Andas pendurada em cabides
Rodeada de gente manhosa
Que se finge muito pesarosa
Triste é mas disso não duvides
Já lá vem aquela lambisgóia
Ainda por cima é marreta
Tudo o que diz é uma treta
Resultado da sua paranóia
Cada dia é mais uma perda
De confiança na raça humana
Continua por toda a semana
A falsidade é uma grande merda
domingo, 19 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado -CLX
Há quem diga todo ufano
Ter limpinha a consciência
Mas esse é grande engano
Percebê-lo não é grande ciência
O que tem é fraca memória
Também falta de reflexão
Pois p'ra cada erro uma história
Que exige total atenção
É precisa a interrogação
Quando se chega à almofada
Pôr sempre tudo em questão
À partida a coisa é errada
Só assim consegue progredir
Quem muito se questionou
Não se pode logo assumir
Que a dúvida se enganou
Isto se calhar é vontade
De pensar um tanto demais
É defeito que vem com a idade
Não se ter certezas finais
Ter limpinha a consciência
Mas esse é grande engano
Percebê-lo não é grande ciência
O que tem é fraca memória
Também falta de reflexão
Pois p'ra cada erro uma história
Que exige total atenção
É precisa a interrogação
Quando se chega à almofada
Pôr sempre tudo em questão
À partida a coisa é errada
Só assim consegue progredir
Quem muito se questionou
Não se pode logo assumir
Que a dúvida se enganou
Isto se calhar é vontade
De pensar um tanto demais
É defeito que vem com a idade
Não se ter certezas finais
Provérbio provado rimado - CLIX
Se me ataca gente ressabiada
Tem azar daqui não leva nada
Pois resguardo-me na sinceridade
Na certeza que disse a verdade
Eu sei bem com que linhas me coso
Aguente-se para quem é penoso
Já tenho problemas que chegue
Que vá c'uma mula que o carregue
Tem azar daqui não leva nada
Pois resguardo-me na sinceridade
Na certeza que disse a verdade
Eu sei bem com que linhas me coso
Aguente-se para quem é penoso
Já tenho problemas que chegue
Que vá c'uma mula que o carregue
Provérbio provado num verso branco - II
Amor num tempo conjuntivo
Vivamos um amor clandestino
Protegendo os sobressaltos do coração
Escapando dum lápis azul sorrateiro e engenhoso
Não façamos juras nem declarações de intenções
Não tenhamos a tentação de imprimir folhetos
Cantando o nosso amor sem lágrimas
Que distribuiríamos às escondidas da censura
Assobiando para o lado e passando despercebidos
Cada um em seu passeio olhando montras sem as ver
Não desejando consumir nada mais que o outro
Façamos silêncio pelas ruas
Longe de ameaças de manifestação
Amemo-nos debaixo de telha
Na urgência de quem esconde a nudez de emoções intensas
E depois inflijamo-nos a tortura do sono num abraço infinito
Não cerrando as pálpebras a esse olhar aquático e despoluído
De manhã façamos planos de partida para o exílio
Liguemos o rádio e escutemos os amanhãs que cantam
Então assoberbados por esse minuto quieto de assombro
Afugentemos os últimos receios
E escolhamos as flores da nossa revolução
Vivamos um amor clandestino
Protegendo os sobressaltos do coração
Escapando dum lápis azul sorrateiro e engenhoso
Não façamos juras nem declarações de intenções
Não tenhamos a tentação de imprimir folhetos
Cantando o nosso amor sem lágrimas
Que distribuiríamos às escondidas da censura
Assobiando para o lado e passando despercebidos
Cada um em seu passeio olhando montras sem as ver
Não desejando consumir nada mais que o outro
Façamos silêncio pelas ruas
Longe de ameaças de manifestação
Amemo-nos debaixo de telha
Na urgência de quem esconde a nudez de emoções intensas
E depois inflijamo-nos a tortura do sono num abraço infinito
Não cerrando as pálpebras a esse olhar aquático e despoluído
De manhã façamos planos de partida para o exílio
Liguemos o rádio e escutemos os amanhãs que cantam
Então assoberbados por esse minuto quieto de assombro
Afugentemos os últimos receios
E escolhamos as flores da nossa revolução
Provérbio provado num verso branco - I
Vice-versando
Às vezes o ouvido anda à frente da memória
E caminhando pelas ruas povoadas de gente
Ouve-se uma canção que ainda não foi inventada
Outras vezes há momentos ao contrário
Em que rumando a um destino incerto
Se recordam juras de amor nunca pronunciadas
Deve ser a isto que chamam sonhar acordado
Ou será acordar ainda sonhando?
