sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLXXIX

O que não vejo não me aflige
Só se convocar a memória
A minha atenção não exige
Fica só mesmo para a história

Não mais lhe passo revista
Se não me vem parar à mão
Pois diz-se que longe da vista
Também é longe do coração

Provérbio provado rimado - CLXXVIII

Quando ouço o Carlos Gardel
Facilmente me emociono
Vou buscar lenços de papel
A melancolia proporciono

Chega a ser masoquista
A ouvi-lo me dedicar
São tangos não é fadista
Mas fazem na mesma chorar

Era tão colocada a voz
Cantava com tanta expressão
Na garganta fico com nós
E no meu pobre coração

As letras são expressivas
À música não devem nada
De muita emoção permissivas
Até para as pedras da calçada

Eu que sou uma romântica
Às vezes uma parvinha mole
Ponho-me a decorar a semântica
Apesar de serem em espanhol

Houvesse quem me impedisse
Essas pessoas que são rijas
Que a minha avó sempre disse
Quanto mais choras menos mijas

Provérbio provado nada emocionado

A Felismina criou-se como pôde. Cedo orfã de mãe, era com o pai militar que partilhava os seus dias. O irmão, mais velho dez anos, partira no dia em que a mãe partira, tinha Felismina oito anos. Nunca soube nada dele, a não ser que se chamava José Falcão como o pai, cheirava a tabaco que tresandava e emigrou para França. Vou à procura de uma vida melhor, disse-lhe após o funeral, acontecimento que Felismina aguentou estoicamente sem verter uma lágrima para não decepcionar o pai. Levou dois fatos de Domingo, a Bíblia que era da mãe e um volume de Português Suave sem filtro. Levou também os últimos sorrisos que houve lá por casa.
O José Falcão pai era sisudo e mal humorado. Felismina nunca soube exactamente o que ele fazia: quando tinha de preencher algum formulário com a profissão do pai escrevia simplesmente militar, e se lho perguntavam dizia simplesmente militar, encolhendo os ombros quando indagavam da patente. Ora, alguma coisa há-de ser, capitão, alferes ou soldado raso, minha querida!, disse-lhe uma vez a Dona Maria dos Anjos, a única vizinha que às vezes vinha saber se ela precisava de alguma coisa. A Dona Maria dos Anjos não fazia perguntas: tinha o irritante hábito de lançar exclamações para o ar e ficar à espera de uma reacção. Com a Felismina não tinha sorte nenhuma, ela era tímida e pouco conversadora e despachada só nas lides caseiras, que desempenhava de uma penada para depois ter tempo para mergulhar na leitura.
Lá em casa não podia haver barulho, o pai não gostava de música e raramente ligava a televisão, limitando-se a ficar sentado num cadeirão a seguir ao jantar, olhando o vazio com uma expressão feroz, até que as pálpebras se semicerravam e se ia deitar sem nunca despir a farda. Era então que Felismina se dedicava a ler, esperando que o pai não acordasse para a obrigar a apagar a luz, às vezes nas passagens mais emocionantes. Eram as colegas que lhe forneciam os livros, já que a Dona Maria dos Anjos só coleccionava o que dissesse respeito a Fátima e aos três pastorinhos. Como tinha de ir direitinha para casa após a escola, era esse todo o convívio que tinha: vê lá que livro trazes amanhã para me emprestar! Devolvia-os rapidamente e tão estimados como lhe vinham parar às mãos. Mas de histórias de amor não gostava, achava tudo muito rebuscado e era-lhe difícil crer em tantas emoções de gente que não se sabia controlar em ambientes invulgarmente perfumados. Para ela, romance era um livro com mais de duzentas páginas.
Quando tinha vinte anos e conheceu o Carlos, vinte anos mais velho, aceitou sem expressão o anel e a benção do pai, que nesse dia teve um esgar semelhante a um sorriso e até deixou a Dona Maria dos Anjos trazer um chá e uns bolinhos enquanto exclamava muito afogueada vamos ter casamento!
A Felismina disse aceito sem pestanejar no altar, mas nunca devolveu a Carlos uma frase mais ternurenta ou uma carícia fora das quatro paredes do leito.
Um dia bateram-lhe à porta. Pensou que o marido se tinha esquecido das chaves. Foi abrir e mal reconheceu a figura. Sou o José Falcão, o teu irmão. Sentiu um cheiro familiar e, enxugando uma lágrima, foi buscar-lhe um cinzeiro e dispôs-se então a conversar.

