quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLXIII

Atirar o barro à parede
É de fazer-se se há sede
De uma reacção provocar
E um desejo inspirar

A manifestação da vontade
Proclamada na realidade
Deve ser tida em conta
Se a ânsia é coisa de monta

De falar não há que ter medo
Não é suposto guardar segredo
À partida o não é garantido
Mas pode um acto ser prometido

Provérbio familiar - II

Esqueço-me sempre que tem um nome; quando tenho de dizer que se chama Teresa é como se acabasse de descobrir que é uma pessoa de carne e osso, com cinco sentidos, e não um ser alado com o sexto hiper desenvolvido, essa intuição que me lê quase sem olhar. Esqueço-me que já era uma pessoa antes de mim, que um dia foi criança, fez birras e esfolou os joelhos, que cresceu e teve anseios, enganou-se e retrocedeu como qualquer mortal. É como se não lhe reconhecesse uma existência anterior a ter feito o favor de me parir; o nome dela é simplesmente mãe.
Hoje faz 71 anos. Parabéns, Teresa

- Mãe há só uma

domingo, 19 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLXII

Se viesses ver-me à tardinha
Como disse a Florbela Espanca
Íamos p'rá santa terrinha
Púnhamos na porta uma tranca

E por todo o fim de semana
Havíamos de nos amar
De uma forma desumana
Não penses que estou a brincar


Provérbio provado rimado - CLXI

Andas pendurada em cabides
Rodeada de gente manhosa
Que se finge muito pesarosa
Triste é mas disso não duvides

Já lá vem aquela lambisgóia
Ainda por cima é marreta
Tudo o que diz é uma treta
Resultado da sua paranóia

Cada dia é mais uma perda
De confiança na raça humana
Continua por toda a semana
A falsidade é uma grande merda

Provérbio provado rimado -CLX

Há quem diga todo ufano
Ter limpinha a consciência
Mas esse é grande engano
Percebê-lo não é grande ciência

O que tem é fraca memória
Também falta de reflexão
Pois p'ra cada erro uma história
Que exige total atenção

É precisa a interrogação
Quando se chega à almofada
Pôr sempre tudo em questão
À partida a coisa é errada

Só assim consegue progredir
Quem muito se questionou
Não se pode logo assumir
Que a dúvida se enganou

Isto se calhar é vontade
De pensar um tanto demais
É defeito que vem com a idade
Não se ter certezas finais

Provérbio provado rimado - CLIX

Se me ataca gente ressabiada
Tem azar daqui não leva nada
Pois resguardo-me na sinceridade
Na certeza que disse a verdade

Eu sei bem com que linhas me coso
Aguente-se para quem é penoso
Já tenho problemas que chegue
Que vá c'uma mula que o carregue


Provérbio provado num verso branco - II

Amor num tempo conjuntivo

Vivamos um amor clandestino
Protegendo os sobressaltos do coração
Escapando dum lápis azul sorrateiro e engenhoso
Não façamos juras nem declarações de intenções
Não tenhamos a tentação de imprimir folhetos
Cantando o nosso amor sem lágrimas
Que distribuiríamos às escondidas da censura
Assobiando para o lado e passando despercebidos
Cada um em seu passeio olhando montras sem as ver
Não desejando consumir nada mais que o outro
Façamos silêncio pelas ruas
Longe de ameaças de manifestação
Amemo-nos debaixo de telha
Na urgência de quem esconde a nudez de emoções intensas
E depois inflijamo-nos a tortura do sono num abraço infinito
Não cerrando as pálpebras a esse olhar aquático e despoluído
De manhã façamos planos de partida para o exílio
Liguemos o rádio e escutemos os amanhãs que cantam
Então assoberbados por esse minuto quieto de assombro
Afugentemos os últimos receios
E escolhamos as flores da nossa revolução

Provérbio provado num verso branco - I

Vice-versando

Às vezes o ouvido anda à frente da memória
E caminhando pelas ruas povoadas de gente
Ouve-se uma canção que ainda não foi inventada

Outras vezes há momentos ao contrário
Em que rumando a um destino incerto
Se recordam juras de amor nunca pronunciadas

Deve ser a isto que chamam sonhar acordado
Ou será acordar ainda sonhando?

