbio provado esperançado - II

Somos como podemos. Vamos sendo como sabemos ser a cada momento. Viver todos os dias cansa. Muitas vezes ao tentarmos agradar estragamos tudo e ainda acrescentamos a insegurança aos nossos múltiplos defeitos. Já se sabe que a humanidade podia ser mais humana. E o amor menos egoísta. Não conseguimos estar dentro e fora ao mesmo tempo, por isso a nossa perspectiva é sempre incompleta. Falta sempre alguma coisa. E continua a faltar, mesmo quando chegamos lá. A insatisfação é tramada. A busca de um sentido para a existência nunca termina. Tentamos a superação mas o mais das vezes falhamos. O quotidiano é uma estrada cheia de buracos e cruzamentos inesperados. Temos de escolher um caminho e perdemos os outros, e já não podemos regressar aos caminhos desaparecidos. E se pudéssemos escolhiamos mal outra vez, principalmente quando julgamos estar cheios de razão. O Eu é um território desconhecido e solitário. Os outros são sempre mais competentes a viver. É o que pensamos quando sentimos raiva e falta de fe. Por tudo isto, não temos de pedir desculpa por sermos imperfeitos. Acima de tudo vale a pena esta vida que é um erro. Vivamo-la pois errando.

- Enquanto há vida,

Provérbio geracional

Esta geração d'hoje, que consente deixar-se representar assim, é uma geração sacripanta!
É um covil hipócrita e desprezível, que se vende por dá cá aquela palha. Aos bancos e seus supostos e compostos. Em nome do bem-estar.
Esta geração d'hoje é um burro impotente e teimoso, que finca as patas no terreno onde resvala. Escorrega em ideias, presumíveis ideias a que chama projectos – projectos são coisas viradas para um futuro medíocre. Ideias e projectos não são ideais: os ideais foram extintos por afinal serem demasiado grandes.
Esta geração quando vai às repartições, assina na cruz, e já acha que pode falar dos impostos dos outros. Esta geração se pudesse ainda era bufa da PIDE. Se pudesse fazia queixinhas ao chefe, se é que já não morde quando pode.
Esta geração d'hoje é caginchas e tem miúfa. Fala mal ou bem do 25 de Abril conforme o interlocutor. Acolhe petições online e partilha manifestos como se desse umas rapidinhas adúlteras só vagamente permitidas. Espera aplausos imerecidos, vê-se ao espelho em selfies e tem pressa de reconhecimento.
É tão mal educada que privilegia em vez do próximo o distante, interrompe conversas ao vivo para atender o telemóvel, prefere descrever um acontecimento depois do que vivê-lo enquanto. Fala de um púlpito imaginário para um público imaginário, cheia de vaidade e solidão.
Esta geração d'hoje, ai se mandasse!, fazia e desfazia, ao menos votasse…


  • - Saúde e geração não se apura

Provérbio provado rimado - CCXXI

Nesta casinha estou viciada
Com tantos amigos encantada
Não esperava tanta partilha
Vocês são uma maravilha

São gente muito educada
Com a cabeça bem arejada
São uma bela quadrilha
E muito unida matilha

Por isso tão entusiasmada
Sinto-me uma previligiada
A cabeça de ideias fervilha
Não sigo nenhuma cartilha

Estou meia aparvalhada
Por estar tão bem acompanhada
Obrigada bonita pandilha
Nenhum homem é uma ilha

Provérbio provado rimado - CCXX

Na aldeia em dia de festa
Na calma hora da sesta
Estava deserta a quermesse
O Serôdio chegou com interesse

Viu logo as rifas num cesto
Teve um desejo manifesto
De os prémios todos ganhar
Até aqueles com mau ar

Aproximou-se de mansinho
Sorrateiro bem devagarinho
E lançou ao cesto a mão
A ocasião faz o ladrão

Bem procuraram as beatas
Até no cesto das batatas
Mas as rifas não acharam
Zangadas enfim praguejaram

À noite foi uma maravilha
O Serôdio fez a partilha
Dos pechisbeques e das louças
E agradou a todas as moças

Diziam hoje tens de jogar
Pois a lotaria vais ganhar
Com essa sorte que tu tens
Qualquer uma feliz manténs