- Quem come fel não pode cuspir mel

Provérbio provado rimado - CLXXVII

Fui crescendo com o passar dos anos
Sobrevivendo a danos e enganos
Somei um rol de desilusões
Por não saber calar emoções

E essa tendência para a emoção
Sempre suplantou a teia da razão
Continuo a não saber disfarçar
Na cara lê-se o que estou a pensar

A melhor característica é ser sincera
Mesmo com quem não é da minha esfera
De mim há que esperar a verdade
Dizem que é minha maior qualidade

Claro que assim granjeio inimigos
Às vezes no meio de antigos amigos
Como se diz por aí temos pena
Eu avisei que não era serena

The best or nothing é o meu lema
Ainda que às vezes me traga problema
Mas o saldo é deveras positivo
Mesmo quando viver é agressivo

Provérbio provado rimado - CLXXVI

A metade da laranja
É do melhor que se arranja
E depois quando é espremida
Dá mais sabor a esta vida

Quando a laranja tem sumo
Com vontade a consumo
Mas se tiver um caroço
É razão para alvoroço

Quero a tua fruta beber
Vou saciar-me até querer
Vem também a minha adoçar
Hás-de bebê-la até fartar

Provérbio provado rimado - CLXXV

Afinal escorregar não é cair
É sinal de meio caminho andado
E de as falhas saber assumir
É normal haver-se enganado

Operar tentativa e erro
Recorrer ao método científico
Repetir até ir ao desterro
Consagrar-se num acto prolífico

Provérbio provado rimado - CLXXIV

Se a coisa é pouco concreta
Podes pôr-lhe no fim etecétera
Assim te poupas no linguajar
Jejuas a seguir ao jantar

É deixar correr o marfim
Esperar até que se dê o sim
Até lá só andas a enrolar
Esperando bem no fim acabar

Provérbio provado num verso branco - V

Dói mais ao prego ou ao martelo?

Quando fores bigorna, sofre
Quando fores malho, malha
Aguenta-te, faz-te rijo, põe-te fino
Vai buscar forças se preciso for
Àquela lonjura onde Judas perdeu as botas

Poupa os neurónios, não queimes pestanas
Vais precisar de uns e outras
Para as hesitações e interrogações
Em que tropeçarás na selva dos costumes
Onde não se pode ser irremediavelmente humano

Quando te quiserem pendurar num cabide
E te amestrarem como um animal circense
Leva a cintura a jogo sem quebrar o osso
Sem corromper a veia lúcida e firme
Que te transporta de regresso à casa que és tu

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLXXIII

Cada coisa tem seu lugar
Até onde ela não deve estar
E não é a lógica da batata
Mesmo se é difícil não mata

Se é urgente crer então crê
E se necessário ler pois lê
Leva o esforço ao transcendente
Desde que se afigure premente

Bota o máximo naquilo que fazes
Até mesmo sem trunfo de ases
A vida é como a sueca um jogo
Em equipa dá mais desafogo

E se não prestares atenção
Joga o sete que tiveres à mão
Dá aos outros também uma chance
Quando enfim não aspires o lance

Mas nunca emprenhes de ar
Não é ele que te dá de jantar
Só poderás parir um vento
Que não te aquecerá ao relento

Provérbio provado num verso branco - IV

Minha jóia, anda cá ao ourives

Deixa-me moldar-te rara e preciosa
Dourar-te com frases feitas
Versos previsíveis que outros para ti escreveram
Quando os percorreste e assim modificaste

Até chegares não sabia que as flores andavam
E tu, tão sensual, vais bailando
Mordiscando meu pasto verdejante

És saborosa como um cereal amarelo
Mais fértil que o milho
E para mim te abres feliz
Girassol espreguiçando-se rumo ao sol

À tua volta não há nuvens
És límpida e tua beleza bate-me na cara
Uma manhã branca que me nasce na pele
Despertando um desejo primário de fusão

Provérbio provado rimado - CLXXII

Faço versos de pé quebrado
Imprudentes ao quadrado
De má métrica e fraco estilo
Com pensamentos que destilo

São rimas emparelhadas
Quando muito até cruzadas
Não fazem grande sentido
O seu rumo é indefinido