Provérbio caridoso

Não aprecio a caridade exibicionista que alardeia a sua bondade ao microfone e faz pose para a fotografia. Acho uma atitude afectada e pouco modesta: quem quer realmente fazer algo pelos outros com pequenos gestos não precisa das luzes da ribalta, opera na sombra no acto de dar-se. Os novos ricos compram Ferraris, os bonzinhos vaidosos dão esmolas com condescendência. E ainda por cima são um bocado forretas e gostam de repetir aquele chavão paternalista da cana de pesca em vez do peixe.

- A caridade quer-se muda

Provérbio do segundo mandamento

Quanto entregou as tábuas da lei a Moisés, e se à época já era assim tão omnisciente como dele se conta, Deus já devia estar mesmo a prever esta situação, por isso é que teve o cuidado de colocar logo em segundo lugar o seguinte mandamento: não invocarás o santo nome de Deus em vão. E se não roubarás ou não matarás são susceptíveis de gerar consenso em todas as religiões, esta sugestão divina tem vindo a ser candidamente ignorada desde então, desde os católicos mais fervorosos aos ateus habitantes de países laicos imbuídos duma certa moral judaico cristã. Invocar Deus a torto e a direito (é assim que ele escreve nas linhas dos seus cadernos) faz parte da cultura popular e é um costume adoptado sem grandes interrogações desde as idades mais tenras, permeável a géneros, comum ao campo e à cidade, hábito de poucos ricos, alguns pobres e tantos remediadamente pobres. Ou seja, a coisa é transversal a todas as franjas da sociedade (como está na moda dizer, os que opinam nos ecrãs vão todos ao mesmo barbeiro de certeza). Deus é pai, Deus castiga, que Deus te abençoe, Deus te pague, Deus te ajude, Deus te livre e guarde, Deus isto e aquilo, é interminável. Deve ser complicado distinguir o essencial do acessório assim, até mesmo para uma divindade: deve estar desertinho que chegue a reforma. Gosto especialmente de quando Deus surge no adeus no tão fofinho Até amanhã se Deus quiser. Ao que respondo de bom humor: Deus quer! Dizem que Deus não dorme, pudera!, esta barulheira toda deve ouvir-se lá em cima...

- Deus não dorme

Provérbio provado rimado - CLVIII

Quando o põem num pedestal
Fica num patamar desigual
É certo e sabido que a queda
Rebola abaixo pela vereda

Por isso não seja snob
Aqui peneiras não há
Pois quem mais alto se sobe
Maior é a queda que dá

Provérbio provado rimado - CLVII

Era médico o Dr Pedro
Um esforçado cirurgião
A operação era um degredo
Tremia-lhe muito a mão

Empunhava o bisturi
Para cortar finamente
Mas de facto nunca vi
Contou-mo o seu assistente

Quando tinha de suturar
Pedia ajuda à enfermeira
Não fosse ele se enganar
E coser de qualquer maneira

Lembrava-se da faculdade
Com um especial carinho
Dos colegas tinha saudade
Dos professores nem um pouquinho

Recordava o mau momento
Das aulas de anatomia
Quando viu que o seu sustento
Da profissão não se faria

Puseram-lhe um corpo à frente
Que lhe mandaram dissecar
Ele atacou-o com um pente
E pôs-se a tremelicar

Mas apesar dos pesares
Gostava muito das pessoas
E nos seus muitos vagares
Atendi-as se estivessem boas

Pior era quando os doentes
Traziam alguma maleita
Ficavam logo impacientes
Se lhes dizia é bem feita

Um dia um deles finou-se
Com a sua falta de jeito
E a confusão instalou-se
Foi dispensado a preceito

Deixou triste o hospital
Com os ombros encolhidos
E depois como é normal
Perdeu ali mesmo os sentidos

E foi um tal alvoroço
Que não o deixaram sozinho
Pois fracturou até osso
Não pôde sair de fininho