Às vezes o ouvido anda à frente da memória
E caminhando pelas ruas povoadas de gente
Ouve-se uma canção que ainda não foi inventada
Outras vezes há momentos ao contrário
Em que rumando a um destino incerto
Se recordam juras de amor nunca pronunciadas
Deve ser a isto que chamam sonhar acordado
Ou será acordar ainda sonhando?
Provérbio caridoso
Não aprecio a caridade exibicionista que alardeia a sua bondade ao microfone e faz pose para a fotografia. Acho uma atitude afectada e pouco modesta: quem quer realmente fazer algo pelos outros com pequenos gestos não precisa das luzes da ribalta, opera na sombra no acto de dar-se. Os novos ricos compram Ferraris, os bonzinhos vaidosos dão esmolas com condescendência. E ainda por cima são um bocado forretas e gostam de repetir aquele chavão paternalista da cana de pesca em vez do peixe.
- A caridade quer-se muda
- A caridade quer-se muda
Provérbio do segundo mandamento
Quanto entregou as tábuas da lei a Moisés, e se à época já era assim tão omnisciente como dele se conta, Deus já devia estar mesmo a prever esta situação, por isso é que teve o cuidado de colocar logo em segundo lugar o seguinte mandamento: não invocarás o santo nome de Deus em vão. E se não roubarás ou não matarás são susceptíveis de gerar consenso em todas as religiões, esta sugestão divina tem vindo a ser candidamente ignorada desde então, desde os católicos mais fervorosos aos ateus habitantes de países laicos imbuídos duma certa moral judaico cristã. Invocar Deus a torto e a direito (é assim que ele escreve nas linhas dos seus cadernos) faz parte da cultura popular e é um costume adoptado sem grandes interrogações desde as idades mais tenras, permeável a géneros, comum ao campo e à cidade, hábito de poucos ricos, alguns pobres e tantos remediadamente pobres. Ou seja, a coisa é transversal a todas as franjas da sociedade (como está na moda dizer, os que opinam nos ecrãs vão todos ao mesmo barbeiro de certeza). Deus é pai, Deus castiga, que Deus te abençoe, Deus te pague, Deus te ajude, Deus te livre e guarde, Deus isto e aquilo, é interminável. Deve ser complicado distinguir o essencial do acessório assim, até mesmo para uma divindade: deve estar desertinho que chegue a reforma. Gosto especialmente de quando Deus surge no adeus no tão fofinho Até amanhã se Deus quiser. Ao que respondo de bom humor: Deus quer! Dizem que Deus não dorme, pudera!, esta barulheira toda deve ouvir-se lá em cima...