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Provérbio familiar - III

Em comum temos o pai e a mãe. De resto, não podíamos ser mais diferentes... tanto física como psicologicamente. Desde pequenas estamos habituadíssimas à exclamação: não parecem nada irmãs! E à pergunta: qual é a mais nova?
Como definir a nossa relação? Somos irmãs e basta!, mesmo quando isso não basta. Tenho amigas que talvez me conheçam melhor, mas ninguém me conhece tão por inteiro, ninguém tem tantas memórias inúteis minhas, ninguém foi tão cúmplice no disparate e na alegria mais pura. Ah, as cantorias no Toyota amarelo, os jogos de bisca com o avô, os bolos de terra na várzea! E as conversas no alto das arribas. Tanto, tanto, minha irmã!
Somos como a água e o vinho: uma refresca, a outra inebria, uma mata a sede, a outra mata bicho. Somos como a água e o azeite: convivem, mas não se misturam, trazem a verdade à tona e juntas mantêm-se à tona. Une-nos um fio invisível, indizível. Só nos resta permanecer.

- Os dedos da mão são irmãos mas não são iguais

Provérbio provado rimado - CCXIX

Ando muito como o Aleixo
Neste livro que vos deixo
Versinhos de pés quebrados
Pequenos e bem ritmados

Não sei bem o que se passa
A rimar nunca achei graça
E nem uso o dicionário
Só apenas o abecedário

Se a vossa paciência torro
É dizer e já me desforro
Faço logo outra rima
P'ra mim p'ra ti e p'rá prima

Provérbio provado paginado

Nas primeiras páginas de um livro começa a desenhar-se uma história e apresentam-se as personagens centrais; corresponde este início à infância, na qual floresce o ser e se vai preparando para viver.
À medida que se desenrolam os capítulos, o enredo vai progredindo ao sabor das aventuras e desventuras dos heróis numa dança agitada, e por vezes uma ginástica irregular composta de acrobacias difíceis de coordenar. É aqui que se aprende a vida e se adquire conhecimento de acordo com os acontecimentos que se sucedem ininterruptamente, tantas vezes sem piedade das incapacidades de cada um, calando estados de alma e secando lágrimas. Mas também outras tantas alegrias vibrantes, amores e saudades: laços duradouros que se estabelecem, acompanhando a busca incessante de novas sensações e aprendizagens.
Sobre o fim do livro sabe-se pouco, tem mesmo de se ler até ao fim.

- A vida é um livro aberto

Provérbio provado rimado - CCXVIII

Ainda andam por aí uns pides
São mais que as mães e as pevides
Agora escondem-se atrás dum ecrã
E partilham fotos no Instagram
Se te puserem gostos no perfil
Manda-os mas é embora a mil

Provérbio provado amigado

Quero falar aqui da amizade, não porque seja uma novidade, mas por necessidade de colocar no pódio esta emoção tão e cada vez mais importante. Entronizá-la, medalhá-la. Na amizade descobrimo-nos com renovada surpresa. Percebemos que a nossa imperfeição tem ouvidos. Na casa que cada amigo é não há paredes, só janelas com vistas desafogadas. Cada amigo é um pássaro com quem se pode migrar para descobrir onde acaba o infinito, cada amigo uma poltrona estendendo os braços onde se descansa do duro ofício de viver, um amigo uma sesta, um mergulho, uma refeição que mata a fome.
Ninguém é tão democraticamente tolerante como o amigo que nos aceita tal como somos, que permite que sejamos livremente inteiros.
Muito obrigada às amigas e amigos que me têm acompanhado, mimado, estimulado e contrariado. Não faz mal que não nos vejamos quando queremos, não faz mal o hamburguer em vez da lagosta, não faz mal a lágrima e ausência de gargalhadas, nem aquele telefonema que não chegou a ouvir-se. Aos amigos tudo desculpamos. Não estamos cá só para casamentos, visitas à maternidade, baptizados e funerais. Estamos cá para saber que somos, existimos e fazemos falta

- Amigo certo conhece-se na hora incerta

Provérbio provado rimado - CCXVII

A tristeza nem se nota
Certas vezes que eu cá sei
E até bater a bota
Nesse dia não pensei

A alegria uma miragem
Noutros outros tantos dias
Vou correndo p'la paisagem
Alimentando simpatias

Aspirando liberdade
Deixo a gaiola aberta
E retorno com vontade
Quando a vontade desperta

Sou pássaro muito leve
Há quem não goste assim
Com uma loucura breve
Que nasce dentro de mim

Mas não me pisem os calos
Se a defesa impera
Levam um par de estalos
E ataco como uma fera

Provérbio provado rimado - XXCVI

Aceitar conselhos alheios
Até mesmo olhando a meios
É uma faca de dois gumes
Boa para cortar legumes
São bons quando são pedidos
Rejeitados se oferecidos