Peço já aqui perdão
Por ser a rima tão extensa
Queiram saber de antemão
Resumir não me é pertença


sábado, 18 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLVI

Sempre que gostes a cem
Demonstra só a cinquenta
Lembra-te de que não convém
E o visado nem comenta

Por vezes é demasiado
Se te pões a extrapolar
E esse mesmo visado
Não te chega a contemplar

Não esperes retribuição
Que quase ninguém embarca
E amansa a tua emoção
Não dês murro em ponta de faca



Provérbio provado rimado - CLV

Amores perfeitos e às cores
Só existem mesmo as flores
Do sorriso da mulher nasceram
E por isso não pereceram

Provérbio provado rimado - CLIV

Alternativa com pouca razão
É a que deixa só uma opção
Quando não há condomínio
Uma simples palhota é fascínio

Do amor e uma cabana
Um belo convívio emana
Então se for junto à praia
Não merece uma vaia

Ali entre os canaviais
Podem chegar a ser pais
E produzir filharada
Ter uma família engraçada

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Provérbio provado rimado - CLIII

Já aqui falei do Tiago
Um passional predador
E foi num dia aziago
Que conheci esse senhor

Claro que dar-lhe tal título
É mera força de expressão
Pois foi encerrado o capítulo
Isso nem se põe em questão

Eis que voltou à carga
E recomeçou a rodear
Mas a experiência amarga
Só me faz procrastinar

Que siga o seu caminho
E que me largue a labita
Ele foi forreta no carinho
Na curta relação maldita

Só me traz más recordações
Pingava o amor a metro
E desgastou-me as emoções
Nem o quero ver vade retro

Provérbio provado rimado - CLII

Quem por aqui se passeia
Abusa de andar à boleia
Qual empresa de camionagem
Assim responde à mensagem

E faz um gesto de fixe
Quase parece fétiche
Ou então põe-se a acenar
Não quer a língua dobrar

Minha gente não custa nada
Escolher palavra cuidada
Para ter conversas sanas
Não é preciso queimar as pestanas

Provérbio provado rimado - CLI

O respeito p'las hierarquias
É uma daquelas manias
Que é assaz corriqueira
E me irrita sobremeneira

Porque também sou pessoa
E a mim ninguém perdoa
Têm de se dar ao respeito
Saudar a torto e a direito

Quando me viram o rosto
É passível de causar desgosto
Só p'ra não dar um bom dia
Mas que figura arredia

Egomania não me amedronta
Sou hirta que nem varapau
Se me fazem essa afronta
Respondo logo põe-te a pau


Provérbio provado rimado - CL

Quando éramos pequeninas
Tudo era sonho e ilusão
Foi tão bom sermos meninas
Ai que grande satisfação

Agora que somos crescidas
Temos de nos aguentar à bomboca
E em apressadas corridas
Perguntar se há para troca

Muitos anos a virar frangos
Sempre com sorriso nos dentes
Dançando tangos e fandangos
Aprendendo a viver entrementes

Se me perguntas se decorei
Na ponta da língua a lição
Com o tanto que me enganei
Já devia ser campeão

Para mais sendo mulher
E sem filhos a quem criar
Farei o melhor que souber
Para boas memórias deixar

Provérbio provado rimado - CXLIX

Que saudades da infância
Ó minha querida irmã
Está lá longe à distância
Tal como tu na Lourinhã

O teu nome deu-to a santa
Catarina de Alexandria
O mesmo puseste à infanta
É uma grande monotonia

Então tiveste mais dois
Sobrinhos do meu coração
Sem muita diferença depois
Chegaram sem aflição

A tua vida é uma lufa-lufa
Às vezes não sei como aguentas
Mas tu sem grande miúfa
Essa tropa toda sustentas

Porém tens mesmo ao teu lado
O cómico e único Nuno
Que é com imenso agrado
Do teu amor o gatuno

Fazem uma bela família
Todo o ano não só em Maio
Mas também surge quezília
Nos cinco Batista Sampaio