- Deus não dorme
- Deus não dorme
Provérbio provado rimado - CLVIII
Quando o põem num pedestal
Fica num patamar desigual
É certo e sabido que a queda
Rebola abaixo pela vereda
Por isso não seja snob
Aqui peneiras não há
Pois quem mais alto se sobe
Maior é a queda que dá
Fica num patamar desigual
É certo e sabido que a queda
Rebola abaixo pela vereda
Por isso não seja snob
Aqui peneiras não há
Pois quem mais alto se sobe
Maior é a queda que dá
Provérbio provado rimado - CLVII
Era médico o Dr Pedro
Um esforçado cirurgião
A operação era um degredo
Tremia-lhe muito a mão
Empunhava o bisturi
Para cortar finamente
Mas de facto nunca vi
Contou-mo o seu assistente
Quando tinha de suturar
Pedia ajuda à enfermeira
Não fosse ele se enganar
E coser de qualquer maneira
Lembrava-se da faculdade
Com um especial carinho
Dos colegas tinha saudade
Dos professores nem um pouquinho
Recordava o mau momento
Das aulas de anatomia
Quando viu que o seu sustento
Da profissão não se faria
Puseram-lhe um corpo à frente
Que lhe mandaram dissecar
Ele atacou-o com um pente
E pôs-se a tremelicar
Mas apesar dos pesares
Gostava muito das pessoas
E nos seus muitos vagares
Atendi-as se estivessem boas
Pior era quando os doentes
Traziam alguma maleita
Ficavam logo impacientes
Se lhes dizia é bem feita
Um dia um deles finou-se
Com a sua falta de jeito
E a confusão instalou-se
Foi dispensado a preceito
Deixou triste o hospital
Com os ombros encolhidos
E depois como é normal
Perdeu ali mesmo os sentidos
E foi um tal alvoroço
Que não o deixaram sozinho
Pois fracturou até osso
Não pôde sair de fininho
Peço já aqui perdão
Por ser a rima tão extensa
Queiram saber de antemão
Resumir não me é pertença
Um esforçado cirurgião
A operação era um degredo
Tremia-lhe muito a mão
Empunhava o bisturi
Para cortar finamente
Mas de facto nunca vi
Contou-mo o seu assistente
Quando tinha de suturar
Pedia ajuda à enfermeira
Não fosse ele se enganar
E coser de qualquer maneira
Lembrava-se da faculdade
Com um especial carinho
Dos colegas tinha saudade
Dos professores nem um pouquinho
Recordava o mau momento
Das aulas de anatomia
Quando viu que o seu sustento
Da profissão não se faria
Puseram-lhe um corpo à frente
Que lhe mandaram dissecar
Ele atacou-o com um pente
E pôs-se a tremelicar
Mas apesar dos pesares
Gostava muito das pessoas
E nos seus muitos vagares
Atendi-as se estivessem boas
Pior era quando os doentes
Traziam alguma maleita
Ficavam logo impacientes
Se lhes dizia é bem feita
Um dia um deles finou-se
Com a sua falta de jeito
E a confusão instalou-se
Foi dispensado a preceito
Deixou triste o hospital
Com os ombros encolhidos
E depois como é normal
Perdeu ali mesmo os sentidos
E foi um tal alvoroço
Que não o deixaram sozinho
Pois fracturou até osso
Não pôde sair de fininho
Peço já aqui perdão
Por ser a rima tão extensa
Queiram saber de antemão
Resumir não me é pertença
sábado, 18 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado - CLVI
Sempre que gostes a cem
Demonstra só a cinquenta
Lembra-te de que não convém
E o visado nem comenta
Por vezes é demasiado
Se te pões a extrapolar
E esse mesmo visado
Não te chega a contemplar
Não esperes retribuição
Que quase ninguém embarca
E amansa a tua emoção
Não dês murro em ponta de faca
Demonstra só a cinquenta
Lembra-te de que não convém
E o visado nem comenta
Por vezes é demasiado
Se te pões a extrapolar
E esse mesmo visado
Não te chega a contemplar
Não esperes retribuição
Que quase ninguém embarca
E amansa a tua emoção
Não dês murro em ponta de faca
Provérbio provado rimado - CLV
Amores perfeitos e às cores
Só existem mesmo as flores
Do sorriso da mulher nasceram
E por isso não pereceram
Só existem mesmo as flores
Do sorriso da mulher nasceram
E por isso não pereceram
Provérbio provado rimado - CLIV
Alternativa com pouca razão
É a que deixa só uma opção
Quando não há condomínio
Uma simples palhota é fascínio
Do amor e uma cabana
Um belo convívio emana
Então se for junto à praia
Não merece uma vaia
Ali entre os canaviais