Tem-se sempre a sensação
De que estão ali à mão
E quem se está a imiscuir
Do momento não pode fugir
Deve aguentar insucessos
Aqui e além alguns excessos

Conselhos são contribuintes
Considerados pedintes
Quando são isentos de imposto
Mesmo assim deixam desgosto
É que a galinha dos ovos de ouro
Não sabe aceitar desaforo

Canta inchada no poleiro
Um canto um pouco foleiro
Pode também ser mesquinha
Até bastante fuinha
E um revés nunca aceitar
Se não a souberem levar

Por isso vos digo amigos
Que não querem passar perigos
Conselhos devem escutar
Mas depois bem devagar
E de forma algo leviana
Fazer o que dá na real gana

Provérbio provado num verso branco - IX

Marketing directo

For sale
Cérebro com corredores
Atreito a ventanias
Correntes de ar
Janelas partidas
Portas fora dos gonzos
Sem eira nem beira
Preço negociável

This side up
Corpo já carunchoso
Ombros curvados
Escoliose severa
Cervical sempre tensa
Perna maior que a outra
Deveras assimétrico
Muito preguiçoso
Melhor oferta

Handle with care
Alma bastante frágil
Coração partido
Pensamento volátil
Forte inconstância
Palavras em catadupa
Perda de oportunidades
Falta de empenho
Contacte-nos hoje

Provérbio provado rimado - CCXV

Quero que se solte o beijo
Como naquela canção
E faça jus ao desejo
Que habita no meu coração

A coisa ainda é fresquinha
Faz de conta que não disse
Até o gato da vizinha
Mia com tanta cusquice

Tenho de lhe fazer xiu
Mas ela abre a porta
Finge porém que não viu
E que afinal não se importa

Nasce em mim um amor
Que nem às paredes confesso
Espero não me traga dor
As palavras já nem meço

Provérbio provado rimado - CCXIV

Somos colecção de instantes
E já nada é como dantes
Quando a curta juventude
Nos espreitava em plenitude

Numa cabeça muito leve
A hipótese é cada vez mais breve
Os sonhos tornam-se irreais
Despertam com menos vogais

Ninguém faz um gesto de basta
Nesta caminhada tão vasta
Parecia muito mais comprida
A estrada a que chamamos vida

Provérbio provado rimado - CCXIII

Comprem que é muito barato
A inveja servida num prato
Deve aceitar-se como facto

Bem comida pela menina
Torna-se um pouco mais fina
É vero negócio da China

Mas se aparecer um matulão
E a sorver voraz com a mão
Pode terminar num caixão

Que ela é em bom português
Usada por quem é má rês
Sem esperar pela sua vez

Inveja tem mais que um sinónimo
Também um ou outro antónimo
É cuspida da boca do anónimo

E por vezes é vomitada
Sem sequer ser mastigada
Cuidado que não tarda nada

Sentimento tão negativo
De identificar intuitivo
Melhor é guardá-la no arquivo

Parece ser uma tragédia
Mas é uma coisa intermédia
Com o seu quê de comédia

Pois está à espreita à janela
Com cor de merda amarela
E medo que digam mal dela

Por isso aviso senhores
Se a vir na casa de penhores
Talvez lhe teça louvores

Provérbio provado num verso branco - VIII

O tempo é um pássaro: voa
É um médico: cura tudo
Um professor: ensina sempre qualquer coisa
O tempo tem cornos
A vida ângulos rectos
Nas esquinas onde se aguarda pelo resto
Onde se espera o que já não vem
Enquanto viver arrebata e enlouquece

Saber não colocar tudo numa só esperança
Quando se dá muito e demais
Os olhos alheios desviam-se
Os ouvidos tapam-se
E as mãos fecham-se nos bolsos
O excesso enferruja rápido

Ser apenas simples e lento
Calar mais e deixar falar o silêncio
A ausência de palavras canta uma verdade que prende os momentos
Não forçar os acontecimentos
Não ser mais papista que o papa
Nem teimar que se conhece de antemão a corrida
O rio nada para a foz e não volta para trás

Provérbio provado rimado - CCXII

Faço umas rimas incertas
Por dá cá aquela palha
Só para mentes abertas
Ou talvez coisa que o valha

Podem talvez correr mal
P'ra quem se leva muito a sério
Pero a mí me dá igual
Não é esse o meu ministério

Posso ofender os poetas
Que abundam p'la nossa praça
Cheios de razões concretas
E que não me acham graça

Por isso desculpa peço
Neste soalheiro domingo
Porém as palavras não meço
E feliz sigo p'ra bingo