Mas dão-me tanto prazer
Que suplantam o meu querer
Surgem assim sem aviso
Neste constante improviso

Como beber um copo d'água
Num atropelo de frágua
Tenho esta necessidade
Toda feita d'assiduidade

E até um dia me fartar
Versos vos hei-de ofertar
Nesta fria tarde de chuva
Assentam que nem uma luva

Provérbio provado rimado - CLXXI

P'ra viver com resistência
Não uses de consistência
Deixa-te levar pela arte
De ser livre em qualquer parte

É dar corda aos sapatos
E não ter receio dos actos
Que mais se leva da vida
Se for espremida e sentida

Renascer a cada dia
Finar-se na melodia
Dum adeus reconvertido
Numa aurora com sentido

Liberdade não tem preço
É cuidá-la com apreço
Não seguir a carneirada
Na sua prosa parada

Dar asas às ilusões
A soar nos carrilhões
E cantar de peito aberto
Esse viver insurrecto

Provérbio provado rimado -CLXX

É melhor a desilusão
A ter um coração de aço
Beber a um trago a paixão
Cuspi-la como bagaço

Como uma indigestão
Quando algo nos cai mal
É vomitar a paixão
E seguir vida normal

Provérbio provado rimado - CLXIX

Tanto ovos como juras
Foram feitos p'ra quebrar
Como atalho nas lonjuras
Que se percorre devagar

Tu és o que não se cansa
És quem decide o caminho
O que de longe alcança
Se ter enganado sozinho

És quem vê o céu na água
Peixes pendurados nos galhos
Sonhas e teu sonho é magóa
Teus erros são teus trabalhos

Prometes chegar a uma quarta
Mas tens um pacto com as quintas
E o mundo gira que se farta
Por mais medo que tu sintas

Hesitas entre o sim e o não
E tentas um vão esquecimento
Mas duas coisas diferentes são
As que te lixam o momento

Provérbio provado rimado - CLXVIII

A picareta desbravar caminhos
Ou a escopros e martelos
Não se importar com burburinhos
Que tecem nas nuvens castelos

Assumir convicções e desejos
Não calar na boca segredos
Nem se abater com gracejos
Que despontam na alma os medos

Tudo mastigar com vontade
Sem temer mau colesterol
E não saber da missa a metade
Quando se tapar c' o lençol

Provérbio provado num verso branco - III

Vem comigo embalar a noite:
Não é ela uma criança?
Tomemo-la no colo cantando uma melodia
De ninar, até que adormeça de mansinho
Em nossos braços que estarão quentes
E lânguidos das promessas que só revelaremos
Quando despertar a manhã

Provérbio provado rimado - CLXVII

Quando lido com gente mula
Não consigo evitar fico fula
Já que a vã agressividade
Me põe em grande ansiedade

Sobe-me logo a temperatura
E depois já ninguém me atura
Tenho de contar até dez
Esquecer tamanha estupidez

Provérbio provado rimado - CLXVI

Há gente desenxabida
Extremamente antipática
Também muito convencida
Algumas vezes apática

Pior quando é intriguista
Ou então mexeriqueira
Uma ferrenha benfiquista
Comodista e interesseira

A opinar metediça
A dar cabo do canastro
Como areia movediça
E na TV o emplastro

Gostava era de saber
Por insatisfeita trocar
Poder fazer desaparecer
Se o talão apresentar

Provérbio provado rimado - CLXV

Rimar é uma obsessão
Não exige concentração
Agora entendo os poetas
E suas ideias incompletas

Basta-me caneta e papel
Ou mesmo só o telefone
Que logo surgem a granel
Rimas sem conta nem nome

Nem é preciso ter tema
Para me pôr a escrevinhar
Aparece lesto um poema
Que não é de se aproveitar

Tornou-se um hábito forte
Que toma conta de mim
Agora é a minha sorte
Ponho-me a rimar assim

Provérbio provado rimado - CLXIV

Detesto o tipo de escumalha
Que age como canalha

É abjecto o ladrão
Que engole o seu quinhão

Mas usa fato e gravata
E por doutor se trata

No ombro leva o portátil
Com um ficheiro volátil

Dá erros de português
Nem percebe que os fez

É um imenso badameco
Patudo e muito marreco

Porta-se como um estafermo
Mais valia se fora enfermo

E tomasse um laxante
P'ra sair assim de rompante