Podem chegar a ser pais
E produzir filharada
Ter uma família engraçada
É a que deixa só uma opção
Quando não há condomínio
Uma simples palhota é fascínio
Do amor e uma cabana
Um belo convívio emana
Então se for junto à praia
Não merece uma vaia
Ali entre os canaviais
Podem chegar a ser pais
E produzir filharada
Ter uma família engraçada
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
Provérbio provado rimado - CLIII
Já aqui falei do Tiago
Um passional predador
E foi num dia aziago
Que conheci esse senhor
Claro que dar-lhe tal título
É mera força de expressão
Pois foi encerrado o capítulo
Isso nem se põe em questão
Eis que voltou à carga
E recomeçou a rodear
Mas a experiência amarga
Só me faz procrastinar
Que siga o seu caminho
E que me largue a labita
Ele foi forreta no carinho
Na curta relação maldita
Só me traz más recordações
Pingava o amor a metro
E desgastou-me as emoções
Nem o quero ver vade retro
Um passional predador
E foi num dia aziago
Que conheci esse senhor
Claro que dar-lhe tal título
É mera força de expressão
Pois foi encerrado o capítulo
Isso nem se põe em questão
Eis que voltou à carga
E recomeçou a rodear
Mas a experiência amarga
Só me faz procrastinar
Que siga o seu caminho
E que me largue a labita
Ele foi forreta no carinho
Na curta relação maldita
Só me traz más recordações
Pingava o amor a metro
E desgastou-me as emoções
Nem o quero ver vade retro
Provérbio provado rimado - CLII
Quem por aqui se passeia
Abusa de andar à boleia
Qual empresa de camionagem
Assim responde à mensagem
E faz um gesto de fixe
Quase parece fétiche
Ou então põe-se a acenar
Não quer a língua dobrar
Minha gente não custa nada
Escolher palavra cuidada
Para ter conversas sanas
Não é preciso queimar as pestanas
Abusa de andar à boleia
Qual empresa de camionagem
Assim responde à mensagem
E faz um gesto de fixe
Quase parece fétiche
Ou então põe-se a acenar
Não quer a língua dobrar
Minha gente não custa nada
Escolher palavra cuidada
Para ter conversas sanas
Não é preciso queimar as pestanas
Provérbio provado rimado - CLI
O respeito p'las hierarquias
É uma daquelas manias
Que é assaz corriqueira
E me irrita sobremeneira
Porque também sou pessoa
E a mim ninguém perdoa
Têm de se dar ao respeito
Saudar a torto e a direito
Quando me viram o rosto
É passível de causar desgosto
Só p'ra não dar um bom dia
Mas que figura arredia
Egomania não me amedronta
Sou hirta que nem varapau
Se me fazem essa afronta
Respondo logo põe-te a pau
É uma daquelas manias
Que é assaz corriqueira
E me irrita sobremeneira
Porque também sou pessoa
E a mim ninguém perdoa
Têm de se dar ao respeito
Saudar a torto e a direito
Quando me viram o rosto
É passível de causar desgosto
Só p'ra não dar um bom dia
Mas que figura arredia
Egomania não me amedronta
Sou hirta que nem varapau
Se me fazem essa afronta
Respondo logo põe-te a pau
Provérbio provado rimado - CL
Quando éramos pequeninas
Tudo era sonho e ilusão
Foi tão bom sermos meninas
Ai que grande satisfação
Agora que somos crescidas
Temos de nos aguentar à bomboca
E em apressadas corridas
Perguntar se há para troca
Muitos anos a virar frangos
Sempre com sorriso nos dentes
Dançando tangos e fandangos
Aprendendo a viver entrementes
Se me perguntas se decorei
Na ponta da língua a lição
Com o tanto que me enganei
Já devia ser campeão
Para mais sendo mulher
E sem filhos a quem criar
Farei o melhor que souber
Para boas memórias deixar
Tudo era sonho e ilusão
Foi tão bom sermos meninas
Ai que grande satisfação
Agora que somos crescidas
Temos de nos aguentar à bomboca
E em apressadas corridas
Perguntar se há para troca
Muitos anos a virar frangos
Sempre com sorriso nos dentes
Dançando tangos e fandangos
Aprendendo a viver entrementes
Se me perguntas se decorei
Na ponta da língua a lição
Com o tanto que me enganei
Já devia ser campeão
Para mais sendo mulher
E sem filhos a quem criar
Farei o melhor que souber
Para boas memórias deixar
Provérbio provado rimado - CXLIX
Que saudades da infância
Ó minha querida irmã
Está lá longe à distância
Tal como tu na Lourinhã
O teu nome deu-to a santa
Catarina de Alexandria
O mesmo puseste à infanta
É uma grande monotonia
Então tiveste mais dois
Sobrinhos do meu coração
Sem muita diferença depois
Chegaram sem aflição
A tua vida é uma lufa-lufa
Às vezes não sei como aguentas
Mas tu sem grande miúfa
Essa tropa toda sustentas
Porém tens mesmo ao teu lado
O cómico e único Nuno
Que é com imenso agrado
Do teu amor o gatuno
Fazem uma bela família
Todo o ano não só em Maio
Mas também surge quezília
Nos cinco Batista Sampaio
Ó minha querida irmã
Está lá longe à distância
Tal como tu na Lourinhã
O teu nome deu-to a santa
Catarina de Alexandria
O mesmo puseste à infanta
É uma grande monotonia
Então tiveste mais dois
Sobrinhos do meu coração
Sem muita diferença depois
Chegaram sem aflição
A tua vida é uma lufa-lufa
Às vezes não sei como aguentas
Mas tu sem grande miúfa
Essa tropa toda sustentas
Porém tens mesmo ao teu lado
O cómico e único Nuno
Que é com imenso agrado
Do teu amor o gatuno
Fazem uma bela família
Todo o ano não só em Maio
Mas também surge quezília
Nos cinco Batista Sampaio
Provérbio provado rimado - CXLVIII
Queria um verso de vaca
Mas tinha imaginação fraca
Abriu a época de caça
Logo um tiro a trespassa
Pôs-se a correr no prado
Com o intestino perfurado
Não mais pôde pastar
Veio p'ra aqui avacalhar
Mas tinha imaginação fraca
Abriu a época de caça
Logo um tiro a trespassa
Pôs-se a correr no prado
Com o intestino perfurado
Não mais pôde pastar
Veio p'ra aqui avacalhar
Provérbio provado rimado - CXLVII
O fulano é escanifobético
O discurso não é sintético
Nunca consegue resumir
Nem novas ideias parir
Mesmo assim escanifobético
No seu ficheiro alfabético
Tudo tem regra e uma ordem
Mesmo quando elas lhe mordem
A palavra é escanifobético
E sem nenhum teor profético
Ele põe as barbas de molho
Fecha o carro com um ferrolho
Nas crenças o escanifobético
É um personagem céptico
Praticante do niilismo
Com pitada de narcisismo
Quando come o escanifobético
Tudo engole à pressa frenético
Pois nada quer partilhar
A última migalha mastigar
Esquisitóide e escanifobético
Muito estranho pouco ético
E pouca gente o suporta
Quando lhes segura na porta
O rosto do escanifobético
É todo muito assimétrico
Tem maior o olho direito
A boca num esgar a preceito
Aos trinta o escanifobético
Já se apresenta caquético
E com manifesta calvíce
A caminhar para a velhice
Um dia o escanifobético
Teve um ataque epiléptico
E uma febre de arrasar
Ninguém o foi lamentar
Foi a morte do escanifobético
Com um final pouco hipotético
Moderadamente infeliz
Teve a vida que ele quis
O discurso não é sintético
Nunca consegue resumir
Nem novas ideias parir
Mesmo assim escanifobético
No seu ficheiro alfabético
Tudo tem regra e uma ordem
Mesmo quando elas lhe mordem
A palavra é escanifobético
E sem nenhum teor profético
Ele põe as barbas de molho
Fecha o carro com um ferrolho
Nas crenças o escanifobético
É um personagem céptico
Praticante do niilismo
Com pitada de narcisismo
Quando come o escanifobético
Tudo engole à pressa frenético
Pois nada quer partilhar
A última migalha mastigar
Esquisitóide e escanifobético
Muito estranho pouco ético
E pouca gente o suporta
Quando lhes segura na porta
O rosto do escanifobético
É todo muito assimétrico
Tem maior o olho direito
A boca num esgar a preceito
Aos trinta o escanifobético
Já se apresenta caquético
E com manifesta calvíce
A caminhar para a velhice
Um dia o escanifobético
Teve um ataque epiléptico
E uma febre de arrasar
Ninguém o foi lamentar
Foi a morte do escanifobético
Com um final pouco hipotético
Moderadamente infeliz
Teve a vida que ele quis
Provérbio mesquinho
Pataca a mim, pataca a ti e a mim pataca: eis a forma de o David estar na vida. Essa atitude era mais evidente quando se tratava do verbo comer; o David dava-se ao luxo de mastigar mais lenta ou apressadamente conforme o andar da carruagem, observando cada garfada dos eventuais comensais que com ele partilhassem a refeição, com o fito nas sobras que acabavam invariavelmente por ir parar ao seu prato. Um hipócrita David alegava então que não se podia desperdiçar comida com tanta gente a passar privações neste mundo, mas convenhamos: o David borrifava-se para a fome mundial. Nunca participava em quaisquer campanhas alimentares, justificando não pretender engordar instituições de solidariedade, mas se acaso lhe viessem os próprios dos famintos pedir ajuda directa na rua assobiava para o lado, e até mudava de passeio desde que não houvesse um par de olhos reprovadores por perto. Gostava muito de citar um provérbio oriental nessas ocasiões, que fazia ressaltar com respirada dicção: não dês o peixe, ensina antes a pescar. Claro que o David não pretendia passar a cana para as mãos de nenhum iniciado nas lides piscatórias nem um qualquer esforçado pescador para quem o mar sempre tinha sido demasiado longe, muito menos fornecer-lhe isco e anzol. Dava-se até ao desplante de deixar no ar uma figura de retórica com requintes de mesquinhez, segundo a qual um professor não é suficiente quando o pescador é preguiçoso.
Assim se comportava face ao alimento e de igual modo se passeava pelos outros corredores da existência. O David praticamente não tinha amigos, como não é difícil de adivinhar. Conhecido por oferecer um presunto a quem lhe dava um porco, furtava-se a convívios onde tivesse de ofertar o quer que fosse; inclusivé aos jantares natalícios da empresa, apesar de o repasto à borla ser garantido. Por ocasião da quadra festiva ficava de péssimo humor, arengando contra o consumismo desenfreado; contudo se lhe dessem um miminho para pôr debaixo da árvore, recebia-o com as mãos de par em par acrescentando sempre o típico comentário algo retorcido: homessa, agora foste pôr-te a gastar dinheiro comigo! O Hélder tinha todos os anos um pequeno cabaz que lhe oferecia num gesto desinteressado e que incluía uma garrafa de bom vinho kacompanhada dum queijo curado, um salpicão ou outra delicatessen da família dos enchidos. Recebia em troca umas palmadinhas nas costas e a seguinte invariável promessa: um dia tens de ir jantar lá a casa, pá!
Para grande surpresa do Hélder esse dia um dia chegou. Talvez imbuído do espírito de Ano novo, o David convidou-o para jantar no primeiro Sábado de Janeiro, gabando muito a sopa da pedra que encomendaria no restaurante ribatejano do bairro. Uma vez chegado o ansiado encontro, e já sentados à mesa, destapou-lhe a panela que continha uma pedra.
- Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte
Assim se comportava face ao alimento e de igual modo se passeava pelos outros corredores da existência. O David praticamente não tinha amigos, como não é difícil de adivinhar. Conhecido por oferecer um presunto a quem lhe dava um porco, furtava-se a convívios onde tivesse de ofertar o quer que fosse; inclusivé aos jantares natalícios da empresa, apesar de o repasto à borla ser garantido. Por ocasião da quadra festiva ficava de péssimo humor, arengando contra o consumismo desenfreado; contudo se lhe dessem um miminho para pôr debaixo da árvore, recebia-o com as mãos de par em par acrescentando sempre o típico comentário algo retorcido: homessa, agora foste pôr-te a gastar dinheiro comigo! O Hélder tinha todos os anos um pequeno cabaz que lhe oferecia num gesto desinteressado e que incluía uma garrafa de bom vinho kacompanhada dum queijo curado, um salpicão ou outra delicatessen da família dos enchidos. Recebia em troca umas palmadinhas nas costas e a seguinte invariável promessa: um dia tens de ir jantar lá a casa, pá!
Para grande surpresa do Hélder esse dia um dia chegou. Talvez imbuído do espírito de Ano novo, o David convidou-o para jantar no primeiro Sábado de Janeiro, gabando muito a sopa da pedra que encomendaria no restaurante ribatejano do bairro. Uma vez chegado o ansiado encontro, e já sentados à mesa, destapou-lhe a panela que continha uma pedra.
- Quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte
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